16 de abr. de 2020

Morreu Luís Sepúlveda, "o mais 'português' dos escritores latino-americanos'

Morreu Luís Sepúlveda!

 
A notícia chega como uma bomba… como é possível?...

Luís Sepúlveda "o mais 'português' dos escritores latino-americanos', como é referido num dos muitos títulos que as Edições ASA editou deste que é um dos meus escritores preferidos.
Não tive o privilégio de me ter cruzado com Luís Sepúlveda mas sempre senti uma grande afinidade com este cidadão do mundo, defensor da Vida, da dignidade humana na luta pela justiça, dos valores ecológicos, como defende no belos fresco que é "O Velho que Lia Romances de Amor", que em 1989 o tornou conhecido internacionalmente, 20 anos depois de conquistar o Prémio Literário da Casa das Américas.
Este homem que correu meio mundo depois de ter feito parte da guarda pessoal de Salvador Allende e ter escapado à pena de morte ao ser julgado por um tribunal militar em 1975 pelo ditador Pinochet. Esse escritor multifacetado, que dominava com igual mestria o romance clássico, a literatura de viagens, o conto infantil, contador de histórias como poucos, esse Homem livre, profundamente comprometido com a Vida, perceptível da forma como conclui "Patagónia Express", um livro belo, comovente e muito autobiográfico, que nos fala, entre outros: de momentos da infância com o avô Gerardo, o "seu herói", um velho libertário andaluz, que não simpatizava com padres e com militares, que conhecera a prisão, a perseguição e o exílio em terras chilenas - pois "uma pessoa é de onde melhor se sente" - por causa das suas ideias, da prisão e da libertação no Chile ensanguentado
e termina com a viagem a Martos, na Andaluzia, de onde o avô partira muitas décadas antes - quase um século - e vai encontrar o irmão mais novo deste, um ancião conhecido por don Angel, a quem se faz anunciar depois de este o confundir com o filho da leiteira, Paquito, com Miguelito (?) e com o próprio irmão Gerardo.
"Então, depois de pigarrear, don Angel disse o mais belo poema com que a vida me premiou, e eu soube que finalmente se fechara o círculo, pois estava no ponto de partida da viagem começada pelo meu avô. Dom Angel disse:
- Mulher, traz vinho, que chegou um parente da América."
Belo e pungente.
Um dia propício para abrir uma garrafa e beber um copo de vinho em homenagem a Luís Sepúlveda, um amante da Vida e da Beleza, que não se limitou a passar pela Vida, antes a marcou de uma forma perene, a Vida, a literatura, o mundo...




Deixamos notas biográficas: (fonte:https://www.infopedia.pt/$luis-sepulveda)

Escritor chileno, Luis Sepúlveda nasceu a 4 de outubro de 1949, em Ovalle, uma pequena aldeia no Norte do país, e morreu a 16 de abril de 2020 nas Astúrias, Espanha, vítima de COVID-19.
Os seus pais eram menores e haviam fugido juntos mas, perseguidos pelas autoridades, chegaram por fim a uma hospedaria onde a sua mãe deu à luz o fruto dessa aventura de amo
Luis Sepúlveda começou a escrever quando frequentava o Liceu de Santiago do Chile. Ingressou nas fileiras da Juventude Comunista chilena em 1964, o que não o impediu de continuar a escrever, desta feita poesia e contos de natureza mais séria. Em 1969 publicou Crónicas de Pedro Nadie, compilação de contos que lhe valeu o Prémio Literário da Casa das Américas.
Em 1970 conseguiu um diploma em Encenação Teatral, atividade que começou a exercer, dedicando também parte do seu tempo à política, à direção de uma cooperativa agrícola e à locução de programas de rádio.
Em 1973 deu entrada na estrutura militante do Partido Socialista, chegando a fazer parte da segurança pessoal de Salvador Allende.
Era ainda um estudante quando, nesse mesmo ano, o General Augusto Pinochet chegou ao poder. Aprisionado, foi julgado por um tribunal militar em fevereiro de 1975, e acusado de traição à pátria e conspiração subversiva, entre outros crimes. Escapando à pena de morte, habitual em casos semelhantes, foi condenado a vinte e oito anos de cadeia.
Encarcerado em Temulo, estabelecimento prisional político, conviveu com alguns dos mais de trezentos professores universitários que Pinochet tornou cativos. Em 1977, graças à persistência da Amnistia Internacional, viu a sua pena ser comutada para oito anos de exílio na Suécia.
Em 1989 publicou o seu primeiro romance, Un Viejo Que Leía Novelas De Amor (O Velho Que Lia Romances de Amor), que rapidamente se revelou um sucesso internacional, tendo sido traduzido para cerca de trinta e cinco línguas. Luis Sepúlveda dedicou a obra a um amigo assassinado pelo regime do ditador chilenoAutorizado finalmente a regressar ao Chile, ao fim de dezasseis anos de exílio, o autor continuou a escrever, publicando obras como Mundo Del Fin Del Mundo (1989, Mundo do Fim do Mundo), Patagonia Express (1995, Patagónia Express), Diario di un Killer Sentimentale (1996, Diário de um Killer Sentimental), Historia de una Gaviota y del Gato que le Enseñó a Volar (1996, História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar), Desencuentros (1997, Encontro de Amor num País em Guerra), Historias Marginales (2000, As Rosas de Atacama), Hot Line (2002), Moleskine: Apuntes e Reflexiones (2004, Uma História Suja) e Los Peores Cuentos de los Hermanos Grim (2005, Os Piores Contos dos Irmãos Grim), tendo este último sido escrito em parceria com Mario Delgado Aparaín.
Nas obras que se seguiram, O Poder dos Sonhos, em 2006, e Crónicas do Sul, em 2008, o escritor usa o seu país como tema da narrativa.
Ainda em 2008 o autor regressa à ficção com A Lâmpada de Aladino, 13 contos cujos temas vão desde a Alexandria de Kavafis, o Carnaval em Ipanema, até uma cidade de Hamburgo fria e chuvosa, a Patagónia, o Santiago do Chile nos anos 60, a recôndita fronteira do Peru, a Colômbia e o Brasil.
Da sua vasta obra (toda ela traduzida em Portugal), destacam-se os romances O Velho que Lia Romances de Amor e História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar. Mas Mundo do Fim do Mundo, Patagónia Express, Encontros de Amor num País em Guerra, Diário de um Killer Sentimental ou A Sombra do que Fomos (Prémio Primavera de Romance em 2009), por exemplo, conquistaram também, em todo o mundo, a admiração de milhões de leitores.
Em 2016 foi distinguido pelo Centro de Estudos Ibéricos com o Prémio Eduardo Lourenço

