14 de dez de 2011

Soneto

Afinal já passou bastante tempo desde o último poste, ao contrário do que previra.
Quero partilhar algo que me enviaram recentemente, pelo meu aniversário. A falta de saúde e a dúvida se devia publicar um soneto que me dedicaram, atrasou a sua publicação. Mas cheguei à conclusão que a autora, a minha querida Amiga Maria Vitória Afonso é mais que merecdora da sua divulgação... para ela um grande e sentido abraço... extensível a todos vós...



Aniversariante na Diáspora


Ao Eduardo


Da Funcheira viajou em criança
Quis apanhar o comboio do futuro
Procurou a cultura com esperança
Deixar o pátrio berço era pois duro.


Dessa terra amada cheia de pujança
Saudoso, então desse Alentejo puro
O honra e divulga com confiança.
Continue a servi-lo, bem lhe auguro


O seu labor não é nada restrito
Dá aulas em Beja, seu distrito
Da região evoca a memória.


A matriz cultural exorta com esmero
Seu sentimento é natural e vero
Do Alentejo assume sua história.




Maria Vitória Afonso

10 de nov de 2011

A propósito das insígnias de Doutor ou o direito à indignação/à dignidade

Depois de uma longa ausência - devido a momentos atribulados - que espero não se repita, regresso ao V/ convívio para vos dar conta de um acto onde participei no passado dia 2 de Novembro: a imposição das insígnias de Doutor, onde também houve a entrega de diplomas a alunos de mérito bem como a vencedores de diversos prémios, desde investigação, empreendedorismo, fotografia, desporto, etc., tudo isto no âmbito do Dia da Nova, refiro-me à Universidade Nova de Lisboa, onde várias dezenas de antigos e actuais alunos receberam as respectivas distinções.

Numa cerimónia com todas as formalidades, com o respectivo corpo académico trajando a rigor – com as respectivas togas e cores de cada uma das faculdades que dirigem, assim como os respectivos departamentos, mas também os Pro-Reitores, Vice e antigo Reitor, Administradores, Presidente do Conselho Geral (PCG) e claro, o Reitor, com o Presidente a dirigir a sessão numa mesa onde quem apenas estava à “civil” era o Secretário de Estado do Ensino Superior e, onde não faltavam, no anfiteatro reservado aos convidados, representantes dos três ramos das Forças Armadas, da GNR e da PSP.

O PCG, Eduardo Arantes de Oliveira abriu a sessão, que terminou com uma intervenção muito humanista do Reitor, António Rendas, que é simultaneamente Presidente do Conselho de Reitores. Na cerimónia, usaram ainda da palavra o Director do Expresso, Ricardo Costa, o representante do Conselho de Alunos, Diogo Pereira e António Barreto, a quem coube a intervenção de fundo, convidado para o efeito, tendo de facto dissecado o papel da Academia e as relações, ou falta destas, com o mundo exterior, lamentando perca da cultura humanista Académica nas últimas duas décadas, em prol da ciência, inclusive fazendo propostas inovadoras (que o Reitor, enquanto presidente do Conselho prometeu fazer chegar aos seus pares). Barreto, com a argúcia e a capacidade analítica que lhe é reconhecida neste âmbito académico que domina com uma excelência certamente muito diversa dos temas agrícolas, fez uma intervenção brilhante.
E eu, filho de um ferroviário com a 4ª classe (quase parafraseando José Saramago) “um dos homens cultos que conheço”, e esteve lá. Senti nesse dia o meu esforço reconhecido, o meu trabalho por vezes tão árduo, sobretudo nas palavras do Reitor, muito simpáticas, expressivas e de alento para os novos doutores; para continuarmos a enfrentar os novos desafios e a darmos o nosso melhor contributo à Universidade e ao país. Mas depois comecei a pensar a frio, já fora daquele meio elitista: de que me servem estas distinções cá fora – neste mundo real e “cão”, onde não me coíbo de tentar realizar diariamente as utopias que idealizo; e tenho vindo a realizar algumas, pois tenho tido a felicidade de encontrar interlocutores à altura – Homens e Mulheres de cultura, sensibilidade, verticalidade e dignidade – como tem vindo a acontecer, nomeadamente em algumas cidades e vilas alentejanas (mas não só), deste nosso Alentejo amado, e honra lhe seja feita, neste município de Abril, onde não obstante as dificuldades e certamente alguns possíveis os erros (inerentes ao ser humano), neste município onde diariamente aprofundam a democracia e o espírito do 25 de Abril.

É evidente que estas distinções não deixam de dar algum alento a quem luta diariamente para manter a dignidade, para não soçobrar, desistir… neste mundo em radicais transformações, onde dia após dia são postas em causa conquistas da civilização e do humanismo quer remontam, pelo menos e em muitos casos, ao início do século XX, dirigida por gente sem escrúpulos.

Neste país de Abril onde o rudimentar Estado social está a ser sistematicamente destruído – depois de o terem sido as forças produtivas: agricultura, pescas, indústria, etc, às ordens de Bruxelas. O que permanece indestrutível é a imensa obra transformadora do Poder local – os equipamentos culturais, desportivos, educativos, de lazer mudaram a face desta país; e quem como eu, com apetência de leitura, viveu no início de 70 fora das grandes cidades, como não recordar as saudosas bibliotecas itinerantes Gulbenkian, as saudosas carrinhas que semanalmente nos traziam a magia de descobrir novos mundos, naqueles mundos, por vezes tão pouco coloridos, para não dizer cinzentos. E pois uma conquista civilizacional que tem a ver com a nossa identidade secular e milenar de Nação mais antiga da Europa, o municipalismo desde a romanização, o período islâmico, etc. A nossa identidade, a nossa auto-estima enquanto comunidade, é algo que não poderemos permitir o desaparecimento. As autarquias são verdadeiros esteios da democracia, da harmonização da vida comunitária.

O que nos resta? resta-nos resistir, resta-nos indignar! Resta-nos talvez lutar, unido-nos, perante uma escassa, reduzidíssima minoria, representante do capitalismo especulativo, financeiro. Para isso ser possível é necessário a tolerância para unir esforços, sem sectarismos, onde, quem se revê nos valores do humanismo, nos valores civilizacionais, conquistados, mas também a conquistar (do meio ambiente, da natureza, do futuro), pois desde há muitas décadas certamente Marx não estava tão actual… mas permitir também que uma certa classe que vingou à sombra da democracia, que conquistou cargos e “tachos” no aparelho de Estado, tantas vezes à sombra dos ideais de Abril, à sombra da acção altruísta, da abnegação de Homens e Mulheres que construíram primeiros anos da democracia, ideais que esta classe tem maltratado, espezinhado, enxovalhado, e que provoca em cidadãos menos informados impensáveis ímpetos saudosistas…

Que é necessário, é preciso indignar-nos, não restam dúvidas. Mas será que as forças da ordem, os seus elementos também sacrificados com a crise, será que irão reprimir os indignados ou também se irão indignar, como seres humanos que são?

E as Forças Armadas, estarão novamente ao lado do povo, como aconteceu mas transformações político-civilizacionais – 5 de Outubro, 25 de Abril – como o Tenente-Coronel Vasco Lourenço recentemente referia?

Termino com um poema-canção que tanta nos direcciona para a luta, para a indignação.


