27 de mai. de 2007

Pelos Campos de Montemaior - Terra de Moinhos, Mel e Vinho


Guika em Palmela


Conheci melhor a Guika e a sua arte quando um dia, sendo eu dirigente da Casa do Alentejo, recebi uma proposta para uma exposição sua que se veio a concretizar. Posteriormente, em 2005, convidei-a para integrar o Júri do Prémio Casa do Alentejo, edição essa em homenagem ao pintor e dinamizador das Artes Plásticas no Alentejo, Guy Ferreira. No ano seguinte voltamos a ter o prazer de colaborar na organização da uma exposição muito bonita, em Montemor-o-Novo, no Café restaurante o Monte, intitulada "plenitude", uma proposta poética realizada a partir do livro homónimo da Poetisa e Amiga Maria Lascas, uma exposição onde pintura e poesia contracenavam num cenário campestre...

Tenho seguido com muito interesse o percurso evolutivo artístico da Guika.

Presentemente (inaugurou a 5 de Maio), tem uma exposição em Palmela, no Restaurante Coma com Arte, que decorre até dia 10 de Junho.

Felicidades... e até sempre amiga Guika




20 de mai. de 2007

Dois Alentejanos na Casa da Música

Foi no dia 25 de Abril. Ao fim da tarde, na Casa da Música, no Porto. Na imagem a Poetisa e Amiga Maria Lascas, com a sensibilidade e a beleza que caracteriza a sua Poesia, apresenta a 3ª edição de Canto de Intervenção 1960-1974, distribuída no dia anterior, mais um vez pelo Público e com chancela deste jornal. Seguiu-se a conferência "José Afonso - o canto da Utopia".


Obrigado ao amigo Jorge Souto pelo envio das fotos.

6 de mai. de 2007

Mãe

Neste Dia da Mãe
neste mês das Rosas
dou-te este poema tão bonito, Mãe
tão bonito que apeteceu-me dizê-lo em voz alta!...

a Poesia, a grande poesia, a verdadeira Poesia pertence ao universo
e, com a devida vénia à poetisa Maria Lascas,
te digo este poema:

"Mãe

Mulher de entranhas rasgadas
peito chupado e flácido
olheiras de sono intranquilo
sonhos desfeitos

E as tuas mãos... Mãe!

as carícias que guardaste
filhós azevias o pão amassado
o último gesto enrolado no ar
... ainda que seja o Adeus"

Maria Lascas

2 de mai. de 2007

Leocádia Barroso, pintora "Naif"


Chama-se Leocádia Barroso

é uma pintora "Naif"Alentejana, natural de Borba.Em 2005 ganhou o Prémio do Salão Internacional de Pintura "Naif", organizado pela Galeria de Arte do Casino Estoril. Até ao final desta semana, podemos ver uma exposição sua na galeria do Restaurante "Coma com Arte", Praça Duque de Palmela, nº 18, em Palmela.
Leocádia Barroso no dia da inauguração da exposição, em família: com filho, com a neta e com a nora.

23 de abr. de 2007

Zeca Afonso e o Canto de Intervenção

Depois de uma longa ausência, regresso.Um livro é como um filho, um filho que começa a voar por si, que procura a sua própria luz, o seu Sol, o seu luar...

Mesmo que se trate de um livro que já teve outras edições e, nesse caso cada frase, cada palavra, cada respiração... tem de ser mais pura, mais verdadeira, mais plena...


Esta minha ausência deve-se à preparação da 3ª edição do meu livro "Canto de Intervenção 1960-1974", que será distribuída pelo Público no próximo dia 24, amanhã, 3ª feira, como havia acontecido com a 2ª edição há exactamente dois anos
No dia 25 de Abril, às 19 horas, na Casa da Música - Sala Cibernética, este livro será apresentado pela poetisa Maria Lascas e, em seguida farei uma conferência: "José Afonso - a Canto da Utopia", no âmbito de uma semana de iniciativas que a Casa da Música dedica a Zeca Afonso


12 de mar. de 2007

com Cláudio Torres em Mértola...


