25 de jan de 2010

José-António Chocolate ou o Cântico do Amor


No final da tarde de sábado aconteceu um suave encontro com a Poesia nos Paços do Concelho de Setúbal. O lançamento de Escrito(s) no Ar. Depois das formalidades, da leitura de poemas, alguns deles musicados, e duma entrevista em directo e ao vivo por uma jornalista local, José-António Chocolate Contradanças, na sua alma mais profunda de Alentejano convidava-nos a saborearmos um belo “panito” – que parecia acabado de fazer e propositadamente, torresmos, enchidos, queijinho… e um bem encorpado e elegante tinto de Juromenha, enquanto ele se dedicava árdua tarefa das dedicatórias; e o convite veio com esta frase simples mas certeira:” Sem um bom petisco e um bom vinho não há festa”. E a qualidade aliou-se à quantidade e, ao contrário que por vezes acontece nestes eventos, quando, já no final, depois de lhe dar um abraço, parti ainda havia dos saborosos manjares e do belo vinho.




O José –António Chocolate é um velho Amigo e companheiro destas viagens poéticas – conhecemo-nos há mais de 25 anos, quando ele fundou o GPES – Grupo de Poetas e Escritores de Setúbal, onde provavelmente publicámos os primeiros textos poéticos - à excepção de um ou outros poema em suplementos ou folha de literatura juvenil de inícios de oitenta. Este Alentejano de S. Eulália, Elvas, a par do percurso primeiro como docente e depois como economista onde ascendeu a diversos cargos na administração de empresas públicas, manteve duas características essenciais: uma alma grande e plena de Alentejano, desde o leve mas inequívoco sotaque, a alegria contagiante, o convívio e o saber saborear com todo o tempo do mundo uma boa iguaria e um bom vinho e... a alma poética de cantar o Amor, a Vida, a alegria de viver e de divulgar de mil e uma formas a nossa Poesia - por exemplo, nesta sessão sugeriu que os guardanapos dos cafés e restaurantes, em vez de publicidade, tivessem… um poema.

O José António é um dos poetas que, com muito prazer meu, está incluído na “Nova Antologia de Poetas Alentejanos”-  que muito provavelmente chegará anunciando os primeiros cheiros e cores e sabores da Primavera.

O José António que aos 14 anos publicou o um soneto em jornais e é autor dos seguintes livros de poesia: Ninfite-Mal de Poeta (1981), Gente sem Resposta (1983), Mel de Amoras (1986), Metamorfoses do Silêncio (1990), Caminhos do Silêncio (2000), 28 Poetas Sadinos retrato e comentário a poesia de agora (2004), Íntimos Afectos (2006)e do presente Escrito(s) no Ar , tendo igualmente participado numa dezena de livros colectivos de poesia, na autoria de prefácios, apresentações e no júri de Concursos de Poesia e Jogos Florais. .


Do José António Chocolate Contradanças quero partilhar, com quem por aqui passar, três belos e certeiros poemas de como "Cantar o Amor", começando por um dos seus poemas que gosto particularmente:




Só te pedi
um sonho
e tu desdobraste,
em minhas mãos,
a realidade.

Estranha forma
de nos perdermos
para sempre.


Santiago do Cacém, 8 de Março de 2005

(in Íntimos Afectos, Casa da Poesia, 2006)



E deste novo livro:




Ânimo Que Nos Anima

Esta ânsia que
o sol inventa,
mesmo a névoa
rasgando-se
o compasso da preguiça,
tem o olhar incendiado
que atiça,
tem o suco
que nos alimenta.

E tem acima de tudo
o fruto que nos anima
a luz qu’a alma aviva
reluzente.
e no tempo coado
sempre moço
tem um rosto sorrindo
adoçando
um corpo ladino
em alvoraço.

É essa força benfajeza
que em ti brota
em constante novidade,
esse desejo que (nos) deseja
e abre ao nosso amor
a eternidade.




E outro do livro anterior, este já musicado

O Amor Não Se Nega

É difícil admitir
o amor
negando amar
como quem mente
saber sorrir
quase indiferente
ao que de nós
no fulgor
é evidente

É difícil acolher
o amor
amar é sentimento
desmentido
saber ouvir
o pensamento
nessa voz
a que se conhece o calor
a que se sabe o sentido


É difícil reconstruir
o amor
sabendo que amar
se faz de amor
sempre diferente


Porque é difícil
a quem ama
fugir desse amor
quando presente.

22 de jan de 2010

Roque e o Mar...

AUTOPSICOGRAFIA

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.


