26 de dez de 2009

Para o meu Amigo Francisco Naia!

Para o meu Amigo Chico Naia que recentemente completou mais um aniversário!...



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O Chico Naia é o aedo, o trovador que emociona os que viveram os anos 60 e 70, os que vibram ao ouvir sair da sua boca os cantos que foram o símbolo da sua geração e impressiona os mais jovens pela sua voz imbatível, que canta o canto e o cante, pois ninguém como ele trata por tu o canto e o cante, de que é interprete único, interprete por excelência.
Depois de muitas dezenas de espectáculos juntos como companheiro de palco ou produtor pude muitas vezes confirmar quanto é genuína a sua música, quanto é genuína a sua postura de levar a poesia e a música portuguesa, popular e tradicional aos mais diversos locais, quer sejam salas de espectáculos como a Casa da Música, palcos como a Festa do Avante, bibliotecas, livrarias ou colectividades, onde em recitais com a maior informalidade, apresenta os seus discos ou participa solidariamente na apresentação de livros dos amigos, como tem sido o meu caso. O Chico Naia é um homem capaz de toda a solidariedade, seja em prol das causas em que acredita, seja em prol dos amigos, como pude testemunhar publicamente numa breve homenagem de que foi algo em Almada .
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Francisco Naia canta o Alentejo com a mesma paixão e entrega como interpreta as baladas e as trovas do Zeca, do Adriano, do Luís Cília, do Sérgio Godinho, do José Mário Branco, do Manuel Freire, do José Jorge Letria, do António Macedo ou… as suas.

O Chico chega às raízes mais fundas – e por vezes tão escondidas – que nos reenviam para as planícies do (nosso) Alentejo. Toca as cordas mais sensíveis, o mais fundo da nossa alma de gentes com raízes no Sul.”

Sobre o seu disco Cantes d' além Tejo escrevia em 2005:  “Se há livros, discos, poemas, encontros, vidas desencontradas que pecam por tanto demorarem, este trabalho de Francisco Naia é um caso paradigmático. Quase trinta anos depois podemos ter o prazer de ouvir este trabalho em disco do Naia. Há esperas assim, que parece nunca mais terem fim. Há vozes assim, há (re)encontros assim, irremediáveis, afinidades electivas com a Vida, o Canto e o Cante,  a Poesia, que são como mo encontro do Sol e da Lua, da Terra e do Mar se beijando, o Sol iluminando a Terra inteira, arco-íris, encantamento. Francisco Naia, com a sua potente voz de tenor, cantor do Sul, nascido – na estação de Ourique-Gare – e criado entre os comboios e a música das cigarras e dos rouxinóis dos campos do Sul, assume-se aqui em toda a sua plenitude como cantor do Sul e intérprete privilegiado do cante(...)"

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E sobre De Sol a Sul:

“Francisco Naia regressa - quase três anos depois de Cantes d’além Tejo o seu anterior disco -, com um projecto discográfico, novamente direccionado para o Sul, onde Sol e Sul coabitam num espaço de intimidada e afectos, num espaço de inquietação - sempre presente na alma dos alentejanos , e são mais de 500 mil, os homens e mulheres que deixaram a sua terra se instalaram na zona urbana e urbanizada da área Metropolitana de Lisboa. E espaço de inquietação porque teimam em não perder as suas raízes de uma cultura milenar mediterrânica, onde o peso de uma ruralidade se manteve ao longo dos séculos – onde ainda o céu mergulha na terra por entre o sibilino  canto  dos insectos ao lusco-fusco. (...)

Uma cuidada direcção musical este De Sol a Sul representa um passo em frente, onde, mantendo a excelente voz de Francisco Naia e alguns bonitos poemas musicados, é precisamente na realização plástica de uma nova musicalidade, genuína, diversificada,  onde a tradição musical marca o ritmo e o rumo.”

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Fotos de Ermelinda Toscano sobre a Homanagem realizada a 19 de Setembro de 2009, na Sala Pablo Neruda - Forúm Romeu Correia, em Almada, onde participámos, com Alexandre Castanheira e o músico Ricardo Fonseca (in o-pharol.blogspot.com)

         
A Deusa da planície

(Francisco Naia )

(de Sol a Sul)

Procurei-te nas searas

Persegui-te pelos montados

Procurei-te na Aurora

Persegui-te ao pôr-do-sol.


