26 de ago de 2011

"Y ahora donde estás, Federico?"

No dia 18 de Agosto de 1936, há precisamente 75 anos (ou segundo as mais recentes investigações no dia 17), nessa madrugada Federico García Lorca era sumariamente fuzilado num posto militar improvisado, em Viznar, nos arredores de Granada.


Foi com emoção que no final dos anos 80 visitei a Casa-Museu, em Fuente Vaqueros, a cerca de 20 km de Granada onde Federico nasceu em finais do século XIX. Mas em Setembro fez também 25 anos, que, por proposta nossa se realizou em Setúbal, em 1986 – 50 anos depois da sua morte – uma Homenagem , onde durante uma semana aconteceu um conjunto de actividades que contou com recitais de música e poesia – p. ex. nos Claustros do Convento de Jesus, um espaço com uma acústica única, aconteceu um recital com dois génios do “ser português: Carlos Paredes e Manuel Alegre. Mas houve também exposições, com a colaboração da Biblioteca Nacional, música e canto interpretando obras musicais da autoria de Federico por um coro local assim como um vasto conjunto de conferências, realizadas diariamente sobre História, Jornalismo, Literatura, Poesia, Teatro, moderadas por Baptista Bastos (que tínhamos convidados, nós e Isabel Fonte Santa, muitos meses antes em Santiago do Cacém, numa sessão com o Manuel da Fonseca) que contaram com nomes maiores da Cultura e das Artes Portuguesas, como o Embaixador Mário Neves – o 1º jornalista a nível internacional, a fazer a reportagem sobre o massacre de Badajoz onde os insurrectos, ao tomarem a cidade às forças leais à República, eleitas democraticamente, fuzilaram tudo e todos os que os que poderiam ter os mais indício de “rojos”, republicanos, intelectuais, artistas, livres-pensadores… Mário Neves, então um jovem jornalista, que correndo sérios riscos de vida, fez a descrição para o Diário de Lisboa. Presentes também Fernando Piteira Santos, David Mourão-Ferreira, Urbano Tavares Rodrigues, Manuel da Fonseca, Blanco Gil, Carlos Porto ou Jorge Listopad, entre outros.
Esta foi muito provavelmente a grande Homenagem que Portugal prestou a esta figura maior da Poesia e do Teatro do mundo Ibérico, incluindo Portugal, de todo o século XX. No início desse ano de 86, um miúdo muito tímido e franzino, propôs ao então Vereador da Cultura do município de Setúbal, eleito pelo efémero PRD, um homem culto e viajado, então correspondente d’ Le Monde em Portugal e neto de um anarquista a quem os franquistas cortaram a língua. O vereador abraçou de imediato a ideia, mas retorquiu. “Eduardo, tu és um puto, e quando eu levar a tua proposta a sessão de Câmara, não me vão levar a sério. . . arranja uma Comissão com meia dúzia de nomes sonantes da cidade para dar credibilidade à coisa e será diferente; assim temos mais hipóteses”. Dias depois já tínhamos uma Comissão constituída por figuras como o encenador Carlos César do TAS (Teatro de Animação de Setúbal) ou o historiador de Arte Fernando António Baptista Pereira, e outros.

Foi um grande êxito. Homenageou-se Lorca com a dignidade devida. Convenci o irredutível Poeta e Amigo José da Fonte Santa a ceder , para o que veio a ser o cartaz oficial, um belo desenho e um dos seus mais belos poemas – conjunto intitulado “Á Memória de Federico García Lorca”, provavelmente um dos mais belos poemas escritos na língua de Camões, que transcrevo:


Uma menina anuncia
num búzio limpo de tempo
que Federico vem chegando
num poema azul
dito por um cigano.

Vem sonhando,
mais leve que uma sombra,
infância seu regresso:
coração verde de pomba
feito verso.

Vem como se fosse:
flor, nascimento,
gesto fresco e puro
ternura encantamento.