E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

                            
                                Fernando Pessoa






Anoiteceu sobre a cidade. Podia falar-vos de Música. Da Música que aconteceu há horas no S. Carlos engalanado de afectos, apinhado de fraternos sentidos que a música nos desperta, seja uma gaiata-de- foles, uma morna, a voz do Sérgio ou de Carlos do Carmo, de excelentes barítonos ou do piano de Sassetti, ou ainda mais a plateia e os camarotes em peso, oitocentas pessoas num lançamento de um livro, que, como a Ministra da Cultura referiu, se lhe contassem não acreditava,e… depois deitou o protocolo ao rio e falou como música, como pianista e todos nós, público, feito de músicos, compositores, cantautores, redactores, equipa, colaboradores, consultores, convidados… levantamo-nos para aplaudir a Prof. ª Salwa el-Shawan Castelo-Branco, que dirigiu o grandioso e inédito projecto Enciclopédia da Música em Portugal no Século XX, de que saiu hoje o 1º dos quatro volumes, 12 longos anos depois – onde demos a nossa modesta colaboração na redacção de quase uma trintena de biografias… - como disse Rui Vieira Néry, Salwa, a então jovem investigadora que dirigia projectos de “ponta” na área da etnomusicologia nos Estados Unidos, mas que um dia se deixou irremediavelmente seduzir por um português, o investigador Gustavo Castelo-Branco. Enfim, histórias de moiras encantadas, de que somos pródigos, rematou Vieira Néry, consultor principal da obra. E depois o jantar no Trindade (o Trindade, que saudades!..) e três alentejanos a cantarem "dá-me uma gotinha de água/dessa qu'eu oiço correr ..."

Ou podia-vos falar, 48 horas antes, de como num bar acanhado – onde está instalada uma associação que segue o calendário Maia, “13 Luas” - mas cheio, também ali de afectos, ouvia surpreso o Zet do “O' Questrada” abrir uma noite simpática ao som da gaita-de-foles, devidamente equipado a escocês e depois de me dar uma abraço dizer-me calorosamente que tinha querido estar ali a homenagear-me… e os amigos , os músicos José Carita, Ricardo Fonseca, o investigador António Ramos ou o Rui Fernandes, a Sofia , que cantaram, tocaram, falaram, recitaram ou o Naia, que desta vez não cantou, mas marcou presença, ou os amigos que divulgaram e estiveram, a Inês, o Geraldes Lino (militante da BD), o Nuno Sarmento e … tantos outros…

Podia falar-vos até do sofrimento e da desolação que atingiu o povo haitiano, “cenário dantesco” como descreveu à Lusa a chefe de equipa do INEM em Port au Prince, que marcou com destruição e morte a chegada do novo ano.


Poderia até falar-vos do aniversário do Poeta Eugénio e da suave vivenda na Foz que corre o risco de encerrar…

Ou falar do Encontro, há uma semana, no Auditório do Liceu Camões, de algumas espécimes das últimas duas gerações do “papel”, antes da passar a on-line daquele que foi o último suplemento literário existente neste país, onde muitos de nós nascemos ou reafirma-mo-nos para a escrita, as artes plásticas, a fotografia; refiro-me ao DN-Jovem, que perante uma audiência atenta e muita participativa de alunos – quem disse que os mais jovens não leêm, não escrevem, são uma geração perdida e amorfanhada pela net ? – estiveram alguns dos últimos “cavaleiros do apocalipse”que vieram de pontos tão diferentes como Vila Real de S. António – o José Carlos Barros, agora autarca -, de Leiria – o Arlindo, de Montemor, de Setúbal, ou os lisboetas como o amigo Luís Graça, jornalista tal como a Rita, filha do escritor e amigo Mário de Carvalho, que nos presenteou com histórias de como em criança conviveu em público com o facto de ter um pai escritor…


Mas quero antes falar de Mar. Do Mar. De como caminhei com o Roque pela areia e ele se deliciou enlevado pela areia e falou a linguagem das gaivotas, que curiosas quase se deixaram tocar pelas suas pequeninas mãos. De como ele ficou boquiaberto largos minutos no primeiro dia a contemplar o mar e depois riu feliz como se fosse saudado por cardumes de golfinhos e… talvez sereias.




De como lhe falei das minhas viagens de tempos tão antigos, quando os rios corriam transparentes e cheios de vida e não malcheirosos e nauseabundos antes de as pessoas se habituarem à imundície como se caminhassem para a irremediável autodestruição, autoextermínio, obedecendo cegamente ao “Grande Irmão” que é feito de cifrões - bebe, come, respira, ejacula cifrões – e participa activamente na irreversível destruição da Vida na Terra!