Procurei-te nas Aldeias

Persegui-te pelos campos

Procurei-te pelas veredas

Persegui-te em mil recantos.


Refrão

E em noites de Lua Cheia

Fiz-te poemas de amor. (bis)



Vi o teu rasto nas fontes

Persegui-te pelos montes

E a todos escutei

Descreverem teus encantos.


Viram passar teu cavalo

À desfilada no vento

Viram-te voar como o lenço

Que te amarrava os cabelos



Refrão

E em noites de Lua Cheia

Fiz-te poemas de amor. (bis)


Viram teus cabelos loiros

Como a tarde na planície

E os lábios como papoilas

Vermelhas da cor do Sol.


Foi meu avô quem me disse

Que eras Deusa da Planície

Que sob um manto de estrelas

Eu te havia de encontrar.


Refrão


E em noites de Lua Cheia

Fiz-te poemas de amor. (bis)


Sou Alentejano

(Eduardo Olímpio / Francisco Naia)

(de Sol a Sul)

Sou alentejano,

Poeta e cantor.

Filho dos montados,

Neto de uma flor.

Não tive lições

De livros doirados;

Não usei nos dedos

Anéis brasonados.

Nasci entre as dobras

De ventos e trigos.

Nunca traí os amigos!


Sou alentejano,

Poeta e cantor.

Só falo das coisas

Que falem de amor:

Das rosas, dos rios

Dos velhos maiorais,

Das águias altivas,

Dos tristes pardais.

De lendas e loas,

De ritos antigos.

Nunca traí os amigos!


Sou alentejano,

Um homem não mais,

Com pulsos de feno,

Sangue dos pinhais.

Não fui às estrelas

Senão a sonhar,

Não tive castelos

Senão de luar.

Andei pelos montes

Dormi em abrigos.

Nunca traí os amigos!



Canção de Amigo

(inédito, a inserir no próximo disco)

 (Francisco Naia - Letra e música - Março de 2008)

O meu amigo está triste

 Está triste, está triste….

O Céu já nem lhe parece azul

Nem o mar lhe traz a calma….


O encanto das ondas morre-lhe no olhar

E caminha distante pelas avenidas

Perdido no desencontro das cidades…


Ai o Meu Amigo, o meu amigo

Corre pelos horizontes do Sul

Na plenitude imensa dos espaços

Entre rosas e papoilas.


No sonho que lhe corrói as noites

Cavalga num tropel de fogo

Sobre um corcel desfraldado ao Vento

Pelas charnecas e pelos montados.


Procura no verde das searas

A esperança porque tanto desespera.

E ali como um berbere perdido no deserto

Espera, espera, aquela feiticeira moura

Que sempre o encantou nos oásis do tempo.


Tanto amor, tanto amor

Tanto paixão que o prende o meu amigo 

ao beijo dessa mulher

Que ele fez ser poema…E Deusa!


Ai o meu amigo está triste

 Está tão triste… o meu amigo!



Para o intérprete excepcional e único, o poeta, o construtor da transformação permanente de sonhos, mas sobretudo para o Amigo, o Amigo puro e verdadeiro um grande abraço fraterno de Parabéns!

de Alegria!

de Vida!

de Luz!



21 de dez de 2009

Em Nome da Vida!

Deambulo no meu cavalo de fogo e de vento pelos campos sempre renascidos da minha Pátria. Aqui sinto-me em paz, sinto-me purificado, não tenho que ser confrontado com a hipócrisia do consumismo desenfreado destes dias do ano... navego no mar, calmo ou revolto, do silêncio da planície.... sou então surpreendido com a excelente notícia da justiça feita à activista do Shaara Ocidental Aminatu  Haidar... finalmente pode regressar à sua Pátria, ver os campos do seu país como eu percorro os do meu!... daqui desta Terra de tolerância saúdo a sua coragem, a sua dignidade e saúdo este desfecho onde prevaleceu a tolerânia e o humanismo, característica milenar mediterrânica, afinal tão diversa de alguns povos europeus arrogantes, intolerantes e... pouco informados até sobre a origem da arquitectura das suas catedrais e ... como fazem refrendos por tudo e por quase nada, porque não fazerem um referedo obstando à permissão da intolerância e da ignorância?!...