Foi um dia maior... chegamos ao fim da manhã, visitamos as magníficas instalações do futuro Centro de Estudos Islâmicos e Mediterânicos, frente ao grande rio do Sul, que entre pelas janelas ensolaradas com uma força... avassaladora.. no centro do casco histórico, muito perto da Torre do Relógio, aqui na imagem... e ficamos a conversar, ou melhor, a ouvir o Mestre... falar do importante papel desempenhado pelos muladis no Gharb, dos reinos Taifas, das suas cortes onde havia tertúlias literárias e báquicas e musicais, e das escravas-cantoras-mulheres livres e cultas, muito cultas, do prazer sensorial e intelectual de que Al Mouhatamid nos fala neste poema que é quase um premonição da guerra que se avizinhava.. e que o havia de levar ao desterro em Âgmat


Noite de Festa

Bebi vinho que derramava luz enquanto a noite estendia
o seu manto de trevas

até que a lua cheia se mostrou na constelação de Geminis
como uma rainha no apogeu da sua pompa e do seu fausto.

Estrelas brilhantes surgiram à porfia para a rodear
com o seu fulgor e contemplar o dela.

Depois quando a lua quis caminhar até ao Ocidente
levantou Orion por cima de si como um dossel
e as estrelas avançaram de ambos os lados como batalhões
que erguiam as Plêiades por bandeira.

Assim sou eu na terra entre esquadrões e mulheres formosas
que aliam o seu esplendor com o alto grau.
Se as lorigas dos guerreiros esparzem trevas,
os vasos de vinho das donzelas enchem-nos de claridade.

E se as escravas cantam acompanhado-se com a cítara,
as espadas dos meus donzéis não deixam por isso de cantar
nos crânios dos inimigos.





e falamos de ulemas e dos fundamentalistas do Norte face aos do Sul Almorávidas e Almôadas, pondo fim ao longo período de tolerância e de coexistência quase sempre pacífica, e de como o Islão fez, na Península Ibérica, a síntese da civilização mediterrânica, mercantil e tributária e urbana e de como depois isso depois inflenciou decisivamente as cidades meridionais de Portugal e Castela na realização da Expansão Marítima, com os seus sábios, os seus mestres.. e desses últimos sábios desta civilização, como Avicena, Averróis... e dei comigo a pensar que estava a falar com um sábio, um sábio não só pelos seus conhecimentos invulgares mas também pela forma cativante e humana como os expõe... e depois do almoço, onde encontramos outro amigo, o arqueólogo Jorge Feio, continuamos a falar naquele salinha simpática da sede do Campo Arquelógico de Mértola, falamos... do cante... e dos nossos poetas populares repentistas, do século XX... e do século XI...

...e visitamos a oficina da Nádia e as belas peças de joalharia que ela produz...

...despedimo-nos já a lua se anunciava... naquele dia 8 de Março, dia ensolarado, bonito para oferecer um poema...oferecer flores, dia comemorado por toda a parte, também em Moreanes onde passamos na abalada...
...despedimo-nos daquela vila especial e única onde sentimos em cada casa, em cada pedra um tempo passado que nos corre no sangue, que nasceu aqui, que não nos foi imposto ou é estrangeiro, que significa o encontro com o NOSSO passado, não o encontro com o outro, sim o Encontro com os nossos próprios, a Nossa memória intacta, subtilmente preservada porque Património intangível... feito de tanta coisa, feito da palavra...

...despedimo-nos de Cláudio Torres, o Mestre, com um abraço emocionado...

foi um dia Maior...














....dois dias depois estavamos mais a Norte...
...novamente nas margens deste grande rio, em Badajoz - onde estivemos numa reunião preparatório do II Encuentro Transfronteiriço de Revistas de Cultura -, e contemplavamos, entre pontes...
...do passado e do presente...
...os campos verdejantes que certamente no passado foram hortas que abasteciam os mercados destas cidades harmoniosas e autosuficientes, pequenas, médias cidades....como Beja e os seus pomares circundantes, terras ricas de barros, bem no centro da planície...

2 de mar. de 2007

Flores da Planície



É uma antologia de poemas e de flores. Ou de flores com poemas. Não que a hierarquia entre umas e os outros possa criar aqui qualquer tipo de constrangimento. Mas enfim, sempre serão elas, a beleza delas, a sua singular amabilidade, o deslumbramento que despertam, a razão fundamental para a existância deles. Para a existência dos poemas, destes poemas, que falam das flores porque primeiro foram as flores que falaram ao sentimento dos poetas. Destes poetas.