15 de abr. de 2020


A Peste Negra do Século XXI

Acaba de ser publicado um livro pela medievalista britânica, Miri Burin, da Universidade Queen Mary de Londres, sobre a temática e repercussões da peste negra.  Editado pela Cambridge University Press, Cities of Strangers: Making Lives in Medieval Europe, transporta-nos a uma Europa de meados do século XIV – há quase 700 anos – que entre 1347 e 1351 vê um terço da sua população dizimada.

Como nos diz a autora: “Os nossos antepassados do século XIV não sabiam muito sobre a doença que subitamente ameaçava devastar a Europa, mas sabiam uma coisa: os barcos de comércio mundial que tentavam atracar nas cidades portuárias europeias eram uma ameaça. A partir deles, dos ratos, das pulgas e dos humanos infectados, espalhava-se esse horror que ficou conhecido por peste negra”, referindo-nos depois como então os nossos antepassados vão utilizar aquilo que hoje chamamos distanciamento social, para num primeiro momento, impotentes por travar o flagelo, perceberam a urgência de travarem a entrada de viajantes vindos de fora e, depois, separarem os doentes dos que ainda não tinha sido infectados – separação já anteriormente utilizada com os leprosos. A palavra quarentena, do italiano “quarentino”, aos recém-chegados que tinham de se manter à distância, aplicada a todos os viajantes, e o isolamento aos que já estavam doentes. Prática, aliás, como nos refere esta historiadora e professora de História Medieval da referida universidade, inicialmente norma tornada obrigatória na cidade de Ragusa, no Adriático – actual Dubrovnik, na Croácia – a quem chegava de áreas infestadas pela peste, sendo inicialmente de um mês, “trentino” e que só mais tarde as autoridades de Veneza alargaram o período para os quarenta dias, instituindo a quarentena.

Esta autora fala-nos (suplemento ípsilon desta semana, edição do “Público de 10 de Abril) ainda, para além das diferenças, das semelhanças, quer seja a nível da prática de quarentena e isolamento, quer das transformações surgidas após esta devastação na organização da vida urbana de então, pois considera que “há muitos pontos em comum com os dias de hoje e, sobretudo, há lições importantes a aprender com a experiência da peste medieval”, remata M. Burin, concluindo que desastre trazido pelo novo coronavírus pode ser “uma oportunidade para encontrarmos a coesão que potencialmente existe dentro de todos nós, concentrando-nos nas coias que são realmente importantes”.

O ESTADO SOCIAL E A UNIÃO EUROPEIA

Como anteriormente aqui escrevemos e publicamente defendemos, de que era necessário e urgente mudar o paradigma; a soberba de “desenvolvimento” a todo o custo, responsável pela cada vez pior qualidade de vida, em breve irreversível, com a poluição a aumentar assustadoramente e a caminharmos a passos largas para a catástrofe. Agora, no meio de uma catástrofe não esperada temos que reflectir para onde vamos, o que queremos da(s) nossa(s) vida(s) e como isso será possível.

Ainda que não aderindo à teoria da conspiração do surgimento do Covit – 19, por razões mundialmente económicas, verificamos que,  nomeadamente na Europa, nos países mais afectados até agora – sobretudo a Itália, Espanha, mas também a França e a Inglaterra presentemente – o papel do Estado tem sido decisivo para tomar medidas, ainda que por vezes tardias, para que o desastre não tome proporções ainda maiores. Países estes incluindo Portugal, à excepção do Reino Unido – e aqui deixamos os votos de rápido restabelecimento do primeiro-ministro Boris Johnson – com governos de centro esquerda, de esquerda ou do centro. Assim, em governos aparentemente frágeis e com possível vida curta, emergiram verdadeiros líderes, como é o caso do espanhol Pedro Sánchez, que tem sabido estar à altura das circunstâncias, mesmo com uma direita trauliteira, tentando tirar partido vergonhosamente da situação dramática vivida no país vizinho.

No nosso país, governantes, partidos parlamentares  cidadãos têm sabido convergir para o objetivo comum, ainda que com as fragilidades e respostas lentas no SNS, os grupos profissionais de primeira linha – técnicos de saúde, cientistas, bombeiros, autoridades policiais, autarcas, etc. – estão de parabéns, aliás um pouco como por esse mundo fora, e merecem o nosso profundo respeito e consideração; assim como pequenos e médios empresários e cidadãos anónimos, altruístas, que diariamente contribuem nesta luta diária contra a pandemia, ainda que paradoxalmente surjam atitudes oportunistas, como a dos grande grupos privados da saúde a quererem cobrar indevidamente tratamentos ao SNS.

Também António Costa tem também interna e externamente sabido liderar, mostrando frontalidade na defesa dos países europeus mais atingidos, face ao calculismo avaro e intolerante da Europa do Norte – de que o ministro das finanças holandês foi porta-voz - que retirou dividendos financeiros durante a última crise que tanto atingiu o Sul. Diferendo que parece estar parcialmente ultrapassado com o recente acordo. Mas… não é suficiente. Afinal o futuro da União Europeia passa por uma Europa dos cidadãos. No próximo mês, esperamos, voltamos a este assunto.