II


Quem não é poeta
tenta
mas não inventa
o estar lá
não estando:
sortilégio dado
no momento
em que se mostra
o deslumbramento:
- criança debruçada
no rosto duma pomba
ouvindo uma guitarra
imaginada
ao sabor do vento.
(José da Fonte Santa, 1925-1998, in Magia Alentejana Poesia e Desenhos)

Nessa altura conheci pessoas como Jorge Listopad, que ainda recentemente reencontrei num estreia (“Um eléctrico chamado desejo”) no Teatro Nacional, onde Listopad já nonagenário e debilitado fisicamente, todavia saudou-me efusivamente e com muita amizade. Foi um gesto bonito que muito me sensibilizou deste grande encenador e professor de Teatro, que marcou indelevelmente o último quartel do século XX no Teatro em Portugal – recordo-me das suas encenações soberbas no Teatro da Graça, ou uma produção que realizou na Torre de Belém, de Calderón de la Barca, de que tive o prazer de fazer a reportagem para o DN-Jovem.

Este Homem que é para mim uma grande referência, este Homem renascentista, intelectual despojado e apaixonado pela Vida – nascido em Praga, um dia deixou Paris e abandonou tudo e fixou-se em Portugal por Amor duma mulher .

Fiquei muito emocionado pela forma como Listopad me tratou depois de vários anos sem o ver: tratar com tal respeito e consideração o miúdo, que ainda hoje, embora mais velho, continuo a ser, foi para mim um gesto de tal beleza… só compreendido por quem sabe saborear a utopia, o sonho de realizar as impossibilidades a que o mundo tantas vezes chama de irreversíveis. Hoje, 25 anos depois de ter organizado a 1ª grande realização cultural, emocionado e com a serenidade de um quarto de séculos a perseguir o Sonho e a Beleza, quero partilhar com quem por aqui passar, esse momento mágico, quando iniciei um caminho feito de momentos avassaladores e de longos desertos, entre o riso e o choro, o “paraíso” e o sofrimento, quando percebi que era possível tocar as estrelas, como o guerreiro que trava um combate imenso, permanente e infinito, poderoso, entre o universo, e frágil como a papoila, que se desfolha ao leve toque e cai por terra, indefeso; um guerreiro que precisa da paz e de toda a ternura do mundo, para renascer, dia após dia, combate após combate, até à eternidade…

Mas… queria falar de Federico e estou a falar de mim!!?....



Federico García Lorca, que já “trouxe”a este blogue, essa figura maior do mundo ibérico, Portugal incluído, de todo o século XX, foi um criador , no mais puro sentido da palavra, multifacetado: Poeta, músico, escritor, dramaturgo, actor, encenador. Chamar-lhe génio é pouco! Ele protagonizou com Rafael Alberti, Jorge Guillén, Pedro Salinas, Emilio Prados, Manuel Altolaguirre, Gerardo Diego ou Dámaso Alonso o grupo poético de 1927 ou geração de 1927.

Federico, nascido a 5 de Junho de 1989 em Fuente Vaqueros, primogéntico de um abastado proprietário de terras e da professora da localidade, desde menino demonstrou uma grande vocação artística, estudou música e piano com o maestro e compositor António Seguro Mesa até à sua morte em 1916– e como o pai não lhe permitiu prosseguir os estudos em Paris, a partir de 1917 começou a escrever prosa e poesia. Na Universidade de Granada concluiu o curso de Direito em 1923 mas nunca exerceu. Em 1918 publicou um conjunto de prosas Impresiones y paisagejes sobre localidades que conhecera nos dois anos seguintes em excursões escolares. Entre 1919 e 1928, embora com deslocações assíduas a Granada em Madrid na mítica Residencia de Estudiantes, pertencente à Institucion Libre de Enseñanza, que desde finais do século XIX tinha o objectivo de promover uma cultura laica, onde as ciências e as humanidades se juntavam à literatura e às artes, um projecto de reforma da sociedade espanhola que teve como hóspedes Juan Ramirez Jiménez ou Unamuno, entre muitos. A partir de então realiza a sua obra; da Universidade Granada traz uma carta de Fernando de los Ríos para Juan Ramón Jiménez, então o poeta mais admirado pelos jovens.