Assim inicia Paulo Barriga o texto de apresentação que intitulou "Uma Pequena Flor" desta antologia (editada pela Fundação Alentejo-Terra Mãe) onde encontramos um conjunto de 56 fotos de grande beleza, de João Francisco Vilhena, de plantas que florescem entre o Tejo e o Guadiana. Uma recolha de imagens, desde Marvão, Portalegre, passando por Bencatel (Vila Viçosa), Reguengos de Monsaraz, Serra de Ficalho, Évora, Mombeja, Praia da Comporta, Stº André, até Odemira, Mértola ou Almodôvar. Imagens bonitas, muito bonitas (aqui não tão bem reproduzidas) e 17 poetas... Florbela, Al berto, Raul de Carvalho, Eugénio, Armindo Rodrigues, José Gomes Ferreira, José Luis Peixoto, Martinho Marques... um livro suave, um grafismo com a subtileza.. o sabor... o cheiro... talvez... das Mil e Uma Noites de que vos falei a propósito de Silves... um livro bonito... a não perder...

entre poemas bonitos, de poetas... onde estão amigos... dois mais próximos... especiais... de quem vos cito,


A flor e o cerco
no amor de se dar
gesto de nada ser
fome no amanhecer
antes da morte chegar

(um excerto de "A Flor e o Cerco" de José da Fonte Santa)




Hoje escrevi o poema só com o olhar
o vermelho sangue das papoilas
na cama verde do chão

supremo fruir! sem dano sem perturbar


("Poema" de Maria Lascas)


... anunciando a chegada breve da Primavera...

15 de fev. de 2007

nas Mil e Uma Noites...




  • Fala-nos das Mil e Uma Noites... pela harmonia dos espaços... palácios... pela sedução de cada elemento decorativo... pela subtileza das jóias, dos cheiros a jasmim, a rosas, dos gestos, do encantamento das palavras que neles adivinhamos...



A Exposição José Alegria... da paixão... da terra... da arquitectura..., que inaugurou no passado sábado a Casa da Cultura Islâmica e Mediterrânica de Silves onde irá funcionar um centro de documentação... tem ainda este belo espaço para exposições, um amplo páteo com um repuxo e... o Jardim de Aromas...














... deixo-vos dois poemas de Al Mouhatamid... que viveu aqui perto no Palácio dos Balcões, o centro da capital cultural do Gharb al-Andalus...
este figura nas Mil e Uma Noites
Por receio de quem espia
com muita inveja a roer
ela não veio nesse dia,
para traída não ser
p´la luz que do rosto esplende,
p´las jóias a tilintar
e pelo perfume do âmbar
a que o corpo lhe rescende:
é que ao rosto, com o manto,
tapá-lo inda poderia,
e as jóias, entretanto,
facilmente as tiraria,
mas a fragãncia do encanto,
p´ra ocultá-la, que faria?
... est'outro "Acróstico" dedica-o e increve o nome da sua amada... Itimad...
Invisível a meus olhos
trago-te sempre no coração
Te envio um adeus feito paixão
e lágrimas de pena com insónia
Inventaste como possuir-me
e eu, o indomável, que submisso vou
ficando!
Meu desejo é estar contigo sempre
oxalá se realize tal desejo
Assegura-me que o juramento que nos une
nunca a distância o fará quebrar.
Doce é o nome que é o teu
e aqui fica escrito no poema: Itimad.


...neste final de dia de S. Valentim vos deixo...

9 de fev. de 2007

Cultura Alentejana, Silves e Al Mouhatamid



Na FNAC do Almada Forúm esta a decorrer, desde dia 5 e até 11 de Fevereiro uma semana de Cultura Alentejana. Colóquios, um grupo coral "Cantares de Vila Nova de S. Bento", no último dia, o Vitorino ao vivo, no passado dia 6, muita coisa acontece e... muitos lançamentos de livros... no próximo sábado, pelas 17 horas são apresentados dois livros, Os Sulitários e... Flores de Planície, uma Antologia de poetas alentejanos, "muito bonito" disse-me o Vitorino que já viu... ainda não o pode saborear mas espero fazê-lo em breve... certamente será muito bonito, como as papoilas que vão chegar com a Primavera... autoria do primeiro e coordenação de "Flores..."do amigo Paulo Barriga, imagens de João Francisco Vilhena
Maia a Sul, junto às margens do rio Arade, onde um dia Al Mouhatamid conheceu Itimad através dum jogo de palavras... num grande Amor a Poesia é a respiração... é inaugurado no mesmo dia a Casa da Cultura Islâmica e Mediterrânica de Silves. O convite chegou-nos do Município e da Embaixada de Marrocos, através do nosso amigo, o Cônsul Honorário e arquitecto José Alberto Alegria... convite onde a subtileza está tão presente como na que foi a cidade mais importante do Sul do Garb Al- Ândalus e do posteriormente Algarve... no seu interior surgem pétalas de rosas ... vermelhas...
e, em Albufeira, continua a decorrer o "Festival de Música Al Mouhatamid"...

