10 de nov de 2011

A propósito das insígnias de Doutor ou o direito à indignação/à dignidade

Depois de uma longa ausência - devido a momentos atribulados - que espero não se repita, regresso ao V/ convívio para vos dar conta de um acto onde participei no passado dia 2 de Novembro: a imposição das insígnias de Doutor, onde também houve a entrega de diplomas a alunos de mérito bem como a vencedores de diversos prémios, desde investigação, empreendedorismo, fotografia, desporto, etc., tudo isto no âmbito do Dia da Nova, refiro-me à Universidade Nova de Lisboa, onde várias dezenas de antigos e actuais alunos receberam as respectivas distinções.

Numa cerimónia com todas as formalidades, com o respectivo corpo académico trajando a rigor – com as respectivas togas e cores de cada uma das faculdades que dirigem, assim como os respectivos departamentos, mas também os Pro-Reitores, Vice e antigo Reitor, Administradores, Presidente do Conselho Geral (PCG) e claro, o Reitor, com o Presidente a dirigir a sessão numa mesa onde quem apenas estava à “civil” era o Secretário de Estado do Ensino Superior e, onde não faltavam, no anfiteatro reservado aos convidados, representantes dos três ramos das Forças Armadas, da GNR e da PSP.

O PCG, Eduardo Arantes de Oliveira abriu a sessão, que terminou com uma intervenção muito humanista do Reitor, António Rendas, que é simultaneamente Presidente do Conselho de Reitores. Na cerimónia, usaram ainda da palavra o Director do Expresso, Ricardo Costa, o representante do Conselho de Alunos, Diogo Pereira e António Barreto, a quem coube a intervenção de fundo, convidado para o efeito, tendo de facto dissecado o papel da Academia e as relações, ou falta destas, com o mundo exterior, lamentando perca da cultura humanista Académica nas últimas duas décadas, em prol da ciência, inclusive fazendo propostas inovadoras (que o Reitor, enquanto presidente do Conselho prometeu fazer chegar aos seus pares). Barreto, com a argúcia e a capacidade analítica que lhe é reconhecida neste âmbito académico que domina com uma excelência certamente muito diversa dos temas agrícolas, fez uma intervenção brilhante.
E eu, filho de um ferroviário com a 4ª classe (quase parafraseando José Saramago) “um dos homens cultos que conheço”, e esteve lá. Senti nesse dia o meu esforço reconhecido, o meu trabalho por vezes tão árduo, sobretudo nas palavras do Reitor, muito simpáticas, expressivas e de alento para os novos doutores; para continuarmos a enfrentar os novos desafios e a darmos o nosso melhor contributo à Universidade e ao país. Mas depois comecei a pensar a frio, já fora daquele meio elitista: de que me servem estas distinções cá fora – neste mundo real e “cão”, onde não me coíbo de tentar realizar diariamente as utopias que idealizo; e tenho vindo a realizar algumas, pois tenho tido a felicidade de encontrar interlocutores à altura – Homens e Mulheres de cultura, sensibilidade, verticalidade e dignidade – como tem vindo a acontecer, nomeadamente em algumas cidades e vilas alentejanas (mas não só), deste nosso Alentejo amado, e honra lhe seja feita, neste município de Abril, onde não obstante as dificuldades e certamente alguns possíveis os erros (inerentes ao ser humano), neste município onde diariamente aprofundam a democracia e o espírito do 25 de Abril.

É evidente que estas distinções não deixam de dar algum alento a quem luta diariamente para manter a dignidade, para não soçobrar, desistir… neste mundo em radicais transformações, onde dia após dia são postas em causa conquistas da civilização e do humanismo quer remontam, pelo menos e em muitos casos, ao início do século XX, dirigida por gente sem escrúpulos.

Neste país de Abril onde o rudimentar Estado social está a ser sistematicamente destruído – depois de o terem sido as forças produtivas: agricultura, pescas, indústria, etc, às ordens de Bruxelas. O que permanece indestrutível é a imensa obra transformadora do Poder local – os equipamentos culturais, desportivos, educativos, de lazer mudaram a face desta país; e quem como eu, com apetência de leitura, viveu no início de 70 fora das grandes cidades, como não recordar as saudosas bibliotecas itinerantes Gulbenkian, as saudosas carrinhas que semanalmente nos traziam a magia de descobrir novos mundos, naqueles mundos, por vezes tão pouco coloridos, para não dizer cinzentos. E pois uma conquista civilizacional que tem a ver com a nossa identidade secular e milenar de Nação mais antiga da Europa, o municipalismo desde a romanização, o período islâmico, etc. A nossa identidade, a nossa auto-estima enquanto comunidade, é algo que não poderemos permitir o desaparecimento. As autarquias são verdadeiros esteios da democracia, da harmonização da vida comunitária.

O que nos resta? resta-nos resistir, resta-nos indignar! Resta-nos talvez lutar, unido-nos, perante uma escassa, reduzidíssima minoria, representante do capitalismo especulativo, financeiro. Para isso ser possível é necessário a tolerância para unir esforços, sem sectarismos, onde, quem se revê nos valores do humanismo, nos valores civilizacionais, conquistados, mas também a conquistar (do meio ambiente, da natureza, do futuro), pois desde há muitas décadas certamente Marx não estava tão actual… mas permitir também que uma certa classe que vingou à sombra da democracia, que conquistou cargos e “tachos” no aparelho de Estado, tantas vezes à sombra dos ideais de Abril, à sombra da acção altruísta, da abnegação de Homens e Mulheres que construíram primeiros anos da democracia, ideais que esta classe tem maltratado, espezinhado, enxovalhado, e que provoca em cidadãos menos informados impensáveis ímpetos saudosistas…

Que é necessário, é preciso indignar-nos, não restam dúvidas. Mas será que as forças da ordem, os seus elementos também sacrificados com a crise, será que irão reprimir os indignados ou também se irão indignar, como seres humanos que são?

E as Forças Armadas, estarão novamente ao lado do povo, como aconteceu mas transformações político-civilizacionais – 5 de Outubro, 25 de Abril – como o Tenente-Coronel Vasco Lourenço recentemente referia?

Termino com um poema-canção que tanta nos direcciona para a luta, para a indignação.


“Os Vampiros” de José Afonso

"No céu cinzento / Sob o astro mudo / Batendo as asas / Pela noite calada / Vêm em bandos / Com pés de veludo / Chupar o sangue / Fresco da manada

Se alguém se engana / Com seu ar sisudo / E lhes franqueia / As portas à chegada / Eles comem tudo / Eles comem tudo / Eles comem tudo / E não deixam nada

São os mordomos / Do universo todo / Senhores à força / Mandadores sem lei / Enchem as tulhas / Bebem vinho novo / Dançam a ronda / No pinhal do rei

Eles comem tudo / Eles comem tudo / Eles comem tudo / E não deixam nada"

(Do LP "Dr. José Afonso em Baladas de Coimbra", 1963)

Um comentário:

Guaraciaba Perides disse...

José Afonso é bastante lúcido na crítica do social e pode ser estendido por toda história da humanidade.Um abraço