Segundo José Bento (Antologia Poética. Federico García Lorca, Relógio d´Água, Lx, 1993) “Excepto o Llanto por Ignacio Sánchez Mejías, os livros de García Lorca foram escritos lentamente, pela sua exigência de inovação, pelos objectivos que ele tinha de acordo com um ambicioso plano global a que cada livro obedecia, fundindo diversos elementos (a poesia tradicional de raiz culta e de procedência popular, o irracionalismo vanguardista, a leveza e a intensidade, o aproveitamento do universo real e mítico que trazia consigo desde a infância).

A escrita de diversos livros é, em parte, simultânea: os projectos e anseios sobrepõem-se, demonstrando insatisfação, avidez, capacidades múltiplas de busca e de realização, mas também perplexidade e incerteza.”

Assim se entende, que por exemplo, ainda segundo o poeta e tradutor José Bento, que por exemplo o livro Poema del cante jondo, escrito em 1921, terá passado por uma demorada recriação, que fez que saísse apenas em 1931.

Com Poeta en Nueva York, Federico afasta-se do mundo andaluz, que tem presença dominante nas Canciones, no Romancero gitano e no Poema del cante jondo, e terá avançado para um novo espaço. Este livro, fruto da estada em Nova Yorque entre Junho de 1929 e Março do ano seguinte, é também, segundo José Bento, opinião de comungamos, também pela sua peculiaridade, uma obra fundamental do surrealismo espanhol. Mas já anteriormente, em Janeiro de 1927, numa carta a Jorge Guillén, Lorca confessava: Está a incomodar-me um pouco “o meu mito” de “ginateria”. Confundem a minha vida e o meu carácter. Não quero de maneira nenhuma. Os ciganos são um tema. E nada mais. […] Além disso, o “gitanismo” dá-me um tom de incultura, de falta de educação e de “poeta selvagem”, que sabes bem que não sou. Não quero que me classifiquem. Sinto que me estão a prender com cadeias. Este livro paradigmático só foi publicado, numa edição bilingue em Nova Yorque, em 1940, devido ao seu desaparecimento prematuro em 1936, quando se estava a ultimar a edição, Lorca deu diversas conferências em 1932:

Madrid, com leitura de versos do livro, Buenos Aires, Montevideu e diversos cidades espanholas. E se os primeiros poemas de um dos seus últimos livros, Diván del Tamarit - de que aqui reproduzimos 4 poemas -, foi escrito entre 1931 e 1934, a sua primeira edição – de que o propósito de editor Gallego Burín era uma edição imediato, tendo começado a trabalhar nela ainda em 1935 e prosseguido até Julho de 1936, que a Guerra Civil interrompeu – saiu em Nova Iorque, em 1940 – nos nºs 3-4, tomo VI, da Revista Hispánica Moderna. Ainda conforme José Bento e cito: Na Nota introdutória de Diván del Tamarit Emílio García Gomez conta que uma noite, estando em Granada com García Lorca e outros amigos, o poeta disse-nos que tinha composto […] uma colecção de “casidas” e “gacelas”, isto é, um “Diván”, que, do nome de uma herdade de sua família, onde muitos deles foram escritos, se chamaria “del Tamarit”. António Gallego Burín, como decano da Faculdade de Letras, pediu-me o manuscrito. […]Eu comprometi-me – perdoe-me o leitor – a escrever estas linhas. Chama-se “casida” em árabe a todo o poema de certa extensão, com determinada arquitectura interior, cujo pormenor não interessa agora, e em versos com uma única rima, medidos de acordo com normas escrupulosamente estereotipadas. A “gacela” – empregada principalmente na lírica persa – é um poema curto, de assunto de preferência erótico, ajustado a determinados cânones técnicos e cujos versos são mais de quatro e menos de quinze. “Diván” é a colecção de composições de um poeta, geralmente catalogadas por ordem alfabética de rimas. Não creio que tenha que dizer-se que as denominações de García Lorca – “diván, gacelas, casidas” – não se ajustam às definições anteriores. Neste sentido, são arbitrárias. […] Os poemas de “Diván del Tamarit” não são falsificações nem arremedos, mas autenticamente lorquianos. Esta reunião foi em Setembro de 1934.“

