22 de dez de 2006

Loendro


no editorial desta revista que acaba de sair, pode ler-se...

Um hino à Vida! … o direito de ser Deus!

Vou a caminho do Alandroal e penso que certamente 2007 vai ser um ano luminoso, melhor…oiço Vitorino, alguns dos mais bonitos poemas de Amor cantados com sotaque alentejano, e também o seu irmão Janita, mas antes “deixa-me dormir uma noite/ Oh Laurinda, linda, linda/ que és mais linda do que ó Sol”” e “Canta-me um pássaro no peito/ como um cavalo no prado” na “Litania… para o meu amor ausente” talvez até diga adeus ao Sado, o outro rio grande do Sul, mas antes que me vá embora “não esqueças o tal encontro/ marcado no roseiral”. O mano vindo do Sul, das “Tardes de Casablanca”, para onde antepassados nossos se exilaram quando partiram daqui, do paraíso, Garb- Al Andalus, Atlântida, terra prometida e porque depois “os rios de Espanha choram de tristeza”, porque o Sul, se Alegre fosse pintor seria “um traço branco em fundo azul. Um risco, nada mais do que um risco.” Sol, sal, planície, Sol, decerto Amor disse Almouthamid “a uma escrava que lhe ocultou o Sol”, reflectido nas águas do rio Arade pois”quem pode eclipsar o sol senão a face da lua?”. Onde o cante é cigano e “a nuvem com uma das mãos tece os fios de chuva/enquanto com a outra borda flores de enfeitar”, no dizer de Ibn Sara, no “Zéfiro e a chuva”, porque ”Não é fácil o Amor”, mas encontro nos caminhos de maltês um “sinal de ti”, e sei e dou comigo a pensar, Amor meu, quando longe e ausente e triste estás “Que bonitos/são teus olhos a chorar. Quem me dera/Matar a sede à garganta/Com as águas/Que correm no teu olhar” tu meu amor, que escreves com os olhos.
Chego ao Alandroal com a voz bela dos meus companheiros inseparáveis, de viagem.
E em Bagdad, onde havia mil jardins como aqui, no califado de lá, homens rudes e seus apaniguados, hoje condenaram um homem à morte, e mataram mil, muitos mil, invadindo, humilhando, eles, senhores das armas, descobridores recentes de “L’ étranger” de Camus, e certamente nunca os seus lábios provaram um vinho casto e sensual como a poesia que brotava há mil anos dos nossos primeiros poetas alentejanos; poesia, vinho … Alentejo.
Alandroal, senhor da Cura, Endovélico há muitos mil anos iam peregrinar, adorar…pré e depois celta, romano, cristão, imagem deste Concelho nas margens do Guadiana, onde o Município soube procurar, reencontrar o passado, a memória e tantas moiras encantadas… Arqueólogos, pagãos, escritores, religiosidade popular… o CEDA passo a passo, XVI Encontro, e a revista, esta, a memória e o futuro dos comboios no Alentejo - de onde um menino partiu num comboio há tantos anos - e um conto de Hugo Santos e o Lopes-Graça e o Zeca recordados, o Prémio Pedro Ferro, edição 2007, poesia e “O Sol à Roda do Monte”, do vencedor de 2006, Francisco Rodrigo, e o Manel Geraldo a abalar e os 50 anos de revista D. Quixote, com Manuel Piçarra e o Alex Pirata apicultor de abelhinhas para a boca do meu amor adoçar, o Suão, vento mas futuro em São Miguel de Machede e a Feira do Monte com o Rui (Veloso) a cantar o primeiro beijo… poderoso, imenso, risca o montado, vermelho vivo/sangue, como um deus desconhecido, um hino de Vida, porque a Vida não tem dono, não é de ninguém, em Bagdad, nas margens do Guadiana; Juromenha, Monsaraz, Mértola, Silves, Marraquexe… a Vida, “tão pouco e tanto”… tão pouco e tudo… Amor… meu Amor….


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