Há alguns anos, um amigo contou-me como às vezes se identificava com a personagem de um conto de um prémio literário de que havia sido júri, um trabalho que não vencera mas mesmo assim o marcara a ele e não só a ele...  era um personagem que percorria, quase enlouquecido de dor, os campos em busca do seu amor, entre Beja e Évora  entre Évora e Beja... recentemente reencontrei o meu amigo depois de vários anos. Estava tão diferente!  envelhecerá, os seus cabelos antes louros e a barba ruiva eram agora grisalhos, mas ainda conservava o olhar de menino mas... sentia-se em todo o seu ser uma estranha serenidade como se do seu olhar se libertassem centelhas de luz! Sentiamo-nos tão serenos, tão calmos na sua presença! Abracei-o e perguntei-lhe se a sua busca tinha chegado ao fim... respondeu-me com um sorriso tão luminoso quanto a serena felicidade que emanava...
- A minha busca continua mas agora encontrei o meu caminho... que importa se o vou percorrer um dia ou se mil anos... sei que este é o caminho verdadeiro e percorro-o como se estivesse parado no tempo esperando por ela, porque sei que um dia a encontrarei!
disse-me com doçura mas com uma profundo convicção...
Deu-me um abraço em silêncio e seguiu o seu caminho tão sereno e tão firme, como se levitasse, luminoso como o Sol!

8 de dez de 2009

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha





Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...


Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...




Florbela Espanca
         (Vila Viçosa 8 Dez. 1894
           Matosinhos 8 Dez. 1930)



4 de dez de 2009

Vou-me embora... mando recado pelas aves...

Vitorino, Cantador do Amor. No seu ar grave de chapéu, todo de preto, Vitorino viajante do vento desde os cantadores do Redondo até Lisboa, Paris, outras paragens - Cuba, Cabo Verde, mas com o Alentejo sempre presente, no coração. O Sul é também muito cantar Lisboa, mas é sempre cantar o Amor. E canta o Amor e a mulher amada como poucos.

Sobre Vitorino – TUDO, o disco que assinala trinta anos de carreira de Vitorino, escrevemos em 2006:



“ O Alentejo, Lisboa. O Amor. O Amor. Uma antologia. São 50 temas de Amor. Três CDs com as modas mais bonitas, mais belas, mais sedutoras do Vitorino. Porque, como diz David Ferreira em texto de abertura no livreto anexo:


«Único elo de ligação possível entre tantos mundos: o Amor. Vitorino é um emotivo em tempos dominados por gente que julga que no lado esquerdo do peito há apenas uma algibeira para guardar os documentos e o cartão de crédito.


É o amor que torna tão vivo este Alentejo onde de facto nos perdemos ao longo do 1º disco desta antologia. Nem precisamos de fechar os olhos, ouvindo-o já estamos lá.


É o amor que torna tão emocionante a Lisboa do 2º disco, a que ele tão bem conhece, nem por isso deixando de recorrer volta e meia aos olhares que sobre ela lança o seu cúmplice António Lobo Antunes.


É o Amor que o leva a cantar… o Amor. Vitorino canta a Mulher como poucos, encantado por esse mistério irresistível, por ela deixava todos os álcoois. Por ela, ele vai no 3º disco da algarvia Laurinda (linda, linda… ) - que o Giacometti encontrou no cancioneiro popular – ao fim do Mundo, ao tango do Gardel ou a Cuba, tinha de ser, canta o Amor.


E não valerá pena – Diz-me que sim, mesmo que mintas! – ir até ao fim do Mundo atrás duma mulher?!»


David Ferreira já sabe a resposta, e que não duvide porque mentir não é necessário...  essa é a razão de ser primeira e basta ouvir “Litania para uma Amor ausente” o tema (de Luís Andrade) que, de tantos tão bonitos, é de todos eles é um dos meus preferidos.



Litania para um Amor ausente

(Luis Andrade/Vitorino, Não há terra que resista)




Com a noite me deito


Com o dia me levanto


Canta-me um pássaro no peito


Vai-me a tristeza no canto


Como um cavalo no prado


Seca-me a água do pranto,


Deste rio desatado


Deste rio desatado


Seca-me a água do pranto


Seca-me a água do pranto


Como um cavalo no prado


Vai-me a tristeza no canto


Vai-me a tristeza no canto


Canta-me um pássaro no peito


Canta-me um pássaro no peito


Com o dia me levanto


Com a noite me deito









Laurinda
(Popular/Recolha e adaptação de Vitorino)