“Os Vampiros” de José Afonso

"No céu cinzento / Sob o astro mudo / Batendo as asas / Pela noite calada / Vêm em bandos / Com pés de veludo / Chupar o sangue / Fresco da manada

Se alguém se engana / Com seu ar sisudo / E lhes franqueia / As portas à chegada / Eles comem tudo / Eles comem tudo / Eles comem tudo / E não deixam nada

São os mordomos / Do universo todo / Senhores à força / Mandadores sem lei / Enchem as tulhas / Bebem vinho novo / Dançam a ronda / No pinhal do rei

Eles comem tudo / Eles comem tudo / Eles comem tudo / E não deixam nada"

(Do LP "Dr. José Afonso em Baladas de Coimbra", 1963)

27 de set de 2011

"Aldeia Nova" no Pax Julia

"Aldeia Nova"
A partir de um conto de Manuel da Fonseca

Um espectáculo de Paulo Ribeiro, evocativo do centenário do nascimento do poeta, contista, romancista e cronista alentejano e... universal

"A música já estava contida no rumor das sílabas... foi só aguardar um pouco, até que as melodias envolvessem o silêncio e acariciassem as palavras: 'chicotadas de vento' que eclodiram da voz irrepetível de Manuel da Fonseca e que hão-de para sempre ecoar no 'horizonte todo de roda caiado de sol...'. (...) pode ler-se no folheto de apresentação

O espectáculo começou na Praça da República (Beja) com a actuação da Banda Filarmónica de Serpa, como se fossemos marchando ao som da “Marcha Almadanim” percorreu uma daquelas ruas estreitas e antiquíssimas do casco histórico da milenar Beja até ao CineTeatro Pax Julia, onde, junto à entrada continuou a actuação com “Quando cheguei ao barreiro/no vapor que passa o Tejo”


Depois surgiu o Paulo (Ribeiro) que, nas escadarias, apresentou o espectáculo. Entramos e então surgiu em palco o Grupo Coral e Etnográfico da Casa do Povo de Serpa, que interpretou, duma forma avassaladora dois temas, um deles do Manel (da Fonseca) e “Terra sagrada do pão”. Estava dado o mote: a força imensa da Terra, ou melhor, o Alentejo na sua plenitude.

Seis músicos, três cantores, duas bailarinas e um actor, uma dúzia de almas para nos trazerem a emoção da poética do Manel da Fonseca, a sua mística neste espectáculo imensamente emotivo, onde a força telúrica dos Grupo Coral de Serpa teve continuidade com o excelente naipe de músicos, a voz quente e bem timbrada do Paulo, o cantautor da planície, como o ano passado lhe chamámos numa entrevista na Memória Alentejana, e as vozes, forte e segura do Fernando Pardal e melodiosa da Marisela, em coro ou as masculinas a solo. Um cenário cativante com a voz off e a imagem tão real em fundo do Manel, que tantas recordações me trazem de tantas férias passadas na sua companhia única em Santiago do Cacém, e ainda as prestações da Joana Cavaco e da Ana Fabião, na dança ou do António Revez no representação. Uma noite imensa de afectividades ao som da Poesia do Manel, continuada, com o elenco, quase todo reunido na “Galeria do Desassossego”, à conversa, entre dois belos tintos, com o seu responsável, o amigo Jorge Benvida, o líder dos “Virgem Sutta”, o Paulo, o Jorge Moniz, o grande jazzman com raízes em Aljustrel, o Zé Orta e outros, muitos amigos e… já perto do romper da alva, noutro local, a ouvir de novo a voz do Paulo, nos então “Anonimato”, que o disco jokey, seu admirador, fez questão de o/nos presentear entre a música e a dança.



Onze Poemas de Manuel da Fonseca musicadas por Paulo Ribeiro, constituem o fio condutor do espectáculo como "Vagabundo", "Maria campaniça", "Caminhos do Alentejo".

Aqui ficam alguns exemplos com que o Paulo e os seus companheiros de palco nos deliciaram...


As balas

Dá o Outono as uvas e o vinho
Dos olivais o azeite nos é dado
Dá a cama e a mesa o verde pinho
As balas dão o sangue derramado


Dá a chuva o Inverno criador
As sementes da sulcos o arado
No lar a lenha em chama dá calor
As balas dão o sangue derramado


Dá a Primavera o campo colorido
Glória e coroa do mundo renovado
Aos corações dá amor renascido
As balas dão o sangue derramado


Dá o Sol as searas pelo Verão
O fermento ao trigo amassado
No esbraseado forno dá o pão
As balas dão o sangue derramado


Dá cada dia ao homem novo alento
De conquistar o bem que lhe é negado
Dá a conquista um puro sentimento
As balas dão o sangue derramado


Do meditar, concluir, ir e fazer
Dá sobre o mundo o homem atirado
À paz de um mundo novo de viver
As balas dão o sangue derramado


Dá a certeza o querer e o concluir
O que tanto nos nega o ódio armado
Que a vida construir é destruir
Balas que o sangue derramado


Que as balas só dão sangue derramado
Só roubo e fome e sangue derramado
Só ruína e peste e sangue derramado
Só crime e morte e sangue derramado.


Tu e eu meu Amor

Tu e Eu Meu Amor
Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.


Nua a mão que segura
outra mão que lhe é dada
nua a suave ternura
na face apaixonada
nua a estrela mais pura
nos olhos da amada
nua a ânsia insegura
de uma boca beijada.


Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.


Nu o riso e o prazer
como é nua a sentida
lágrima de não ver
na face dolorida
nu o corpo do ser
na hora prometida
meu amor que ao nascer
nus viemos à vida.


Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.


Nua nua a verdade
tão forte no criar
adulta humanidade
nu o querer e o lutar
dia a dia pelo que há-de
os homens libertar
amor que a eternidade
é ser livre e amar.


Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.

16 de set de 2011

Sérgio Godinho - o menino feiticeiro

“Com um brilhozinho nos olhos, o Sérgio Godinho dizia, o Sérgio Godinho retorquia, o Sérgio Godinho andarilho, qual «homem dos sete instrumentos», que um dia esteve «quase morto no deserto», e imaginem, com o (seu) Porto – natal – ali tão perto”

Escrevia assim em 2000  no livro Cantores de Abril Entrevistas  a cantores e outros protagonistas do «Canto de Interveção» Ed. Colibri, Lx, 2000, pp. 199-2007), sobre Sérgio Godinho aquele que é considerado o mais eclético dos «cantautores» portugueses, ou melhor, o “escritor de canções” como ele próprio se define.
Sérgio “andarilho, poeta, cantor, compositor, intérprete, actor, ilustrador, argumentista, realizador, atento observador, enfim, autor, de artes feiticeiro, qual Romance de um dia na estrada em «maré alta», ou não pôr «os pontos nos iis», até porque «é a trabalhar que a gente…» e «de pequenino se torce o destino», contudo, se «a vida é feita de pequenos nadas», desde «o primeiro dia» que «parto sem dor», entoando a «balada da Rita» do Kilas, tendo sempre «cuidado – lá em baixo – com as imitações», porque «eu preciso de um emprego», mas «mudemos de assunto sim?». E, se quiserem, «espalhem a notícia, caramba», que «o rei vai nú», «antes o poço da morte» e «não te deixes assim vestir», são Coincidências de «o fákir» pelo Canto da boca, e olha, «aguenta aí, as armas do amor», tu que és Escritor de canções e se todos os dias os «dias úteis» são, então por que não, lá de tempos a tempos, fazer «ser ou não ser» um Domingo no mundo?”. (Idem, Ibidem)