(artigo publicado hoje na edição de abril da Folha de Montemor)

25 de set. de 2019

Da Galiza a Sines Um alentejano de regadio na costa atlântica ibérica

Escassos dias antes da partida do Mestre chegávamos a Sines, depois de um percurso desde A Coruña, no Norte da Galiza. 
Aqui deixamos o relato dessa viagem. 
Assim iniciamos o registo das últimas crónica mensais publicadas na Folha de Montemor.


Da Galiza a Sines
Um alentejano de regadio na costa atlântica ibérica

À chegada a A Coruña deparámo-nos com uma cidade quase cosmopolita com um bom e diversificado comércio e um porto de mar muito intenso, no extremo noroeste da Galiza. Diversamente de Santiago de Compostela, pejado de turistas e o lixo consequente, a catedral em obras, muito menos acolhedora que Pontevedra, com uma zona histórica concorrida mas muito bem conservada – onde nos acolhemos num simpático hostal, “Casa do Marujo”, situado numa bonita praça no casco histórico.

As Rías Gallegas
Como o objetivo era sobretudo conhecer a costa e as suas gentes numa perspectiva identitária – e já tínhamos abandonado a ideia de visitar Ferrol, mais industrial - metemo-nos à estrada em direcção à Costa da Morte, indo aportar a Malpica de Bergantiños, uma vila piscatória, sede de concelho, onde fomos degustar num restaurante típico pulpo com chipirones, tinto Ribero e uma excelente vista para o porto. O espaço de degustação - e convívio - era frequentado pelos locais, nomeadamente pescadores, onde orgulhosamente exponham num painel as espécies piscatórias e técnicas e apetrechos usados para a sua faina.
Depois de percorrermos a estrada que bordeja a Ria de Corme y Laxe, deparamo-nos com uma extensa baía de areia suave e convidativa a um banho de mar, paredes meias com a povoação de Laxe, porto de mar com alguns restaurantes na marginal mais frequentados certamente turistas nacionais, pois era sábado. Abastecidos de água e de café de “saco”, fizémo-nos de novo à estrada. Ainda que estivéssemos perto da costa passamos por zonas de floresta frondosa antes de bordejarmos o Rio Grande, que desagua na Ria de Camariñas, outra povoação piscatória.
Após breve paragem e registos fotográficos – o sol estava coberto de nuvens e estava vento forte – atravessamos o rio na povoação Ponte do Porto, iniciando a última parte percurso a caminho do Cabo Fisterra – como se pronuncia em galego. Próximo, na última dezena de quilómetros uma via rápida, de construção recente, ajuda a percorrer rapidamente a distância até à povoação homónima, próximo do famoso cabo, a que se acede por uma estrada em mau estado. O mítico cabo, onde ao longo dos tempos reis, nobres, eclesiásticos e outras pessoas deixaram o registo da sua passagem, muito frequentado por peregrinos – os que não viramos em Santiago – simbólico por ser o fim do caminho para os peregrinos e ainda que arrebatador, fica muito aquém da grandiosidade dos nossos Cabo Espichel ou Ponta de Sagres.

A Illa de Arousa
Com o dia a aproximar-se do fim restava-nos regressar ao hotel, em Santiago de Compostela, para depois de um banho retemperador, jantarmos num arraial que celebrava o S. João – pouco exuberante e muito católico, se comparado com as exuberantes festividades pagãs que no dia seguinte, no Porto ou noutras terras lusas celebrariam o S. João, assim como Lisboa celebra o S. António ou noutros locais o S. Pedro – que os pescadores galegos não celebram, como soubemos em Malpica, quando abordados pela Anita.
No táxi, a caminho do casco histórico de Santiago percorremos com a memória o primeiro dia em terras galegas, tendo partido cedo de Valença e após cruzar a fronteira,  e deixarmos para trás Tuy e depois Vigo, atravessamos a esplêndida ria homónima pelo elegante viaduto perto de Domaio e, após  passarmos junto a Pontevedra, nesta região do litoral sul da Galiza densamente habitada, virámos em direcção à Illa de Arousa, na magnifica ria de com o mesmo nome. Trata-se certamente da maior ria da Galiza, mais extensa do que qualquer outra das chamadas Rías Baixas, caso da de Vigo, de Pontevedra, ou a Ría de Muros y Noia, imediatamente a Norte, ou no Norte, as chamadas Rías Altas – casos da grande Ría de Betanzos, entre A Coruña e Ferrol, ou a Ría de Stª Maria de Ortigueira, no extremo Norte – ou as inicialmente referidas, muito belas mas bem mais pequenas, conhecidas pelas Rías Gallegas.
Esta bela ilha tem a particularidade de se situar a escassas centenas de metros da costa e esta ligada a esta por uma ponte contruída nos anos 80. Situada quase em frente à povoação costeira de Vilanova de Arousa, ainda que parcialmente habitada, não perdeu a sua beleza natural. Tem diversos cais, muitos pescadores e é densamente habituada na zona mais estreita, formando duas penínsulas. Tem um miradouro, um farol e pequenas praias rodeadas de pinheiros, convidativas para passar ou uma ou duas semanas de férias. Depois de cruzarmos a ponte, junto a um cais avistámos o restaurante ”O Pescador”, onde nos deliciámos com os choquinhos com tinta em molho acompanhado pelo melhor vinho bebido na Galiza: um magnífico branco Albariño caseiro, sem rótulo. Foi um manjar de deuses. O primeiro dia iniciava-se da melhor forma possível, com a visita à ilha que tinha falhado noutro estadia em terras galegas, 22 anos antes.
No segundo dia visitamos Cambados e O Grove, concelhos costeiros separados por um grande braço da ria, tendo degustado, na primeira povoação, menos turística, um excelente almoço por 10 € por comensal, onde não faltava o pulpo no respectivo recipiente de madeira.
De regresso ao Sul cruzamos o Rio Minho mas não visitámos Caminha nem a Citania de Santa Tegra, na sua foz, antes nos dirigimos a Ponte de Lima: tal como na ida degustamos nesta bela vila minhota. A sala era exclusivamente composta por comensais da região, escolha certa para saborear os rojões, o arroz de serrabulho e um excelente vinho verde tinto caseiro em malga.

