9 de dez de 2013

Soneto


 Com a devida vénia publico este soneto que a minha Amiga Maria Vitória Afonso me ofereceu ontem... no dia do meu 15º aniversário...

Amigo

Um ano atrás no teu aniversário
 
Foste perto do mar, colher a rosa  
Num fictício jardim imaginário  
Surgiu-te fresca, pura, olorosa.

Esse jardim, tão extraordinário
 
Onde voava a doce mariposa  
Trouxe-te um bem tão necessário
Um ombro amigo, que tua alma goza.

O tempo passou com grande alegria
Eu louvo e bendigo vossa harmonia
Com meus desejos de felicidade.

E se os dois tinham grande coração
O bem espiritual dessa união
Granjeou ainda mais minha amizade.

11 de ago de 2013

Adeus, Urbano... Mestre e Irmão...

Adeus, Urbano...

O Urbano partiu há dois dias… 
… e eu estou no Sul, bem no Sul… escrevo de um terraço onde se avista a cidade mediterrânica - emaranhado de chaminés, terraços e muitas paredes  brancas, poderia ser Tânger  - e vou, resolvi, depois de saber a triste notícia, telefonar à Ana Maria, enviar-lhe um telegrama de abraço e outro do CEDA e falar com amigos que estão em Lisboa, inclusive para me representarem , resolvi dizia, manter a minha informal relação como sempre tive com o Urbano, longe das cerimónias oficiais e de facebooks e postes em que meio mundo resolveu postar uma fotografia ou um autógrafo com o Urbano…  não é a minha onda…
o Urbano que merecia o Prémio Camões – como o próprio chegou a dizer publicamente e em privado com alguma revolta – e eu acrescento merecia o Prémio Pessoa e porque não Prémio Nobel?! …em 2006 propus-lhe, criarmos , eu e outros amigos, a partir do CEDA um movimento público,  com o intuito de lançar a sua candidatura, mas o Urbano, agradeceu-me emocionado e recusou resignado, desculpou-se com o pouco peso da tradução das suas obras em língua inglesa… para não dizer nos lobbies que determinam o Nobel, dizemos nós.
O Urbano era comunista, é comunista e talvez por isso não lhes concederam os prémios a que tinha mais que direito!
Ontem, sábado, o Urbano é capa e vem justamente muito referenciado nos jornais diários – tendo eu comprado dois, o que quase nunca fiz, no mesmo dia – com bons textos de Isabel Lucas, de Nuno Júdice (Público) e do amigo João Céu e Silva (DN)…
Recordei-me logo que o Miguel Real também devia ter sido convidado para escrever sobre o Urbano!: é que tenho em meu poder um texto excelente do Miguel Real, 13 páginas em que faz uma análise completa, magnifica da obra do Urbano. O Miguel é um Amigo que conheci pessoalmente há poucos meses através de um outro Amigo, o João Morales, e para além de ser um grande escritor ficcionista, ensaísta – o Fernando Mão de Ferro (Colibri) considera-o o melhor escritor contemporâneo – teve a grandeza humana de, nas III Jornadas Literárias de Montemor-o-Novo, a 25 de Maio – ter aceite a poucas horas antes das mesmas, e ter feito uma bela apresentação do último livro do Urbano A Imensa Boca dessa Angústia e outras histórias,– quando outros faltaram, uns justificadamente, mas outros não – à ,talvez, última grande homenagem realizada em vida do Urbano, justamente nas referidas Jornadas – e eu, a moderar a mesa, pedi uma salva de palmas para o Miguel Real e para a Ana Pereira Neto, a minha Anita – que, face a um contratempo informático imprevisto, numa tarde de mais de 30 graus foi a meu pedido à casa do Urbano - Montemor, Lisboa, Montemor  - que mal conhecia, para o termos ao vivo, com algumas imagens e a voz comovida e fraterna do Urbano – tendo ao seu lado a sempre bem disposta Ana Maria e o irrequieto pequeno António Urbano. E eu, na mesa, disse que eles, o Miguel e a Anita – com aqueles seus gestos consubstanciavam a grande generosidade que marcou toda a vida do Urbano.