Depois de o primeiro livro de prosas, já referido, entre 1921 e a sua morte prematura, em 1936, e com a particularidade de uma produção longamente amadurecida, como já referimos, Federico produziu 12 livros de Poesia e 11 peças de Teatro: Yerma, Bodas de sangre, Mariana Pinela, La zapatera prodigiosa, La casa de Bernarda Alba, Amor de Don Perlimplín com Belisa en su jardín, só para citar algumas das mais conhecidas e representadas, sendo que Así que pasen cinco años e público, tiveram edição e representação muito posterior à morte do poeta, tendo a última sido levada à cena em Portugal, na Cornucópia, por Luís Miguel Cintra.

Mas a genialidade de Federico foi além desta intensa e multifacetada actividade intelectual e artística, pois ele , filho-família, sem preocupações económicas e respeitado pelas elites intelectuais e artísticas do seu tempo, não se moveu apenas nos “salões”, pois fundou o Grupo de Teatro itinerante “La Barraca” – que terá dado o mote para a fundação da “Barraca”, em Lisboa, pelo amigo Hélder Costa - com o qual levou o Teatro ao povo, percorrendo uma Espanha ultramontana, católica e conservadora, nesse período fugaz mas certamente luminoso que foi a República Espanhola, que Franco e outros representantes das oligarquias decapitaram com um banho de sangue.

Ele que premonitoriamente como terá dito um dia, que como visionário que era, que trabalhava para os homens do futuro, a sua arte revolucionária era uma arte para o futuro, ele, como José Afonso, tantas vezes incompreendidos no seu tempo. Mesmo as novas descobertas sobre a sua morte e a tentativa frustrada da exumação do corpo de Federico, que poderá ter sido enterrado noutro local, nada alteram, antes pelo contrário, para além da grandeza da sua obra reafirmam a coragem física enfrentando a medriocridade e a mesquinhez que poderá ter concorrido para os seus algozes se autojustificarem, ao bradarem a autoria da sua execução física.

Ele, Federico García Lorca era desmesuradamente grande e avassalador para essas pobres pessoas…

Termino com um “pensamento” de Marguerite Yourcenar, que um dia contemplou a paisagem onde Federico foi assassinado.

“A Serra Nevada perfilhando-se majestosa no horizonte. E disse-me a mim mesma que um lugar como aquele envergonha toda a pacotilha de mármore e de granito que povoa os nossos cemitérios, e que pode invejar o irmão por ter começado a sua morte naquela paisagem de eternidade. Não se pode imaginar mais formosa sepultura para bum poeta.”


... e quatro poemas do livro Diván del Tamarit, Nova Iorque, 1940 (no original)


(Gacela Primera)


Del Amor Imprevisto


Nadie comprendía el perfume
da la oscura magnolia de tu vientre,
Nadie sabía que martirizabas
un colibrí de amor entre los dientes.


Mil cabalitos persas se dormían
en la plaza con luna de tu frente,
mientras que yo enlazaba cuatro noches
tu cintura, enemiga de la nieve.


Entre yeso y jazmines, tu moirada
era un pálido ramo de simientes.
Yo busqué, para darte, por mi pecho
las letras de martíl que dicen 'simpre'.
                                         (excerto)


Gacela IX


Del Amor Maravilhoso


Con todo el yeso
de los malos campos,
eras junco de amor, jazmín mojado.


Con sur y llama
de los malos cielos,
eras rumor de nieve por mi pecho.


Cielos y campos
anudaban cadenas en mis manos.


Campos y cielos
azotaban las llagas de mi cuerpo.

Casida II


Del llanto


He cerrado mo balcón
porque no quiero oír el llanto,
pero por detrás de los grises muros
no se oye otra cosa que el llanto.
Hay muy pocos ángeles que canten,
hay muy pocos perros que ladren,
mil violines caben en la palma de mi mano.
Pero el llanto es un perro inmenso,
el llanto es un ángel inmenso,
el llanto es un violín inmenso,
las lágrimas amordazan al viento,
y no se oye otra cosa que el llanto.