Teatro de Papel

Estreou na Mostra de Teatro de Almada, no dia 2 de Fevereiro "Era uma vez... E viveram..." a partir de "Abela e o Monstro" dos Irmãos Grimm. Espectáculo encenado e dirigido por Yolanda Alves e que irá em breve iniciar digressão. Bonito. Simples e eficaz. Belo. Belinda. Bela e Linda. O jogo de preto e do branco -Teatro de sombras. A máscara - Comedie del' arte. Parabéns à Yolanda e a toda a equipa. Um abraço ao César aqui mercador, pai de Belinda. Um beijo muito grande à Sofia -Belinda. Voltaremos a falar deste espectáculo.

22 de jan. de 2007

A coreografia do Sobreiro...




É um espaço suave. Diferente de qualquer outro restaurante. A subtileza encontra-se na decoração, como nas ementas, na marca de vinho “Amo-te”, na música que passa - Rui Veloso, sons do Magrebe… Chama-se “Coma com Arte” e o nome tem um duplo sentido… na passada sexta-feira, dia 19, no final do dia inaugurou uma exposição de pintura de Manuel Casa Branca, “Fragmentos de Paisagem”…

Li o texto que um dia - ou melhor dizendo, uma noite em plena “Feira da Luz”, o Manel me ofereceu no seu atelier, e que me seduziu de imediato -, que iniciou uma tertúlia improvisada sobre a coreografia do gesto do sobreiro na floresta, a textura , o desenho e a cor… uma estranha dança que se liberta destas árvores imponentes, seres com vida própria, e que connosco contracenam e dialogam e, num sereno enleio nos contam histórias com cores fortes ou delicadas do nascer do Sol ou do luar, nos envolveram a todos nós, presentes e ausentes. Para todos, a leitura deste texto.

Herdade o Sobralinho, 20. 04. 96; 18.45 h.
Os primeiros passos por entre o mato foram saudados por uma breve e suave brisa que se levantou. Alguma presença, ou simples coincidência, se alegrou com a minha intromissão. Eu, que não acredito nem em Fadas nem Gnomos da floresta, arrepiei-me todo. Estava grato e reconhecido por essa alegria e aura de uma sabedoria secular que me envolvia e observava.
Eram as formas daqueles sobreiros que olhavam para mim; protoberâncias,
cascas, geometria e cor, dessas vidas que estão ali há séculos, não propriamente à minha espera, mas que se dignificam a conceder-me a sua atenção de calma e anciã inteireza.
Continuava arrepiado, e tremia na minha modesta missão de encontrar, na sua benevolente existência, aquelas formas que procurava, ou que apenas não procurava…
Ao longe, num dos montes, uma superfície banhada de luz de fim de tarde despertou, ou chamou, a minha atenção visão/atenção. Foi então que conhecia um sobreiro com muito para dizer. É enorme, de uma robustez esmagadora e, paradoxalmente, leve e elevada. A sua forma não pode ser descrita por palavras.
Rodeei-o e admirei-o em todos os seus 360 graus enigmáticos e magníficos. Esmagou-me, senti-me um anão privilegiado em ser gigante no contacto e no diálogo que estabelecemos. Depois de fotografar as suas formas pesadamente leves e cinzentas contidas na força de oito anos de cortiça, à espera do último, para voltar a ser vermelho de terra queimada. Agradeci-lhe, toquei-lhe, acariciei-lhe respeitosamente a sua cortiça. Tremi e fiquei elevadamente esmagado pela centésima vez.
Conheci assim este Sobreiro, de sabedoria imponente, que me sussurrou um segredo. Então olhei para o lado, e vi um seu filho que despontava próximo, viçoso, ainda esteva com desejo de ser um chaparrito. Apertei com cuidado as suas folhagens nos meus dedos e desejei-lhe boa sorte…
Que os homens não o esmaguem com um qualquer tractor…