Nos últimos 15 anos – o que são 15 anos numa vida tão intensa de quase 90 e literária de 60 anos – em que privei com o Urbano?Lembro-me dele ter apoiado activamente a Homenagem ao José da Fonte Santa realizada em 1999 e Santiago do Cacém – na organização do livro de Poesia  que a Isabel Fonte Santa coordenou e onde escreveu o prefácio e deu diversas sugestões, inclusive o título da Exposição “José da fonte Santa – Mulheres, Pombas e Cavalos”, que itinerou durante mais de três anos por mais de 30 locais – desde Castro Verde a Vila Franca de Xira - esteve na sessão que realizou na Casa do Alentejo, numa mesa ontem também usaram da palavra Domingos Carvalho, Francisco Dias da Costa, nós, José Chita;  esteve na célebre sessão – no mesmo Salão Agostinho Fortes na Casa do Alentejo  de apresentação pública do CEDA – com António Borges, Coelho, António Ventura, Cláudio Torres, Moisés Espírito Santo, Salwa Castelo-Branco, José Chitas, em representação da Casa do Alentejo e ainda nós e Pedro Alves; presidiu, a nosso convite, às três edições do Prémio Literário Pedro Ferro – em 2005, 2006 e 2007 – e escreveu o prefácio da Nova Antologia de Poetas Alentejanos que editamos há um ano… e sempre que lhe pedimos participou, apoiou generosamente novos autores, deslocando-se inclusive à Casa do Alentejo para apresentar livros… e esteve sempre disponível, para dar sugestões e conselhos e apoiar-nos com frontalidade como aconteceu em 2004 quando alguns oportunistas sem carácter tentaram desvirtuar o CEDA a seu bel-prazer. O Urbano deu-me então uma grande prova de Amizade, tendo-me inclusive chamado a sua casa perante calúnias lançadas a pessoas honradas do CEDA como eu, o Domingos Montemor e outros companheiros e apoiado a lista que liderei – e que venceu as eleições – como aconteceu com as esmagadora maioria das 20 personalidades do Conselho Científico. Poderia ter tomado uma posição neutra, como aconteceu com duas personalidades com que continuei a manter a Amizade, era mais cómodo, mas o Urbano, com tolerância e humanismo foi sempre um Homem de coragem de assumir as opções – o que o prejudicou pessoal e profissional durante a ditadura e porventura, literariamente nos nossos dias.
Orgulhamo-nos de ter realizado/coordenado diversas homenagens ao Urbano:
na qualidade de Vice-presidente da Casa do Alentejo em  2003 – tendo como convidados José Luís Peixoto e Possidónio Cachapa, que acabara de conhecer e em 2004; no aniversário da Casa; enquanto Presidente do  CEDA em 2006, com entre outros Manuel Gusmão e, mais recentemente nas III Jornadas Literárias de Montemor-o-Novo, por proposta nossa, -onde, para além  da referida excelente intervenção de Miguel Real e da passagem do interessantíssimo documentário de Possidónio Cachapa, que comentou o seu “Adeus à Brisa”- sobre a Vida e a Obra do Urbano, também Hélder Costa e António Melo nos deliciaram com histórias pouco conhecidas da resistência – onde o Urbano, então já um dos mais prestigiados escritores portugueses, com a grande generosidade e coragem, ajudava jovens desertores  a passarem a fronteira a salto. Os seus depoimentos, bem como um poema inédito de José Jorge Letria e um extenso e e interessante texto de Maria Graciete Besse , residente em França e considerada especialista na obra do Urbano, bem como de outros autores presentes nesta Jornadas, virão, prevê-se , integrar um livro a sair em Dezembro, por ocasião dos 90 anos do nascimento do Urbano. Com estes e outros depoimentos, certamente irá constituir  um contributo muito interessante para a História da oposição ao Estado Novo e para um conhecimento mais profundo da Vida e Obra do Urbano, nomeadamente através da consulta de mais de 10 mil folhas de cerca de 20 processos, envolvendo inclusive as três prisões pela PIDE em 1961, 1963 e 1968 – tendo relativamente à segunda encontrado três poemas inéditos dedicados à sua primeira mulher, Maria Judite de Carvalho, lidos nesta sessão das Jornadas, onde os autarcas Hortênsia Menino e João Marques, respectivamente Presidente e Vereador da Cultura do Município estiveram presentes.
Na XIV Semana Cultural do Laranjeiro , penso que em termos absolutos, a última homenagem prestada em vida ao Urbano, também por proposta nossa, realizada a 1 de Julho de 2013, que moderamos, com intervenções excelentes tanto do Hélder Costa como do Miguel Real e ainda dos autarcas Mara Figueiredo – presidente – e Brás Borges – Cultura – e o Amigo Luís Palma –Educação e Juventude . O Amigo Luís Palma, então muito jovem,  integrou o direcção do CEDA em 2004/2006 como Vice-presidente e viveu intensamente essa contenda eleitoral , umas eleições movimentadíssimas, em que participaram quase 90% do associados.
Boa sorte Luís Palma para a tua batalha eleitoral!

