26 de mar de 2011

"O Amor tem para mim uma importância fundamental"

...nestes dias de adoração da Vida, da chegada da Primavera e de exaltação da Poesia, convites imprevistos levaram-me a escolas, colectividades, tertúlias. No dia 21, dei por mim a dizer: 
- Primavera, Poesia, Mulher, triologia secreta e imprescindível, urgente, para a Vida em plenitude.
Nestes dias disse poemas de vários autores, mas no dia 21 resolvi dizer Poetas Mulheres, disse FlorBela e outra Poeta de quem já aqui partilhei poemas. É como Florbela,  alentejana, mas nasceu em 1962, no Monte das Courelas do Portaleiro, Lavre, Montemor-o-Novo, como refere no seu último livro plenitude. Na contracapa Urbano (Tavares Rodrigues) escreveu :

"plenitude é um autêntico relicário de serena beleza, ou de dramática convulsão, da paisagem alentejana, das formas e das cores, dos sons e cheiros da planície. É também o retrato fremente de um alma, ou de uma sensibilidade feita para o amor, com os seus excessos e as suas dores.

Um livro sempre perto da natureza, por vezes muito conseguido nos seus achados e ritmos, na junção do som e do sentido."

Falamos de Maria Lascas, que num entrevista ao diário do Sul, diz em título: " O Amor tem para mim uma importância fundamental"

Poemas entre o Amor e o Alentejo:

Sol
perfume de laranjeira
e a abelha

a sombra do beijo
nas paredes de cal
Mértola, a sul


















Paraíso

Na alquimia de cores, negras andorinhas dançavam
músicas do silêncio da terra

estou no Paraíso! disseste
vestida de Sol na erva

a serpente?!
encantava pássaros nos salgueiros do rio Degebe


Safira perdida

Safira, altares nus em chão de pedra

anjos e pássaros partiram...
as abóbadas persistem
do sabugueiro e laranjeira perfumes

meu irmão! do vento da terra do sul

...agora amparam-me os sobreiros
tempo medido nos meus braços
em que tu não estás

e trago-te sempre comigo!
no cemitério só as cruzes de ferro
e montinhos de terra brava sem nome


A voz

A sua voz é água da fonte no estio
apetece-me saboreá-la na aurora
esperar o sol dentro dela... é mel!
néctar de flores... vazio a sua falta
escuto-a no melro, voo da gaivota
é brilho, cintila nas estrelas

não são palavras a sua voz
é afago dos olhos, a mão deslizante
a minha boca e a sua, o seu silêncio

ou um outro, este também de uma beleza avassaladora, muito recentemente publicado no seu blog homónimo


Vinho



Serve-me vinho, muito vinho sempre!


corre-me nas veias água, insípida clara…
dá-me vinho! não a uva a enrolar-se na língua
abram-se tonéis se acabarem as garrafas: tinto rosé Porto
deixa meu corpo mergulhar no fundo, curtir no tempo
que seja a taça que transborda
sorva a última gota do néctar maturado na pipa
parido em cor de sangue


e bebe o vinho do amor em mim, suavemente…

24 de mar de 2011

FlorBela Espanca... a exaltação plena do sentir....

FlorBela Espanca, a grande Poeta que percorreu a plenitude da exaltação dos sentimentos, a quem já dediquei vários postes, nomeadamente referentes ao dia 8 de Dezembro - de 1894 em que chegou, na suave terra ardente de Vila Viçosa - e no dia 8 de Dezembro, de 1930, em que se suicidou numa casa perto do mar em Matosinhos. Dela partilho este soneto... tão belo como a própria Vida!...

Se Tu Viesses Ver-me…



Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços…


Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca… o eco dos teus passos…
O teu riso de fonte… os teus abraços…
Os teus beijos… a tua mão na minha…

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri


E é como um cravo ao sol a minha boca…
Quando os olhos se me cerram de desejo…
E os meus braços se estendem para ti…

21 de mar de 2011

A Poesia chega na Primavera... entre o Amor e o Vinho...

Para assinalar o Dia Mundial da Poesia e a chegada da Primavera, que é uma e a mesma, vamos referir alguns poetas que se expressam em português ou castelhano ou os nossos antepassados, nomeadamente os poetas luso-árabes.
Temas em destaque: o Amor e o Vinho.
Ibne Amar, natural de Estombar, Silves, que terá nascido cerca de 1031 e é morto em 1086, talentoso poeta, que em muito nos recorda a lírica camoniana - que data de quase 500 anos depois. Ibne Amar, de famílias humildes, escreveu alguns dos mais belos poemas de Amor que brotaram fulgurantes nesta Terra abençoada pelos deuses, aqui no Ocidente da Península no Garbe al-Andalus. Ele foi o grande amigo do Príncipe e depois Rei Almutâmide, de quem foi governador em Silves, vizir em Sevilha e Embaixador. Terá sido nessa qualidade que, segundo a lenda, um dia bateu num jogo de xadrez o poderoso rei Afonso VI – pai da D. Teresa – que unificara pela 1ª vez os reinos cristãos da Península, e resolvera sitiar Sevilha, num “fossado”(ataque de surpresa) ao Sul. A astuciosa proposta de Amar era resolver-se a batalha no tabuleiro. Afonso VI acatou o resultado e retirou… afinal era um homem de palavra e… sabia jogar xadrez, devido ao desterro que tinha “sofrido” na Toledo muçulmana, quando foi vencido pelo seu irmão que o antecedeu no trono, e que acabou morto à traição.