"Sérgio Godinho, o menino feiticeiro" , como intitulei a capítulo do referido livro sobre o SG, e retomado na mais recente tese de doutoramento policopiado Fundamentos Históricos da Poesia Luso-Árabe (no século de Almutâmide) no Nova Música Portuguesa. O Amor e o Vinho" (pp. 358-402)
num capítulo bem mais vasto (45 pp.) acabadinho de fazer 66 anos, como referiu publicamente há poucos dias numa entrevista numa estação de rádio e quando assinala 40 anos de canções e de edições discográficas, pois o seu primeiro disco , o EP, Romance de um dia na estrada - Guilda da Música, saiu no Outono de 1971 (temas depoius incluídos no 1º LP Os Sobreviventes, 1972), numa célebre apresentação no Cinema Roma, em Lisboa, muito mediática para a época, onde foi igualmente apresentado o LP de José Mário Branco Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, estando os respectivos autores ausentes porque proibidos de entrar no país pela ditadura e exilados em Paris. Mas esse Outono, como é do conhecimento dos amantes da música portuguesa, foi marcado irreversivelmente, não apenas com a publicação destes dois excelentes trabalhos, assim como também os excelentes Gente de aqui e de agora, de Adriano Correia de Oliveira (com direcção musical e orquestração de José Niza), e Cantigas do Maio, de José Afonso (produzido por José Mário Branco), considerado um dos melhores, senão o melhor disco da música portuguesa de todos os tempos - um disco genial entre outros três muito. muito bons. Este Outono de há 40 anos, marca, quanto a mim o início de uma nova etapa na música portuguesa: o início da Nova Música Portuguesa, como defendo na referida tese.
  Quarenta anos depois, 33 trabalhos editados (17 LPs, 5 singles e EPs, 10 CDs
 e um DVD) é o Sérgio igual a si próprio que vamos (re)encontar neste seu 10º CD Mútuo Consentimento, este com participações especiais, entre outros de Manuela Aevedo, Bernardo Sassetti, Noiserv ou Roda do Choro de Lisboa...
Muito, tanto se pode, se podia dizer do Sérgio, que em 1965 se exilou porque não queria fazer a guerra colonial: Géneve, Paris e o grupo de vanguarda Living Theatre - onde fez parte do elenco do musical "Hair", Brasil e 1ª prisão e meio mundo viajado, Quebéque,Paris de novo, 25 de Abril e o regresso, música, teatro, cinema, histórias para crianças, poesia e... a escrita e canto e a composição sempre de mãos dadas, "Sérgio, o Homem dos sete instrumentos", em cada obra renovado, o Sérgio é, muito provavelmente o mais sério continuador e descendente do Zeca Afonso, de quem ele diz, com o seu ar de menino (já sexagenário ) "é o meu herói".
A acompanhar o genial escritor de "canções de canções, 'a banda' de Sérgio Godinho, nos últimos 10 anos,  os músicos Nuno Rafael: direcção musical, guitarras, coros; Miguel Fevereiro: guitarras, percussão, coros; Nuno Espírito Santo: baixo, coros; João Cardoso: piano, teclados, coros; Sara Côrte-Real: coros, teclados, percussão; Sérgio Nascimento: bateria, percussões; João Cabrita: sopros, coros, percussões. São “O Assessores” – como Sérgio Godinho designa os músicos que trabalham com ele:


“É engraçado, porque etimologicamente a palavra assessor significa ‘estar sentado ao lado de’, e é precisamente isso o que eu sinto em relação aos meus companheiros dos discos e palcos.

Na passada 2ª feira, na FNAC do Chiado foi apresentado este mais recente trabalho - ao chegar, com o Francisco Naia a primeira pessoa que vi  e falei foi o Luís Cília , um dos quatro precursores do Canto de Intervenção com o Zeca Afonso, o Adriano e o Manuel Alegre - , com um prorgrama de rádio em directo, com António Macedo e outro radialista (Antenas 2 e 3) onde se falou muito e o Sérgio cantou pouco, só dois temas, mas mesmo assim valeu a pena:
 Aqui ficam dois temas recentes e três mais antigos mas... sempre actuais:

http://www.youtube.com/watch?v=a-CSlGDQ9H8&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=FHyh578eyao&feature=related

Feiticeira

(Sérgio Godinho- letra e música)
(Pano-cru)

Ai, ai, nos teus olhos
as pestanas são aos molhos, aos molhos
ai, ai nos teus braços as ternuras são aos maços, aos maços

ai, ai, nos teus olhos as pestanas
são aos molhos, aos molhos
e eu não as vejo faz semanas
nos teus olhos, teus olhos,
ai, ai, nos teus braços as ternuras
são aos maços, aos maços
faz já tempo que não me seguras
nos teus braços, teus braços


Ai, ai, ai feiticeira
ai, ai, ai feiticeira
cheira tão bem, sabe bem o teu feitiço
e de que maneira, e de que maneira
manda aí do teu feitiço
Isso!


Ai, ai na tua cama
é que o meu sonho se derrama, derrama
ai, ai, na tua rua
é que o meu passo desagua, desagua
ai na tua cama é que o meu sonho
se derrama, derrama
faz já muito dias que não o ponho
na tua cama, tua cama
ai, ai, na tua rua é que o meu passo
desagua, desagua
faz já meses que não o faço
passar na tua rua, tua rua


Ai, ai, ai feiticeira
ai, ai, feiticeira
cheira tão bem, sabe tão bem o teu feitiço
e de que maneira, e de que maneira
manda aí do teu feitiço
Isso!


Ai, ai, nos teus lábios
Os provérbios são mais sábios, mais sábios
E quem quer saber da vida bebe-os
Dos teus lábios, teus lábios
Ai, ai nas tuas veias
O amor anda às mãos cheias, mãos cheias
Ai, ai, na tua rua
É que o meu passo desagua, desagua
Ai, ai, na tua cama
é que o meu sonho se derrama, derrama
ai, ai nos teus braços
as ternuras são aos maços, aos maços
ai, ai nos teus olhos,
as pestanas são aos molhos, aos molhos

Espalhem a notícia
(Sérgio Godinho - letra e música)
(Canto da boca)

Espalhem a notícia
do mistério da delícia
desse ventre
Espalhem a notícia do que é quente
e se parece
com o que é firme e com o que é vago
esse ventre que eu afago
que eu bebia de um só trago
se pudesse


Divulguem o encanto
o ventre de que canto
que hoje toco
a pele onde à tardinha desemboco
tão cansado
esse ventre vagabundo
que foi rente e foi fecundo
que eu bebia até ao fundo
saciado


Eu fui ao fim do mundo
eu vou ao fundo de mim
vou ao fundo do mar
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher


A terra tremeu ontem
não mais do que anteontem
pressenti-o
O ventre de que falo como um rio
transbordou
e o tremor que anunciava
era fogo e era lava
era a terra que abalava
no que sou


Depois de entre os escombros
ergueram-se dois ombros
num murmúrio
e o sol, como é costume, foi um augúrio
de bonança
sãos e salvos, felizmente
e como o riso vem ao ventre
assim veio de repente
uma criança


Eu fui ao fim do mundo
eu vou ao fundo de mim
vou ao fundo do mar
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher


Falei-vos desse ventre
quem quiser que acrescente
da sua lavra
que a bom entendedor meia palavra
basta, é só


adivinhar o que há mais
os segredos dos locais
que no fundo são iguais
em todos nós


Eu fui ao fim do mundo
eu vou ao fundo do mim
vou ao fundo do mar
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher


A noite passada
(Sérgio Godinho - letra e música)
Escritor de canções


A noite passada acordei com o teu beijo
descias o Douro e eu fui esperar-te ao Tejo
vinhas numa barca que não vi passar
corri pela margem até à beira do mar
até que te vi num castelo de areia

cantavas "sou gaivota e fui sereia"

ri-me de ti "então porque não voas?"
e então tu olhaste
depois sorriste
abriste a janela e voaste


A noite passada fui passear no mar
a viola irmã cuidou de me arrastar
chegado ao mar alto abriu-se em dois o mundo
olhei para baixo dormias lá no fundo

faltou-me o pé senti que me afundava

por entre as algas teu cabelo boiava

a lua cheia escureceu nas águas
e então falámos
e então dissemos
aqui vivemos muitos anos


A noite passada um paredão ruiu
pela fresta aberta o meu peito fugiu
estavas do outro lado a tricotar janelas
vias-me em segredo ao debruçar-te nelas
cheguei-me a ti disse baixinho "olá",
toquei-te no ombro e a marca ficou lá
o sol inteiro caiu entre os montes
e então olhaste
depois sorriste
disseste "ainda bem que voltaste"

1 de set de 2011

VICTOR SERRA ou a sofreguidão inadiável de VIVER e de AMAR!

O ano passado encontrei o Victor Serra na esplanada do Restaurante “O Bispo” no Seixal. Estava eu com o Francisco Naia, tínhamos acabado de fazer uma sessão de apresentação do meu livro Canto de Intervenção. O Victor irradiava alegria e vontade de viver por todos os poros; estava acompanhado pela sua nova paixão, a sua musa inspiradora , como lhe chamava, a Graça; aliás, estavam… havia ali uma envolvência muito forte, que ao ler estes seus poemas se percebe melhor.

 O Victor Serra foi para mim um velho companheiro de Setúbal dos inícios de oitenta, quando eu era ainda um miúdo, e ele já Homem feito, participamos então, entre outras coisas na fundação da "Grupo de Poetas e Escritores de Setúbal", liderado pelo José António Chocolate Contradanças.

