08/12/2009

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha





Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...


Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...




Florbela Espanca
         (Vila Viçosa 8 Dez. 1894
           Matosinhos 8 Dez. 1930)



04/12/2009

Vou-me embora... mando recado pelas aves...

Vitorino, Cantador do Amor. No seu ar grave de chapéu, todo de preto, Vitorino viajante do vento desde os cantadores do Redondo até Lisboa, Paris, outras paragens - Cuba, Cabo Verde, mas com o Alentejo sempre presente, no coração. O Sul é também muito cantar Lisboa, mas é sempre cantar o Amor. E canta o Amor e a mulher amada como poucos.

Sobre Vitorino – TUDO, o disco que assinala trinta anos de carreira de Vitorino, escrevemos em 2006:



“ O Alentejo, Lisboa. O Amor. O Amor. Uma antologia. São 50 temas de Amor. Três CDs com as modas mais bonitas, mais belas, mais sedutoras do Vitorino. Porque, como diz David Ferreira em texto de abertura no livreto anexo:


«Único elo de ligação possível entre tantos mundos: o Amor. Vitorino é um emotivo em tempos dominados por gente que julga que no lado esquerdo do peito há apenas uma algibeira para guardar os documentos e o cartão de crédito.


É o amor que torna tão vivo este Alentejo onde de facto nos perdemos ao longo do 1º disco desta antologia. Nem precisamos de fechar os olhos, ouvindo-o já estamos lá.


É o amor que torna tão emocionante a Lisboa do 2º disco, a que ele tão bem conhece, nem por isso deixando de recorrer volta e meia aos olhares que sobre ela lança o seu cúmplice António Lobo Antunes.


É o Amor que o leva a cantar… o Amor. Vitorino canta a Mulher como poucos, encantado por esse mistério irresistível, por ela deixava todos os álcoois. Por ela, ele vai no 3º disco da algarvia Laurinda (linda, linda… ) - que o Giacometti encontrou no cancioneiro popular – ao fim do Mundo, ao tango do Gardel ou a Cuba, tinha de ser, canta o Amor.


E não valerá pena – Diz-me que sim, mesmo que mintas! – ir até ao fim do Mundo atrás duma mulher?!»


David Ferreira já sabe a resposta, e que não duvide porque mentir não é necessário...  essa é a razão de ser primeira e basta ouvir “Litania para uma Amor ausente” o tema (de Luís Andrade) que, de tantos tão bonitos, é de todos eles é um dos meus preferidos.



Litania para um Amor ausente

(Luis Andrade/Vitorino, Não há terra que resista)




Com a noite me deito


Com o dia me levanto


Canta-me um pássaro no peito


Vai-me a tristeza no canto


Como um cavalo no prado


Seca-me a água do pranto,


Deste rio desatado


Deste rio desatado


Seca-me a água do pranto


Seca-me a água do pranto


Como um cavalo no prado


Vai-me a tristeza no canto


Vai-me a tristeza no canto


Canta-me um pássaro no peito


Canta-me um pássaro no peito


Com o dia me levanto


Com a noite me deito









Laurinda
(Popular/Recolha e adaptação de Vitorino)


Am Am



Ó Laurinda, linda, linda


Am Am


Ó Laurinda, linda, linda


Dm Dm Am Am


És mais linda do qu'o Sol(e)


Dm Dm Am Am


Dei xa-me dormir uma noite


E E Am


Nas bordas do teu lençol


Sim, sim, cavalheiro, sim


Sim, sim, cavalheiro, sim


Hoje sim, amanhã não


Meu marido, não esta cá


Foi pr'a feira de Marvão


Onze horas, meia-noite


Onze horas, meia-noite


Marido a porta bateu


Bateu uma, bateu duas


Laurinda não respondeu


Ou ela está doentinha


Ou ela está doentinha


Ou encontrou outro amor


Ou então procur'a chave


Lá no meio do corredor


De quem é aquele chapéu?


