1 de ago de 2011

Funcheira e o Campo Branco ou o regresso ao tempo inicial...

No passado dia 23 voltei a Funcheira. Voltei à casa onde nasci e de onde, aos 5 anos fui lançado no caminho da diáspora e da perda da plenitude desses tempos longínquos e perfeitos.

Apetecia-me voltar a embrenhar-me nas verdejantes hortas que bordejavam a ribeira e que quase desapareceram, apetecia-me saborear de novo as colinas fronteiras à Estação ferroviária – que um dia, adolescente, ao passar vindo do Algarve pressenti as mais belas colinas do mundo em forma de suaves seios amendoados; apetecia-me voltar a rodopiar na Sala de Espera como fazia aos 2 anos, quando no meio de uma roda de jovens – presumo que estudantes que deambulavam ao Algarve – descobri aquele palco como o centro do mundo, do meu pequeno e imenso mundo – numa estação transbordante de azáfama, entroncamento das linhas do Sado, vindas de Setúbal, do Sul, vindas do Barreiro/Lisboa, por Beja e do Algarve, estação hoje moribunda e envelhecida como muitos montes e lugares do Alentejo.


Apetecia-me o riso claro dos jovens que eram então os meus pais, as gargalhadas da minha mãe, que penso que a diáspora também fez desaparecer – embora ela nem se tenha apercebido; apetecia-me as vozes dos insectos, das rãs e das cigarras – a que um dia chamei de “o meu pássaro”, das noites estreladas ou negras de breu e da lua que me atraía irremediavelmente e a voz duma menina que me falava de longe, da solidão da soleira da sua porta, do outro lado do mundo.


Então era feliz e depois parti e só muitos luas depois reencontrei de novo os espaços imensos de plenitude que fizeram de mim, menino-homem, eterno construtor de utopias, num léxico onde a palavra impossível não existe.



Só muito depois voltei a reencontrar-me nos espaços como aqueles que percorri no dia seguinte, no Campo Branco, árido e despido no Concelho de Ourique, entre Panóias, Messejana, Alcarias, Conceição e Estação de Ourique-Gare, este já no Concelho de Castro Verde, onde fui (re)encontrar na sua venda, o Café Primavera, a D. Mariana Maria, famosa cantadeira de baldão, octogenária e triste – temporiariamente sem cantar devido à morte de um filha, como nos disse.

Apetecia-me ficar sozinho com a emoção que acabei por esconder, mas naquele dia, como que por magia havia muitas dezenas, centenas até de pessoas no Largo grande da Funcheira. Comemorava-se os 100 anos de inauguração da Estação da Funcheira.



Formou-se uma Comissão Organizadora – Comissão de Festas da Funcheira - para o efeito, com patrícias(os) muito simpáticas (os), da qual destaco a nossa interlocutora, a Flávia Gouveia – também ela filha de um ferroviário, Francisco José - a quem acedemos através do nosso amigo Poeta e Escritor Vítor Encarnação.


Do programa, extenso e diversificado, entre actividades lúdicas e gastronómicas destacava-se uma exposição documental e o lançamento do livro Funcheira Tesouro Perdido dos Caminhos-de-Ferro,do jovem investigador Miguel de Góis Silva, que nos transporta a uma viagem, ainda que sucinta, muito sentida e esclarecedora.

Na ocasião tivemos também oportunidade de fazer uma apresentação da última
edição da Revista Memória Alentejana, bem como uma mostra dos vários números da colecção e em especial o dedicado a Ourique (2002), como se pode ver na imagem, onde estamos com o Amigo Domingos Montemor, velho companheiro destas lides por terras transtaganas. Relativamente ao livro, que já tive oportunidade de ler e aprender, como por exemplo que o topónimo «Funcheira» terá a mesma origem que «Funchal», ou seja deriva de um lugar onde existe muito funcho, o Foeniculum vulgare Miller, uma erva vivaz da Família das Umbelíferas, mas por outro lado o topónimo «Garvão» - povoação com ocupação humana desde a 2ªmetade do séc. III a.C., a sua origem várias hipóteses: no hidrónimo celta «garv», que significa «áspero» e seria o nome dado à ribeira que ali começa; ou “numa sucessão de corruptelas da palavra árabe «casbah» (fortificação em sítios altos) ou numa união de «Gharb» (»Ocidente») com o termo «wan», associado a famílias, como aconteceu com Marvão. Mais vulgarmente diz-se que «Garvão» se julga ser originário do étimo árabe ou berbere «garbon» que quer dizer «corvo».”, como refere o autor. Mas quem não ouviu já falar da Feira de Garvão, ou pelo menos a sua referência no belo tema de tradição popular, “Laurinda”, interpretado pelo Vitorino?
Seja como for, estão de parabéns o autor e a Comissão de Festas da Funcheira, responsável pela edição, e também uma referência às entidades que apoiaram – Municipio de Ourique, Junta de Freguesia de Garvão, Refer e CP.

Sobre a Estação da Funcheira, escreve o autor: “E que estação!”, descrevendo em seguida os vários elementos, desde as três plataformas, os dois elegantes armazéns, os depósitos de água, os dois magníficos pavilhões com dois pisos - para albergar os ferroviários e suas famílias, a giratória – onde as máquinas faziam a inversão da marcha, as casas da companhia “(…)e, claro, o monumental edifício principal a que as gentes da serra chamam «Casa da Espera». De facto, é este o centro de todas as atenções, um belo prédio com um corpo central de três pisos e dois laterais com dois cada, dotado de óptimas cantarias, azulejos e trabalhos de massa e metal e um curioso telhado de mansarda cujas telhas imitam vieiras em cerâmica. Diz-se que não há outro igual ou parecido em Portugal e, de facto, apesar de existirem centenas de estações, não consegui descobrir uma que se assemelhasse a esta. É única e bonita. Só a estação em si era motivo de orgulho dos locais e razão para que muitos ferroviários lá quisessem trabalhar.”

De facto, deixa água na boca esta descrição.
Para eventuais interessados - para aquisição do trabalho ou outros - aqui fica o contacto do autor: migasdeportugal@gmail.com.

3 comentários:

maria Afonso disse...

Numa das últimas viagens que fiz de comboio de Beja para A Funcheira desci nessa estação para apanhar a carreira em Garvão para Colos.O que fazia a pé ecom pouco tempo.Vinha acompanhada por 10 soldados das redondezas.Im deles simpáricamente transportava aminha mala de cartão.Obrigada por coa as suas evocações nostãlgicas e poéticas me fazer rememorar as minhas.Ourique é um concelho mítico para Maria vitóriamim.

Ezul disse...

Essas memórias dão é para escrever histórias ou poemas! Vá lá! Estamos de maré, estamos de maré!
:)

Vitor Veiga disse...

Olá

Vi com saudade essa linda casinha em Alcarias. Foi minha durante algum tempo. Ainda hoje guardo muitas fotos da mesma.
Fui forçado a vendê-la para compra da minha actual.
Se algum dia estiver para venda, de novo, informem-me, por favor.

Abraço

Vitor Veiga