Manuel Casa Branca


Momento de reencontro com amigos… como o fotógrafo Pedro Soares, que não via há alguns anos… momento de partilha da arte e da sua leitura com outros amigos e conhecidos, como o jovem Pedro Santos, estudante do fotografia… a pintora Guika, outra pintora, a Tita Barrancos, que se apaixonou e comprou um dos trabalhos expostos… a Céu, o Carlos, o Ricardo, o Aulin, o Luís… e outros que lá estiveram… e outros que certamente vão deixar-se seduzir pela magia de arte do Manuel Casa Branca, pintor de Sobreiros… até dia 22 de Fevereiro






























































































14 de jan. de 2007

Exercício espiritual

É preciso dizer rosa em vez de ideia
é preciso dizer azul em vez de dizer pantera
é preciso dizer febre em vez de dizer inocência
é preciso dizer o mundo em vez de dizer um homem

É preciso dizer candelabro em vez de dizer arcano
é preciso dizer Para Sempre em vez de dizer Agora
é preciso dizer o Dia em vez de dizer um Ano
é preciso dizer Maria em vez de dizer aurora


Cesariny

31 de dez. de 2006

Vida

A execução de Saddam Hussein está eminente, leio ontem nos jornais.
Quando escrevo o enforcamento do ditador iraquiano já foi consumado.
2006 não podia terminar de forma pior!
Indignação! Revolta! É o que sinto!...
Orgulho-me de ser cidadão do primeiro país do mundo que aboliu a pena de morte!
Brandos costumes?... talvez não. Sim uma postura cimentada num passado longínquo de mil anos de história – onde o Ocidente foi beber o pensamento filosófico e uma cultura de tolerância e de respeito pelo outro – onde, neste país, no Sul peninsular, existiu tolerância e coexistência pacífica permitia a prática simultânea das três religiões monoteístas, e certamente da religiosidade popular – que com tanta pujança chegou até aos nossos dias …
Estou a falar, como já perceberam, do apogeu civilizacional islâmico, que no Garb Al Andalus, foi luso-árabe, quando era rei em Sevilha um poeta nascido em Beja e que fez de Silves a primeira cidade lusa, talvez a única, onde a poesia fez de uma escrava rainha. Estou a falar-vos de Intimad, a Paixão do príncipe Al Mouhatamid Ibn Abbad…e depois deu-se um interregno de quase mil anos e a tolerância religiosa só reapareceu nas últimas décadas do século XX. Curiosamente, ou não talvez, dum período historicamente curto, nos séculos XI e XII, chegaram-nos belos, muito belos poemas de mais quatro dezenas de poetas… o que, quantitavamente só no século passado voltou a acontecer …
Talvez porque tolerância, respeito pelo outro, saber, humanismo… andam de mãos dadas com a poesia, a mais bela expressão do ser humano - a poesia escrita, a poesia que existe também na música, nas artes plásticas, na arquitectura, no cinema, no teatro… a poesia, suprema realização do belo, do sublime…
O radicalismo, o fundamentalismo veio reeditar as tristemente célebres cruzadas que tantos milhares de seres pacíficos massacraram na Palestina de então…
O sentir do cidadão comum, que vê em cada árabe um terrorista indigna-me, revolta-me!... o mesmo cidadão que provavelmente acha acertado e talvez se regozije com este acto de intolerância e hipocrisia, agora cometido em Bagdad…
A indignação e a revolta que sinto, embora temperada com a serenidade que os anos me deixaram, os anos e as vivências intensas entre a felicidade plena e o sofrimento…
Todavia revolta! Todavia indignação!
Não aceito, não me revejo neste mundo de intolerância, de hipocrisia, de ausência do que é a essência da Vida!
Mas indigno-me, mas revolto-me activamente, positivamente, como ser interveniente, tentando contribuir, pedra a pedra, degrau a degrau, para ser melhor, na interiorização, na partilha do belo, do que é bonito, do que é profundo, no que é a essência, seja na mais intimista contemplação do mar imenso e no sentir do cheiro revigorante da terra… e também no debate de ideias, na escrita, na publicação – numa postura a que chamam cidadania, substantivo politicamente correcto que nem me seduz particularmente…
A natureza. A comunhão com a natureza…
A poesia é pouco, muito pouco, perante a morte… assim, fria… brutal!... dirão…
Penso que não. Deixo-vos um poema que nos fala da força suprema, avassaladora da Natureza, onde reside a Vida, onde reside a capacidade de Amar, a capacidade de ser feliz, razão primeira de estarmos aqui, vivos!...





