20 de mar de 2012

A Palavra precisa de Ternura! Zeca Afonso, sempre!


"A Palavra precisa de Ternura!"
                   Academia de Santo Amaro
                             dia 23 de Fevereiro de 2012
                                   (a dado momento registei estas palavras de) Hélder Costa


No passado dia 23 de Fevereiro, durante mais de cinco horas, ininterruptamente passaram pelo palco – que foi pequeno, tal como a plateia – da Academia de Santo Amaro, em Alcântara – dezenas de músicos, cantautores, compositores, coralistas, diseurs, para lembrarem José Afonso, exactamente 25 anos após o seu desaparecimento físico. Organizado pelo núcleo de Lisboa da Associação José Afonso, o apresentador “serviço” foi o Amigo Hélder Costa, autor e encenador natural de Grândola, - responsável pela primeira actuação do Zeca em Grândola, em 1964, que posteriormente originou o tema símbolo da Revolução de Abril – que, com grande sentido de humor, “introduziu” no palco desta antiga e conceituada colectividade de cultura e recreio: Pedro Branco, Rogério Charraz, Coro Lopes Graça da Academia dos Amadores de Música, Carlos Carranca, Coro IEFP, Francisco Fanhais – Presidente da AJA -, Grupo de Cavaquinhos da Junta de Freguesia da Charneca da Caparica, Jorge Mendes, Jorge Jordan, Vitor Sarmento, José Manuel Ésse, Quarteto Sons da Gente, Francisco Naia e Zeca Medeiros, acompanhados pelos respectivos músicos, bandas, etc, tendo a leitura de poemas estado a cargo de José Manuel Santos e Teresa Bispo. Pelas 2.30 da madrugada terminava esta sessão em que tantos intérpretes e músicos quiseram estar presentes nesta tributo a José Afonso “génio maior a Música Popular Portuguesa e um dos génios nomes maiores da Música do Mundo (World Music) (RAPOSO, 2010: 10)

O Zeca Afonso é e será sempre a referência, a grande matriz da musica feita em português, da música enquanto arte, criação, que dignifica a nossa identidade, a nossa cultura e a criatividade e inovação, seja que de geração for (e não uma banalidade de consumo imediato, de plástico e descartável) Há que separar o trigo do joio. Mas o Zeca não é um referência fundamental apenas pela sua postura ética e humana em defensa de valores e princípios onde o primado da Liberdade está sempre presente. Ele que era um praticante da “Liberdade Livre”, ele que participou, como poucos, na construção da “Cidade sem muros nem ameias”, que do Ary cantou é, primeiro que tudo, é sobretudo uma referência porque é um génio enquanto Poeta, enquanto cantautor. enquanto músico, intérprete e compositor - como um dia escreveu Mahmud Darwich, o Poeta nacional da Palestina: “A Poesia, primeiro é poesia e só depois é que é de intervenção”.

Talvez o mais importante, certamente um dos mais belos e decisivos discos da música portuguesa, Cantigas do Maio, produzido por José Mário Branco e editado no Outono de 1971 é ponto de viragem da música portuguesa, é ponto de partida e baliza cronológica que marca o inicio da Nova Música Portuguesa (RAPOSO, Ibidem)).

Neste Março ensolarado de início de Primavera, ouçamos então Cantigas do Maio


Cantigas do Maio e a génese da Nova Música Portuguesa


No ano de 1971 termina o período da balada. A viragem dá-se com Cantigas do Maio, considerado um marco decisivo na obra de José Afonso: um dos seus melhores disco de José Afonso e que representa a partida para formas de acompanhamento mais enriquecidas e elaboradas em termos instrumentais.