Sempre inconformado e inconformista, sempre “politicamente incorrecto”, o Victor dizia o que tinha a dizer, crítico acutilante dos poderes acomodados, igual a si próprio, exactamente como (re)encontrei no Seixal, depois de longas ausências, interrompidas em Outubro de 2008 em Praias do Sado – quando participámos numa sessão evocativa dos 40 anos da passagem – como então dei conta neste blogue - de uma importante sessão de Canto de Intervenção que em 1968 se realizou  com a participação do Zeca Afonso, o Francisco Naia e os outros cantores, com centenas de oposicionistas a assistirem, e que tomou tais proporções que levaram à sua interrupção pela PIDE e pela GNR e à fuga dos cantores para não serem presos. Depois disso encontrei-me com o Víctor mais duas ou três vezes. Não eramos amigos íntimos, mas haviam afinidades electivas que muito nos aproximavam e era uma festa quando nos encontrávamos. Navegávamos no mesmo barco da irreverência e da utopia, dessa “tribo” indefinível dos Homens e das Mulheres livres.

No seu último aniversário tive um convite para estar presente, que com muita pena declinei por via de uma qualquer actividade “inadiável”.

Eu sei "que nunca mais acenderás no meu o teu cigarro, meu irmão"


No domingo o Chico Naia telefonou-me para me dizer que o Victor Serra tinha morrido. Tinha 60 anos e tinha a sofreguidão do Amor no olhar. Deixo estes seus poemas, uma breve biografia e… o seu exemplo da urgência do Amor, da necessidade imperiosa e irreversível de Viver plena, intensa e sofregamente cada minuto que nos é "permitido" tocar as estrelas, de saber Amar e saber ser-se Amado… enquanto é Tempo!


DEIXO-VOS O PERCURSO
DO DESCONTENTAMENTO....
....DEIXO-VOS A UTOPIA
FAÇAM DELA O QUE QUISEREM....


/....Estarei por fora
Em todas as memórias do silêncio
e não me enquadro nesta sociedade
onde os homens não têm
a criatividade de fazer do amor uma razão de ser.
Invento o amor devagar
em cada gesto
e toco a luz dos meus olhos
em cada rotura à rotina da mediocridade
para me reinventar todos os dias .../



BIOGRAFIA RESUMIDA

VICTOR SERRA

Poeta e Animador Cultural
Nascido em Setúbal em 1950
No Largo do Sapalinho
Publica:
O Livro " Estar por Fora "
Edita em Antologias de Poesia
Escreve em Jornais
Referido no Livro :
"Setúbal Terra de Poetas e Cantadores"
Membro fundador :
Grupo Teatro " Teia "
Grupo Teatro " Sobe e Desce "
Grupo Teatro " Voces Acesas "
Emissor 225 (1969)
Emissor Regional Setúbal
Cantar José Afonso
Banda do Andarilho
Associação José Afonso
Animador Cultural:
1º Canto Livre-Praias do Sado
1º Livro de Luis Vicente
Estreia "As Horas de Maria"
Homenagem José Afonso
Actor de Teatro Amador
1º Festival de Palhaços( Dedicado ao Palhaço Kinito )Festa ao Pintor Alberto Reis
Cantar José Afonso (8 anos)
Produtor de Espectáculos
Recitais de Poesia
Festa Homenagem ao Dimas
Na Direcção:
Clube Recreativo Palhavã
Circulo Cultural Setúbal
Colaborador :
Em Rádios Locais
Exposições de artes
Exposição de artes em 10 colectividades
Recitais no Café Guarany e Bar Triplex (Porto)
                                                                           NO CAFÉ GUARANY - PORTO


POEMAS de Victor Serra


EM CADA LAÇO QUE EMBARAÇA A TUA PELE


Para : Graça Moura


Nua nas dunas do vento
E na língua de fogo da gruta
Que me engole o mar
Fonte da tua fonte
Em cada gesto


Toco no canto da muralha
Abro no meio da floresta
Num casulo de precipícios
Na mina de todos os lugares


Em cada percurso de linho bordado
São mãos dentro de mim
Em cada laço que embaraça a pele
Tocando o sol onde nasce a luz


E pela ponta dos teus dedos
Bebo o néctar dos teus seios
Para te incendiar cada prazer
Riacho desaguando devagar
Na lua perdida e aberta ao fogo
Victor Serra
11/4/2011






NO BRANCO DA SAUDADE




De pele é a luz do encanto
De sede é o prazer e o horizonte


Por onde me perco e me vou
Na busca da fonte e do tempo perdido


Nos lábios bebo o mel das flores
E nas arpas oiço o silvo do prazer
Quando te perdes e libertas dos silêncios


Vou sempre devagar e lentamente perder-me em ti
Como quem escala e busca uma gruta na montanha
E deixo levar-me pelo corpo nu e belo da entrega


Sinto-me como deus amando o universo e as estrelas
E quando mais te libertas em mim... mais vou voando
Voando como quem voa para o planar no paraíso

É belo acordar no branco do altar e sentir o mosto
Descendo pela brancura dos teus seios
Enquanto o arfar do desejo se encontra nas tuas mãos de fada
E no meu corpo possuído por ti


Leva-me sempre como quem leva uma flôr entre os dentes
Numa dança de me pendurares numa nota de música
E deita-me como quem deita um cristal


Vem trazer-me os dedos e as mãos deslizando em mim
Como quem procura algo que nunca tenha encontrado
E perde-te no mais belo dos prazeres
Victor Serra
27/9/2010
Uma Vida Num Saco Plástico


Coloquei uma vida dentro
Uma dúvida e um beijo
Um pedaço de sol e o teu olhar
Cobri de camisas e peúgos usadas
E coloquei num espaço pequeno
O meu grande amor por ti


Fui dando corda
Aos atacadore dos meus sapatos
E mudei de terra


Já não me deitava com o nascer do sol
Nem ouvia os gatos acordarem ao som dos pássaros


Desfrutava de ameixas vermelhas de prazer
E eras a mais bela de todos os meus amores

Tinha colocado o sonho na lua
E o amor era o que de mais belo acontecia
Nem me lembrava já como era viver sózinho


Trazia-te comigo todos os dias
Embrulhada em baba de camelo
Para te saborear os seios
E fui teu como nunca fui de ninguem


Tinha encontrado os lenços de acordar borboletas
E na cama de linho desfrutavas de mim
Como nunca eu tinha desfrutado de ninguem
Atado com túlipas de beijos


Não me deixes ficar em nenhum saco de plástico
Nem me reduzas a copos de um qualquer bar
Quero encontrar-te todas as noites no meu corpo
E nunca mais ter de mudar os sacos da minha vida
Nem sentir que o espaço não é meu.............
Victor Serra
12/4/2010


ANGÚSTIA


Desfraldo no vento a memória
Hesito em me encontrar com as nuvens
Enrolo-me no pensamento do passado
E vou pelo teu corpo descendo
Para me encontrar na gruta dos pássaros
E pintar de branco a descoberta do sol


Pinto riscos de giz nas dobradiças
Ato os nós das cordas do embaraço
E espero os dias do meu perfil
Nas coxas suadas do horizonte


Só me resta tomar de ti os lábios
Sentir a tua boca e a língua da cobra
No descamisar da pele nas dunas do início
Deste medo que me envolve de perder o jardim


Que lado da noite viajo para te encontrar
Que lado dos templos fica o paraíso
Para onde vai o regresso das camas desertas
De onde me deito e depois me levanto
Para te levar coberta de seda
Como se eu acreditasse em fantasmas


Monta as éguas brancas em direcção
Às angústias
Vai desenhando palavras nas tuas perólas
Trás conchas fechadas de poemas
E desejos em todas as madrugadas
Porque não quero
mais fugir de mim


Victor Serra
10-2-2010



CORPOS


Encontro no teu ventre
O sonho de me perder
E nos teus lábios
Acordo todas as madrugadas


Descendo pela tua pele
E pelo teu corpo
Entendo como se levanta
O vulcão do teu prazer


Rasgo a fúria
De me fechares nas tuas pernas
Enquanto brota de dentro de ti
O rio que leva o néctar
À floresta das túlipas


Somos amantes das cavernas
E das trompas que tocam
Num rufar de pernas e abraços
Deitados no chão das montanhas


Quero possuir-te na concha dos deuses
Em espaços para não adiar o amor
Inventando lugar de encanto
Em camas de todos os prazeres
Víctor Serra,
2009

(Biografia, poemas e fotos do blogue Victor Serra Poeta)




O Victor Serra morreu!

