31 de jul de 2007

Mar do Sul

Mar
metade da minha alma é feita
de maresia
Sophia















































Mértola a Sul
onde desembarco
com sabor a sal

Mértola
onde aportei
há mil anos
marinheiro tatuado
almocreve
príncipe
faqîr
salteador
tangendo alaúde

Mértola a Sul
entre tamareiras, camelos
e papoilas
reencontrei, sedento
a tua boca de jasmim
onde cabe a sensualidade
do mundo
na suavidade da cal

Mértola
onde regresso
para escrever a página
em branco
no livro do destino

27 de jul de 2007

O Alentejo na Casa da Música ou a subtileza de Ser do Sul



























































Foi um momento único!
Quando os cantadores do Grupo Coral Etnográfico Amigos do Alentejo, do Feijó, tomaram lugar na Sala Suggia da Casa da Música - porventura a melhor sala de espectáculos de Portugal, quer pela sua excelente acústica, quer pela beleza plástica, estética e arquitectónica - e, de peito aberto, com a altivez e dignidade que caracteriza um Alentejano, sem qualquer amplificação, interpretaram doze temas do nosso Cancioneiro Tradicional, ao princípio com algum nervosismo, mas que logo desapareceu e as suas vozes potentes, bem timbrados, assenhoraram-se de cada recanto da bela e suave sala.
















Foi mais de uma hora cantando o Amor, a Natureza, o trabalho. E o público - cerca de 400 pessoas, aplaudiram de pé exigiram um encore - portuenese e alguns Alentejanos radicados no Norte do país ; qual o Alentejano amante da sua Pátria e a sua Cultura que poderia deixar passar em claro este momento tão belo, tão particular?!


Foi no passado dia 22 de Julho, quando o Sol a pique indicava o meio-dia, que se realizava um sonho iniciado à quase um ano, quando um dia a Filipa Leite, responsável pela programação da Casa da Música me dizia:
"Eduardo, nós vamos ter um festival «Uma Casa Portuguesa», em Julho do próximo ano e gostavamos de ter um grupo coral que representasse bem o Alentejo, pode indicar-nos um?





















Este festival de Música Popular, que o Grupo Coral Etnográfico Amigos do Alentejo encerrou da forma mais bela, teve nas noites de 6ª e sábado, num palco ao ar livre na Praça da Casa da Música, excelentes actuações, de, entre outros a Ronda dos Quatro Caminhos - com a participações de cinco cantadores do Grupo Coral de Évora, dirigido pelo nosso amigo Joaquim Soares, e especialmente da Brigada Víctor Jara - um grande espectáculo este, com a participação do Janita Salomé, com se excede a si próprio em palco, com um registo melódico e coreográfico de grande beleza, interpretando Zeca Afonso a solo em, por exemplo, "Era um redondo vocábulo" e contracena com Catarina Moura, a vocalista da Brigada - também com uma postura singular em palco - , na porventura mais bela moda do Zeca "Cantigas do Maio" ; foi um momento de grande emoção, que dediquei em pensamento a ... uma rosa vermelha!


Um abraço grande a todos estes amigos da Ronda e da Brigada, ao Nuno Faria do Marenostrum, ao António Prata, da Ronda, ao Rui, ao Manuel Rocha, à Catarina Moura, ao Janita, ao Joaquim Soares ...

Um abraço muito especial a todos os cantadores do Grupo Coral Amigos do Alentejo e nomeadamente ao seu responsável, o amigo Afonso!


Bem hajam amigos!

17 de jul de 2007

Sophia, a Poesia... e a Vida



O poema

O poema me levará no tempo
Quando eu já não for eu
E passarei sozinha
Entre as mãos de quem lê

O poema alguém o dirá
Às searas

Sua passagem se confundirá
Como rumor do mar com o passar do vento

O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento

No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas

(Ó antigas ó longas
Eternas tardes lisas)

Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas

E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo

Livro Sexto (1962)


Tive amigos que morriam, amigos que partiam
Outros quebravam o seu rosto contra o tempo.
Odiei o que era fácil
Procurei-te na luz, no mar, no vento.

