25 de jun de 2010

Ser Poeta



Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! morrer como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além-Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!


                                     Florbela Espanca

(Para a Mulher mais bonita do mundo,
provavelmente o mais belo Poema de Florbela - que nasceu e morreu no dia em que eu nasci)

18 de jun de 2010

Eduardo Ramos - poeta do alaúde na Bertrand do Chiado

 Eduardo Ramos, o maior divulgador entre nós, através do canto e do alaúde, dos poetas luso-árabes e também da música sefardita e medieval, actua 6ª feira, dia 18 de Junho, às 19:00h, na Bertrand do Chiado.
não percam!| 
não deixem de saborear um momento único e certamente perfumado...

Eduardo Ramos este Alentejano afectuoso e fraterno, natural do Penedo Gordo, Beja.

Para quem não o conhece, e não sabe o que perde, transcrevo um excerto de uma entrevista que me concedeu o ano passado para a Revista Memória Alentejana:

Senti que uma luz iluminou a minha arabidade latente”~

Em 1997 assisti a um concerto com o grande alaudista tunisino Anwar Brahen, no Cine-Teatro em Silves. ‘É este instrumento que eu quero tocar’, disse para mim mesmo. Fui há Tunisia propositadamente comprar o meu primeiro alaúde árabe. Representou uma mudança radical na minha vida e no meu percurso musical.



diz Eduardo Ramos a propósito do seu encontro com o alaúde árabe


Nasceu em Penedo Gordo, aldeia a cinco quilómetros de Beja, em 1951. Tocou harmónica e acordeão em miúdo. Mas desde os 15 anos, quando aprendeu a tocar viola, nunca mais deixou os instrumentos de corda. Esteve em Águeda e começou a cantar o Zeca e Adriano. Em Angola familiarizou-se com os ritmos africanos. Após o 25 de Abril radicou-se no Algarve, onde cantava em hotéis. Um dia assistiu a um concerto de alaúde árabe de Anwar Brahen e descobriu que era aquele instrumento o “seu” instrumento. Foi uma mudança radical.


Chama-se Eduardo Ramos e é o grande divulgador, como cantor, músico e compositor, de Almutâmide e dos poetas luso-árabes.






Senti como que uma luz que me iluminou . Foi o meu reencontro com a minha própria identidade, a minha arabidade latente. A partir daí comecei a conhecer melhor a música árabe, de que tenho 300 discos. Comecei também a tocar e a cantar em galaico-portugês cantigas medievais , cristãs e sefarditas. Em 1999 gravei o 1º disco com poesia luso-árabe musicada por mim, intitulado“Andalusino”. Dois anos depois foi a vez de“Moçarabe”, e em 2005 “Cântico para Al Mutamid”.via a luz do dia. Ainda em 2001, durante 1º Festival Islâmico gravei também “O Ocidente do Al-Andalus”. Foi gravado na capela do Convento de S. Francisco, onde estava alojado, e onde o musiquei de improviso..”


Como já se percebeu falamos do músico luminoso que descobriu o seu “caminho” ao tomar conhecimento com a poesia Luso-Árabe e com o alaúde, esse instrumento mágico. A partir dessa altura Eduardo Ramos não mais deixou de nos maravilhar com a magia da sua música, nos seus concertos ou em intervenções de rua, informais mas sempre cheias de encantamento, como acontece nos Festival Islâmico em Mértola, brotando da sua boca a Poesia bela dos grandes poetas do século XI.
Eduardo Ramos é pois o intérprete, que dedica a alma e a Vida a deliciar-nos e a deliciar-se, percorrendo até ao infinito a sua arabidade latente, certamente porque o seu “Coração é Árabe.”




Eduardo Ramos editou recentemente o seu último trabalho. Trata-se, da gravação do excelente recital realizado no CCB, em Janeiro de 2006: Eduardo Ramos ao vivo . um sarão no palácio dos jasmins.


Sobre Eduardo diz-nos Adalberto Alves:


Em Eduardo Ramos cruzam-se veias de uma ancestralidade alentejana que brota em terras do Algarve. A sua linfa musical corre em busca não apenas da foz mas também para montante, como o meixão que, sabendo do mar ardente, abandona os sargaços à descoberta da longuínqua fonte.
                            fotos recolhidas por Tiago Bensetil no 5º Festival Islâmico de Mértola - 2009

Eduardo Ramos, em voz, paixão e alaúde, remexe na arabidade que o habita e o explica, bem como a todos nós.