De quem é aquele chapéu?


Debroado a galão


É para ti meu marido


Que fiz eu por minha mão


De quem é aquele casaco?


De quem é aquele casaco?


Que ali vejo pendurado


É para ti meu marido


Que o trazeis bem ganhado(?)


De quem é aquele cavalo?



De quem é aquele cavalo?


Que na minha esquadra entrou


É para ti meu marido


Foi teu pai quem tu mandou


De quem é aquele suspiro?


De quem é aquele suspiro?


Que ao meu leito se atirou


Laurinda, que aquilo ouviu


Caiu no chão desmaiou


Ó Laurinda, linda, linda


Ó Laurinda, linda, linda


Não vale a pena desmaiar


Todo o amor, que t'eu tinha


Vai-se agora acabar


Vai buscar as tuas irmãs


Vai buscar as tuas irmãs


Trá-las todas num andor


Que a mais linda delas todas

Há-de ser meu novo amor



Eu hei-de amar uma pedra

(Vitorino, Romances)
 Eu hei-de amar uma pedra


Deixar o teu coração


Uma pedra sempre é mais firme


Tu és falsa e sem razão


Quando eu estava d´abalada


Meu amor para te ver


Armou-se uma trovoada


Mais tarde deu em chover


Mais tarde deu em chover


Sem fazer frio nem nada


Meu amor para te ver


Quando eu estava d´abalada











Do outro lado do Tejo
(Manuel Alegre e Vitorino/Vitorino)


Gramática de coentro e cal


Geometria do branco e do azul


Solidão como sinal quase cigarra


Quase sul


Em seu falar como um cantar de amigo.


Aqui acaba o último e o primeiro


E um procura o outro seu igual


Para dizer um nome entre azinheira e trigo.


Este é o chão mais puro e verdadeiro


E a pátria senta-se comigo


À sombra de um sobreiro...







Vou-me embora
(Vitorino - Negro Fado)


Adeus rio Sado, não volto


Mudo pra outro lugar


Vou fazer vida mais longe


Vou pra terra deixo o mar.


As horas más que passei


Na minha embarcação


Deixo-as (nunca te as contei)


Se o vento fôr de feição.


Mas um dia tu bem sabes


Se o lírio do campo florir


Mando recado pelas aves


Das novas do meu sentir.


Não esqueças o tal encontro


Marcado no roseiral


Espero nos quatro caminhos

Daquele dia de Abril.






                                                   Vou-me embora... vou pró Sul ... entre o Tejo e o Odiana

02/12/2009

Primeiro Beijo


Rui Veloso, poeta do canto, intérprete inigualável do nosso universo romântico - urbano, universal - do seu “Porto Sentido”  com “Primeiro Beijo” até porque “O Prometido é Devido" pois eu sou o teu “Cavaleiro Andante” do "Bairro do Oriente. Estes e muitos outros poemas, saídos da pena de Carlos Tê, escritor de canções,  cantadas pela voz única do Rui Veloso, adquiriram a magia de se tornarem em hinos – como aconteceu com outros poemas por outras gerações - ou quiçá, se não seria assim para os seus contemporâneos os poemas de Almutâmide, Ibne Amar ou Ibne Sara - em símbolos para aqueles que, como nós acreditam que o romantismo é talvez o lado maior do encantamento em que podemos tornar a vida; saboreá-la plenamente valorizando o que de mais belo ela tem para nos dar: o Amor, o Amor por quem amamos, e até por nós próprios.

Redescobrindo-nos ao som de dois poetas: o Carlos Tê  e o Rui, poeta  da voz e da melodia,  cantando Canções de Amor...