No Tempo Dividido e Mar Novo, 1985


Três anos depois, recordar Sophia é falar da Vida. da Vida vivida intensamente como a Luz da sua Poesia.

"A obra de arte faz parte do real e do destino, realização, salvação e vida.
Sempre a poesia foi para mim uma perseguição do real. Um poema foi sempre um círculo traçado à roda de uma coisa, um círculo onde um pássaro do real fica preso. E se a minha poesia, tendo partido do ar, do mar e da luz, evoluiu, evoluiu sempre dentro dessa busca atenta. Quem procura uma relação justa com a pedra, com a árvore, com o rio, é necessariamente levado, pelo espírito da verdade que o anima, a procurar uma relação justa com o homem".

Estas palavras sábias são de Sophia, num dia quente dum mês de Julho como hoje, do remoto ano de 1964, nesse dia em que recebeu o Grande Prémio de Poesia pelo seu Livro Sexto (nesse ano distante em que iniciei o meu encontro eterno com o Mar imenso e sublime de Sophia numa praia de Sines).

Palavras sábias e tão actuais que nos põem a velha e tão actual questão do compromisso social... e pessoal do artista, do criador, do escritor, do poeta, da poetisa...
Será que sem esse compromisso com a Vida, com a busca incessante e permanente da Felicidade (afinal a razão última de estarmos aqui) a Poesia faz sentido, o poeta, a poetisa sobrevive?

Uma questão que deixo no ar... gostava de saber a vossa opinião... amigos, amigas...

14 de jul de 2007

Breve roteiro pelo Alentejo de Fogo com Bethânia e Sophia ou os pássaros do Alentejo...




















"esse indivíduo dava jeito ao Bush", dizia-me, com a ironia fina que o caracteriza, o meu amigo Manel Casa Branca. Era um fim de dia sereno, em Montemaior, naqueles momentos em que o tempo para, o mundo fica silencioso e os velhos se sentam à soleira da porta fumando...
O Manel dizia-me isto, a propósito dos comentários que eu fazia: era só mata-mouros, só mata-mouros , isto é ,diversas telas da exposição "No caminho sob as Estrelas", inaugurada horas antes com pompa e circunstância, relativa ao(s) caminho(s) de Santiago e ao Santo Tiago, ele o talvez erradamente ou não denomiado mata-mouros, que à parte o valor estético das obras de arte sacra, parece esta exposição estar imbuída de uma filosofia que pouco ou nada tem a ver connosco, alentejanos, que pouco ou nada contribui para a valorização da nossa identidade, será até talvez um passo atràs no que nos anos tem avançado a nossa historiografia ao encontro do nosso passado de gentes, de gentes que se orgulham de um passado milenar de tolerância e de miscigenação, onde têm tido um papel fundamental homens e mulheres como António Borges Coelho, Cláudio Torres, Santiago Macias, José Alberto Alegria, Adalberto Alves, Janita Salomé, Salwa Castelo-Branco, e outros (as) ...


O sumo desta exposição será porventura os protocolos entre a Galiza e Portugal, a germinação entre Santiago do Cacém e de Compostela, com a presença do Chefe de Estado português e do da Região da Galiza, no âmbito da presidência portuguesa da União Europeia - o que me obrigou a coisas desconfortáveis para um maltês como eu

como vestir umas calças e um casaco escuros e da mesma côr , por meias e sapatos escuros... isto tudo com quase 40graus... o que só pude remediar quando cheguei a Ferreira... onde vi mobiliário tradicional no posto de turismo ... entrei num café de fato e sai de sandálias e de calças brancas... livre finalmente... livre para percorrer o meu doce Alentejo: Ferreira. Odivelas, Torrão, Alcaçovas, Casa Branca, Escoural e... Montemaior, onde fui jantar... a oportunidade de um breve, breve mas tão profundo e sentido roteiro... sentimental... enquanto percorria à desfilada, cavalo de vento, tinha a serena companhia da voz de Maria Bethânia e do seu Mar de Sophia, disco lindo, lindo de que vos deixo um tema , com dois poemas - como acontece por vezes ao longo deste luminoso trabalho - o primeiro de Shopia e o outro de António Carlos Jobim Este é o meu tema preferido, talvez o mais bonito... para quem não tem...























































































































































