28 de ago de 2009

Amoras silvestres


Caminho nos antigos trilhos do comboio. E imagino como seria maravilhoso contornar o monte maior, o altaneiro castelo e caminhar lentamente sobre a ponte e... entrar na estação as fervilhar de gente - o centro do mundo. Quando os percorro ao anoitecer, por vezes penso sentir o som longíquo de um comboio da minha infância.



Enquanto caminho o Sol aquece-me o corpo... e a alma, penetrar-me nos poros, um a um, sinto-e cheio de vida, rejunevescido, poderoso, pleno, com cada um dos cinco sentidos...
Oiço uma voz dum monte póximo. É Almeida Garrett que fala:

Os Cinco Sentidos

São belas – bem o sei, essas estrelas,
Mil cores – divinais, têm essas flores,
Mas eu não tenho, amor, olhos para elas:
Em toda a Natureza
Não vejo outra beleza
Senão a ti – a ti!

Divina – ai! Sim, será a voz que afina
Saudosa – na ramagem densa, umbrosa,
Será; mas eu do rouxinol que trina
Não oiço a melodia,
Nem sinto outra harmonia
Senão a ti – a ti!

Respira – n’aura que entre as flores gira,
Celeste - incenso de perfume agreste.
Sei… não sinto: minha alma não aspira,
Não percebe, não toma
Senão o doce aroma
Que vem de ti – de ti!

Formosos – são os pomos saborosos,
É um mimo – de néctar o racimo:
E eu tenho fome e sede… sequiosos,
Famintos meus desejos
Estão… mas é de beijos,
É só de ti – de ti!

Macia – deve a relva luzidia
Do leito – ser por certo em que me deito.
Mas quem, ao pé de ti, quem poderia
Sentir outras carícias,
Tocar noutras delícias
Senão em ti- em ti!

A ti! ai, a ti só os meus sentidos
Todos num confundidos,
Sentem, ouvem, respiram;
Em ti, por ti deliram.
Em ti a minha sorte,
A minha vida em ti;
E quando venha a morte,
Será morrer por ti.










...uma serenidade invade-me cada vez que toco, saboreio uma aroma silvestre sinto a voz dos Deuses partilhando aquele momento único. Dizem-me: vive este momento em toda a sua plenitude, agora! Só o Amor é eterno. As amoras silvestres em breve partiram, mas no fim do próximo Verão regressam tal como a papoila na Primavera. E tu, ser mais poderoso e frágil da criação, tu? encontra a sabedoria para viveres a eternidade agora, sê simples serás poderoso. Não ambiciones parar o tempo. Serás arrogante e só sentirás infelicidade.
VIVE!














2 de ago de 2009

a Poesia da Música ao som da Pintura

Escrevo por dentro da música. Falo dos poetas que fizeram das palavras canto. Enamoro-me das imagens, da poesia dos montes ao anoitecer. Construo palavras que fazem do meu canto a música da Terra.



Sinto o sangue latejar e danço, danço. Elevo-me no ar, o castelo vai aos poucos tornando-se um pequeno ponto e chego ao mar.

Ao mar onde o sol passa num barco que viaja, viaja sempre. ..





Escrevo. Escrevo sempre . Escrevo-te Poema. Escrevo-te Vida. Escrevo-te
"Antes de te conhecer", como o Zé Luís no poema.


O tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias,
como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo,
mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.
Eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar,
que eu amava quando imaginava que amava.
Era tua a tua voz que dizia as palavras da vida.
Era o teu rosto.
Era a tua pele.
Antes de te conhecer,
existias nas árvores e nos montes e nas nuvens
que olhava ao fim da tarde.
Muito longe de mim,
dentro de mim, eras tu a claridade

José Luis Peixoto


Escrevo por dentro da música rodeado de tripés, paletas, tintas, e de afectuosa amizade. Escrevo da poesia a latejar a música no meio da pintura dos campos do Sul. Escrevo ao Sol a pique impiedoso e belo que me enche de Vida. Escrevo ao luar no castelo e nas palavras e nos silêncios e na espera.









E mesmo quando visito Sophia, Deusa grega na cidade branca, Senhora da luminosa claridade, é a Ti que escrevo.















E quando saboreio as virgens amoras selvagens é de liberdade plena, desmedida, infinita mesmo, que te falo!...






Escrevo por dentro da Música. Escrevo de Poesia, rodeado da bela e suave Pintura.





Escrevo-te.
Espero-te …