Ibne Amar acabou morto às mãos do seu rei e amigo, fruto de uma ambição desmedida que o levou a rebelar-se contra Amutâmide…


Mas aqui fala-se de Poesia. Os poemas que queremos partilhar… entre o Amor e oVinho...

À bem-amada



minh’alma quer-te com paixão
ainda que haja nisso uma tortura
e alegre vai na ânsia da procura


que estranho ser difícil nossa ligação
se os desejos d’ambos concordaram!


que quereria mais meu coração,
ao desejoso te buscar em vão,
se meus olhos te viram e amaram?


Allâh bem sabe que não há razão
de vir aqui senão para te ver.


que o vigia não nos possa achar
se o nosso reencontro acontecer
p’ra os teus lábios doces eu provar.


folgarei no jardim da tua face,
beberei desses olhos o langor,


e mesmo que um terno ramo imtasse
o teu talhe grácil, sedutor,
valerias mais que o imitador.


não te ocultes, oh jardim secreto:
quero colher meu fruto predilecto!
                                                                       
                                                          (Versão de Adalberto Alves)



9 de mar de 2011

Pássaro de cristal

José da Fonte Santa (1925-1998) era um Homem genial. Desde que comecei a frequentar a sua casa no início de oitenta, pela sua mão redescobri o meu Alentejo adormecido em mim - desde aquele dia terrível de 1 de Setembro de 1967 quando parti para a diáspora e aos 5 anos, acabou a infância e fiquei um menino triste. o Zé da Fonte Santa deu-me a conhecer o Alentejo da verticalidade, da honra, da dignidade, da frontalidade, da coragem. Através dele conheci e privei com alguns dos mitos vivos (então) da Pátria transtagana: o Manel da Fonseca, o António Alexandre Raposo, o João Honrado (felizmente ainda entre nós), mas também outras enormes figuras do Alentejo como o Rogério de Brito e da Cultura portuguesa como a David Mourão-Ferreira, o Jorge Listopad (que revi recentemente numa estreia no Teatro Nacional, já nonagenário, me saudou efusivamente). o Zé, que era um verdadeiro gentleman, no seu porte altivo e elegante e tinha o dom da palavra como ninguém.


No livro que organizei, no âmbito da Homenagem promovida pelo Município de Santiago do Cacém - que coordenei, um ano após a sua morte, José da Fonte Santa. Memória(s), onde 50 amigos (as) do Zé - o matemático Nuno Crato, Manuel Geraldo, João Honrado, Baptista Bastos, Rógério de Brito, António Avelãs, Luís Filipe Rocha, Domingos Carvalho, Jorge Listopad, José Matias, José Baguinho, mas também Bárbara Grumer, Nédia Correia, Fernanda Pinela, Mariana Pombinho, Esperança Valente e a própria neta, Sofia Raposo, então com 9 anos, que escreveu:


Avôzinho


Eu olho para o teu quarto
cheio de tudo aquilo que deixaste
e fico suspensa a olhar
pela janela por aí fora


A pensar num mundo
cheio de alegria
que tu gostarias que existisse.

Nestas memórias perpassa muitas décadas do século XX no Alentejo e figuras dos mais variados estractos sociais, culturais ou profissionais, que com ele se cruzaram e ficaram irremediavelmente marcados, pois como escrevi na introdução:


O Zé da Fonte Santa era um homem admirável, com uma personalidade irresistivelmente sedutora e fascinante. Criador no mais puro sentido da palavra - onde  criação superava de longe a transpiração, como normalmente acontece -, de uma intuição assombrosa, com uma perspicácia e uma fluência verbal a que se aliava uma clarividente capacidade de exposição e raciocínio que lhe dava um dom da palavra de excepção. De discurso arguto e transparente, foi na palavra escrita onde, porventura, levou ao cúmulo a sua extrema sensibilidade artística e de revolta contra as injustiças sociais. (..)
A sua obra poética (...) onde podemos encontrar alguns dos mais belos poemas em língua portuguesa e onde a mulher é elevada a um pedestal, endeusada e de onde tranborda um lirismo avassalador. A mulher (...) está sempre presente nos seus magníficos desenhos, de traço inigualável (...).


No final era um homem onde a amargura, a angústia coabitavam já com o sonho, a liberdade desmesurada de criar e sonhar.


Mas como diz Baptista Bastos no seu depoimento:


(....)Tudo em José da Fonte Santa, configurava a ideia de que a esperança tem sempre razão - e tudo, também, sublinhava aquele frase antiga que eu lhe ouvira numa certa tarde antiquíssima, em Ferreira do Alentejo.