Casida IV


De La Mujer Tendida


Verte desnuda es recordar la Tierra,
la Tierra lisa, limpia de caballos.
La Tierra sin un junco, forma pura
cerrada al porvenir: confín de plata.


Verte desnuda es comprender el ansia
de la lluvia que busca débil talle,
o la fiebre del mar de inmenso rostro
sin encontrar la luz de su mejilla.
                                       (excerto)

11 de ago de 2011

Torre das Águias




(Re)visito demoradamente a Torre das Águias – antigo palácio fortificado com mais de 60 salas, na então Vila das Águias, desanexada do concelho de Coruche em 1361, quando D. Pedro I a doou a Pedro Afonso, e que teve foral no reinado de D. Manuel, em 1519. Hoje propriedade privada, a imponente torre em estado de abandono, situada no extremo sudoeste do actual lugarejo, quase todo desabitado – embora se note uma ou outra tentativa de recuperação, uma ou outra parede caiada – marca a paisagem humanizada de uma forma tão desmesurada, que corta a respiração. Chegado perto afago a pedra centenária, depois afasto-me um pouco para melhor saborear cada pormenor, cada ameia, cada espaço do seu cimo, que vista cá de baixo traz-me a subtileza de abarcar o mundo com um simples e infinito gesto, numa carícia maior que o horizonte.


Revisito demoradamente a Torre das Águias como o berbere nómada que vai, de oásis em oásis, no deserto da vida, de alma simultaneamente calejada e terna, adoçando o olhar na doçura da solidão, no sofrimento que há mil anos lhe a linguagem do vento.

Rever a Torre das Águias é voltar a tempo antiquíssimo quando os homens assinavam com o sangue da honra. É voltar ao presente, é caminhar no futuro, no eterno e terno e efémero momento de plenitude sofregamente sorvido com o horizonte no olhar. É um novo degrau do caminho na certeza do longo caminho a percorrer, encontrado, consolidado em Agmat, quando há 2 anos levei rosas vermelhas para Intimade e Almutâmide. Aqui na Torre das Águias não há rosas (vermelhas) mas a estrada milenar de terra batida tem margens de suaves e imensas amoras roxas, vermelho sangue. Local perfeito para exorcizar o amor e continuar a caminhada rumo ao infinito.

É tempo de renascer!

Que bom é ser livre!

9 de ago de 2011

Em Monte Maior acontece...

Por todo o pais, e nomeadamente pelo Alentejo prosseguem as festividades populares, fim de semana após fim de semana, em que reencontram amigos e familiares emigrados ou na diáspora como aconteceu no último fim de semana de Julho com o Festival da Cerveja no Lavre, ou neste início de Agosto, em S. Geraldo, no Ciborro ou em Foros de Vale de Figueira, esta uma popular festa animada e muito concorrida, onde no sábado, como se pode ver na foto, e conforma a organização, mais de 2.000 pessoas estariam no recinto. Entretanto,. Entre festas populares e festivais de música no litoral, as actividades culturais que não têm por destino as grandes massas e nem servem apenas de puro entretenimento continuam como esta que aqui damos conta, acontecida no dia 30 de Julho, na Galeria 9ocre, em Montemor-o-Novo.



                                                                                                  ...na Galeria 9ocre

A realização, após as palavras de boas vindas de Manuel Casa Branca, o pintor e director ds Galeria 9ocre, iniciou-se cerca das 17:30 horas com a apresentação da Revista Memória Alentejana contou com intervenções do seu director Eduardo M. Raposo e de Francisco Naia, presidente do Centro de Estudos Documentais do Alentejo – entidade detentora da publicação, assim como de alguns colaboradores desta edição, como Etelvina Santos e Manuela Rosa.

Seguiu-se um momento musical protagonizado por Francisco Naia, e, na segunda parte, teve ligar uma apresentação do livro de poesia, em edição bilingue, Silêncio Ensurdecedor, do pintor e poeta elvense Luís Pedras, obra apresentada pelo director da galeria, um momento de poesia por Jesús Sanz Cabeza, terminando com uma intervenção emocionada do autor.