Primeiro Beijo

Recebi o teu bilhete
para ir ter ao jardim
a tua caixa de segredos
queres abri-la para mim
e tu não vais fraquejar
ninguém vai saber de nada
juro não me vou gabar
a minha boca é sagrada

Estar mesmo atrás de ti
ver-te da minha carteira
sei de cor o teu cabelo
sei o shampoo a que cheira
já não como, já não durmo
e eu caia se te minto
haverá gente informada
se é amor isto que sinto

Quero o meu primeiro beijo
não quero ficar impune
e dizer-te cara a cara
muito mais é o que nos une
que aquilo que nos separa



Promete lá outro encontro
foi tão fogaz que nem deu
para ver como era o fogo
que a tua boca prometeu
pensava que a tua língua
sabia a flôr do jasmim
sabe a chiclete de mentol
e eu gosto dela assim


Quero o meu primeiro beijo
não quero ficar impune
e dizer-te cara a cara
muito mais é o que nos une
que aquilo que nos separa












Bairro do Oriente
 (Ar de Rock,1980)




Tenho à janela
Uma velha cornucópia
Cheia de alfazema
E orquídeas da Etiópia


Tenho um transístor ao pé da cama
Com sons de harpas e oboés
E cantigas de outras terras
Que percorri de lés-a-lés


Tenho uma lamparina
Que trouxe das arábias
Para te amar à luz do azeite
Num kama-sutra de noites sábias


Tenho junto ao psyché
Um grande cachimbo d'água
Que sentados no canapé
Fumamos ao cair da mágoa

Tenho um astrolábio
Que me deram beduínos
Para medir no firmamento
Os teus olhos astralinos


Vem vem à minha casa
Rebolar na cama e no jardim
Acender a ignomínia
E a má língua do código pasquim
Que nos condena numa alínea
A ter sexo de querubim





Cavaleiro Andante
(Rui Veloso, 1986)

Porque sou o cavaleiro andante
Que mora no teu livro de aventuras
Podes vir chorar no meu peito
As mágoas e as desventuras


Sempre que o vento te ralhe
E a chuva de maio te molhe
Sempre que o teu barco encalhe
E a vida passe e não te olhe


Porque sou o cavaleiro andante
Que o teu velho medo inventou
Podes vir chorar no meu peito
Pois sabes sempre onde estou

Sempre que a rádio diga
Que a América roubou a lua
Ou que um louco te persiga
E te chame nomes na rua


Porque sou o que chega e conta
Mentiras que te fazem feliz
E tu vibras com histórias
De viagens que eu nunca fiz


Podes vir chorar no meu peito
Longe de tudo o que é mau
Que eu vou estar sempre ao teu lado
No meu cavalo de pau









Porto Sentido
(Rui Veloso, 1986)





Quem vem e atravessa o rio
Junto à serra do Pilar
vê um velho casario
que se estende ate ao mar

Quem te vê ao vir da ponte
és cascata, são-joanina
dirigida sobre um monte
no meio da neblina.

Por ruelas e calçadas
da Ribeira até à Foz
por pedras sujas e gastas
e lampiões tristes e sós.


E esse teu ar grave e sério
dum rosto e cantaria
que nos oculta o mistério
dessa luz bela e sombria

(refrão)



Ver-te assim abandonada
nesse timbre pardacento
nesse teu jeito fechado
de quem mói um sentimento

E é sempre a primeira vez
em cada regresso a casa
rever-te nessa altivez
de milhafre ferido na asa





"Só se lembram de Santa Bárbara quando troveja"


Guadiana
(Lado Lunar,1995)

Corre nobre Guadiana
espelho de moura formosa
vai ficando uma ribeira
pela terra sequiosa

Nunca pensei assistir
à tua dor na charneca
és como um Deus a cair
ante a barbárie da seca


Corre Guadiana
pela terra alentejana
pudesse dar-te esta canção
a vertigem dos caudais

dar-te o farto aluvião
das águas primordias



E ver-te com dignidade
a correr entre os campos
como o rio que tem um caminho
desde o começo dos tempos

Ouve as pedras do teu leito
a pedir que não as deixe
ouve os barcos parados
ouve os homens ouve os peixes