Viva a sofreguidão inadiável de VIVER e de AMAR!

26 de ago de 2011

"Y ahora donde estás, Federico?"

No dia 18 de Agosto de 1936, há precisamente 75 anos (ou segundo as mais recentes investigações no dia 17), nessa madrugada Federico García Lorca era sumariamente fuzilado num posto militar improvisado, em Viznar, nos arredores de Granada.


Foi com emoção que no final dos anos 80 visitei a Casa-Museu, em Fuente Vaqueros, a cerca de 20 km de Granada onde Federico nasceu em finais do século XIX. Mas em Setembro fez também 25 anos, que, por proposta nossa se realizou em Setúbal, em 1986 – 50 anos depois da sua morte – uma Homenagem , onde durante uma semana aconteceu um conjunto de actividades que contou com recitais de música e poesia – p. ex. nos Claustros do Convento de Jesus, um espaço com uma acústica única, aconteceu um recital com dois génios do “ser português: Carlos Paredes e Manuel Alegre. Mas houve também exposições, com a colaboração da Biblioteca Nacional, música e canto interpretando obras musicais da autoria de Federico por um coro local assim como um vasto conjunto de conferências, realizadas diariamente sobre História, Jornalismo, Literatura, Poesia, Teatro, moderadas por Baptista Bastos (que tínhamos convidados, nós e Isabel Fonte Santa, muitos meses antes em Santiago do Cacém, numa sessão com o Manuel da Fonseca) que contaram com nomes maiores da Cultura e das Artes Portuguesas, como o Embaixador Mário Neves – o 1º jornalista a nível internacional, a fazer a reportagem sobre o massacre de Badajoz onde os insurrectos, ao tomarem a cidade às forças leais à República, eleitas democraticamente, fuzilaram tudo e todos os que os que poderiam ter os mais indício de “rojos”, republicanos, intelectuais, artistas, livres-pensadores… Mário Neves, então um jovem jornalista, que correndo sérios riscos de vida, fez a descrição para o Diário de Lisboa. Presentes também Fernando Piteira Santos, David Mourão-Ferreira, Urbano Tavares Rodrigues, Manuel da Fonseca, Blanco Gil, Carlos Porto ou Jorge Listopad, entre outros.
Esta foi muito provavelmente a grande Homenagem que Portugal prestou a esta figura maior da Poesia e do Teatro do mundo Ibérico, incluindo Portugal, de todo o século XX. No início desse ano de 86, um miúdo muito tímido e franzino, propôs ao então Vereador da Cultura do município de Setúbal, eleito pelo efémero PRD, um homem culto e viajado, então correspondente d’ Le Monde em Portugal e neto de um anarquista a quem os franquistas cortaram a língua. O vereador abraçou de imediato a ideia, mas retorquiu. “Eduardo, tu és um puto, e quando eu levar a tua proposta a sessão de Câmara, não me vão levar a sério. . . arranja uma Comissão com meia dúzia de nomes sonantes da cidade para dar credibilidade à coisa e será diferente; assim temos mais hipóteses”. Dias depois já tínhamos uma Comissão constituída por figuras como o encenador Carlos César do TAS (Teatro de Animação de Setúbal) ou o historiador de Arte Fernando António Baptista Pereira, e outros.

Foi um grande êxito. Homenageou-se Lorca com a dignidade devida. Convenci o irredutível Poeta e Amigo José da Fonte Santa a ceder , para o que veio a ser o cartaz oficial, um belo desenho e um dos seus mais belos poemas – conjunto intitulado “Á Memória de Federico García Lorca”, provavelmente um dos mais belos poemas escritos na língua de Camões, que transcrevo:


Uma menina anuncia
num búzio limpo de tempo
que Federico vem chegando
num poema azul
dito por um cigano.

Vem sonhando,
mais leve que uma sombra,
infância seu regresso:
coração verde de pomba
feito verso.

Vem como se fosse:
flor, nascimento,
gesto fresco e puro
ternura encantamento.

II


Quem não é poeta
tenta
mas não inventa
o estar lá
não estando:
sortilégio dado
no momento
em que se mostra
o deslumbramento:
- criança debruçada
no rosto duma pomba
ouvindo uma guitarra
imaginada
ao sabor do vento.
(José da Fonte Santa, 1925-1998, in Magia Alentejana Poesia e Desenhos)

Nessa altura conheci pessoas como Jorge Listopad, que ainda recentemente reencontrei num estreia (“Um eléctrico chamado desejo”) no Teatro Nacional, onde Listopad já nonagenário e debilitado fisicamente, todavia saudou-me efusivamente e com muita amizade. Foi um gesto bonito que muito me sensibilizou deste grande encenador e professor de Teatro, que marcou indelevelmente o último quartel do século XX no Teatro em Portugal – recordo-me das suas encenações soberbas no Teatro da Graça, ou uma produção que realizou na Torre de Belém, de Calderón de la Barca, de que tive o prazer de fazer a reportagem para o DN-Jovem.

Este Homem que é para mim uma grande referência, este Homem renascentista, intelectual despojado e apaixonado pela Vida – nascido em Praga, um dia deixou Paris e abandonou tudo e fixou-se em Portugal por Amor duma mulher .

Fiquei muito emocionado pela forma como Listopad me tratou depois de vários anos sem o ver: tratar com tal respeito e consideração o miúdo, que ainda hoje, embora mais velho, continuo a ser, foi para mim um gesto de tal beleza… só compreendido por quem sabe saborear a utopia, o sonho de realizar as impossibilidades a que o mundo tantas vezes chama de irreversíveis. Hoje, 25 anos depois de ter organizado a 1ª grande realização cultural, emocionado e com a serenidade de um quarto de séculos a perseguir o Sonho e a Beleza, quero partilhar com quem por aqui passar, esse momento mágico, quando iniciei um caminho feito de momentos avassaladores e de longos desertos, entre o riso e o choro, o “paraíso” e o sofrimento, quando percebi que era possível tocar as estrelas, como o guerreiro que trava um combate imenso, permanente e infinito, poderoso, entre o universo, e frágil como a papoila, que se desfolha ao leve toque e cai por terra, indefeso; um guerreiro que precisa da paz e de toda a ternura do mundo, para renascer, dia após dia, combate após combate, até à eternidade…

Mas… queria falar de Federico e estou a falar de mim!!?....



Federico García Lorca, que já “trouxe”a este blogue, essa figura maior do mundo ibérico, Portugal incluído, de todo o século XX, foi um criador , no mais puro sentido da palavra, multifacetado: Poeta, músico, escritor, dramaturgo, actor, encenador. Chamar-lhe génio é pouco! Ele protagonizou com Rafael Alberti, Jorge Guillén, Pedro Salinas, Emilio Prados, Manuel Altolaguirre, Gerardo Diego ou Dámaso Alonso o grupo poético de 1927 ou geração de 1927.

Federico, nascido a 5 de Junho de 1989 em Fuente Vaqueros, primogéntico de um abastado proprietário de terras e da professora da localidade, desde menino demonstrou uma grande vocação artística, estudou música e piano com o maestro e compositor António Seguro Mesa até à sua morte em 1916– e como o pai não lhe permitiu prosseguir os estudos em Paris, a partir de 1917 começou a escrever prosa e poesia. Na Universidade de Granada concluiu o curso de Direito em 1923 mas nunca exerceu. Em 1918 publicou um conjunto de prosas Impresiones y paisagejes sobre localidades que conhecera nos dois anos seguintes em excursões escolares. Entre 1919 e 1928, embora com deslocações assíduas a Granada em Madrid na mítica Residencia de Estudiantes, pertencente à Institucion Libre de Enseñanza, que desde finais do século XIX tinha o objectivo de promover uma cultura laica, onde as ciências e as humanidades se juntavam à literatura e às artes, um projecto de reforma da sociedade espanhola que teve como hóspedes Juan Ramirez Jiménez ou Unamuno, entre muitos. A partir de então realiza a sua obra; da Universidade Granada traz uma carta de Fernando de los Ríos para Juan Ramón Jiménez, então o poeta mais admirado pelos jovens.