Am Am



Ó Laurinda, linda, linda


Am Am


Ó Laurinda, linda, linda


Dm Dm Am Am


És mais linda do qu'o Sol(e)


Dm Dm Am Am


Dei xa-me dormir uma noite


E E Am


Nas bordas do teu lençol


Sim, sim, cavalheiro, sim


Sim, sim, cavalheiro, sim


Hoje sim, amanhã não


Meu marido, não esta cá


Foi pr'a feira de Marvão


Onze horas, meia-noite


Onze horas, meia-noite


Marido a porta bateu


Bateu uma, bateu duas


Laurinda não respondeu


Ou ela está doentinha


Ou ela está doentinha


Ou encontrou outro amor


Ou então procur'a chave


Lá no meio do corredor


De quem é aquele chapéu?


De quem é aquele chapéu?


Debroado a galão


É para ti meu marido


Que fiz eu por minha mão


De quem é aquele casaco?


De quem é aquele casaco?


Que ali vejo pendurado


É para ti meu marido


Que o trazeis bem ganhado(?)


De quem é aquele cavalo?



De quem é aquele cavalo?


Que na minha esquadra entrou


É para ti meu marido


Foi teu pai quem tu mandou


De quem é aquele suspiro?


De quem é aquele suspiro?


Que ao meu leito se atirou


Laurinda, que aquilo ouviu


Caiu no chão desmaiou


Ó Laurinda, linda, linda


Ó Laurinda, linda, linda


Não vale a pena desmaiar


Todo o amor, que t'eu tinha


Vai-se agora acabar


Vai buscar as tuas irmãs


Vai buscar as tuas irmãs


Trá-las todas num andor


Que a mais linda delas todas

Há-de ser meu novo amor



Eu hei-de amar uma pedra

(Vitorino, Romances)
 Eu hei-de amar uma pedra


Deixar o teu coração


Uma pedra sempre é mais firme


Tu és falsa e sem razão


Quando eu estava d´abalada


Meu amor para te ver


Armou-se uma trovoada


Mais tarde deu em chover


Mais tarde deu em chover


Sem fazer frio nem nada


Meu amor para te ver


Quando eu estava d´abalada











Do outro lado do Tejo
(Manuel Alegre e Vitorino/Vitorino)


Gramática de coentro e cal


Geometria do branco e do azul


Solidão como sinal quase cigarra


Quase sul


Em seu falar como um cantar de amigo.


Aqui acaba o último e o primeiro


E um procura o outro seu igual


Para dizer um nome entre azinheira e trigo.


Este é o chão mais puro e verdadeiro


E a pátria senta-se comigo


À sombra de um sobreiro...







Vou-me embora
(Vitorino - Negro Fado)


Adeus rio Sado, não volto


Mudo pra outro lugar


Vou fazer vida mais longe


Vou pra terra deixo o mar.


As horas más que passei


Na minha embarcação


Deixo-as (nunca te as contei)


Se o vento fôr de feição.


Mas um dia tu bem sabes


Se o lírio do campo florir


Mando recado pelas aves


Das novas do meu sentir.


Não esqueças o tal encontro


Marcado no roseiral


Espero nos quatro caminhos

Daquele dia de Abril.






                                                   Vou-me embora... vou pró Sul ... entre o Tejo e o Odiana

2 de dez de 2009

Primeiro Beijo


Rui Veloso, poeta do canto, intérprete inigualável do nosso universo romântico - urbano, universal - do seu “Porto Sentido”  com “Primeiro Beijo” até porque “O Prometido é Devido" pois eu sou o teu “Cavaleiro Andante” do "Bairro do Oriente. Estes e muitos outros poemas, saídos da pena de Carlos Tê, escritor de canções,  cantadas pela voz única do Rui Veloso, adquiriram a magia de se tornarem em hinos – como aconteceu com outros poemas por outras gerações - ou quiçá, se não seria assim para os seus contemporâneos os poemas de Almutâmide, Ibne Amar ou Ibne Sara - em símbolos para aqueles que, como nós acreditam que o romantismo é talvez o lado maior do encantamento em que podemos tornar a vida; saboreá-la plenamente valorizando o que de mais belo ela tem para nos dar: o Amor, o Amor por quem amamos, e até por nós próprios.

Redescobrindo-nos ao som de dois poetas: o Carlos Tê  e o Rui, poeta  da voz e da melodia,  cantando Canções de Amor...