Corre corre Guadiana
por essa terra raiana
que eu faço um apelo aos lagos
convoco nos céu as fontes
teço três meadas de água
dos fios perdidos nos montes



29/11/2009

"Creio que o Amor tem asas de oiro"

Janita Salomé é a imagem do Sul, é a voz do Sul por excelência.
Da sua voz brotam os poemas que nos falam da totalidade do ser, da mágica magia do Amor, pleno, único e total.
Pela sua voz, pela melodia e até pelo ritmo do seu canto perpassa o silêncio do Sul, toma forma o azul do céu do meio dia a cair a pique derramando a mais luminosa luz.
A partir da sua voz imaginamos o encantamento do luar, ela desenha as casas de barras azuis e ocres onde nos sentamos à soleira fumando o silêncio do anoitecer.

Três poemas. Três poetas. Três cantos musicados e pela voz única de Janita Salomé.


Credo

(disco Janita raiano)


creio nos anjos que andam pelo mundo
creio na deusa com olhos de diamante
creio em amores lunares com piano ao fundo
creio nas lendas nas fadas nos atlantes



creio num engenho que falta mais fecundo
de harmonizar as partes mais dissonantes
creio que tudo é eterno num segundo
creio num céu futuro que houve dantes



creio nos deuses de um astral mais puro
na flor humilde que se encosta ao muro
creio na carne que enfeitiça o além



creio no incrível nas coisas assombrosas
na ocupação do mundo pelas rosas
creio que o amor tem asas de oiro amén


                                                         Natália Correia










ciganos 
 (disco Janita raiano)

como os ciganos entre sul e viagem
do outro lado do rio
como os ciganos somos de outra margem


nosso amor é bala e desafio.

e todos os amantes são raianos
como os ciganos, de passagem
como os ciganos.

                                                     Manuel Alegre








Não é fácil o Amor
(disco Tão Pouco e Tanto)




Não é fácil o amor melhor seria
Arrancar um braço fazê-lo voar
Dar a volta ao mundo abraçar
Todo o mundo fazer da alegria



O pão nosso de cada dia não copiar
Os gestos do amor matar a melancolia
Que há no amor querer a vontade fria
Ser cego surdo mudo não sujeitar



O amor ao destino de cada um não ter
Destino nenhum ser a própria imagem
Do amor pôr o coração ao largo não sofrer




Os males do amor não vacilar ter a coragem
De enfrentar a razão de ser da própria dor
Porque o amor é triste não é fácil o amor






                                                                                                  Luís  Andrade (O Pignatelli)

27/11/2009

Meu Amor quando eu morrer/Ó linda/ Eu quero ver-te na praia

Fausto, intérprete da Saudade ancestral do Mar, da inquietação permanente da viagem.

Fausto “cantautor”,  canta o Amor e a Saudade, aves marinhas,



gaivotas do Sul de nós; o mar como caminho, o universo como destino.


Tanta saudade, tanto Amor. Tanto mar!


Dois temas desse disco que marcou indelevelmente a Nova
Música Portuguesa: Por este rio acima



Porque não me vês (disco I)



Meu amor adeus


Tem cuidado


Se a dor é um espinho


Que espeta sozinho


Do outro lado


Meu bem desvairado


Tão aflito


Se a dor é um dó


Que desfaz o nó


E desata um grito


Um mau olhado


Um mal pecado


E a saudade é uma espera


É uma aflição


Se é Primavera


É um fim de Outono


Um tempo morno


É quase Verão


Em pleno Inverno


É um abandono


Porque não me vês


Maresia


Se a dor é um ciúme


Que espalha um perfume


Que me agonia


Vem me ver amor


De mansinho


Se a dor é um mar


Louco a transbordar


Noutro caminho


Quase a espraiar


Quase a afundar


E a saudade é uma espera


É uma aflição


Se é Primavera


É um fim de Outono


Um tempo morno


É quase Verão


Em pleno Inverno


É um abandono









 



