22 de jan de 2010

Roque e o Mar...

AUTOPSICOGRAFIA

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.


E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

                            
                                Fernando Pessoa






Anoiteceu sobre a cidade. Podia falar-vos de Música. Da Música que aconteceu há horas no S. Carlos engalanado de afectos, apinhado de fraternos sentidos que a música nos desperta, seja uma gaiata-de- foles, uma morna, a voz do Sérgio ou de Carlos do Carmo, de excelentes barítonos ou do piano de Sassetti, ou ainda mais a plateia e os camarotes em peso, oitocentas pessoas num lançamento de um livro, que, como a Ministra da Cultura referiu, se lhe contassem não acreditava,e… depois deitou o protocolo ao rio e falou como música, como pianista e todos nós, público, feito de músicos, compositores, cantautores, redactores, equipa, colaboradores, consultores, convidados… levantamo-nos para aplaudir a Prof. ª Salwa el-Shawan Castelo-Branco, que dirigiu o grandioso e inédito projecto Enciclopédia da Música em Portugal no Século XX, de que saiu hoje o 1º dos quatro volumes, 12 longos anos depois – onde demos a nossa modesta colaboração na redacção de quase uma trintena de biografias… - como disse Rui Vieira Néry, Salwa, a então jovem investigadora que dirigia projectos de “ponta” na área da etnomusicologia nos Estados Unidos, mas que um dia se deixou irremediavelmente seduzir por um português, o investigador Gustavo Castelo-Branco. Enfim, histórias de moiras encantadas, de que somos pródigos, rematou Vieira Néry, consultor principal da obra. E depois o jantar no Trindade (o Trindade, que saudades!..) e três alentejanos a cantarem "dá-me uma gotinha de água/dessa qu'eu oiço correr ..."

Ou podia-vos falar, 48 horas antes, de como num bar acanhado – onde está instalada uma associação que segue o calendário Maia, “13 Luas” - mas cheio, também ali de afectos, ouvia surpreso o Zet do “O' Questrada” abrir uma noite simpática ao som da gaita-de-foles, devidamente equipado a escocês e depois de me dar uma abraço dizer-me calorosamente que tinha querido estar ali a homenagear-me… e os amigos , os músicos José Carita, Ricardo Fonseca, o investigador António Ramos ou o Rui Fernandes, a Sofia , que cantaram, tocaram, falaram, recitaram ou o Naia, que desta vez não cantou, mas marcou presença, ou os amigos que divulgaram e estiveram, a Inês, o Geraldes Lino (militante da BD), o Nuno Sarmento e … tantos outros…

Podia falar-vos até do sofrimento e da desolação que atingiu o povo haitiano, “cenário dantesco” como descreveu à Lusa a chefe de equipa do INEM em Port au Prince, que marcou com destruição e morte a chegada do novo ano.


Poderia até falar-vos do aniversário do Poeta Eugénio e da suave vivenda na Foz que corre o risco de encerrar…

Ou falar do Encontro, há uma semana, no Auditório do Liceu Camões, de algumas espécimes das últimas duas gerações do “papel”, antes da passar a on-line daquele que foi o último suplemento literário existente neste país, onde muitos de nós nascemos ou reafirma-mo-nos para a escrita, as artes plásticas, a fotografia; refiro-me ao DN-Jovem, que perante uma audiência atenta e muita participativa de alunos – quem disse que os mais jovens não leêm, não escrevem, são uma geração perdida e amorfanhada pela net ? – estiveram alguns dos últimos “cavaleiros do apocalipse”que vieram de pontos tão diferentes como Vila Real de S. António – o José Carlos Barros, agora autarca -, de Leiria – o Arlindo, de Montemor, de Setúbal, ou os lisboetas como o amigo Luís Graça, jornalista tal como a Rita, filha do escritor e amigo Mário de Carvalho, que nos presenteou com histórias de como em criança conviveu em público com o facto de ter um pai escritor…


Mas quero antes falar de Mar. Do Mar. De como caminhei com o Roque pela areia e ele se deliciou enlevado pela areia e falou a linguagem das gaivotas, que curiosas quase se deixaram tocar pelas suas pequeninas mãos. De como ele ficou boquiaberto largos minutos no primeiro dia a contemplar o mar e depois riu feliz como se fosse saudado por cardumes de golfinhos e… talvez sereias.




De como lhe falei das minhas viagens de tempos tão antigos, quando os rios corriam transparentes e cheios de vida e não malcheirosos e nauseabundos antes de as pessoas se habituarem à imundície como se caminhassem para a irremediável autodestruição, autoextermínio, obedecendo cegamente ao “Grande Irmão” que é feito de cifrões - bebe, come, respira, ejacula cifrões – e participa activamente na irreversível destruição da Vida na Terra!


Se este processo autodestrutivo não se inverter a curta prazo quantas gerações ainda poderão usufruir a beleza do Mar e dos poucos rios não poluídos, os campos verdes a perder de vistas que na Primavera se vestirão de estevas e de papoilas… será que o Roque um dia poderá levar o seu neto a saborear a suprema beleza da Mãe-Natureza?...




Enquanto o Roque olhava boquiaberto e sonhador a espuma das ondas caminhamos pelo paredão mar dentro e falei-lhe das minhas viagens pelo azul turquesa do Mar Mediterrâneo dos tempos antigos, de como deixei um dia os cedros da minha primeira pátria há tantas, tantas luas… de como aprendi a arte do xadrez com um velho feiticeiro da idade do mundo que encontrei acampado às portas de Cartago e me fez guardião dos últimos livros, debruados a safira e jasmim, trazidos de Alexandria, eme falou do Garbe al-Andalus, o paraíso onde, disse-me encontraria aquela que … procurava, que não seria fácil, nem breve, seria posto à prova mil vezes, teria que ultrapassar os maiores obstáculos, o maior sofrimento e… talvez tivesse que esperar milhares de anos… o velho feiticeiro depois de me fixar nos olhos com uma doce serenidade enigmática e antes de se esfumar no vento em direcção ao deserto disse-me que a única condição era não desistir nunca… Roque ouviu-me na sua face macia e luminosa de menino, sorriu-me com doçura e … caminhamos de mãos dadas levitando sobre o mar … onde uma sereia nos falou pela voz de
Sophia...


Liberdade


Aqui nesta praia onde


Não há nenhum vestígio de impureza,


Aqui onde há somente


Ondas tombando ininterruptamente,


Puro espaço e lúcida unidade,


Aqui o tempo apaixonadamente


Encontra a própria liberdade.






Intervalo I

(…)


Dai-me o sol das águas azuis e das esferas


Quando o mundo está cheio de novas esculturas


E as ondas inclinando o colo marram


Como unicórnios brancos.

2 comentários:

Geraldes Lino disse...

Belíssimo texto, com laivos, aqui e além de amargura, pelos rios que já não correm transparentes e cheios de vida.
Agradeço a referência à minha presença em Almada, no Espaço 13 Luas, que não conhecia.
Foi uma noite mágica.
Abraços.

S* disse...

Hum... um blogue muito interessante. Poético, pensador...