22 de ago de 2010

Roque no palácio azul...




Surpreende-me e emociona-me este frágil menino de oiro que sabe falar a linguagem do silêncio,como se na sua alegria esfuziante e arrebatadora de menino, habitasse a serenidade reflectida nos seus longos olhos mediterrânicos amendoados ao som de tâmaras do deserto.



Neste dia, especial, partilhamos um lugar secreto. O Roque visitou-me no meu palácio de jasmim. Mirou extasiado o meu mundo azul feito de mil livros de tantas latitudes e de toda a ternura do mundo no voo sereno dos pássaros de porcelana...


Sem dizer uma palavra começou por saborear o puf de pele da Marraquexe. ... e, no exterior, sentiu-se poderoso reflectindo o seu olhar doce no céu imenso...  com a cidade a seus pés e… o mar no horizonte..


Falámos a linguagem dos pássaros, trocámos afectos com o olhar de viajantes do vento que percorrem os caminhos de pássaros do Sul...

...momentos antes da partida tirou um disco.... Rui Veloso, Concerto Acústico... para quando regressar ao meu palácio azul... laranja... oásis onde nasce a flor perfumada de laranjeira...








O meu menino é d'oiro


É d'oiro fino


Não façam caso que é pequenino


O meu menino é d'oiro


D'oiro fagueiro


Hei-de levá-lo no meu veleiro.






Venham aves do céu


Pousar de mansinho


Por sobre os ombros do meu menino


Do meu menino, do meu menino


Venha comigo venham


Que eu não vou só


Levo o menino no meu trenó.






Quantos sonhos ligeiros


p'ra teu sossego


Menino avaro não tenhas medo


Onde fores no teu sonho


Quero ir contigo


Menino de oiro sou teu amigo






Venham altas montanhas


Ventos do mar


Que o meu menino


Nasceu p'r'amar


Venha comigo venham


Que eu não vou só


Levo o menino no meu trenó.






O meu menino é d'oiro


É d'oiro é de oiro fino ....






Venham altas montanhas


Ventos do mar ....


Zeca Afonso
Letra e música
Canção de embalar, Fado de Coimbra




14 de ago de 2010

a Verdade!...

A VERDADE




tu és bonita.


tu és feita de sol.


eu amo-te.






este livro. passa um dedo pela página, sente o papel


como se sentisses a pele do meu corpo, o meu rosto.




este livro tem palavras. esquece as palavras por


momentos. o que temos para dizer não pode ser dito.




sente o peso deste livro. o peso da minha mão sobre


a tua. damos as mãos quando seguras este livro.




não me perguntes quem sou. não me perguntes nada.


eu não sei responder a todas as perguntas do mundo.




pousa os lábios sobre a página. pousa os lábios sobre


o papel. devagar, muito devagar. vamos beijar-nos.







a tua ausência é, em cada momento, a tua ausência.


não esqueço que os teus lábios existem longe de mim.


aqui há casas vazias. há casas desertas. há lugares.






mas eu lembro que o tempo é outra coisa, e tenho


tanta pena de perder um instante dos teus cabelos.






aqui não há palavras. há a tua ausência. há o medo sem os


teus lábios, sem os teus cabelos. fecho os olhos para te ver


e para não chorar.



A MULHER MAIS BONITA DO MUNDO






estás tão bonita hoje. Quando digo que nasceram


flores novas na terra do jardim, quero dizer


que estás bonita.






entro na casa, entro no quarto, abro o armário, abro


uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio


de ouro.






entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como


se tocasse a pele do teu pescoço.






há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.






estás tão bonita hoje.






os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.






estás dentro de algo que está dentro de todas as


coisas, a minha voz nomeia-te para descrever


a beleza.



José Luís Peixoto, A Casa, a Escuridão, Temas e Debates, Lx, 2002.

8 de ago de 2010

Teatro do Amor e da morte!...

Há mais de sete anos, em finais de 2002, escrevi noutro espaço um breve texto sobre um exercício teatral acontecido na Casa Amarela, o resultado de um atelier de expressão dramática, curiosamente a partir de "Sonho de uma Noite de Verão" de Shakespeare. Intitulei o texto "Nasce uma Actriz".



No dia 30 de Julho assisto a um espectáculo (Casa do Povo de Corrios) em que estou perante a mesma menina, agora com 20 anos. A actriz transfigura-se numa Mulher madura, Leonor: marcada pelo sofrimento, pelo Amor, pela perca e pela morte.


Quase 60 minutos onde temos alguns momentos de verdadeiro Teatro. Onde a revelação de há quase 8 anos se confirma plenamente. Esta actriz dá-nos uma lição da Arte de representar, unanimemente referida pelo público. Afinal, do que escrevi então, não mudo uma vírgula. A actriz chama-se Sofia Raposo. .


A 3ª edição do meu livro Canto de Intervenção 1960-1974, apresentada no Casa da Música (Porto), 25 de Abril de 2007, dediquei-a a pessoas muito especiais para a minha Vida e para o meu caminho. Transcrevo este excerto:


"Quero dedicar à minha filha Sofia, linda como o Sol, que está a aprender a fazer da arte de representar uma forma muito bela de estar na Vida, que sabe que é preciso estar de pé com dignidade, que sabe que é preciso sonhar..."


Parabéns Sofiazinha! Persegue o teu sonho porque o sentido para a Vida está aí!






Voltando a 2010. Este espectáculo"Ironia da Razão",
tem encenação de Tiago Durão, que contracena com Sofia Raposo e com Rute Guerreiro. Tem produção plástica de Irina de Almeida, luminotecnia e sonoplastia de Cristina Rodrigues, Publicidade e marketing de Jéssica Costa e Figurinos de Maria Sécio.






Nesta tragédia Skakespeariana, "Irona da Razão" - como nos diz o jovem encenador com apenas 18 anos- "são retratadas as temáticas do amor, perda, desilusão, razão e morte. Evoca as grandes questões da existência humana com base nas grandes personagens shakespearianas. David ao interrogar-se sobre as suas questões existenciais perde Leonor, ficando num estado de loucura e contraditoriamente mais perto da razão."
A dramaturgia também é de sua autoria, pois é um texto resultante da fusão de obras tão diversas como por, "Hamlet" de William Shakespeare, "A loucura" de Mario Sá Carneiro, "Veronica Decide Morrer" de Paulo Coelho, o guião do Filme "Patch Adams" e no "ensaio sobre a Loucura" de Joaquim Nogueira.




O encenador deste novo projecto teatral, que já teve uma primeira experiência com o exercício teatral “a Miragem”, baseado em textos de William Shakespeare empreende uma busca da percepção de questões centrais da condição humana, busca curiosamente encetada por um tão jovem encenador, e com ele toda uma equipa, também muito jovem, mas muito esforçada.


Fazemos votos para que “limadas algumas arestas” técnicas e outras, este "Teatro Experimental da Casa do Povo de Corroios" trilhe os caminhos do verdadeiro Teatro, entre o riso e o choro, entre o Amor e a morte.


Parabéns aos jovens intervenientes, nomeadamente ao Tiago e especialmente à actriz revelação.


Bem Hajam!