Como um sonho acordado- (excerto)




Como se a Terra corresse


Inteirinha atrás de mim


O medo ronda-me os sentidos


Por abaixo da minha pele


Ao esgueirar-se viscoso


Escorre pegajoso


E sai


Pelos meus poros


Pelos meus ais


Ele penetra-me nos ossos


Ao derramar-se sedento


Nas entranhas sinuosas


Entre as vísceras mordendo


Salta e espalha-se no ar


Vai e volta


Delirante


Tão delirante


É como um sonho acordado


Esse vulto besuntado


A revolver-se no lodo


A deslizar de uma larva


Emergindo lá no fundo


Tenho medo ó medo


Leva tudo é tudo teu


Mas deixa-me ir






Arrasta-me à côncava do fundo


Do grande lago da noite


Cruzando as grades de fogo


Entre o Céu e o Inferno


Até à boca escancarada


Esfaimada


Atrás de mim


Atrás de mim


É como um sonho acordado


Esses olhos no escuro


Das carpideiras viúvas


Pelo pai assassinado


Desventrado por seu filho


Que possuiu lascivo


A sua própria mãe


E sua amante






Meu amor quando eu morrer


Ó linda


Veste a mais garrida saia


Se eu vou morrer no mar alto


Ó linda


E eu quero ver-te na praia


Mas afasta-me essas vozes


Linda







 