Serás um excelente Presidente da freguesia mais populosa de Almada – com a junção do Laranjeiro e Feijó!
Nas dezenas de vezes de tive o privilégio de falar e privar com o Urbano e da sua amizade, nomeadamente nos últimos anos
Numa das visitas que lhe fiz, quando ele estava a escrever Os Cadernos Secretos do Prior do Crato - a propósito de D. António, Pior do Crato, que teve 10 filhos de 10 mães, que vivia dividido, dilacerado, entre a entrega a uma fé verdadeira e pura e a entrega plena à sensualidade feminina, afinal a mais bela razão de ser do homem. Foi num dia em que Urbano não tinha muitos compromissos, passamos uma tarde a falar e, a páginas tantas, estávamos a discorrer sobre os amores passados. Olhando para o fundo da memória, concordávamos que de nada nos arrependíamos, excepto num aspecto… ser melhor. Foi tão forte a partilha que, por momentos olvidei que 38 anos separavam mestre e o discípulo
(excerto de poste de Abril de 2011)
 ou mais recentemente, já este ano, em que ia amiúde a sua casa relatar-lhe as minhas pesquisas nos seus Processos dos Arquivos da PIDE existentes na Torre do Tombo e o Urbano me contou  tantas histórias das suas vivências na resistência à ditadura – como aquelas que o Hélder o e António Melo relatam, mas também outras, outras vivências pessoais enquanto repórter, enquanto grande sedutor e conhecedor do universo feminino, da grande amizade e admiração que sempre o ligou ao irmão Miguel (Urbano Rodrigues) ou como ainda gostaria de escrever sobre o pai, da dificuldade de relacionamento por este não aceitar a opção do irmão – que se tinha exilado depois de ter participado no “Assalto ao Santa Maria”, então aquele Homem sábio, doce e franzino de quase 90 anos transfigurou-se num menino frágil que fala no pai enternecido, cheio de carinho, de Amor, que gostava de escrever sobre ele, tinha essa necessidade, como que a repor algo meio século depois…
Há duas semanas , estive em casa do Urbano e ele, de uma assentada, escreveu o  texto para Junta de Freguesia do Laranjeiro, sobre a homenagem ali acontecida, e que o Luís Palma publicou recentemente no facebook.
Há uma semana fui de novo visitá-lo, fui levar-lhe a Memória Alentejana , que lhe fazia diversas referências, e ele teve que se recolher um pouco para mudar de roupa, mas disse-me: “Eduardo, não estás com pressa? Eu demoro, podes esperar por mim? Eu respondi afirmativamente, mas como pressenti que ele não estava bem - só bebera um sumo nesse dia, confidencio-me a Ana Maria – achei melhor não o incomodar e combinei voltar depois das férias… para falarmos mais demoradamente….