Assim, o que a princípio era miragem, pouco a pouco, vai-se tornando real.




O que Adalberto Alves diz podemos constatar, ao vivo, em diversos locais e momentos sempre muito envolventes: CCB, Mértola, Évora, Lagoa…

Saboreiem!...


              Eduardo Ramos - poeta do alaúde!

16 de jun de 2010

A Carta no Caminho



Adeus, mas estarás

comigo, irás dentro

de uma gota de sangue circulando nas minhas veias

ou fora, beijo que me escalda o rosto

ou cinto de fogo na minha cintura.

Minha doce, recebe

o grande amor que irrompeu da minha vida

e em ti não encontrava território

como o explorador perdido

nas ilhas do pão e do mel,

Encontrei-te depois

da tempestade,

a chuva lavou os ares

e na água

teus doces pés brilharam como peixes.



Adorada, parto para os meus combates.



Escavarei a terra, abrirei uma cova

e nela o teu Capitão

irá esperar-te com flores na cama.

Não penses mais, minha doçura,

no tormento

que pelo meio de nós passou

como um raio de fósforo

e nos queima talvez.

A paz chegou também porque volto

à minha terra para lutar,

e como tenho o coração completo

com a parte de sangue que me deste

para sempre,

e como

levo

as minhas mãos cheias do teu ser desnudo,

fita-me,

fita-me,

fita-me no mar, que vou radiante,

fita-me na noite que navego,

e o mar e noite são os teus olhos.

Nunca te deixo, quando me afasto.

Vou dizer-te agora:

a minha terra há-de ser tua,

vou conquistá-la,

não apenas para ta dar,

mas para a dar a todos,

a todo o meu povo.

Um dia o ladrão deixará a sua torre

e o invasor será expulso.

Nas minhas mãos, até agora

acostumadas à pólvora, crescerão

todos os frutos da vida.

E saberei acariciar as novas flores

porque tu me ensinaste a ternura.

Minha doçura, adorada,

virás comigo à luta corpo a corpo

porque em meu coração vivem teus beijos

como bandeiras vermelhas

e, se cair, não só

a terra me cobrirá

mas este grande amor que me trouxeste

e viveu circulando no meu sangue.

Virás comigo,

espero-te nessa hora,

nessa e em todas as horas,

em todas as horas te espero.

E quando a tristeza que detesto

bater à tua porta,

diz-lhe que eu te espero,

e quando a solidão quiser que troques

o anel onde o meu nome está escrito,

diz à solidão que se entenda comigo,

que eu tive que partir

porque sou um soldado

e onde quer que eu esteja,

sob a chuva ou sob

o fogo, meu amor,

estarei à tua espera,

À tua espera no deserto mais duro

e junto ao limoeiro florido,

onde a primavera nascer, meu amor,

Estarei à tua espera.

Quando te disserem: “Esse homem

Não te quer”, lembra-te

de que os meus pés estão sozinhos nessa noite e procuram

os doces e pequenos pés que adoro.

Quando te disserem, meu amor,

que te esqueci, e mesmo quando

for eu a dizer-to,

quando eu to disser,

não acredites.

Quem e como poderiam

arrancar-te do meu peito

e quem recolheria

o meu sangue

quando de ti me aproximasse a sangrar?

Mas também não posso

esquecer o meu povo.

Vou lutar em cada rua,

atrás de cada pedra.

O teu amor também me ajuda:

é uma flor fechada

que sempre me inunda com o seu aroma

e se abre de repente

dentro de mim como uma grande estrela.



Meu amor, é de noite.



A água escura, o mundo

adormecido cercam-me.

Daqui a pouco romperá a aurora

e escrevo-te, entretanto,

para te dizer: “Amo-te”

Para te dizer “Amo-te”, protege

mantém limpo, levanta,

defende

o nosso amor, minha alma.

Deixo-te como se deixasse

Um punhado de terra semeado.

Do nosso amor nascerão outras vidas.

Em nosso amor outros matarão a sede.

Virá talvez um dia

em que um homem

e uma mulher, iguais

a nós,

toarão este amor, que ainda terá força

para queimar as mãos que o toquem.

Quem fomos? Que importa?

Tocarão este fogo

e o fogo, minha doçura, dirá teu simples nome

e o meu, o nome

que apenas tu soubeste porque apenas

tu, sobre a terra, sabes

quem sou, e porque ninguém me conheceu como uma,

como uma só das tuas mãos,

porque ninguém

soube como, nem quando

meu coração esteve ardendo:

somente

teus grandes olhos pardos o souberam,

a tua boca larga,

a tua pele, os teus peitos,

o teu ventre, as tuas entranhas

e a tua alma, que eu despertei

para que ficasse

a cantar até ao fim da vida.