Memória Alentejana e Silêncio Ensurdecedor apresentados
A Revista Memória Alentejana acaba de publicar uma nova edição, o nº duplo 29/30 com o principal caderno temático dedicado a Almada, concelho onde se estima que vivam cerca de 60 mil Alentejanos e descendentes, mais do que a cidade mais populosa do Alentejo, Évora. O outro caderno foca o centenário do nascimento de Manuel da Fonseca, com textos de Vítor Proença, Artur Fonseca, Urbano Tavares Rodrigues, António Chainho, Hélder Costa, Eduardo Dâmaso e Eduardo M. Raposo – director da publicação.

Uma grande entrevista a João Cordovil, presidente da CCRDAlentejo, assim como a Manuel Macaísta Malheiros, ex-Governador Civil de Setúbal e José Gonçalves, Presidente dos SMAS de Almada e Vice-Presidente do Município, naturais respectivamente de Alcácer e do Torrão, são outros aspectos de interesse, assim como artigos de memória de um militar do 25 de Abril, Coronel Andrade da Silva e outro sobre o PREC, do director da semanário Folha de Montemor.

Crónicas sobre plantas medicinais, gastronomia, mercados, a cal, transportes regionais, as jornadas literárias de Montemor, vinhos e construção tradicional (estes dois últimos de João Pereira Santos, de Serpa), ou os Mestres José Salgueiro e António Tomé – de Castro Verde, que completou 100 anos, bem como textos sobre realizações do CEDA – entidade que publica a revista – nomeadamente as comemorações do Centenário da República, que co-realizou em Beja, Aljustrel, Mina de S. Domingos, Setúbal e Lisboa (Casa do Alentejo) e um texto, em separata, de evocação de um antigo companheiro fundador e da direcção do CEDA recentemente desaparecida, Manuel Sobral Bastos, casado com a eborense Maria Amélia Sobral Bastos, completam esta que é a maior edição da revista, com113 páginas, em 10 anos de existência, onde encontramos ainda nove páginas dedicadas à divulgação de livros, discos e outros eventos que interessam ao Alentejo.

A Revista, que foi lançada em Almada, no Auditório do Feijó, com a presença de algumas das figuras referidas, a 18 de Junho, foi posteriormente apresentada na Funcheira, a 23 de Julho – no âmbito das comemorações do Centenário desta estação ferroviária. Na região está à venda nas livrarias Nazareth, em Évora, e Fonte das Letras em Montemor-o-Novo e é distribuída para as bibliotecas municipais e associações culturais dos municípios alentejanos.

Francisco Naia, cantor do Sul


Francisco Naia é um intérprete, cantautor e compositor que tem vindo sobretudo na última década - com a realização de inúmeros espectáculos e edição de dois discos - a manter viva a chama da ligação às raízes para muitos dos Alentejanos e Alentejanas que se encontram radicados na Área Metropolitana de Lisboa – são cerca de 500 mil - e nomeadamente na Margem Sul. Mas sobretudo o que o caracteriza é uma excelente e inigualável voz de tenor e é conhecido de muitos montemorenses, pois em 2002 e 2010 actuou no Auditório da Biblioteca Almeida Faria, no âmbito das comemorações do 25 de Abril, respectivamente com os espectáculos “Canto de Intervenção” e “José Afonso – o Canto da Utopia”, que apresentamos e temos co-autoria.

Silêncio Ensurdecedor, de Luís Pedras


Nesta sessão interpretou alguns temas do Cancioneiro Popular e improvisou “sem rede” um poema do livro um destaque, para deleite do autor e de todos os presentes.

A intervenção principal sobre o livro ficou a cargo de Manuel Casa Branca que o comparou a um diário gráfico, instrumento importante para o trabalho diário do pintor, pois é usado para este registar as suas observações e os pensamentos: “Luís Pedras acaba por fazer o mesmo com o seu livro de Poesia, pois é ali que regista as suas emoções do quotidiano numa espiral criativa que deambula também pela pintura, mas acima de tudo, na cerâmica, que é o lado mas estrutural da sua criação.”