Deixo este seu poema inédito até há duas semanas quando foi publicado na Memória Alentejana.
Poema feito de imediato para um projecto ainda não concretizado ”Novos temas para o Cante”. Um projecto para o futuro, como a sua Escrita, a sua Mensagem de Luz, de Fraternidade, de homem Livre!

Memória Alentejana



Era o antigo Alentejo

O das grandes descobertas

          da minha infância

o Maio em flor

em mil papoulas nos trigais

saramagas e grisandas

             enredadas

       na terra crua

           Ergue-se o meio dia

                     ardente

               sobre o mundo

e uma luz de cristal transparente

             fere os corpos e as pedras

         mas deixa alegria branca.

     Cantam naquele silêncio

       ranchos de trabalhadores

           rurais que sonham

        um amanhã

                    de igualdade

         nos corações das casas

               de terra e pasto

            e a flor da paz

                sorri-lhes

           como só ela

               sabe sorrir na epifania

                 na apoteose da luz só.



                      Urbano Tavares Rodrigues

                          13 de Fevereiro de 2012

                                (in Memória Alentejana)




Adeus Urbano!....



Até sempre Mestre!

Até sempre Irmão!

23 de jul de 2013

Castro Verde e o Cante
Novo nº da Memória Alentejana apresentada hoje no Museu da Ruralidade, Entradas

Pois é... depois de uma longa, longa ausência, regresso hoje com novo nº da Memória Alentejana apresentada hoje no Museu da Ruralidade, Entradas, às 19h00, no âmbito do 1º Aniversário daquela importante Casa de valorização e preservação da nossa Identidade e da nossa Memória! ... o local certo para tal acontecer...

Quando o calor amainar e a lua começar as espreitar  ali para os lados do santuário de Aracelis, lá estarremos a partilhar esta...









5 de mai de 2013

o espírito do "25 de Abri"l numa exposição em Almada que termina hoje






Hoje encerra ao público uma exposição que, sem sombra de dúvida, fruto de um trabalho rigoroso e científico, personifica clara e objectivamente o espírito do "25 de Abril de 1974", pois é evocativa deste momento fundador da democracia portuguesa. Intitulada "Os Cantores de Intervenção e a Revolução", pelo seu rigor e espírito certamente dignifica a memória e o percurso dos 16 cantores e cantautores referidos - nos 12 painéis da Exposição "PREC Cantar a Revolução no Alentejo", solidariamente cedida pelo Município de Montemor-o-Novo e que funciona como um dos módulos desta exposição que ainda hoje, domingo, dia 5 de maio, pode ser visitada  na Oficina de Cultura,  em Almada -  Avª D. Nuno Alvares Pereira, 14 - defronte da Praça S. João Baptista e da estação do Metro homónina, com horário, entre as 14h e as 19h e as 20h e as 22h.
"Os Cantores de Intervenção e a Revolução", cronologicamente vai desde 1958 (poemas do Zeca publicados na Via Latina) a 1983 (espectáculo no Coliseu).


Em traços gerais tem:
 - 2h30m de documentos audiovisuais - 16 momentos musicais, desde um ensaio da gravação da "Trova do Vento que Passa"(1963), diversos actuações no Zip-Zip (1969) assim como no período revolucionário, finalizando com o espectáculo do Zeca no Coliseu em Janeiro de 1983, um excelente documentário exibido no programa televisivo "A nossa canção do protesto/os pontos nos iis" (Mário Figueiredo, RTP Memória, 2009), com a participação de José Jorge Letria,Viriato Teles e nós - que esta a passar simultaneamente noutro local da exposição e onde José Jorge explica, por exemplo, enquanto jornalista que colaborou com os "Capitães da Abril" na preparação do golpe, da escolha e importância da "Grândola" e do Canto de intervenção para a queda da ditadura, e ainda imagens do meu livro Canto de Intervcenção e do Arquivo do Avante!;
 