Se este processo autodestrutivo não se inverter a curta prazo quantas gerações ainda poderão usufruir a beleza do Mar e dos poucos rios não poluídos, os campos verdes a perder de vistas que na Primavera se vestirão de estevas e de papoilas… será que o Roque um dia poderá levar o seu neto a saborear a suprema beleza da Mãe-Natureza?...




Enquanto o Roque olhava boquiaberto e sonhador a espuma das ondas caminhamos pelo paredão mar dentro e falei-lhe das minhas viagens pelo azul turquesa do Mar Mediterrâneo dos tempos antigos, de como deixei um dia os cedros da minha primeira pátria há tantas, tantas luas… de como aprendi a arte do xadrez com um velho feiticeiro da idade do mundo que encontrei acampado às portas de Cartago e me fez guardião dos últimos livros, debruados a safira e jasmim, trazidos de Alexandria, eme falou do Garbe al-Andalus, o paraíso onde, disse-me encontraria aquela que … procurava, que não seria fácil, nem breve, seria posto à prova mil vezes, teria que ultrapassar os maiores obstáculos, o maior sofrimento e… talvez tivesse que esperar milhares de anos… o velho feiticeiro depois de me fixar nos olhos com uma doce serenidade enigmática e antes de se esfumar no vento em direcção ao deserto disse-me que a única condição era não desistir nunca… Roque ouviu-me na sua face macia e luminosa de menino, sorriu-me com doçura e … caminhamos de mãos dadas levitando sobre o mar … onde uma sereia nos falou pela voz de
Sophia...


Liberdade


Aqui nesta praia onde


Não há nenhum vestígio de impureza,


Aqui onde há somente


Ondas tombando ininterruptamente,


Puro espaço e lúcida unidade,


Aqui o tempo apaixonadamente


Encontra a própria liberdade.






Intervalo I

(…)


Dai-me o sol das águas azuis e das esferas


Quando o mundo está cheio de novas esculturas


E as ondas inclinando o colo marram


Como unicórnios brancos.

9 de jan de 2010

a renovação...


 Cromeleque dos Almendres

Neste lugar onde se sabe a transcendente magia da renovação, do recomeço, o Sol penetra-nos de Luz... neste lugar único, eterno!...







O Almansor renovado!


Dois lugares únicos, mágicos, eternos!

Sempre presentes!

mesmo quando recusamos, dilacerados, sucumbir à tristeza....

Eles são

A Terra, a Água,
o Ar,  o Fogo!

tal como no poema "Presídio" de David Mourão-Ferreira

         Nem todo o corpo é carne... Não, nem todo.
     Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
às vezes linho, lago, tronco de árvore,
      nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco...?

       E o ventre, inconsistente como o lodo?...
        E o morno gradeamento dos teus braços?
             Não, meu amor... Nem todo o corpo é carne:
é também água, terra, vento, fogo...

 É sobretudo sombra à despedida;
     onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memória o fugidio

           vulto da Primavera em pleno Outono...
        Nem só de carne é feito este presídio,
           pois no teu corpo existe o mundo todo!





2 de jan de 2010

A Caminhada para a Vida




Com a chegada do novo Ano deixemo-nos iluminar pela sabedoria como o arco-íris que enlaça Brotas....




Caminhemos, como o gatinho do Monte das Gigantas, pelo novo Ano entre a frágil Papoila que nos dá o sabor da eternidade e a força da flor de Esteva, poderosa e perserverante....


ao encontro da Poesia e do Amor
a Vida!

como nos poemas de Amutâmide

A uma Escrava que lhe ocultou o sol

(versão de António Borges Coelho interpretada por Janita Salomé)


Ela  ergueu a figura  ocultando da minha pupila  o disco solar

            - oculta esteja aos olhos da volúvel fortuna! -


Ela bem sabe , juro, que é uma lua.

Quem  pode eclipsar o Sol senão a face da Lua?




Ó Minha Única Eleita

(versão de Adalberto Alves interpretada por Eduardo Ramos)


Ó minha única eleita

De entre toda a humanidade

Estrela! Lua a brilhar!

Haste erguida e escorreita

gazelita no olhar

da flor tu és o alento

és a brisa perfumada

minha dona, meu sustento,

e grilheta bem-amada.

Cego ficaria e surdo

Pr’a que fosse resgatada

Chama-me! Eu logo acudo

Diz; quando será curada

A ardência do coração

Com o fresco toque dos dentes

Que na tua boca estão?