21/11/2009

A Menina que gostava de flores amarelas




Esta é a história de um menino e de uma menina que poderiam ter-se conhecido no mar, tal a importância do mar para eles o que de comum lhes aconteceu. E se a história de uma vida é tão complexa ainda mais o é quando de dois seres se trata, um mundo vasto feito de encontros e desencontros que se pode resumir a efémeros dias, mas que se pode estender a anos, décadas ou até séculos ou milénios.
A menina vivia num castelo, um lindo castelo alvo como a espuma das ondas. Vivia embasbacada de tédio debaixo da grande asa protectora de um pai omnipresente e poderoso, mas triste porque no mais profundo do seu íntimo sabia que não lhe podia dar a felicidade por que ela tanto ansiava. Viviam os dois infelizes , mas ricos e faustosos e anafados de mordomias, pois afinal ele era um dos representantes mais poderosos do rei na região e a população do povoado junto ao castelo rendia-lhes homenagem, fossem os camponeses, os artesãos ou os demais habitantes.
A menina, que gostava de flores amarelas, era muito bonita e endiabrada mas quando o pai lhe levantava a voz caía em si na tristeza da sua vida de honrarias e fausto.
Um dia em que foram viajar ela conheceu um menino. Aconteceu num palácio onde havia uma fonte com água cristalina, papoilas, jasmim e pétalas de rosa. O menino deu-lhe água daquela fonte que ela achou a mais refrescante. Ele era de um país onde os pássaros eram de cristal e o mar era sulcado por sereias que entoavam cânticos a Iemanjá, cânticos nascidos da boca de velhos marinheiros seduzidos irremediavelmente pela doçura da sua voz. O menino era de um país azul, mas esse era o seu país adoptivo pois ele antes já havia sido pássaro e demandara todos os mares do Sul em busca da beleza. A primeira vez que desembarcará naquela cidade, pássaro do Sul, vindo na gávea dum barco sentiu sinais da menina nas montanhas azuis que recortavam o horizonte. Então tomou a forma humana e esperou serenamente a sua chegada. Naquele tempo de espera aprendeu com os velhos feiticeiros e encantadores de serpentes a construir caixinhas de música com lindas bailarinas que dançavam sempre e lhe lembravam a voz inigualável da menina por quem esperava. Usava-as para lembrar aos pardais seus irmãos a chegada dos caçadores e na Primavera fazia dos campos de papoilas imensos bailados e belas coreografias.
As saudades da menina deram-lhe uma ideia: e como “não há nada mais poderoso do que uma ideia cujo momento chegou” como diria Víctor Hugo, trabalhou de dia e de noite para lhe fazer uma surpresa. Construiu a mais bela caixinha de música de que havia memória, incrustada de safiras e de rosas do deserto com uma bailarina coberta das mais lindas flores amarelas que dançava, dançava com doçura e volúpia. E partiu do seu país azul e distante. Percorreu esse país com casas de barras ocre de campos imensos e trigais a perder de vista com flores de esteva nas encostas, atravessou um deserto onde quase sucumbiu e uma montanha com neves eternas e frondosos cedros. Poucos dias antes de chegar ao país da menina enviou uma irmã pomba branca, que teve a triste sorte de chegar num dia em que os caçadores percorriam os campos em redor do castelo. Morreu com um tiro certeiro de um deles, o pai da menina, mas não sem antes de cair moribunda aos pés desta e lhe entregar a boa nova da vinda do menino do país azul. A tristeza pela morte da pomba não retirou a ambos completamente o sorriso pelo encontro eminente, pois sabiam que a vida também era feita de sofrimento.
O pai todavia ficou desconfiado ao ver a pomba morta à entrada do castelo e interrogou a menina ameaçando-a com um terrível castigo: expulsá-la do belo castelo que ela tanto amava, caso não cumprisse as suas ordens. A menina ficou muito assustada e quando nessa noite se esgueirou por entre as ameias do castelo e encontrou o menino numa praia banhada pelo luar estava muito nervosa: estava quase hirta em vez do seu andar sensual e do brilho fulminante do seu olhar apenas uma réstea envergonhada se via. Quando falou a sua voz perdera a doçura, era falsamente dura de assustada e tristeza escondida. O menino que já tinha pressentido, com a morte da pomba que algo de estranho e mau se passava, mesmo assim estava embevecido pela sua beleza, quase a chorar de emoção, ficou estupefacto pelo medo que saia do seu olhar. A sua voz de medo era tão dura e as palavras tão terríveis que as ondas ficaram suspensas nas suas cristas os peixes ficaram parados e a lua escondeu a face. E a menina a tremer de cólera com o medo no olhar espalhava a dor e a mágoa na alma do menino. Este contemplou-a longamente tocou-lhe ao de leve no rosto e partiu para o seu país azul não sem antes deitar ao mar a mais bela caixinha de música que tinha existido. Caiu-lhe de rosto uma lágrima de cristal como o palácio onde se conheceram, enquanto a bailarina com o som da voz doce da menina rodopiava pela última vez.
Percorreu o caminho de regresso cada vez mais triste e indiferente a tudo e quando chegou ao país azul o mar que antes era turquesa estava escuro e cinzento. Entrou no mar dentro deitou-se nas ondas e no meio de uma imensa tristeza foi escoltado pelas sereias que choravam a sua perca e o seu regresso ao início dos tempos. O Sol deitou uma lágrima de fogo e de cristal e as pessoas assustaram-se pensando que o mundo ia acabar. Uma gaivota levou então a notícia e a menina chorou muito e ficou muito triste. Era tarde de mais. A tristeza fê-la perder a vontade de contemplar o mar, o Sol e as estrelas, o luar, as papoilas, a beleza e a poesia da vida. A menina envelheceu rapidamente tomando conta do seu pai, também ele cada vez mais triste por saber que a tristeza nunca mais os abandonaria pois a menina tinha desperdiçado a sua única possibilidade de poder ser feliz, coisa que ele não lhe podia dar.
A menina e o seu pai omnipresente morreram de tédio e de tristeza.
O medo pode tanto, pode até levar à insensibilidade e à tristeza infinita.