 - cerca  de 700 documentos em papel,- com registos locais (100 doc. de duas das principais associações do concelhos, a Incrível e a Academia) e nacionais de alguns momentos decisivos - como o lançamento de Cantigas do Maio, de José Afonso, no Outono de 1971 e de diversos perídos (Mundo da Canção, suplementos do Diário de Lisboa ("Mosca, Pop larucho, DL Show), Rádio e Televisão, República e muitos outros;

- 50 discos em vinil do Zeca e de outros cantores/cantautores - moneadamente do período revolucionário mas não só;

- os 12 painéis da Exp. "PREC Cantar a Revolução no Alentejo"  - com biografias breves de 16 cantautores e intérpretes, assim Audioteca exemplificativa dos mesmos

Se bem que só está patente ao público 10 dias - o que parece manifestamente insuficiente - algumas centenas de pessoas já visitaram a exposição e nalguns casos deixaram o seu testemunho emociado.

Nestes tempos em que o defice democrático é uma realidade brutal e em que, cada vez mais e nos mais diversos meios, o espírito do "25 de Abril" e muito, mas muito politicamente incorrecto, 

Amigo, Amiga, 
se se identifica sem vacilações com o espírito de "25 de Abril" venha reviver e viver  este momento único e de luta, de fraternidade, que pode estimular para as urgentes batalhas futuras!

Viva o 25 de Abril

Viva a Liberdade Livre

 https://www.youtube.com/watch?v=gaLWqy4e7ls                                                                                                        
                                                                                     Eduardo M. Raposo

18 de fev de 2013

Lula e Carvalho da Silva: dois líderes da Lusofonia



Depois de um longo, longo interregno, voltamos hoje à partilha com os bloguistas que por aqui passam. E voltamos, com a publicação de algumas das mais recentes crónicas "saídas" no mensário Folha de Montemor, na rúbrica "À soleira da porta" - nome, aliás, já usado na rúbrica que, entre 2000 e 2004 assinámos na Revista Alentejana.
É o caso desta peça sobre dois nomes de referência da lusofonia: José Ignácio Lula da Silva e Manuel Carvalho da Silva.
 
Nos 148 anos de DN
Lula entrevistado por Carvalho da Silva 

“A força de Portugal não pode ser subestimada” 

O Diário de Notícias, o mais antigo órgão que existe  na imprensa portuguesa, foi fundado há 148 anos, mais precisamente no dia 29 de Dezembro de 1864, por Eduardo Coelho, em plena Monarquia Constitucional, no início do reinado de D. Luís – D. Carlos tinha um ano e a sua mãe, D. Maria Pia, chegara de Itália dois anos antes.
O DN, conheceu assim o declínio e o fim da monarquia, os conturbados e decisivos 16 anos da República, a desastrosa ditadura militar – quando o país entrou em bancarrota –e o retrocesso arrogante e tacanho do salazarismo e finalmente a democracia, que é hoje brutalmente atacada e posta em causa.  No dia do aniversário, Manuel Carvalho da Silva foi convidado para dirigir a edição especial. Carvalho da Silva, sobre este importante jornal e enquanto director convidado,  no final do editorial deixa o “apelo”: Que na voragem demolidora desta “crise” não se destrua ou enfraqueça este jornal, que é claramente património nacional.
 