Aprendi muita coisa com o Zé da Fonte Santa. Mas sobretudo, com aquele ele homem altivo, elegante, fraterno, solidário, imensamente sonhador e tão frugal nos bens materiais, aprendi que a Beleza da Vida é perseguirmos os Sonhos em que acreditamos com uma desmesurada paixão, alegria e serenidade até à sua concretização. Com verticalidade. Sem essa postura a Vida não tem Beleza e... deixa de haver razão para existirmos... é o conhecimento desse caminho, irremediável e perene, que um dia gostaria de dar ao Roque, o meu neto... que afinal ainda tem um pouco de sangue do Zé da Fonte Santa...


 Deixo-vos dois, dos muitos
e belos, poemas de José da Fonte Santa



Poema


A mão fria
sacode o teu silêncio
num ramo de vento:


- Cai agonia
no teu pensamento


Um pássaro branco
triste e desfolhado
- Com indiferença –
bebe a angústia
que há no teu rosto
seco e gelado.



Claro é o Dia


Claro é o dia
onde transparece
toda a verdade
que não disseste.


A tua voz é um rio
mordida de peixes
na sombra da tarde.



O teu olhar:
um coração partido
feito de sangue
e de cristal.

6 de mar de 2011

Manuel da Fonseca - Cem anos de Poesia!...

Num poste editado em 21 de Outubro referia  dois grandes poetas - Federico García Lorca e Manuel da Fonseca - que me marcaram profundamente e, nomeadamente o Manel (era assim que o tratavamos) da Fonseca, que nos longínquos anos 70, revelou-me um mundo para mim até aí desconhecido - ou oculto?.. à espera de ser desflorado, lapidado -  a tal ponto, que no dia em que o ouvi, nasci poeta. O Manel nasceu a 15 de Outubro de 1911. Este ano de 2011 é pois o ano dos Cem anos do nascimento do Manel - figura decisiva das letras, no Alentejo e no mundo, o Manel, figura mítica que valorizou a aurea do maltês, livre como o vento, e valorizou-o não apenas na literatura, mas também na Vida, senhor de uma ironia sibilina, quase corrosiva, homem de uma enorme coragem intelectual e física - foi campeão de boxe e protagonizou atitudes de frontal desafio a inspectores da PIDE e tenentes da Guarda (GNR), como o Zé da Fonte Santa - seu companheiro de muitas "aventuras" intelectuais, políticas e conviviais - me confidenciou, nomeadamente quando em plena ditadura, à saída de um Tribunal Plenário (onde eram julgados os oposicionistas ao regime ditatorial, um inspector da PIDE identificou e tentou prender o Zé, ao que o Manel, assim que se apercebou, fez de imediato um"comício", e como havia muitos oposicionistas, o agente da polícia política viu-se em desvantagem e teve que fazer uma retirada estratégica. Doutra vez, dias depois de um movimento grevista, violentamente reprimido com feridos e muitas prisões, em Santiago do Cacém, o Manel enfrentou o comandante da Guarda, deu-lhe uma valente descompostura publicamente - e o chefe local das forças repressivas, senhor todo poderoso, a mudar de cores, a bater nervoso com a chibata na mesa - e o Zé temendo a reacção do militar (o Zé que também era muito corajoso mas aqui tentou ser sensato) a tentar levar o Manel, mas este enquanto não disse tudo o que tinha a dizer ao comandante da guarda, que bufava e mudava de cores mas nada fez, não abalou.
O Manel, o saudoso Manel que numa entrevista que me deu em meados de oitenta - publicada no trissemanério Setubalense com o sugestivo e provocante título, citando o Manel: "Quem diz que Portugal é um País de poetas está a armar ao cágado", o saudoso Manel, que como ninguém fez da palavra escrita e falada o "instrumento"mais poderoso e mais belo do universo, do velho e querido Poeta - agora que já envelheci a ser maltês e vagabundo, a ser sobretudo Livre para dar e receber Amor, agora meu querido Manel já tenho coragem para te chamar Compadre como nunca aconteceu em vida. Compadre! Onde estiveres, a semear a Beleza, no universo, deixa-me ser este teu...


O Vagabundo do Mar



Sou barco de vela e remo
sou vagabundo do mar.
Não tendo escala marcada
nem hora para chegar:
é tudo conforme o vento,
tudo conforme a maré…
Muitas vezes acontece
largar o rumo tomado
da praia para onde ia…
Foi o vento que virou?
Foi o mar que enraiveceu
e não há porto de abrigo?
ou foi a minha vontade
de vagabundo do mar?
Sei lá.
Fosse o que fosse
não tenho rota marcada
ando ao sabor da maré.
É por isso, meus amigos,
que a tempestade da Vida
me apanhou no alto mar.
E agora,
queira ou não queira,
cara alegre e braço forte:
estou no meu posto a lutar!
Se for ao fundo acabou-se,
Estas coisas acontecem
Aos vagabundos do mar.