O autor encerrou a sessão com palavras emocionados, agradecendo a todos os presentes a forma calorosa como receberam o seu trabalho e muito especialmente ao Manuel Casa Branca, mas também ao director da Memória Alentejana e ao Francisco Naia, pela surpresa com que o presenteou ao musicar de improviso um seu poema.

Na ocasião estiveram patentes trabalhos de pintura e cerâmica de Luís Pedras.

Foi uma tarde bonita e esperamos que outras sessões desta índole voltem a acontecer na Galeria 9ocre.

Terminamos com o poema “Alentejo”, aquele onde encontramos uma mais profundo respiração nesta livro...

Alentejo



Paredes nuas, casas caiadas, montes, vales e planícies,
Luz intensa, calor sufocante, paisagem divina apaixonante…
Vestes negras, mãos calejadas, olhares escondidos intrigantes,
hó Alentejo. Hó Alentejo enfatuado, quimera do silêncio ensurdecedor…
que me asfixias, que me sufocas, no teu abraço lento,
que me atormentas com teus mitos fantásticos e misteriosos…
que me inspiras vaidade e eloquência,
hó Alentejo, hó Alentejo quimérico,
Alentejo de sonhos e paixões, de cansaço e sofrimento,
Vejo-te oculto como um deserto, vejo-te luxuriante como um oásis
Olhares escondidos, lágrimas, brotam dessas nascentes inexoráveis
O teu sabor insólito, a seca, o pousio forçado,
a emancipação eternamente contida e “olvidada”,
hó Alentejo, hó Alentejo dos trigais e poemas errantes
das tradições e vivencias deslumbrantes, das planícies douradas e verdejantes
hó Alentejo, hó Alentejo
Tanto que te quero, tanto que te adoro e venero
Que já não sei mesmo se te amo ou odeio
hó Alentejo, hó Alentejo quimera do silêncio ensurdecedor…

1 de ago de 2011

Funcheira e o Campo Branco ou o regresso ao tempo inicial...

No passado dia 23 voltei a Funcheira. Voltei à casa onde nasci e de onde, aos 5 anos fui lançado no caminho da diáspora e da perda da plenitude desses tempos longínquos e perfeitos.

Apetecia-me voltar a embrenhar-me nas verdejantes hortas que bordejavam a ribeira e que quase desapareceram, apetecia-me saborear de novo as colinas fronteiras à Estação ferroviária – que um dia, adolescente, ao passar vindo do Algarve pressenti as mais belas colinas do mundo em forma de suaves seios amendoados; apetecia-me voltar a rodopiar na Sala de Espera como fazia aos 2 anos, quando no meio de uma roda de jovens – presumo que estudantes que deambulavam ao Algarve – descobri aquele palco como o centro do mundo, do meu pequeno e imenso mundo – numa estação transbordante de azáfama, entroncamento das linhas do Sado, vindas de Setúbal, do Sul, vindas do Barreiro/Lisboa, por Beja e do Algarve, estação hoje moribunda e envelhecida como muitos montes e lugares do Alentejo.


Apetecia-me o riso claro dos jovens que eram então os meus pais, as gargalhadas da minha mãe, que penso que a diáspora também fez desaparecer – embora ela nem se tenha apercebido; apetecia-me as vozes dos insectos, das rãs e das cigarras – a que um dia chamei de “o meu pássaro”, das noites estreladas ou negras de breu e da lua que me atraía irremediavelmente e a voz duma menina que me falava de longe, da solidão da soleira da sua porta, do outro lado do mundo.


Então era feliz e depois parti e só muitos luas depois reencontrei de novo os espaços imensos de plenitude que fizeram de mim, menino-homem, eterno construtor de utopias, num léxico onde a palavra impossível não existe.