DN-JOVEM –REFERÊNCIA DECISIVA PARA OS ENTÃO NOVOS AUTORES 

A este grande jornal sinto uma ligação sentimental, pois foi o primeiro jornal nacional, ou de referência como se diz actualmente, onde colaborei – em meados de 80, entre os 20 e os 25 anos, no saudoso DN-Jovem, naquele tempo em que ainda não se usava computador e se batia o texto numa velha máquina de escrever. Este foi seguramente o mais memorável  suplemento de colaboração juvenil do jornalismo português do Portugal democrático: por aqui passaram muitos jovens e adolescentes, autores em início de percurso, alguns deles hoje, nomes decisivos da literatura e do jornalismo e não só. José Luís Peixoto, José Eduardo Agualusa, Pedro Mexia, José Riço Direitinho, José Mário Silva, Possidónio Cachapa, ou Luís Graça, José Carlos Barros, António Souto, António Manuel Venda, Luís Milheiro, Rodrigo Francisco que tenho vindo a reencontrar ao longo dos anos, ou amigos desde então como o pintor Luís Filipe Gomes.
 Depois de uma passagem breve pelo mensário Juventude, como redactor, e colaborador permanente no Setubalense e pontuais participaçõpes noutros jornais de Setúbal, foi no DN-Juvem, que enquanto jornalista, embora colaborador - com fotógrafo e motorista quando necessário -, fiz algumas das primeiras grandes peças da minha vida: recordo duas: uma reportagem a um espectáculo que Jorge Listopad encenava na Torre de Belém e uma das quatro páginas, se não estou em erro, de que o suplemento dispunha, para uma entrevista ao dramaturgo Romeu Correia, em 1987, então homenageado em Almada.
Não esqueço as primeiras vezes que entrei emocionado no esplendoroso edifício do DN, assim como os primeiros encontros com Manuel Dias, o esse Homem  com H grande, que esteve tantos anos por detrás deste suplemento literário juvenil - e que justamente Jorge Sampaio, então Presidente da República, distinguiu em 5 de Outubro de 2004, com a Ordem de Mérito;  e depois,    da casa, tive acesso ao imenso arquivo fotográfico e as diversas vezes que o Manel Dias – era assim que o tratávamos - me pediu para o ajudar na selecção dos textos e fotos e desenhos que chegavam de todo o país. O DN– Jovem e o DN enquanto o jornal pai ( ou mãe?) faz  parte de um momento decisivo minha vida, do meu crescimento enquanto jornalista e cidadão e jovem tolerante e com sede de infinito; é com muita emoção que recordo aqui esse tempo de há 25 - 30 anos, quando a terça-feira, dia da saída do suplemento, era esperada com ansiedade.
Voltando ao tema da crónica de hoje, vejamos como João Marcelino, o director do DN apresentou o seu homólogo por um dia:

“Manuel Carvalho da Silva é um homem de esquerda, sindicalista, foi militante do Partido Comunista. As suas ideias são conhecidas há muito tempo em Portugal.  Num período de retrocesso das conquistas sociais e de um empobrecimento que também visou pagar desmandos nunca devidamente deslindados pela Justiça, e oriundos da acção de pessoas pertencentes às mesmas famílias políticas que agora os procuram resolver, foi um prazer colocar esta edição nas mãos de um cidadão sério, socialmente interventivo e que advoga caminhos diferentes para a solução dos problemas nacionais.” 
O entrevistado, Lula da Silva, nasceu há 67 anos em Caetés, Pernambuco. De uma família de 8 irmãos começou a trabalhar aos sete anos mas continuou na escola até aos 14. Foi metalúrgico, onde ganhou fama como sindicalista. Em 1980 fundou o Partido dos Trabalhadores e foi eleito deputado em 1986. Após três derrotas consecutivas foi eleito Presidente do Brasil em 2003, saindo em 2011, após dois mandatos e tendo conseguido eleger a sua sucessora, Dilma Rousself. Casado com Marisa Letícia, tem cinco filhos e nos últimos tempos, para além de ter conseguido ultrapassar com sucesso um cancro da laringe – que o obrigou a um retiro de seis meses da vida pública – tem-se dedicado à fundação com o seu nome. 