08/11/2009

Com um brilhozinho nos olhos

Com um brilhozinho nos olhos
E a saia rodada
Escancaraste a porta do bar
Trazias o cabelo aos ombros
Passeando de cá para lá
Como as ondas do mar
Conheço tão bem esses olhos
E nunca me enganam
O que é que aconteceu diz lá
É que hoje fiz um amigo
E coisa mais preciosa no mundo não há
É que hoje fiz um amigo
E coisa mais preciosa no mundo não há


Com um brilhozinho nos olhos
Metemos o carro
Muito à frente muito à frente dos bois
Ou seja fizemos promessas
Trocámos retratos
Traçámos projectos a dois
Trocámos de roupa trocámos de corpo
Trocámos de beijos tão bom é tão bom
E com um brilhozinho nos olhos
Tocámos guitarras
Pelo menos a julgar pelo som

E com um brilhozinho nos olhos
Tocámos guitarras
Pelo menos a julgar pelo som


E o que é que foi que ele disse?
E o que é que foi que ele disse?
Hoje soube-me a pouco
Hoje soube-me a pouco
Hoje soube-me a pouco
Hoje soube-me a pouco
Hoje soube-me a pouco
Hoje soube-me a pouco
Hoje soube-me a pouco
Hoje soube-me a pouco
Passa aí mais um bocadinho
Que estou quase a ficar louco
Hoje soube-me a tanto
Hoje soube-me a tanto
Hoje soube-me a tanto
Hoje soube-me a tanto
Portanto
Hoje soube-me a pouco


Com um brilhozinho nos olhos
Corremos os estores
Pusemos a rádio no on
Acendemos a já costumeira
Velinha de igreja
Pusemos no off o telefone
E olha não dá para contar
Mas sei que tu sabes
Daquilo que sabes que eu sei
E com um brilhozinho nos olhos
Ficámos parados
Depois do que não te contei
E com um brilhozinho nos olhos
Ficámos parados
Depois do que não te contei


Com um brilhozinho nos olhos
Dissemos sei lá
Tudo o que nos passou pela tola
Do estilo: és o number one
Dou-te vinte valores
És um treze no totobola
E às duas por três
Bebemos um copo
Fizemos o quatro e pintámos o sete
E com um brilhozinho nos olhos
Ficámos imóveis
A dar uma de tête a tête
E com um brilhozinho nos olhos
Ficámos imóveis
A dar uma de tête a tête


E o que é que foi que ele disse?
E o que é que foi que ele disse?
Hoje soube-me a pouco
Hoje soube-me a pouco
Hoje soube-me a pouco
Hoje soube-me a pouco
Hoje soube-me a pouco
Hoje soube-me a pouco
Hoje soube-me a pouco
Hoje soube-me a pouco
Passa aí mais um bocadinho
Que estou quase a ficar louco
Hoje soube-me a tanto
Hoje soube-me a tanto
Hoje soube-me a tanto
Hoje soube-me a tanto
Portanto
Hoje soube-me a pouco


E com um brilhozinho nos olhos
Tentámos saber
Para lá do que muito se amou
Quem éramos nós
Quem queríamos ser
E quais as esperanças
Que a vida roubou
E olhei-o de longe
E mirei-o de perto
Que quem não vê caras
Não vê corações
E com um brilhozinho nos olhos
Guardei um amigo
Que é coisa que vale milhões
E com um brilhozinho nos olhos
Guardei um amigo
Que é coisa que vale milhões


E o que é que foi que ele disse?
E o que é que foi que ele disse?
Hoje soube-me a pouco
Hoje soube-me a pouco
Hoje soube-me a pouco
Hoje soube-me a pouco
Hoje soube-me a pouco
Hoje soube-me a pouco
Hoje soube-me a pouco
Hoje soube-me a pouco
Passa aí mais um bocadinho
Que estou quase a ficar louco
Hoje soube-me a tanto
Hoje soube-me a tanto
Hoje soube-me a tanto
Hoje soube-me a tanto
Portanto
Hoje soube-me a pouco



Sérgio Godinho (Canto da boca)