O regresso ao Sul e o FMM
Em dia de festejar o S. João não parámos em Leça de Palmeira, na Granja, em Espinho, ou na extensa costa banhada pela Ria de Aveiro – Ovar, Torreira, S. Jacinto, Costa Nova, Vagueira, Praia da Mira, ou mais perto da Figueira, em Tocha, Buarcos. Muito menos S. Pedro de Moel – que recordamos de finais de 70 – Nazaré, Peniche, Berlenga, Areia Branca, Ericeira, Praia das Maçãs – onde passámos férias há 50 anos. Mas como as férias ainda não tinham chegado, atravessamos o Tejo e rumamos a Almada onde entre 4 e 18 de Julho acontece a 36ª edição do Festival  Internacional de Teatro – que demos conta na edição anterior. E, depois de um banho rápido na Costa de Caparica, seguimos para Sul, para a cidade de Vasco da Gama, que recebe entre 18 e 27 de Julho a 21ª edição do FMM, o mais importante e premiado festival de músicas do mundo realizado em solo luso. No derradeiro dia, inicia o programa, no já lugar de referência que é o palco do castelo, com a famosa banda bejense “Virgem Suta”.
Depois deste percurso, desde o extremo noroeste ibérico, nas tardes tépidas e nas noites marítimas de Sines, vamo-nos deixar envolver pelos sons de outras latitudes, as músicas do mundo.

José António Salgueiro partiu O adeus do Mestre


Ainda não passará 12 horas sobre o término do FMM e recebíamos a triste notícia...

José António Salgueiro partiu

O adeus do Mestre

Há homens quem lutam um dia, e são bons;
Há outros que lutam um ano, e são melhores;
Há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons;
Porém, há os que lutam toda a vida
Estes são imprescindíveis 
                                Bertold Brecht


Ainda não passará 12 horas sobre o término do FMM e recebíamos a triste notícia...
José António Salgueiro, o Mestre das plantas, como era conhecido, partiu fisicamente seis meses depois de ter completado 100 anos. Deixou-nos dia 28 de Julho. Ficou mais pobre Montemor-o-Novo, ficou mais pobre o Alentejo, ficou mais pobre Portugal. Salgueiro deixou um vazio difícil de preencher nos muitos milhares de amantes da Natureza, nomeadamente os praticantes de medicina natural e especialmente muitos(as) a quem José Salgueiro aliviou ou curou das mais variadas maleitas. Deixou um vazio nos(as) homens e mulheres a quem deu o privilégio da sua amizade.
Esse vazio é difícil de preencher para quem acompanhou Mestre Salgueiro praticamente nas últimas duas décadas, fosse divulgando a sua obra, fosse aqui nas páginas da Folha de Montemor, na Revista Memória Alentejana ou na Revista Tempo Livre, do INATEL, só para citar três casos, ou ao termos viabilizado a sua participação em inúmeros Passeios Campestres, mas também dizendo presente sempre que o Mestre solicitou os meus singelos préstimos para escrever prefácios para os seus livros. Por outro lado levando-o a participação em duas sessões, em Almada na Festa do Solar (2015) e no 3º Aniversário do Cante Património da Humanidade, “Almada homenageia o Cante” (2017) e as homenagens, que por proposta nossa o Centro de Estudos Documentais do Alentejo-Memória Colectiva e Cidadania (CEDA) - de que o Mestre era sócio honorário - e a Revista Memória Alentejana realizaram, tanto no passado dia 3 de Fevereiro a festa do seu centenário – aqui referida nestas páginas - à semelhança do acontecido há dez anos, na Casa do Alentejo – onde para celebrar tão importante e significativa data estiveram presentes muitos admiradores e familiares do Mestre Salgueiro.
É de toda a justiça referir aqui dois nomes: o nosso editor comum, o grande Alentejano – defensor acérrimo do nosso património identitário, literário e não só – que é o Fernando Mão de Ferro - e a Manuela Rosa, professora, poetisa e divulgadora de poesia e da literatura – Amiga que connosco e outros amigos levamos a cabo o projecto “Nova Antologia de Poetas Alentejanos” (2013), obra de referência com duas edições; a Manela Rosa teve um papel ímpar, nomeadamente na preparação e redação, a partir de muitas centenas de horas gravadas e de inúmeros dias de trabalho que possibilitou a edição do último livro, biográfico, de José Salgueiro  A Minha Vida Dava um Romance. Outros(as) há, e poderia referir nomes, inclusive os amigos desta Cooperativa que edita a Folha e protagoniza o jornalismo livre e regional, autarcas, cidadãos anónimos, mas quero aqui registar este homem e esta mulher, alentejanos de corpo inteiro, que tal aconteceu com o Mestre Salgueiro, me dão o privilégio da sua amizade. Sabemos que sempre fizeram tudo o que estava ao seu alcance, tal como nós, com abnegação, para divulgar e valorizar o Homem e a sua Obra. Nunca se escusaram, alegando falta de tempo ou outro para não fazerem o que tinha de ser feito em vida de José Salgueiro.
A obra de José Salgueiro reside não apenas nos seus livros com o maior interesse quer literária quer a lucidez demonstrada e a capacidade analítica de Homem culto - nomeadamente o livro mais vendido na Colibri, Ervas, Usos e Saberes, em cinco edições - mas sobretudo a sua postura ética e cívica pondo diariamente a sua enorme sabedoria ao serviço dos outros, da comunidade. O seu desassombro perante a vida e quem conheceu bem o Mestre sabe do que falamos: partilho aqui uma sessão de autógrafos em que participamos os dois, na Feira do Livro de Lisboa, como o Mestre abordava os potenciais leitores, dizendo que quem comprasse [e praticasse os ensinamentos] o seu livro vivia até aos 100 anos… e depois como abordou autores “consagrados” de editora em frente, com o mesmo argumento…
José Salgueiro preparava-se para editor um tratado de medicina natural. Visitei-o dia 10 de Maio, depois de um telefonema seu com carácter urgente: queria que fosse eu a escrever o prefácio. Perante o meu receio de não ser a pessoa indicada para aquela temática, Mestre Salgueiro retorquiu: “Mas sabes falar de mim. Conheces-me.”
Quando no passado dia 28, vi no écran do telefone do carro o nome da Isabel Meira, soube de imediato, o que segundos depois o filho, Miguel, o neto mais velho de Salgueiro, confirmava: o Mestre havia partido.