Só muito depois voltei a reencontrar-me nos espaços como aqueles que percorri no dia seguinte, no Campo Branco, árido e despido no Concelho de Ourique, entre Panóias, Messejana, Alcarias, Conceição e Estação de Ourique-Gare, este já no Concelho de Castro Verde, onde fui (re)encontrar na sua venda, o Café Primavera, a D. Mariana Maria, famosa cantadeira de baldão, octogenária e triste – temporiariamente sem cantar devido à morte de um filha, como nos disse.

Apetecia-me ficar sozinho com a emoção que acabei por esconder, mas naquele dia, como que por magia havia muitas dezenas, centenas até de pessoas no Largo grande da Funcheira. Comemorava-se os 100 anos de inauguração da Estação da Funcheira.



Formou-se uma Comissão Organizadora – Comissão de Festas da Funcheira - para o efeito, com patrícias(os) muito simpáticas (os), da qual destaco a nossa interlocutora, a Flávia Gouveia – também ela filha de um ferroviário, Francisco José - a quem acedemos através do nosso amigo Poeta e Escritor Vítor Encarnação.


Do programa, extenso e diversificado, entre actividades lúdicas e gastronómicas destacava-se uma exposição documental e o lançamento do livro Funcheira Tesouro Perdido dos Caminhos-de-Ferro,do jovem investigador Miguel de Góis Silva, que nos transporta a uma viagem, ainda que sucinta, muito sentida e esclarecedora.

Na ocasião tivemos também oportunidade de fazer uma apresentação da última
edição da Revista Memória Alentejana, bem como uma mostra dos vários números da colecção e em especial o dedicado a Ourique (2002), como se pode ver na imagem, onde estamos com o Amigo Domingos Montemor, velho companheiro destas lides por terras transtaganas. Relativamente ao livro, que já tive oportunidade de ler e aprender, como por exemplo que o topónimo «Funcheira» terá a mesma origem que «Funchal», ou seja deriva de um lugar onde existe muito funcho, o Foeniculum vulgare Miller, uma erva vivaz da Família das Umbelíferas, mas por outro lado o topónimo «Garvão» - povoação com ocupação humana desde a 2ªmetade do séc. III a.C., a sua origem várias hipóteses: no hidrónimo celta «garv», que significa «áspero» e seria o nome dado à ribeira que ali começa; ou “numa sucessão de corruptelas da palavra árabe «casbah» (fortificação em sítios altos) ou numa união de «Gharb» (»Ocidente») com o termo «wan», associado a famílias, como aconteceu com Marvão. Mais vulgarmente diz-se que «Garvão» se julga ser originário do étimo árabe ou berbere «garbon» que quer dizer «corvo».”, como refere o autor. Mas quem não ouviu já falar da Feira de Garvão, ou pelo menos a sua referência no belo tema de tradição popular, “Laurinda”, interpretado pelo Vitorino?
Seja como for, estão de parabéns o autor e a Comissão de Festas da Funcheira, responsável pela edição, e também uma referência às entidades que apoiaram – Municipio de Ourique, Junta de Freguesia de Garvão, Refer e CP.

Sobre a Estação da Funcheira, escreve o autor: “E que estação!”, descrevendo em seguida os vários elementos, desde as três plataformas, os dois elegantes armazéns, os depósitos de água, os dois magníficos pavilhões com dois pisos - para albergar os ferroviários e suas famílias, a giratória – onde as máquinas faziam a inversão da marcha, as casas da companhia “(…)e, claro, o monumental edifício principal a que as gentes da serra chamam «Casa da Espera». De facto, é este o centro de todas as atenções, um belo prédio com um corpo central de três pisos e dois laterais com dois cada, dotado de óptimas cantarias, azulejos e trabalhos de massa e metal e um curioso telhado de mansarda cujas telhas imitam vieiras em cerâmica. Diz-se que não há outro igual ou parecido em Portugal e, de facto, apesar de existirem centenas de estações, não consegui descobrir uma que se assemelhasse a esta. É única e bonita. Só a estação em si era motivo de orgulho dos locais e razão para que muitos ferroviários lá quisessem trabalhar.”

De facto, deixa água na boca esta descrição.
Para eventuais interessados - para aquisição do trabalho ou outros - aqui fica o contacto do autor: migasdeportugal@gmail.com.