Segundo José Bento (Antologia Poética. Federico García Lorca, Relógio d´Água, Lx, 1993) “Excepto o Llanto por Ignacio Sánchez Mejías, os livros de García Lorca foram escritos lentamente, pela sua exigência de inovação, pelos objectivos que ele tinha de acordo com um ambicioso plano global a que cada livro obedecia, fundindo diversos elementos (a poesia tradicional de raiz culta e de procedência popular, o irracionalismo vanguardista, a leveza e a intensidade, o aproveitamento do universo real e mítico que trazia consigo desde a infância).

A escrita de diversos livros é, em parte, simultânea: os projectos e anseios sobrepõem-se, demonstrando insatisfação, avidez, capacidades múltiplas de busca e de realização, mas também perplexidade e incerteza.”

Assim se entende, que por exemplo, ainda segundo o poeta e tradutor José Bento, que por exemplo o livro Poema del cante jondo, escrito em 1921, terá passado por uma demorada recriação, que fez que saísse apenas em 1931.

Com Poeta en Nueva York, Federico afasta-se do mundo andaluz, que tem presença dominante nas Canciones, no Romancero gitano e no Poema del cante jondo, e terá avançado para um novo espaço. Este livro, fruto da estada em Nova Yorque entre Junho de 1929 e Março do ano seguinte, é também, segundo José Bento, opinião de comungamos, também pela sua peculiaridade, uma obra fundamental do surrealismo espanhol. Mas já anteriormente, em Janeiro de 1927, numa carta a Jorge Guillén, Lorca confessava: Está a incomodar-me um pouco “o meu mito” de “ginateria”. Confundem a minha vida e o meu carácter. Não quero de maneira nenhuma. Os ciganos são um tema. E nada mais. […] Além disso, o “gitanismo” dá-me um tom de incultura, de falta de educação e de “poeta selvagem”, que sabes bem que não sou. Não quero que me classifiquem. Sinto que me estão a prender com cadeias. Este livro paradigmático só foi publicado, numa edição bilingue em Nova Yorque, em 1940, devido ao seu desaparecimento prematuro em 1936, quando se estava a ultimar a edição, Lorca deu diversas conferências em 1932:

Madrid, com leitura de versos do livro, Buenos Aires, Montevideu e diversos cidades espanholas. E se os primeiros poemas de um dos seus últimos livros, Diván del Tamarit - de que aqui reproduzimos 4 poemas -, foi escrito entre 1931 e 1934, a sua primeira edição – de que o propósito de editor Gallego Burín era uma edição imediato, tendo começado a trabalhar nela ainda em 1935 e prosseguido até Julho de 1936, que a Guerra Civil interrompeu – saiu em Nova Iorque, em 1940 – nos nºs 3-4, tomo VI, da Revista Hispánica Moderna. Ainda conforme José Bento e cito: Na Nota introdutória de Diván del Tamarit Emílio García Gomez conta que uma noite, estando em Granada com García Lorca e outros amigos, o poeta disse-nos que tinha composto […] uma colecção de “casidas” e “gacelas”, isto é, um “Diván”, que, do nome de uma herdade de sua família, onde muitos deles foram escritos, se chamaria “del Tamarit”. António Gallego Burín, como decano da Faculdade de Letras, pediu-me o manuscrito. […]Eu comprometi-me – perdoe-me o leitor – a escrever estas linhas. Chama-se “casida” em árabe a todo o poema de certa extensão, com determinada arquitectura interior, cujo pormenor não interessa agora, e em versos com uma única rima, medidos de acordo com normas escrupulosamente estereotipadas. A “gacela” – empregada principalmente na lírica persa – é um poema curto, de assunto de preferência erótico, ajustado a determinados cânones técnicos e cujos versos são mais de quatro e menos de quinze. “Diván” é a colecção de composições de um poeta, geralmente catalogadas por ordem alfabética de rimas. Não creio que tenha que dizer-se que as denominações de García Lorca – “diván, gacelas, casidas” – não se ajustam às definições anteriores. Neste sentido, são arbitrárias. […] Os poemas de “Diván del Tamarit” não são falsificações nem arremedos, mas autenticamente lorquianos. Esta reunião foi em Setembro de 1934.“

Depois de o primeiro livro de prosas, já referido, entre 1921 e a sua morte prematura, em 1936, e com a particularidade de uma produção longamente amadurecida, como já referimos, Federico produziu 12 livros de Poesia e 11 peças de Teatro: Yerma, Bodas de sangre, Mariana Pinela, La zapatera prodigiosa, La casa de Bernarda Alba, Amor de Don Perlimplín com Belisa en su jardín, só para citar algumas das mais conhecidas e representadas, sendo que Así que pasen cinco años e público, tiveram edição e representação muito posterior à morte do poeta, tendo a última sido levada à cena em Portugal, na Cornucópia, por Luís Miguel Cintra.

Mas a genialidade de Federico foi além desta intensa e multifacetada actividade intelectual e artística, pois ele , filho-família, sem preocupações económicas e respeitado pelas elites intelectuais e artísticas do seu tempo, não se moveu apenas nos “salões”, pois fundou o Grupo de Teatro itinerante “La Barraca” – que terá dado o mote para a fundação da “Barraca”, em Lisboa, pelo amigo Hélder Costa - com o qual levou o Teatro ao povo, percorrendo uma Espanha ultramontana, católica e conservadora, nesse período fugaz mas certamente luminoso que foi a República Espanhola, que Franco e outros representantes das oligarquias decapitaram com um banho de sangue.

Ele que premonitoriamente como terá dito um dia, que como visionário que era, que trabalhava para os homens do futuro, a sua arte revolucionária era uma arte para o futuro, ele, como José Afonso, tantas vezes incompreendidos no seu tempo. Mesmo as novas descobertas sobre a sua morte e a tentativa frustrada da exumação do corpo de Federico, que poderá ter sido enterrado noutro local, nada alteram, antes pelo contrário, para além da grandeza da sua obra reafirmam a coragem física enfrentando a medriocridade e a mesquinhez que poderá ter concorrido para os seus algozes se autojustificarem, ao bradarem a autoria da sua execução física.

Ele, Federico García Lorca era desmesuradamente grande e avassalador para essas pobres pessoas…

Termino com um “pensamento” de Marguerite Yourcenar, que um dia contemplou a paisagem onde Federico foi assassinado.

“A Serra Nevada perfilhando-se majestosa no horizonte. E disse-me a mim mesma que um lugar como aquele envergonha toda a pacotilha de mármore e de granito que povoa os nossos cemitérios, e que pode invejar o irmão por ter começado a sua morte naquela paisagem de eternidade. Não se pode imaginar mais formosa sepultura para bum poeta.”


... e quatro poemas do livro Diván del Tamarit, Nova Iorque, 1940 (no original)


(Gacela Primera)


Del Amor Imprevisto


Nadie comprendía el perfume
da la oscura magnolia de tu vientre,
Nadie sabía que martirizabas
un colibrí de amor entre los dientes.


Mil cabalitos persas se dormían
en la plaza con luna de tu frente,
mientras que yo enlazaba cuatro noches
tu cintura, enemiga de la nieve.


Entre yeso y jazmines, tu moirada
era un pálido ramo de simientes.
Yo busqué, para darte, por mi pecho
las letras de martíl que dicen 'simpre'.
                                         (excerto)


Gacela IX


Del Amor Maravilhoso


Con todo el yeso
de los malos campos,
eras junco de amor, jazmín mojado.


Con sur y llama
de los malos cielos,
eras rumor de nieve por mi pecho.


Cielos y campos
anudaban cadenas en mis manos.


Campos y cielos
azotaban las llagas de mi cuerpo.