Até sempre, Mestre Salgueiro!

Com a devida vénia reproduzimos esta sentida homenagem do Amigo Fernando (Mão de Ferro) à memória do nosso Querido Mestre Salgueiro!

27 de jul. de 2019


Depois de um longo, longo ano voltamos ao V/ convívio, de novo em Sines, de novo a acompanhar o melhore festival de músicas do mundo, o FMM. Reproduzimos um texto publicado na Revista Memória Alentejana, nº 41, que acaba de sair, assinada por Rute Gonçalves 

FESTIVAL MÚSICAS DO MUNDO SINES 2019

Encontra-se completo o programa de concertos da 21.ª edição do FMM Sines - Festival Músicas do Mundo, que se realiza de 18 a 27 de julho de 2019.
Conforme a nota de imprensa, o festival entre 1999 e 2018 recebeu cerca de 1 milhão e 200 mil espectadores. Realizaram-se 589 concertos, em que atuaram mais de 3200 músicos, oriundos de mais de 100 países e regiões.
Vencedor do prémio de melhor grande festival nacional nos Iberian Festival Awards 2019, além dos prémios de festival português com melhor programa cultural e de festival ibérico que melhor promove o turismo, o FMM Sines apresenta-se como uma experiência de descoberta e diálogo intercultural através da música.
Este ano, estão programados 51 concertos de 31 países, distribuídos por 10 dias de música: os primeiros três na aldeia de Porto Covo (18, 19 e 20 de julho) e os restantes sete na cidade de Sines (21 a 27 de julho).
Em 2019, o festival sob o lema é "música com espírito de aventura" levam os espectadores a viajar com músicos e músicas da África do Sul, Alemanha, Angola, Argélia, Arménia, Bélgica, Brasil, Burundi, Cabo Verde, Colômbia, Coreia do Sul, Costa do Marfim, Espanha, EUA, Finlândia, França, Gâmbia, Gana, Índia, Jamaica, Líbano, Malásia, Marrocos, Moçambique, Nigéria, Palestina, Portugal, Reino Unido, Síria, Togo e Tunísia. Burundi e Malásia são estreias no festival.
A 21.ª edição do festival será também marcada pela afirmação da criatividade feminina, com destaque para as artistas africanas da Gâmbia, Costa do Marfim, de Cabo Verde grupo e da Coreia do Sul.
As músicas da Europa e dos EUA programadas têm em comum a abertura a outras culturas.
De França, chegam três grupos com ligações à música das três margens do Mediterrâneo; a Londres multicultural traz também uma delegação de peso;
As duas bandas alemãs programadas são outro exemplo de uma Europa acolhedora; de Nova Iorque, a metrópole cosmopolita por excelência, vêm ao festival duas orquestras com matriz no afrobeat.
O lado mais multicultural da capital portuguesa também estará presente, através de três exemplos do novo "som de Lisboa", que recupera a ligação africana: Dino D'Santiago, Branko e Batida apresenta: IKOQWE.
Trazem música do Brasil ao FMM Sines. Ainda da América do Sul, recebemos um grupos ponta-de-lança da nueva cumbia colombiana, Frente Cumbiero.
Promovem regressos às origens: ao som clássico de Lomé, no caso de Vaudou Game; e ao highlife do Gana, no caso do grupo Santrofi. Para o nigeriano Keziah Jones, África é indissociável da grande música afro-americana, dos blues ao funk.
Entre a Europa, a Ásia e África, o Levante tem um libanês - a banda de blues-rock The Wanton Bishops - e dois palestinos, Le Trio Joubran e Zenobia.
Da Índia, o festival recebe música ainda próxima ao folclore, para quem as raízes no sul do país são apenas uma das matérias-primas de muitas viagens e experimentações.
A música folk, sempre presente no alinhamento do festival, com as bandas portuguesas Ronda da Madrugada, Gaiteiros de Lisboa e Tranglomango e os galegos Davide Salvado e Banda das Crechas.
O jazz com componente vocal, tem na belga Melanie di Biasio a grande figura desta edição do FMM.
Também da Bélgica, embora com raízes portuguesas e cabo-verdianas, estreia-se em Sines a revelação Blu Samu, artista entre a soul, o jazz, o funk e o rap.
A juntar ao novo som afro de Lisboa e à folk, o retrato da diversidade da música feita em Portugal completa-se com a experiência de música e dança Ethno Portugal, o grupo de pop-rock alentejano Virgem Suta e o projeto Montanhas Azuis, que junta três artistas de personalidade artística vincada - Marco Franco, Norberto Lobo e Bruno Pernadas.
Para além dos muitos concertos, a 21.ª edição do FMM Sines - Festival Músicas Mundo oferece um programa de iniciativas paralelas, com animação de rua e dos palcos, exposições, ateliês e espetáculos para crianças, encontros com artistas do festival, oficinas de música, visitas guiadas, feira do livro e do disco, encontros com escritores, ciclo de cinema e sessões de contos.

Rute Gonçalves

Aqui vos deixamos algumas notas da alguns dos excelentes concertos de ontem, sexta-feira, dia 26.