UM EX-PRESIDENTE ENTREVISTADO POR UM POSSÍVELPRESIDENTE

Nesta entrevista o ex-presidente brasileiro diz não ter dúvidas de que a crise foi gerada pelo descontrole do sistema financeiro e lamenta que até agora os líderes mundiais só tenham combatido os efeitos e não as causas.
“A crise que muitos países estão vivendo, e que acaba afectando, de uma forma ou de outra, a todas as nações, é exactamente a crise do neoliberalismo. Ela é a demonstração prática da insensatez neoliberal. A desregulamentação absoluta das finanças é um dos principais dogmas do chamado ”Consenso de Washington”. A atrofia do Estado democrático, com a transferência do poder político para o mercado, é outro. Sem regras e sem fiscalização, os especuladores podem tudo, mas quando quebram quem paga a conta é a sociedade. Um dos paradoxos da crise actual é que muitos pretendem combatê-la com a mesma lógica que a provocou.”
Mostrando-se solidário com o povo português na defesa das conquistas sociais, face às políticas de austeridade, a recessão generalizada e o desemprego que afectam Portugal e a Europa, “ (…) Quero dizer às forças progressistas de Portugal que não desanimem, não percam a esperança, estejam sempre, como estão hoje, lado a lado com os trabalhadores e a maioria da população” Lula da Silva advoga que muitos países emergentes, como o Brasil, “(…) estão demonstrando que é possível combinar rigor fiscal com políticas de crescimento, criação de empregos e protecção sócia. O Presidente Obama lançou um conjunto de medidas para fomentar a economia e o emprego nos Estados Unidos.”
 
Lula defende o fortalecimento da União Europeia “(…) por ser património democrático da humanidade”. Mas acrescenta que “(…) ela é inseparável do Estado de bem-estar social. Não acredito, sinceramente, que ela tenha um futuro duradouro sem ele. O Estado do bem-estar, como é natural, pode ser reformado, actualizado, modernizado. Mas não pode ser extinto. O destino da União Europeia, com o alto padrão civilizacional que alcançou, interessa a todos os países do mundo.”
 Acrescentando que o seu Brasil tem uma palavra a dizer no mundo, destaca o dinamismo económico e social antevendo-lhes um “maior protagonismo político regional e global nas próximas décadas”, num contexto em que a CPLP e a Ibero-América são espaços que já cumprem importantes funções culturais e geopolítica mas “(…) poderiam ir além. Somados, os países que integram esses espaços têm uma força significativa. Poderiam cumprir um papel pró-ativo a favor da retomada do crescimento e da reforma da ordem económica e política mundial.
Lula da Silva, que Carvalho da Silva considera “um dos mais extraordinários intérpretes da saber profundo do ser humano comum. Diametralmente oposto à postura do Presidente da República portuguesa, que tem um défice grande na interpretação, de estar, de perceber e de transmitir a realidade objectiva da vida e dos anseios das pessoas,” Lula defende que o espaço reservado a Portugal nestas duas realidades (CPLP e Ibero-América) “é potencialmente muito grande. A força de Portugal  não pode ser subestimada devido às dificuldades conjunturais (…)” inegável dimensão política, nível educacional e técnico, o facto de pertencer à União Europeia e, consequentemente “as perspectivas comerciais e de investimento  muito relevantes para todos os países ibero-americanos e africanos que forem parceiros efectivos de Portugal”,  rematando  “ A crise não deve impedir-nos de pensar e agir – estrategicamente.”

 Duas grandes figuras do mundo lusófono. Cada um, à sua maneira, souberam pôr a sua sabedoria, humanismo e capacidade de liderança ao serviço dos respectivos povos. O Brasil, sob a liderança de Lula superou a crise, desenvolveu-se económica, cultural e socialmente afirmando-se como potência mundial ao mesmo tempo que reforçava claramente o Estado social. Esperamos que num futuro não muito distante, salvaguardadas as diversidades de ambos os países, possamos dizer algo de semelhante de Carvalho da Silva e de Portugal. Seria o caminho adequado para salvar, e quiçá reforçar o Portugal de Abril. Isso, obviamente, só acontecerá com o apoio claro de todos os defensores da democracia e da Liberdade. “Acordai!”….