Meu amor, espero-te.



Adeus, meu amor, espero-te.



Meu amor, meu amor, espero-te.



E assim termina esta carta

sem nenhuma tristeza.

Os meus pés estão firmes sobre a terra,

a minha mão escreve esta carta no caminho,

e no meio da vida estarei

sempre

ao lado do amigo, em frente do inimigo,

com o teu nome na boca

e um beijo que jamais

se separou da tua.



Pablo Neruda


Os Versos do Capitão

9 de jun de 2010

Mértola perfumada ou o Caminho da Poesia

Mértola é um lugar perfumado.
Em Mértola encontro a flor de laranjeira, onde me renovo e
perfumo.

Mértola é um lugar de cal, perfumado de serenidade e de paixões, de desejo sôfrego, desenfreado!...


Quando o viajante chega à antiquíssima Myrtilis, rumando a jusante pelo Odiana junto ao seu afluente, a ribeira de Oeiras, o casco histórico da milenar vila sugere-nos a proa de um poderoso navio, talvez uma singular embarcação sulcando o Mediterrâneo.

Mértola é um lugar de encontros, tantos e diversos mas sempre surpreendentes e enriquecedores. Mértola é um lugar perfumado pela sabedoria. Sabedoria saboreada nas palavras e na afectividade de Cláudio Torres, o Mestre, seja na Casa Amarela do Campo Arqueológico – onde encontrei, depois de muito tempo um outro Amigo , Santiago Macias, na “Taberna Utópica” , do seu irmão Álvaro – num belo terraço solar desenhado sobre o Odiana – onde almoçamos, ou na sua Casa Mediterrânica, de cal acabada de perfumar. Cláudio, o Sábio, o Amigo fraterno que nos desvenda o seu percurso ímpar , certamente decisivo para fazer dele o Sábio; percurso desde a juventude em Aveiro onde conheceu João Honrado ou a viagem de barquinho até Tânger e depois Rabat onde nasceu a Amiga Nádia – que neste país irmão significa Gota de Orvalho.

Ou de como, percorrendo os caminhos iniciais da Poesia pelo Mar Mediterrâneo, trazendo na bagagem o último livro da Biblioteca de Alexandria, um dia supostamente me encontrei às portas de Cartago com um velho feiticeiro que me instruiu na metafísica arte do Xadrez. Ficou maravilhado com os belos adornos de safira e jasmim sobre as rubayats do Mestre Omar Khayyam, recordando-lhe a subtileza poética do seu al-Andalus, fiquei contente pela sua alegria e… recebi das suas mãos um belo vinho tinto vindo do seu país, partiu no seu tapete e esfumou-se no deserto.

Este acontecimento supostamente imaginário realizou-se quando muito recentemente num bar desassossegado de Beja me ofereceram, em troca de um exemplar de um livro meu um vinho tinto andaluzino. O destino, supostamente imaginário cumpria-se.


Esse destino que é feito de uma espera, milenar, em que me sento fumando à Soleira da Porta, esperando o Amor.

Esse destino, que foi decisivamente marcado quando um dia entrei no estuário do Tajo, pássaro cansado de ser humano, viajando na gávea de um barco fenício, ao sentir o cheiro e o sabor de uma mulher reflectido naquele mar da palha resplandescente, vindo de para além daqueles belos montes que tomaram o nome de Arrábida. Percebi então, com toda a claridade do mundo que tinha chegado o momento de tomar de novo a forma humana; de amante do Amor. Tinha encontrado o meu país anunciado pela voz doce, de lábios de mel, num sonho lindo, o que me levou a abandonar o meu, inicial, país dos cedros e a realizar o sonho.

Depois de deambular perdido por tempestades e desertos encontrei o caminho da Poesia na voz interior do Amor, (n)o meu novo país, além-Tejo.
Iniciava o percurso Poético...

Da Beleza. Da plenitude da Paixão. De Beja a Aghâmate. Com um sorriso perfumado no olhar...

4 de jun de 2010

Arte Xávega ou o baptismo no Mar salgado




No dia anterior ao baptismo do Roque no Mar salgado - algo que faz parte dele com um tal intensidade - num fim de tarde luminoso, foi-nos dada a benção da partilha deste momento...