De Sines para o mundo, todas as músicas deste mundo, inteirinhas no castelo de Sines! O Alentejo no seu melhor! É bom ser alentejano de regadio...



Depois de um longo ano for do V/ convívio, regressamos, de novo em Sines, no melhor festival de música do mundo, o FMM. Antes da reportagem, que se segue, aqui vos deixamos um texto publicado na Revista Memória Alentejana, nº 41, acabada de sair.

FESTIVAL MÚSICAS DO MUNDO SINES 2019

Encontra-se completo o programa de concertos da 21.ª edição do FMM Sines - Festival Músicas do Mundo, que se realiza de 18 a 27 de julho de 2019.
Conforme a nota de imprensa, o festival entre 1999 e 2018 recebeu cerca de 1 milhão e 200 mil espectadores. Realizaram-se 589 concertos, em que atuaram mais de 3200 músicos, oriundos de mais de 100 países e regiões.
Vencedor do prémio de melhor grande festival nacional nos Iberian Festival Awards 2019, além dos prémios de festival português com melhor programa cultural e de festival ibérico que melhor promove o turismo, o FMM Sines apresenta-se como uma experiência de descoberta e diálogo intercultural através da música.
Este ano, estão programados 51 concertos de 31 países, distribuídos por 10 dias de música: os primeiros três na aldeia de Porto Covo (18, 19 e 20 de julho) e os restantes sete na cidade de Sines (21 a 27 de julho).
Em 2019, o festival sob o lema é "música com espírito de aventura" levam os espectadores a viajar com músicos e músicas da África do Sul, Alemanha, Angola, Argélia, Arménia, Bélgica, Brasil, Burundi, Cabo Verde, Colômbia, Coreia do Sul, Costa do Marfim, Espanha, EUA, Finlândia, França, Gâmbia, Gana, Índia, Jamaica, Líbano, Malásia, Marrocos, Moçambique, Nigéria, Palestina, Portugal, Reino Unido, Síria, Togo e Tunísia. Burundi e Malásia são estreias no festival.
A 21.ª edição do festival será também marcada pela afirmação da criatividade feminina, com destaque para as artistas africanas da Gâmbia, Costa do Marfim, de Cabo Verde grupo e da Coreia do Sul.
As músicas da Europa e dos EUA programadas têm em comum a abertura a outras culturas.
De França, chegam três grupos com ligações à música das três margens do Mediterrâneo; a Londres multicultural traz também uma delegação de peso;
As duas bandas alemãs programadas são outro exemplo de uma Europa acolhedora; de Nova Iorque, a metrópole cosmopolita por excelência, vêm ao festival duas orquestras com matriz no afrobeat.
O lado mais multicultural da capital portuguesa também estará presente, através de três exemplos do novo "som de Lisboa", que recupera a ligação africana: Dino D'Santiago, Branko e Batida apresenta: IKOQWE.
Trazem música do Brasil ao FMM Sines. Ainda da América do Sul, recebemos um grupos ponta-de-lança da nueva cumbia colombiana, Frente Cumbiero.
Promovem regressos às origens: ao som clássico de Lomé, no caso de Vaudou Game; e ao highlife do Gana, no caso do grupo Santrofi. Para o nigeriano Keziah Jones, África é indissociável da grande música afro-americana, dos blues ao funk.
Entre a Europa, a Ásia e África, o Levante tem um libanês - a banda de blues-rock The Wanton Bishops - e dois palestinos, Le Trio Joubran e Zenobia.
Da Índia, o festival recebe música ainda próxima ao folclore, para quem as raízes no sul do país são apenas uma das matérias-primas de muitas viagens e experimentações.
A música folk, sempre presente no alinhamento do festival, com as bandas portuguesas Ronda da Madrugada, Gaiteiros de Lisboa e Tranglomango e os galegos Davide Salvado e Banda das Crechas.
O jazz com componente vocal, tem na belga Melanie di Biasio a grande figura desta edição do FMM.
Também da Bélgica, embora com raízes portuguesas e cabo-verdianas, estreia-se em Sines a revelação Blu Samu, artista entre a soul, o jazz, o funk e o rap.
A juntar ao novo som afro de Lisboa e à folk, o retrato da diversidade da música feita em Portugal completa-se com a experiência de música e dança Ethno Portugal, o grupo de pop-rock alentejano Virgem Suta e o projeto Montanhas Azuis, que junta três artistas de personalidade artística vincada - Marco Franco, Norberto Lobo e Bruno Pernadas.
Para além dos muitos concertos, a 21.ª edição do FMM Sines - Festival Músicas Mundo oferece um programa de iniciativas paralelas, com animação de rua e dos palcos, exposições, ateliês e espetáculos para crianças, encontros com artistas do festival, oficinas de música, visitas guiadas, feira do livro e do disco, encontros com escritores, ciclo de cinema e sessões de contos.

Rute Gonçalves


31 de jul. de 2018

Festival de Sines em 20 º edição ou... 20 anos a dar-nos Música(s) do Mundo


Depois de (mais uma) longa ausência, regressamos ao V/ convívio por uma causa justa. Aqui  vos deixamos a reportagem , publicado ao minuto no nosso face  - Eduardo Manuel – relativamente a alguns dos espectáculos que tivemos oportunidade de acompanhar na 20ª edição do FMM, em Porto Covo e em Sines. Dos cinco concertos a que assistimos no primeiro fim-de-semana em Porto Covo, vos damos conta de três deles, os nossos preferidos.

Dos 14 concertos a que assistimos no segundo fim-de-semana, quinta, sexta e sábado, dias 26, 27 e 28, aqui vos deixamos foto legendas de seis deles.
Sobre esta excelente festival, para além do artigo aqui publicado na íntegra – inicialmente previsto para sair no Diário do Sul, também publicamos no mensário Folha de Montemor, edição de Julho, o artigo Festival de Sines. 20 anos a dar-nos música(s) do mundo.

Saboreiem. Esperamos que seja do V/ agrado.