«A viragem e renovação é marcada pelo José Mário Branco. Como nos diz João Paulo Guerra (RAPOSO, 2007: 85) “Este tipo de música que até aí não seria tecnicamente muito elaborada (…)”(…) embora existissem algumas canções bem construídas, do ponto de vista da melodia e das harmonias(…)”(…) anteriormente o Zeca Afonso cantava com o Rui Pato, que o acompanhava à viola”. Com o Adriano passava-se algo de semelhante, e a “entrada em “cena” do José Mário Branco representa um enriquecimento, somou as potencialidades todas da orquestração, não só nas suas canções como nas canções que orquestrou para o Zeca, nomeadamente no álbum Cantigas do Maio, introduzindo um grande enriquecimento sonoro nesse tipo de música, às vezes com efeitos extraordinários simples – como é o caso do acompanhamento da «Grândola, Vila Morena», o facto de pessoas a pisarem um saco de saibro e depois aquele efeito multiplicado no estúdio enriqueceu bastante. Como é óbvio, este disco e mais os outros três já referidos, e editados quase em simultâneo, Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades (José Mário Branco), Romance de um Dia na Estrada (Sérgio Godinho) e Gente de Aqui e de Agora (Adriano Correia de Oliveira, com música e produção de José Niza)., ficaram como referência fundamental para a música portuguesa” (RAPOSO,2007: 86)

Pode nos diz José Cordeiro” (…) a linguagem simples, imagens claras, melodia cativante são aspectos que caracterizam este disco, onde, para além de todas as inovações instrumentais, desde a orquestração aos arranjos sabiamente dirigidos por José Mário Branco, a voz de José Afonso, todavia, continua ainda a ser o grande meio – com um bom timbre, uma colocação precisa e sonoridade plena que atinge a maturidade, é “(…) a voz que expressa “tudo” porque não é só veículo, mas a condição base da canção.” (RAPOSO, Idem: 86)

Trabalho de equipa, de conjunto, introduz novos instrumentos como a darbuka, o bongo berbere, as tumbas, o adufe, o tamborim brasileiro, a guimbarda e os apitos de fole, além de efeitos especiais, para além dos instrumentos habitualmente utilizados, como a guitarra, a guitarra baixo, o trompete, a flauta, o piano, o órgão e o acordeão, compõem um conjunto que resulta instrumentalmente perfeito e ajustado às intenções dos poemas. “Procurou-se mais o som total que a «medida» convencional de instrumentos de sopro ou cordas que dariam uma plasticização clássica” (RAPOSO, Ibidem)

Este disco, gravado em França (o que acontecia pela primeira vez) contou com meios extraordinários assim como a com a excelência dos músicos participantes: Michel Delaport, Christian Padovan, Tony Branis, Jacques Granier, Francisco Fanhais e José Mário Branco. As fixas são: Senhor arcanjo, Cantigas de Maio (a partir de refrão popular), Milho Verde, (popular), Cantar alentejano, Grândola, Vila Morena, Maio Maduro Maio, Ronda das Mafarricas, (de António Quadros, o pintor e José Afonso), Mulher da Erva e Coro da Primavera. A letra e a música é praticamente toda de sua autoria, à excepção de “Milho Verde”, que é um tema popular com arranjos de José Mário Branco e “Ronda das Mafarricas” que é um poema da autoria de António Quadros (pintor), mas com música do Zeca, assim como a música e letra do tema que dá o título ao disco, ainda que seja sobre letra de refrão popular, ou a intuição popular do poema, da lírica e de imagens muito simples (…) onde (…) “o refrão deve ser o “toque” e “moral” de uma história que se canta em roda, tal como o camponês o faz.”( Assim se pode constatar que «(…) Cantigas do Maio constituem a forma mais nobre e representativa da canção portuguesa, como tudo quanto anteriormente José Afonso concebeu e realizou.(…) Trata-se de mais que uma busca de uma prova absoluta e notável. ”» RAPOSO, Idem: 87)

José Afonso, em declarações para a imprensa, após a saída de Cantigas do Maio dizia relativamente ao seu último trabalho.

«Tive uma série de dificuldades para o gravar, (…) posso considerar este trabalho o melhor que fiz, mas creio que não voltarei a fazer outro assim.»

Hoje sabemos que não foi assim. A excelência de Cantigas do Maio, um dos melhores trabalhos discográficos de José Afonso, não desvaloriza o seguinte Venham mais cinco, ao nível de arranjos ou orquestração não impediu que viesse a realizar outros trabalhos, porventura diferentes, mas não com um nível inferior a este.



Foi há quase um mês. Entretanto, o essencial do teror deste texto foi publicado no Jornal Folha de Montemor. Todavia, não obstante o tempo passado e a espera em partilhar convosco - que a forte gripe não permitiu, o texto e as fotos do espectáculo , estas inéditas...




A Palavra, cada vez mais, precisa de Ternura!

Zeca, sempre!