Terror de te amar
"Terror de te amar num sítio tão frágil
como o mundo
Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa"








As praias desertas

"As praias desertas continuam
Esperando por nós dois
A este encontro eu não devo faltar
O mar que brinca na areia
Está sempre a chamar
Agora eu sei que não posso faltar
O vento que venta lá fora
O mar onde não vai ninguém
Tudo me diz
Não podes mais fingir
Porque tudo na vida
Há de ser sempre assim
Se eu gosto de você
E você gosta de mim
As prais desertas continuam
Esperando por nós dois"













Aqui...
no Alentejo de fogo e de silêncio...
onde
os pássaros são livres...










2 de jul de 2007

De como da pintura cheguei à música e à poesia... ou o músico Ziriab

A propósito da visita a uma exposição de pintura e escultura - de José Narciso (no foto) e de Laranjeira Santos - que inaugurou no último dia de Junho, na Arruda dos Vinhos, descobri algo que me deixou agradavelmente surpreendido...






















A galeria municipal, inaugurada recentemente, está instalada nas antigas cavalariças de uma casa senhorial setecentista. Para lá chegar, percorre-se um jardim suave e sereno. É o Jardim do Morgado. No edifício principal visitámos a Biblioteca Municipal Irene Lisboa, escritora e pedagoga natural deste concelho. Guiou-nos Paulo Câmara, o responsável municipal da Cultura, que nos levou ainda a ver o Auditório Municipal, um espaço confortável , com um palco onde certamente dá gosto trabalhar e... tem uma excelente acústica... o nosso amigo Francisco Naia, que me acompanhava, fez logo ali a experimentação...

















É de louvar como um município de um pequeno concelho, tem 14 mil habitantes, reutilizou este edifício senhorial quase em ruínas, restaurando-o - desde a fachada, a estrutura, os frescos, até a capela (onde certamente será um espaço privilegiado para acontecer música, poesia) - instalando um excelente equipamente cultural, certamente muito útil para os habitantes e os forasteiros... como nós...

Mas, o que mais me tocou foi descobrir ali referências à passagem por aquela terra do grande músico sírio Ziriab, que chegou a Cordova, no reinado de Abderráhmen II (821-852). Este músico, que terá tido um importante papel no elevado nível de sofisticação que a música andalusina antigiu - que aconteceu entre nós, no Gharb, e de que é exemplo o nosso Al Mouhatamid e também seu filho Ar Radî, poetas grandes e também reconhecidos tangedores de alaúde - terá também marcado a vida da corte, pelos seus versos e pela perfeição das suas melodias, era também poeta e cantor, mas ainda pela moda que então dominou em Cordova - a subtileza das suas vestes, das suas jóias e dos seus modos.



Assim, a propósito desta exposição de pintura do meu amigo José Narciso - pintor que no início de 2006 inaugurou uma exposição no Café Restaurante o Monte, em Montemor-o-Novo, que eu tive o prazer de organizar, naquele dia belo e singular em que o Alentejo de fogo se vestiu de neve (deixo aqui uma sugestão ao amigo Alex, que então fez lindas e sigulares fotografias, que as traga à blogosfera e que... faça uma exposição com elas... talvez na Feira da Luz, porque não?!...).
A exposição chama-se "Diálogo em Cumplicidade", com a escultura de Laranjeira Santos, está até ao primeiro dia de Agosto, na Galeria Municipal de Arruda dos Vinhos.
Esta exposição, que também me proporcionou uma viagem de onze séculos e.... a sensação que em cada terra há quem procure e valorize o nosso passado de gentes do Sul - aqui pela mão do Paulo Câmara -, onde a poesia, a música, as artes, as ciências tornaram Cordova de então a capital da civilização que destronou Dasmasco e Bagdad, e fizeram da Península a síntese civilizacional do mundo de então... onde Silves, Beja ou Lisboa tiveram um papel importante...