Sábado, dia 21

No primeiro fim-de-semana do Festival Músicas do Mundo de Sines, aqui em Porto Covo, foi assim no passado sábado, a excelente vocalista húngara Anna Maria Oláh da banda "Meszecsinka".

 Seguiu-se-lhe Viex Farka Toure, do Mali, com o fulgor de seu blues do deserto, conhecido pelo "Hendrix do Sahara".


 



 












E no calor da noite a banda turca de Istambul "Baba Zula", entre a poesia e o rock psicodélico, com a sua performativa postura de "animais de palco" - "O importante é o espetáculo", conforme o Mestre Almada, encheram as medidas aos melómanos presentes. O FMM no seu melhor e... segue dentro de momentos...



FMM de Sines
20 anos de excelência

Na próximo sábado, dia 28 [de Julho], termina o festival Músicas do Mundo, este ano em 20ª edição. A decorrer desde dia 19, 5ª feira da semana anterior, significa que em 2018 se realiza durante dez dias consecutivamente aquele que é considerado um dos mais importantes festivais internacionais da “World Music” e seguramente o mais importante festival musical que nesta área se realiza em Portugal. Nesta edição que assinala os 20 anos o FMM tem o maior alinhamento de sempre, com 59 concertos previstos, a que se adiciona um conjunto vasto de iniciativas paralelas em várias áreas de expressão artística. Organizado pela Câmara Municipal de Sines, tem vindo a crescer e a afirmar-se, desde a 1ª edição, em 1999 como a grande referência nacional para o que de melhor acontece musicalmente fora dos circuitos comerciais.Nos últimos anos várias vezes premiado, recebeu em 2017 o EFFE Award, atribuído pela European Association a “seis dos mais influentes festivais europeus, tendo o júri destacado o papel deste festival na promoção de “uma diversidade real – não uma diversidade cosmética” e por constituir uma “celebração da arte, da vida e do espírito cosmopolita”, conforme disponibilizado em Nota de Imprensa pela organização do certame.
Nesta edição o FMM apresenta músicos de 41 países e/ou regiões de todos os continentes: e nomeadamente os estreantes Bahrein, Bielorrússia, Chipre, Eslovénia, Sudão e Zimbabué. No alinhamento para esta edição encontramos artistas e grupos de referência, como Bulimundo, Huun-Huur-Tu, Kimmo Pohjonen, Kroke, Maravillas de Mali e Oliver Mtukudzi, mas também novos valores como são o caso de BaianaSystem, Elida Almeida, Sofiane Saidi, Sons of Kemet e Vieux Farka Touré.
Do Porto Covo ao Castelo de Sines
O FMM Sines 2018 teve o espectáculo inicial, como já vem sendo tradição, cantado em português pois Aldina Duarte, inaugurou em Porto Covo, dia 19.
No dia seguinte depois de espectáculos menos interessantes, a excelência voltou a encher as medidas aos milhares de melómanos que na segunda quinzena de Julho inevitavelmente viajam para o Sines e, neste caso para a antiga aldeia piscatória de Porto Covo, agora densamente urbanizada mas ainda envolta na beleza natural do mar e dos campos fronteiros. Foi aí, na noite de sábado, 21, nos foi dado saborear intensamente a prestação única da banda húngara de fusão folk psicadélica de Budapeste, Meszecsinka - “pequena lua”, em búlgaro – formação multinacional com membros com origens da Hungria, Bulgária, Polónia, Croácia e Arménia, em que a vocalista, Annamária Oláh, que características vocais ímpares e uma formação no folclore búlgaro, se apresentou apoiada por um naipe de quatro músicos de excepção – teclas, guitarra, baixo, percussão, douduk e flauta - nos trouxe uma mescla musical onde o experimentalismo rockeiro conviveu com o folk búlgaro e húngaro, o flamenco e músicas orientais, o que empolgou a assistência. Seguindo-se-lhe Vieux FarkaTouré, do Mali – filho do mítico Ali Farka – conhecido pelo “Hendrix do Sahara”, que no seu estilo pessoal onde blues do deserto se apresenta com influências musicais de rock, funk, reggae, música latina e sons de outras latitudes africanas, nos trouxe a avassaladora punjança musical centro-africana – que tão bem saboreamos em vários momentos no dia derradeiro da edição de 2017. Logo após a meia-noite soar, Baba Zula, banda turca, com o seu registo de rock psicadélico de Istambul - que teve os seus anos de ouro em sessenta - esta formação que mistura instrumentos de raiz tradicional - a darbuka, o saz eléctrico – com colheres de pau e electrónicos, onde, para além do rock psicadélico, também o dub, numa reinterpretação oriental, são interpretados por este quarteto composto por verdadeiros “animais de palco”, que galvanizaram completa a assistência: Esta levada ao rubro, neste concerto que foi um verdadeiro ritual com poesia, teatro, dança, figurinos elaborados e artes plásticas, tendo os músicos interagido na perfeição – tal como os dois agrupamentos anteriores – e onde a máxima do nosso Almada Negreiros: “O importante é o espectáculo” aconteceu plenamente, nomeadamente quando se deram ao luxo de descer do Palco Inatel e vir tocar para o meio da assistência, mais de 10 minutos, no apinhado Largo Marquês do Pombal enquanto o quarto elemento, o baterista, concertava calmamente um prato que se soltara.
Já em Sines, onde o festival está a decorrer desde segunda-feira, dia 23, deixamos o convite para, a iniciar o programa na 5ª feira, dia 26, pelas 17horas, no Centro de Artes, uma artista de língua portuguesa, Susana Travassos, uma voz com ligações à América do Sul, enquanto nesse dia inicia as “hostilidades no palco do Castelo o grupo Timbila Muzimba, de Moçambique, seguindo-se-lhe artistas/grupos do Gana, França, Tuva-Rússia, Argélia/França e na Avenida da Praia da Etiópia e da França/Paquistão. Sexta-feira, 27, dia grande para a participação brasileira o programa no Castelo começa com a cantautora paulista Tulipa Ruiz, seguindo-se-lhe, lá mais para o final da noite e três concertos depois – dois no palco do Castelo e um na Avenida da Praia – Cordel de Fogo Encantado, uma banda em destaque na nova música urbana brasileira que vai beber nas raízes da tradição. Na madrugada do dia seguinte, o último concerto, na Avenida, fica a cargo da banda Scúru Fitchádu, lisboeta de raízes africanas. No último Sábado, a língua portuguesa está presente em quatro dos dez concertos (leu bem, dez concertos!) previstos para o derradeiro dia do FMM, a saber: Live Low, grupo que apresenta experimentações eletrónicas sobre música tradicional, toca no Centro de Artes e Sara Tavares abre o programa no palco do Castelo. Depois de bandas da Austrália, Líbano e Zimbabué, que certamente nos vão fazer delirar, e quando a noite já estiver ao rubro actua a formação Bulimundo, lenda viva de Cabo Verde e segue-se a encerrar a programação do FMM de Sines de 2018 no palco do Castelo uma das duas bandas que estão na dianteira da nova música urbana atenta às raízes do outro lado do Atlântico, BaianaSystem. O Brasil encerra esta 20ª edição do festival no palco principal no Castelo - ainda que a seguir actuem mais três bandas no palco da Avenida Vasco da Gama, respectivamente da Jamaica, Senegal/Alemanha e Colômbia, certamente que se vão prolongar até ao romper da manhã de domingo. Aliás, esta é a maior delegação brasileira que o festival alguma vez recebeu e não deixa de ser curioso este final, certamente apoteótico, em português, por artistas de outras paragens do planeta neste festival de Sines, terra milenarmente ligada ao mar, Sines que é uma das mais populosas cidades alentejanas, cidade e concelho com características excepcionais e únicas de beleza natural, consequentemente lugar de férias estivais de todo o Alentejo no século passado, antes das praias algarvias estarem na moda. Este festival em que a escolha dos artistas ergue pontes entre culturas e promove a igualdade da circulação de artistas, dando ao público a oportunidade de conhecer músicos com origem em geografias ou propostas estéticas que encontram menos espaço no circuito comercial da música ao vivo, é algo de que nos orgulha enquanto alentejanos, nós para quem o Alentejo, com a sua diversidade e riqueza é uno e indivisível desde Belver- Gavião ou Nisa, nas margens do Tejo ao às margens do rio Mira ou Pomarão-Mértola, ou de Barrancos até… precisamente Sines. A realização deste que é o mais importante festival de músicas do mundo que se realiza em Portugal é a prova provada da capacidade de acontecerem realizações únicas na pátria transtagana, seja na raia, no Alto, no Baixo, no Central ou no Alentejo Litoral. Saibamos unir-nos nos objectivos comuns e exigir as estruturas viárias, marítimas e aéreas que potencializem as nossas capacidades, o que existe, pode e deve ser desenvolvido...
Voltando ao FMM se quiser saber mais, consulte, www.fmmsines.pt …e viaje para Sines enquanto é tempo.
Eduardo M. Raposo
cedalentejo@gmail.com