"Laranjas são brasas vivas sobre ramos
Ou rostos espreitando entre colinas verdes?
E a ramaria, folhas que baloiçam
Ou formas frágeis que nos causam pena?

Vejo-te laranjeira com os teus frutos,
Lágrimas rubras dos tormentos do amor.
São sólidos mas, se fundidos, vinho seriam
Moldadas pelas mãos mágicas da natureza.
São bolas de cornalina sobre ramos de topázio
Com o açoite da brisa que lá as vai fustigar.
Porque tais frutos beijamos
Ou seu cheiro aspiramos
Eles às vezes nos parecem
Ou rostos de raparigas
Ou pomos feitos perfume."


Ibn Sara
(nascido em Santarém no séc. XI)

27 de dez. de 2006

Sofia

Este é um lugar de afectos!...

Sofia...
Na noite anterior ao seu nascimento caminhei na cidade branca... acompanhava-me um amigo, o LF, que depois pintou o momento inicial para ela... talvez o seu gosto por pintura... a sua paixão pelo teatro vem certamente do primeiro encontro dos seus progenitores, um dia num espaço cénico...hoje, tantas luas depois, deu-me um beijo muito doce e recordei-a bebé de poucos meses, os seus olhos lindos e expressivos - reminiscência certamente de um lugar algures ao Sul -, procurando-me quando chegava, quando a passeava no carrinho, o seu sorriso era como uma nascente de água... eu era então a luz do seu olhar...
Numas férias recentes confidenciou-me, quando mergulhavamos numa praia de corais turquesa, que tinha saudades quando brincavamos no mar.. e a dor dilacerante que senti num desses momentos só nossos, quando um peixe aranha a picou e eu... senti como se me tivessem apunhalado, que devia ter sido a mim...
A primeira vez que fez teatro foi uma experiência imensa... que partilhei noutro blog...
voltou a fazer teatro... e em breve vai estrear A Bela e o Monstro ... Belinda, bela e linda...
hoje já tem o seu Amor, que vive de uma força apaixonada, avassaladora, plena... ela sabe que não há nada mais importante que o Amor!... sabemos, vivemos ambos!... a minha pequena Sofia... Belinda...
hoje deu-me um beijo tão doce...
Este é um lugar de afectos!

22 de dez. de 2006

Loendro


no editorial desta revista que acaba de sair, pode ler-se...