Primeiro Beijo

Recebi o teu bilhete
para ir ter ao jardim
a tua caixa de segredos
queres abri-la para mim
e tu não vais fraquejar
ninguém vai saber de nada
juro não me vou gabar
a minha boca é sagrada

Estar mesmo atrás de ti
ver-te da minha carteira
sei de cor o teu cabelo
sei o shampoo a que cheira
já não como, já não durmo
e eu caia se te minto
haverá gente informada
se é amor isto que sinto

Quero o meu primeiro beijo
não quero ficar impune
e dizer-te cara a cara
muito mais é o que nos une
que aquilo que nos separa



Promete lá outro encontro
foi tão fogaz que nem deu
para ver como era o fogo
que a tua boca prometeu
pensava que a tua língua
sabia a flôr do jasmim
sabe a chiclete de mentol
e eu gosto dela assim


Quero o meu primeiro beijo
não quero ficar impune
e dizer-te cara a cara
muito mais é o que nos une
que aquilo que nos separa












Bairro do Oriente
 (Ar de Rock,1980)




Tenho à janela
Uma velha cornucópia
Cheia de alfazema
E orquídeas da Etiópia


Tenho um transístor ao pé da cama
Com sons de harpas e oboés
E cantigas de outras terras
Que percorri de lés-a-lés


Tenho uma lamparina
Que trouxe das arábias
Para te amar à luz do azeite
Num kama-sutra de noites sábias


Tenho junto ao psyché
Um grande cachimbo d'água
Que sentados no canapé
Fumamos ao cair da mágoa

Tenho um astrolábio
Que me deram beduínos
Para medir no firmamento
Os teus olhos astralinos


Vem vem à minha casa
Rebolar na cama e no jardim
Acender a ignomínia
E a má língua do código pasquim
Que nos condena numa alínea
A ter sexo de querubim





Cavaleiro Andante
(Rui Veloso, 1986)

Porque sou o cavaleiro andante
Que mora no teu livro de aventuras
Podes vir chorar no meu peito
As mágoas e as desventuras


Sempre que o vento te ralhe
E a chuva de maio te molhe
Sempre que o teu barco encalhe
E a vida passe e não te olhe


Porque sou o cavaleiro andante
Que o teu velho medo inventou
Podes vir chorar no meu peito
Pois sabes sempre onde estou

Sempre que a rádio diga
Que a América roubou a lua
Ou que um louco te persiga
E te chame nomes na rua


Porque sou o que chega e conta
Mentiras que te fazem feliz
E tu vibras com histórias
De viagens que eu nunca fiz


Podes vir chorar no meu peito
Longe de tudo o que é mau
Que eu vou estar sempre ao teu lado
No meu cavalo de pau









Porto Sentido
(Rui Veloso, 1986)





Quem vem e atravessa o rio
Junto à serra do Pilar
vê um velho casario
que se estende ate ao mar

Quem te vê ao vir da ponte
és cascata, são-joanina
dirigida sobre um monte
no meio da neblina.

Por ruelas e calçadas
da Ribeira até à Foz
por pedras sujas e gastas
e lampiões tristes e sós.


E esse teu ar grave e sério
dum rosto e cantaria
que nos oculta o mistério
dessa luz bela e sombria

(refrão)



Ver-te assim abandonada
nesse timbre pardacento
nesse teu jeito fechado
de quem mói um sentimento

E é sempre a primeira vez
em cada regresso a casa
rever-te nessa altivez
de milhafre ferido na asa





"Só se lembram de Santa Bárbara quando troveja"


Guadiana
(Lado Lunar,1995)

Corre nobre Guadiana
espelho de moura formosa
vai ficando uma ribeira
pela terra sequiosa

Nunca pensei assistir
à tua dor na charneca
és como um Deus a cair
ante a barbárie da seca


Corre Guadiana
pela terra alentejana
pudesse dar-te esta canção
a vertigem dos caudais

dar-te o farto aluvião
das águas primordias



E ver-te com dignidade
a correr entre os campos
como o rio que tem um caminho
desde o começo dos tempos

Ouve as pedras do teu leito
a pedir que não as deixe
ouve os barcos parados
ouve os homens ouve os peixes

Corre corre Guadiana
por essa terra raiana
que eu faço um apelo aos lagos
convoco nos céu as fontes
teço três meadas de água
dos fios perdidos nos montes