Publico aqui o artigo que estava previsto ter "saído" ontem no "Diário do Sul" - o único jornal diário publicado em solo Alentejano e um dos únicos da imprensa regional - onde tenho o gosto de colaborar pontualmente, muitas vezes da Diáspora com reportagens sobre temas artístico-literário-musicais. O meu apreço pelo "Diário do Sul" reside no jornal em si mas também e nomeadamente por ser dirigido por um Homem (com H grande) admirável, decano do jornalismo português, o mais antigo director da imprensa escrita em funções e de idade: Manuel Madeira Piçarra, a quem envio um fraterno e respeitoso abraço. O diferendo existente entre o "Diário do Sul" e o Município de Sines, que não permitiu em 2017 a publicação a reportagem efectuada, infelizmente ainda não foi sanado. Fazemos votos para que em breve tal aconteça, em nome da valorização e da identidade cultura Alentejana!
E.M.R.


                                                       
                                        Quinta-feira, dia 26
Certamente um dos momentos altos do FMM 2018 aconteceu na noite de sexta-feira com o mágico momento em que o grupo "Huun-Huur-Tu", descendentes de pastores de Tuva, nos confins da Ásia - entre o sul da Sibéria e a Mongólia, com o seu canto gutural e os instrumentos tradicionais, um encontro com o sagrado da natureza que estes povos nómadas divinizam... ao contrário de nós, ocidentais... é por momentos como este que o FMM é justamente considerado o mais importante festival que acontece em Portugal.





Sexta-feira, dia 27
Sexta-feira o FMM  começou bem, as 17h, no agradável auditório do Centro de Artes - onde há três anos apresentamos José Afonso - O Canto da Utopia, no dia 25 de Abril - com o quarteto de Yazz Ahmed, britânica nascida no Bahrein. Um bom momento de jazz, para começar musicalmente o dia...


Soberbo foi o concerto da banda do Reino Unido com raízes caribenhas "Sons of Kemet", com o Castelo de Sines completamente cheio...  
O FMM no seu melhor! 



Sábado, dia 28
No derradeiro dia do FMM a noite começou no Castelo de Sines em árabe com a libanesa Yasmine Hamdan.

 


















A noite continuou no Castelo com os ritmos africanos do Zimbabué com Oliver Mtukudzi e a sua banda “The Black Spirits” com música, dança e alegria.

 
 


Depois de um grande senhor da África Austral o grupo mítico caboverdiano “Bulimundo” convidá-los a dançar ao som do funaná com a maior enchente deste FMM no Castelo de Sines.
 


O FMM 2018 aproxima-se do fim com um excelente concerto! Dez magníficos músicos em palco em língua portuguesa com os ritmos únicos de Cabo Verde!

Em 2019 há mais!
Fica o encontro marcado…  em frente à bela baía de Sines.