Casida II


Del llanto


He cerrado mo balcón
porque no quiero oír el llanto,
pero por detrás de los grises muros
no se oye otra cosa que el llanto.
Hay muy pocos ángeles que canten,
hay muy pocos perros que ladren,
mil violines caben en la palma de mi mano.
Pero el llanto es un perro inmenso,
el llanto es un ángel inmenso,
el llanto es un violín inmenso,
las lágrimas amordazan al viento,
y no se oye otra cosa que el llanto.


Casida IV


De La Mujer Tendida


Verte desnuda es recordar la Tierra,
la Tierra lisa, limpia de caballos.
La Tierra sin un junco, forma pura
cerrada al porvenir: confín de plata.


Verte desnuda es comprender el ansia
de la lluvia que busca débil talle,
o la fiebre del mar de inmenso rostro
sin encontrar la luz de su mejilla.
                                       (excerto)

11 de ago de 2011

Torre das Águias




(Re)visito demoradamente a Torre das Águias – antigo palácio fortificado com mais de 60 salas, na então Vila das Águias, desanexada do concelho de Coruche em 1361, quando D. Pedro I a doou a Pedro Afonso, e que teve foral no reinado de D. Manuel, em 1519. Hoje propriedade privada, a imponente torre em estado de abandono, situada no extremo sudoeste do actual lugarejo, quase todo desabitado – embora se note uma ou outra tentativa de recuperação, uma ou outra parede caiada – marca a paisagem humanizada de uma forma tão desmesurada, que corta a respiração. Chegado perto afago a pedra centenária, depois afasto-me um pouco para melhor saborear cada pormenor, cada ameia, cada espaço do seu cimo, que vista cá de baixo traz-me a subtileza de abarcar o mundo com um simples e infinito gesto, numa carícia maior que o horizonte.


Revisito demoradamente a Torre das Águias como o berbere nómada que vai, de oásis em oásis, no deserto da vida, de alma simultaneamente calejada e terna, adoçando o olhar na doçura da solidão, no sofrimento que há mil anos lhe a linguagem do vento.

Rever a Torre das Águias é voltar a tempo antiquíssimo quando os homens assinavam com o sangue da honra. É voltar ao presente, é caminhar no futuro, no eterno e terno e efémero momento de plenitude sofregamente sorvido com o horizonte no olhar. É um novo degrau do caminho na certeza do longo caminho a percorrer, encontrado, consolidado em Agmat, quando há 2 anos levei rosas vermelhas para Intimade e Almutâmide. Aqui na Torre das Águias não há rosas (vermelhas) mas a estrada milenar de terra batida tem margens de suaves e imensas amoras roxas, vermelho sangue. Local perfeito para exorcizar o amor e continuar a caminhada rumo ao infinito.

É tempo de renascer!

Que bom é ser livre!

9 de ago de 2011

Em Monte Maior acontece...

Por todo o pais, e nomeadamente pelo Alentejo prosseguem as festividades populares, fim de semana após fim de semana, em que reencontram amigos e familiares emigrados ou na diáspora como aconteceu no último fim de semana de Julho com o Festival da Cerveja no Lavre, ou neste início de Agosto, em S. Geraldo, no Ciborro ou em Foros de Vale de Figueira, esta uma popular festa animada e muito concorrida, onde no sábado, como se pode ver na foto, e conforma a organização, mais de 2.000 pessoas estariam no recinto. Entretanto,. Entre festas populares e festivais de música no litoral, as actividades culturais que não têm por destino as grandes massas e nem servem apenas de puro entretenimento continuam como esta que aqui damos conta, acontecida no dia 30 de Julho, na Galeria 9ocre, em Montemor-o-Novo.



                                                                                                  ...na Galeria 9ocre

A realização, após as palavras de boas vindas de Manuel Casa Branca, o pintor e director ds Galeria 9ocre, iniciou-se cerca das 17:30 horas com a apresentação da Revista Memória Alentejana contou com intervenções do seu director Eduardo M. Raposo e de Francisco Naia, presidente do Centro de Estudos Documentais do Alentejo – entidade detentora da publicação, assim como de alguns colaboradores desta edição, como Etelvina Santos e Manuela Rosa.

Seguiu-se um momento musical protagonizado por Francisco Naia, e, na segunda parte, teve ligar uma apresentação do livro de poesia, em edição bilingue, Silêncio Ensurdecedor, do pintor e poeta elvense Luís Pedras, obra apresentada pelo director da galeria, um momento de poesia por Jesús Sanz Cabeza, terminando com uma intervenção emocionada do autor.

Memória Alentejana e Silêncio Ensurdecedor apresentados
A Revista Memória Alentejana acaba de publicar uma nova edição, o nº duplo 29/30 com o principal caderno temático dedicado a Almada, concelho onde se estima que vivam cerca de 60 mil Alentejanos e descendentes, mais do que a cidade mais populosa do Alentejo, Évora. O outro caderno foca o centenário do nascimento de Manuel da Fonseca, com textos de Vítor Proença, Artur Fonseca, Urbano Tavares Rodrigues, António Chainho, Hélder Costa, Eduardo Dâmaso e Eduardo M. Raposo – director da publicação.

Uma grande entrevista a João Cordovil, presidente da CCRDAlentejo, assim como a Manuel Macaísta Malheiros, ex-Governador Civil de Setúbal e José Gonçalves, Presidente dos SMAS de Almada e Vice-Presidente do Município, naturais respectivamente de Alcácer e do Torrão, são outros aspectos de interesse, assim como artigos de memória de um militar do 25 de Abril, Coronel Andrade da Silva e outro sobre o PREC, do director da semanário Folha de Montemor.

Crónicas sobre plantas medicinais, gastronomia, mercados, a cal, transportes regionais, as jornadas literárias de Montemor, vinhos e construção tradicional (estes dois últimos de João Pereira Santos, de Serpa), ou os Mestres José Salgueiro e António Tomé – de Castro Verde, que completou 100 anos, bem como textos sobre realizações do CEDA – entidade que publica a revista – nomeadamente as comemorações do Centenário da República, que co-realizou em Beja, Aljustrel, Mina de S. Domingos, Setúbal e Lisboa (Casa do Alentejo) e um texto, em separata, de evocação de um antigo companheiro fundador e da direcção do CEDA recentemente desaparecida, Manuel Sobral Bastos, casado com a eborense Maria Amélia Sobral Bastos, completam esta que é a maior edição da revista, com113 páginas, em 10 anos de existência, onde encontramos ainda nove páginas dedicadas à divulgação de livros, discos e outros eventos que interessam ao Alentejo.

A Revista, que foi lançada em Almada, no Auditório do Feijó, com a presença de algumas das figuras referidas, a 18 de Junho, foi posteriormente apresentada na Funcheira, a 23 de Julho – no âmbito das comemorações do Centenário desta estação ferroviária. Na região está à venda nas livrarias Nazareth, em Évora, e Fonte das Letras em Montemor-o-Novo e é distribuída para as bibliotecas municipais e associações culturais dos municípios alentejanos.

Francisco Naia, cantor do Sul


Francisco Naia é um intérprete, cantautor e compositor que tem vindo sobretudo na última década - com a realização de inúmeros espectáculos e edição de dois discos - a manter viva a chama da ligação às raízes para muitos dos Alentejanos e Alentejanas que se encontram radicados na Área Metropolitana de Lisboa – são cerca de 500 mil - e nomeadamente na Margem Sul. Mas sobretudo o que o caracteriza é uma excelente e inigualável voz de tenor e é conhecido de muitos montemorenses, pois em 2002 e 2010 actuou no Auditório da Biblioteca Almeida Faria, no âmbito das comemorações do 25 de Abril, respectivamente com os espectáculos “Canto de Intervenção” e “José Afonso – o Canto da Utopia”, que apresentamos e temos co-autoria.

Silêncio Ensurdecedor, de Luís Pedras


Nesta sessão interpretou alguns temas do Cancioneiro Popular e improvisou “sem rede” um poema do livro um destaque, para deleite do autor e de todos os presentes.

A intervenção principal sobre o livro ficou a cargo de Manuel Casa Branca que o comparou a um diário gráfico, instrumento importante para o trabalho diário do pintor, pois é usado para este registar as suas observações e os pensamentos: “Luís Pedras acaba por fazer o mesmo com o seu livro de Poesia, pois é ali que regista as suas emoções do quotidiano numa espiral criativa que deambula também pela pintura, mas acima de tudo, na cerâmica, que é o lado mas estrutural da sua criação.”

