9 de mar de 2011

Pássaro de cristal

José da Fonte Santa (1925-1998) era um Homem genial. Desde que comecei a frequentar a sua casa no início de oitenta, pela sua mão redescobri o meu Alentejo adormecido em mim - desde aquele dia terrível de 1 de Setembro de 1967 quando parti para a diáspora e aos 5 anos, acabou a infância e fiquei um menino triste. o Zé da Fonte Santa deu-me a conhecer o Alentejo da verticalidade, da honra, da dignidade, da frontalidade, da coragem. Através dele conheci e privei com alguns dos mitos vivos (então) da Pátria transtagana: o Manel da Fonseca, o António Alexandre Raposo, o João Honrado (felizmente ainda entre nós), mas também outras enormes figuras do Alentejo como o Rogério de Brito e da Cultura portuguesa como a David Mourão-Ferreira, o Jorge Listopad (que revi recentemente numa estreia no Teatro Nacional, já nonagenário, me saudou efusivamente). o Zé, que era um verdadeiro gentleman, no seu porte altivo e elegante e tinha o dom da palavra como ninguém.


No livro que organizei, no âmbito da Homenagem promovida pelo Município de Santiago do Cacém - que coordenei, um ano após a sua morte, José da Fonte Santa. Memória(s), onde 50 amigos (as) do Zé - o matemático Nuno Crato, Manuel Geraldo, João Honrado, Baptista Bastos, Rógério de Brito, António Avelãs, Luís Filipe Rocha, Domingos Carvalho, Jorge Listopad, José Matias, José Baguinho, mas também Bárbara Grumer, Nédia Correia, Fernanda Pinela, Mariana Pombinho, Esperança Valente e a própria neta, Sofia Raposo, então com 9 anos, que escreveu:


Avôzinho


Eu olho para o teu quarto
cheio de tudo aquilo que deixaste
e fico suspensa a olhar
pela janela por aí fora


A pensar num mundo
cheio de alegria
que tu gostarias que existisse.

Nestas memórias perpassa muitas décadas do século XX no Alentejo e figuras dos mais variados estractos sociais, culturais ou profissionais, que com ele se cruzaram e ficaram irremediavelmente marcados, pois como escrevi na introdução:


O Zé da Fonte Santa era um homem admirável, com uma personalidade irresistivelmente sedutora e fascinante. Criador no mais puro sentido da palavra - onde  criação superava de longe a transpiração, como normalmente acontece -, de uma intuição assombrosa, com uma perspicácia e uma fluência verbal a que se aliava uma clarividente capacidade de exposição e raciocínio que lhe dava um dom da palavra de excepção. De discurso arguto e transparente, foi na palavra escrita onde, porventura, levou ao cúmulo a sua extrema sensibilidade artística e de revolta contra as injustiças sociais. (..)
A sua obra poética (...) onde podemos encontrar alguns dos mais belos poemas em língua portuguesa e onde a mulher é elevada a um pedestal, endeusada e de onde tranborda um lirismo avassalador. A mulher (...) está sempre presente nos seus magníficos desenhos, de traço inigualável (...).


No final era um homem onde a amargura, a angústia coabitavam já com o sonho, a liberdade desmesurada de criar e sonhar.


Mas como diz Baptista Bastos no seu depoimento:


(....)Tudo em José da Fonte Santa, configurava a ideia de que a esperança tem sempre razão - e tudo, também, sublinhava aquele frase antiga que eu lhe ouvira numa certa tarde antiquíssima, em Ferreira do Alentejo.


Aprendi muita coisa com o Zé da Fonte Santa. Mas sobretudo, com aquele ele homem altivo, elegante, fraterno, solidário, imensamente sonhador e tão frugal nos bens materiais, aprendi que a Beleza da Vida é perseguirmos os Sonhos em que acreditamos com uma desmesurada paixão, alegria e serenidade até à sua concretização. Com verticalidade. Sem essa postura a Vida não tem Beleza e... deixa de haver razão para existirmos... é o conhecimento desse caminho, irremediável e perene, que um dia gostaria de dar ao Roque, o meu neto... que afinal ainda tem um pouco de sangue do Zé da Fonte Santa...


 Deixo-vos dois, dos muitos
e belos, poemas de José da Fonte Santa



Poema


A mão fria
sacode o teu silêncio
num ramo de vento:


- Cai agonia
no teu pensamento


Um pássaro branco
triste e desfolhado
- Com indiferença –
bebe a angústia
que há no teu rosto
seco e gelado.



Claro é o Dia


Claro é o dia
onde transparece
toda a verdade
que não disseste.


A tua voz é um rio
mordida de peixes
na sombra da tarde.



O teu olhar:
um coração partido
feito de sangue
e de cristal.

8 comentários:

Paulo Francisco disse...

Não me canso de dizer que aqui estou sempre aprendendo.
Um abraço.

Amapola disse...

Boa noite, querido amigo.

Esse senhor lhe ensinou muitas coisas da vida, e essa homenagem que você lhe faz é muito bonita.

Muito obrigada pela honra da sua visita.

Estou lhe seguindo.
Maria Auxiliadora (Amapola)

Um grande abraço.

Chá das Cinco disse...

Sai daqui carregando o aroma das laranjeiras, mas deixei minha marca para que eu volte.

É um imenso prazer tê-lo no Chá das Cinco.
És muito feliz naturalmente, vivenciar e aprender com preciosos mestres não é a sorte da maioria.

Gemária Sampaio

Olhos de mel disse...

Muito bom conhecer essas pessoas maravilhosas! Acredito que um bom escritor já nasce feito.
Bom final de semana! Beijos

perfume de laranjeira disse...

Obrigado pelas vossas palavras bonitas e sempre incentivadoras. Queiram desculpar-me mas continuo sem conseguir resolver o problema das imagens que não estão visíveis.
Beijos e abraços.

Graça Pereira disse...

Felizmente para ti e para uns quantos que, de vez em quando, surjem almas como a do Zé da Fonte Santa que nos alimentam por dentro com a sua verticalidade de vida!
Belissimos os seus versos, repletos de um lirismo autêntico que nos deixa vontade de ler e reler sempre.
Um abraço.
Graça

Olhos de mel disse...

Bom fim de semana, querido amigo!Beijos

Ezul disse...

Contigo conheci o poeta. Agora "roubo" um poema e divulgo-o num grupo que dá voz aos poetas menos favorecidos pelas modas e pelas escolhas editoriais.