Um hino à Vida! … o direito de ser Deus! …

Vou a caminho do Alandroal e penso que certamente 2007 vai ser um ano luminoso, melhor…oiço Vitorino, alguns dos mais bonitos poemas de Amor cantados com sotaque alentejano, e também o seu irmão Janita, mas antes “deixa-me dormir uma noite/ Oh Laurinda, linda, linda/ que és mais linda do que ó Sol”” e “Canta-me um pássaro no peito/ como um cavalo no prado” na “Litania… para o meu amor ausente” talvez até diga adeus ao Sado, o outro rio grande do Sul, mas antes que me vá embora “não esqueças o tal encontro/ marcado no roseiral”. O mano vindo do Sul, das “Tardes de Casablanca”, para onde antepassados nossos se exilaram quando partiram daqui, do paraíso, Garb- Al Andalus, Atlântida, terra prometida e porque depois “os rios de Espanha choram de tristeza”, porque o Sul, se Alegre fosse pintor seria “um traço branco em fundo azul. Um risco, nada mais do que um risco.” Sol, sal, planície, Sol, decerto Amor disse Almouthamid “a uma escrava que lhe ocultou o Sol”, reflectido nas águas do rio Arade pois”quem pode eclipsar o sol senão a face da lua?”. Onde o cante é cigano e “a nuvem com uma das mãos tece os fios de chuva/enquanto com a outra borda flores de enfeitar”, no dizer de Ibn Sara, no “Zéfiro e a chuva”, porque ”Não é fácil o Amor”, mas encontro nos caminhos de maltês um “sinal de ti”, e sei e dou comigo a pensar, Amor meu, quando longe e ausente e triste estás “Que bonitos/são teus olhos a chorar. Quem me dera/Matar a sede à garganta/Com as águas/Que correm no teu olhar” tu meu amor, que escreves com os olhos.
Chego ao Alandroal com a voz bela dos meus companheiros inseparáveis, de viagem.
E em Bagdad, onde havia mil jardins como aqui, no califado de lá, homens rudes e seus apaniguados, hoje condenaram um homem à morte, e mataram mil, muitos mil, invadindo, humilhando, eles, senhores das armas, descobridores recentes de “L’ étranger” de Camus, e certamente nunca os seus lábios provaram um vinho casto e sensual como a poesia que brotava há mil anos dos nossos primeiros poetas alentejanos; poesia, vinho … Alentejo.
Alandroal, senhor da Cura, Endovélico há muitos mil anos iam peregrinar, adorar…pré e depois celta, romano, cristão, imagem deste Concelho nas margens do Guadiana, onde o Município soube procurar, reencontrar o passado, a memória e tantas moiras encantadas… Arqueólogos, pagãos, escritores, religiosidade popular… o CEDA passo a passo, XVI Encontro, e a revista, esta, a memória e o futuro dos comboios no Alentejo - de onde um menino partiu num comboio há tantos anos - e um conto de Hugo Santos e o Lopes-Graça e o Zeca recordados, o Prémio Pedro Ferro, edição 2007, poesia e “O Sol à Roda do Monte”, do vencedor de 2006, Francisco Rodrigo, e o Manel Geraldo a abalar e os 50 anos de revista D. Quixote, com Manuel Piçarra e o Alex Pirata apicultor de abelhinhas para a boca do meu amor adoçar, o Suão, vento mas futuro em São Miguel de Machede e a Feira do Monte com o Rui (Veloso) a cantar o primeiro beijo… poderoso, imenso, risca o montado, vermelho vivo/sangue, como um deus desconhecido, um hino de Vida, porque a Vida não tem dono, não é de ninguém, em Bagdad, nas margens do Guadiana; Juromenha, Monsaraz, Mértola, Silves, Marraquexe… a Vida, “tão pouco e tanto”… tão pouco e tudo… Amor… meu Amor….


21 de dez. de 2006

solstício

Sou barco... da taipa e do suão. Em mares do Sul... de Finisterra ao Saara... ao Capricórnio... Sou vento... na subtileza das rosas do deserto ou na oblíqua textura do granito... Corto Maltese?... certamente maltês... na planície ao luar... ao som do rouxinol... soleira da porta... almocreve... tangendo alaúde... na noite escura...

"Quem és tu que assim vens pela noite adiante,
Pisando o luar branco dos caminhos,
Sob o rumor das folhas inspiradas?

A perfeição nasce do eco dos teus passos,
E a tua presença acorda a plenitude
A que as coisas tinham sido destinadas.

A história da noite é um gesto dos teus braços,
O ardor do vento a tua juventude,
E o teu andar é a beleza das estradas!"

Sophia

Sou barco... e neste dia navego, como se fora "o dia inicial inteiro e limpo", ao encontro da luz, solstício, chegada, recomeço, iniciação, reencontro, Vida que ilumina a terra inteira... partilha plena... Amor...

"Iremos juntos sozinhos pela areia
Embalados no dia
Colhendo as algas roxas e os corais
Que na praia deixou a maré cheia.

As palavras que disseres e que eu disser
Serão somente as palavras que há nas coisas
Virás comigo desumanamente
Como vêm as ondas com o vento.

O belo dia liso como um linho
Interminável será sem um defeito
Cheio de imagens e conhecimento."


Sou barco... navego ao teu encontro...
aqui... onde há laranjeiras em flor... espero-te...

aqui onde acontece o cante e o canto também a vós espero amigos... aqui onde as palavras são possíveis... e a poesia é necessária como a textura da cal, convido-vos a partilhar o sonho...

aqui digo um abraço sentido ao amigo cantador do Sul, Chico de seu nome, que nasceu com o Solstício... na estação de Ourique-gare ...

Sou barco... sou mar... sou gaivota... nos versos do capitão!