O autor encerrou a sessão com palavras emocionados, agradecendo a todos os presentes a forma calorosa como receberam o seu trabalho e muito especialmente ao Manuel Casa Branca, mas também ao director da Memória Alentejana e ao Francisco Naia, pela surpresa com que o presenteou ao musicar de improviso um seu poema.

Na ocasião estiveram patentes trabalhos de pintura e cerâmica de Luís Pedras.

Foi uma tarde bonita e esperamos que outras sessões desta índole voltem a acontecer na Galeria 9ocre.

Terminamos com o poema “Alentejo”, aquele onde encontramos uma mais profundo respiração nesta livro...

Alentejo



Paredes nuas, casas caiadas, montes, vales e planícies,
Luz intensa, calor sufocante, paisagem divina apaixonante…
Vestes negras, mãos calejadas, olhares escondidos intrigantes,
hó Alentejo. Hó Alentejo enfatuado, quimera do silêncio ensurdecedor…
que me asfixias, que me sufocas, no teu abraço lento,
que me atormentas com teus mitos fantásticos e misteriosos…
que me inspiras vaidade e eloquência,
hó Alentejo, hó Alentejo quimérico,
Alentejo de sonhos e paixões, de cansaço e sofrimento,
Vejo-te oculto como um deserto, vejo-te luxuriante como um oásis
Olhares escondidos, lágrimas, brotam dessas nascentes inexoráveis
O teu sabor insólito, a seca, o pousio forçado,
a emancipação eternamente contida e “olvidada”,
hó Alentejo, hó Alentejo dos trigais e poemas errantes
das tradições e vivencias deslumbrantes, das planícies douradas e verdejantes
hó Alentejo, hó Alentejo
Tanto que te quero, tanto que te adoro e venero
Que já não sei mesmo se te amo ou odeio
hó Alentejo, hó Alentejo quimera do silêncio ensurdecedor…

1 de ago de 2011

Funcheira e o Campo Branco ou o regresso ao tempo inicial...

No passado dia 23 voltei a Funcheira. Voltei à casa onde nasci e de onde, aos 5 anos fui lançado no caminho da diáspora e da perda da plenitude desses tempos longínquos e perfeitos.

Apetecia-me voltar a embrenhar-me nas verdejantes hortas que bordejavam a ribeira e que quase desapareceram, apetecia-me saborear de novo as colinas fronteiras à Estação ferroviária – que um dia, adolescente, ao passar vindo do Algarve pressenti as mais belas colinas do mundo em forma de suaves seios amendoados; apetecia-me voltar a rodopiar na Sala de Espera como fazia aos 2 anos, quando no meio de uma roda de jovens – presumo que estudantes que deambulavam ao Algarve – descobri aquele palco como o centro do mundo, do meu pequeno e imenso mundo – numa estação transbordante de azáfama, entroncamento das linhas do Sado, vindas de Setúbal, do Sul, vindas do Barreiro/Lisboa, por Beja e do Algarve, estação hoje moribunda e envelhecida como muitos montes e lugares do Alentejo.


Apetecia-me o riso claro dos jovens que eram então os meus pais, as gargalhadas da minha mãe, que penso que a diáspora também fez desaparecer – embora ela nem se tenha apercebido; apetecia-me as vozes dos insectos, das rãs e das cigarras – a que um dia chamei de “o meu pássaro”, das noites estreladas ou negras de breu e da lua que me atraía irremediavelmente e a voz duma menina que me falava de longe, da solidão da soleira da sua porta, do outro lado do mundo.


Então era feliz e depois parti e só muitos luas depois reencontrei de novo os espaços imensos de plenitude que fizeram de mim, menino-homem, eterno construtor de utopias, num léxico onde a palavra impossível não existe.



Só muito depois voltei a reencontrar-me nos espaços como aqueles que percorri no dia seguinte, no Campo Branco, árido e despido no Concelho de Ourique, entre Panóias, Messejana, Alcarias, Conceição e Estação de Ourique-Gare, este já no Concelho de Castro Verde, onde fui (re)encontrar na sua venda, o Café Primavera, a D. Mariana Maria, famosa cantadeira de baldão, octogenária e triste – temporiariamente sem cantar devido à morte de um filha, como nos disse.

Apetecia-me ficar sozinho com a emoção que acabei por esconder, mas naquele dia, como que por magia havia muitas dezenas, centenas até de pessoas no Largo grande da Funcheira. Comemorava-se os 100 anos de inauguração da Estação da Funcheira.



Formou-se uma Comissão Organizadora – Comissão de Festas da Funcheira - para o efeito, com patrícias(os) muito simpáticas (os), da qual destaco a nossa interlocutora, a Flávia Gouveia – também ela filha de um ferroviário, Francisco José - a quem acedemos através do nosso amigo Poeta e Escritor Vítor Encarnação.


Do programa, extenso e diversificado, entre actividades lúdicas e gastronómicas destacava-se uma exposição documental e o lançamento do livro Funcheira Tesouro Perdido dos Caminhos-de-Ferro,do jovem investigador Miguel de Góis Silva, que nos transporta a uma viagem, ainda que sucinta, muito sentida e esclarecedora.

Na ocasião tivemos também oportunidade de fazer uma apresentação da última
edição da Revista Memória Alentejana, bem como uma mostra dos vários números da colecção e em especial o dedicado a Ourique (2002), como se pode ver na imagem, onde estamos com o Amigo Domingos Montemor, velho companheiro destas lides por terras transtaganas. Relativamente ao livro, que já tive oportunidade de ler e aprender, como por exemplo que o topónimo «Funcheira» terá a mesma origem que «Funchal», ou seja deriva de um lugar onde existe muito funcho, o Foeniculum vulgare Miller, uma erva vivaz da Família das Umbelíferas, mas por outro lado o topónimo «Garvão» - povoação com ocupação humana desde a 2ªmetade do séc. III a.C., a sua origem várias hipóteses: no hidrónimo celta «garv», que significa «áspero» e seria o nome dado à ribeira que ali começa; ou “numa sucessão de corruptelas da palavra árabe «casbah» (fortificação em sítios altos) ou numa união de «Gharb» (»Ocidente») com o termo «wan», associado a famílias, como aconteceu com Marvão. Mais vulgarmente diz-se que «Garvão» se julga ser originário do étimo árabe ou berbere «garbon» que quer dizer «corvo».”, como refere o autor. Mas quem não ouviu já falar da Feira de Garvão, ou pelo menos a sua referência no belo tema de tradição popular, “Laurinda”, interpretado pelo Vitorino?
Seja como for, estão de parabéns o autor e a Comissão de Festas da Funcheira, responsável pela edição, e também uma referência às entidades que apoiaram – Municipio de Ourique, Junta de Freguesia de Garvão, Refer e CP.

Sobre a Estação da Funcheira, escreve o autor: “E que estação!”, descrevendo em seguida os vários elementos, desde as três plataformas, os dois elegantes armazéns, os depósitos de água, os dois magníficos pavilhões com dois pisos - para albergar os ferroviários e suas famílias, a giratória – onde as máquinas faziam a inversão da marcha, as casas da companhia “(…)e, claro, o monumental edifício principal a que as gentes da serra chamam «Casa da Espera». De facto, é este o centro de todas as atenções, um belo prédio com um corpo central de três pisos e dois laterais com dois cada, dotado de óptimas cantarias, azulejos e trabalhos de massa e metal e um curioso telhado de mansarda cujas telhas imitam vieiras em cerâmica. Diz-se que não há outro igual ou parecido em Portugal e, de facto, apesar de existirem centenas de estações, não consegui descobrir uma que se assemelhasse a esta. É única e bonita. Só a estação em si era motivo de orgulho dos locais e razão para que muitos ferroviários lá quisessem trabalhar.”

De facto, deixa água na boca esta descrição.
Para eventuais interessados - para aquisição do trabalho ou outros - aqui fica o contacto do autor: migasdeportugal@gmail.com.