20 de set. de 2012

O Primado da Amizade...



...
regressei hoje de uma praia deserta... poderia ser Tânger... mas seria lá mais para o Sul... el-Jadida, Agadir... ou na costa Mediterrânica, onde um dia às portas de Cartago recebi um ânfora com vinho do al -Andalus em troca do livro mais valioso que eu conservara depois do incêndio de Alexandria... cena que se repetiu mais de mil anos depois, numa noite de vinhos voadores num bar que depois se tornou - e quando lá torno sinto-me em casa - um espaço de fraterna partilha, a "Galeria do Desassossego" do meu Amigo Jorge Benvinda, na Baja actual, local onde, nessa noite conheci um Homem que me pediu um livro e em troca, me ofereceu um garrafa de vinho, especial, disse ele, da Andaluzia; aceitei aquela proposta "milenar" e ele, um bebedor activo e praticante - eu, ao lado dele sou um principiante em verde infância - talvez por isso se chame Dionísio... ficou radiante
perdi-me... coisa que nunca aconteceu no mar que eu fiz meu, guerreiro vindo talvez de outras latitudes, ou não, renascido na minha Fenícia natal - tenho tão presente o cheiro e a sombra dos frondosos cedros que ainda perduram no Líbano actual - navegando até Cartago e depois ao al-Andalus... onde estou agora... e desde esta longa ausência, desde Março, desde a homenagem ao Zeca, tinha mil novidades... tantas coisas para contar... mas seria demasiado exaustivo... falo-vos apenas do Roque, o meu menino guerreiro que este ano levei a ver os moinhos de vento no costa Alentejana, a ver o mar azul turquesa do Pessegueiro, a acampar...


 ou da Nova Antologia de Poetas Alentejanos que inclue 50 Poetas contemporâneos oriundos/radicados em 25 concelhos Alentejanos e 15 na Região de Lisboa. 
Lançada nas II Jornadas Literárias de Montemor-o-Novo - A Poesia da Terra em  Monte Maior - em finais de Maio, já conheceu nove apresentações com música, canto, poesia, artes plásticas, etc - como a que é aqui referida, precisamente em Montemor - respectivamente em Almada (2), Beja (2), Sines, Évora, Alvito, Montemor e Sacavém (24ª Semana Cultural da Liga dos Amigos da Mina de S. Domingos)... e amanhã na SPESXVIII, em Alcântara, de que em breve vos daremos conta...


... desta Antologia e sua sessão em pano de fundo se construiu a última crónica, esta semana publicada na Folha de Montemor, onde também se fala do Convento dos Capuchos, da Noite Branca em Badajoz e de um Amigo, um grande Amigo que partiu... João Caeiro

A Poesia na Feira da Luz
 ou
O Primado da Amizade



1º Quadro 
Partimos de Almada, mais precisamente do Convento dos Capuchos, mais precisamente miradouro natural onde pode deixar o olhar saborear esta parte da costa em meia-lua, entre a Costa do Vapor - com o Forte  do Búzio defronte - e o Cabo Espichel . Aqui, esteve até final de Agosto uma exposição de artistas naturais ou radicados no Alentejo, e nomeadamente montemorenses e/ou ligados às Oficinas do Convento; uma intervenção criativa intitulada “Ressonâncias”, com a participação de Virgínia Fróis, José Manuel Rodrigues, Sara António Matos, Tiago Fróis e Sara Navarro.

2º Quadro
No dia seguinte, no Pavilhão da Feira do Livro, em plena Feira da Luz 2012, a Poesia acontece. A Poesia especificamente feita por Poetas que perseguem a beleza através da palavra escrita, não a poesia da Vida, os momentos em que um par de apaixonados trocam olhares embevecidos, ou até lábios, pele, cheiros, sabores, ou ainda momentos colectivos de fruição musical ou de outras criações artísticas, ou a convivialidade da Amizade pura e fraterna, o que também é Poesia. Não, a Poesia dos Poetas, que escreveram, para serem lidos para serem cantados, ou as Imagens que que são o côncavo do convexo, ou o convexo do côncavo das Palavras.
Nuno (do Ó), com a sua excelente voz cantou Pessoa  e, tal como a Arlinda (Mártires), encantou; ela com a subtileza vocal da palavra dedilhada na guitarra clássica do Carlos (Bull),  a Margarida (Morgado) disse e voltou a dizer a Poesia que adora e saboreia como poucos. A Manuela (Rosa) de como participou no projecto fazendo a pesquisa em Bibliotecas e Juntas de Freguesia na região (Alentejo central), o Manel (Casa Branca) falou da forma como construiu a esteva – símbolo do Alentejo, respeitando o branco natural da flor e como nos introduziu e possibilitou a partilha ao seu mundo muito pessoal e íntimo do seu Diário Gráfico - assim da sua experiência recente por Terras do noroeste da Península, pois tinha regressado nessa mesma tarde da Galiza, vindo directamente para a sessão - e de como nos abriu o seu atelier, realçando a importância da amizade.
 A Amizade, fraterna Amizade que ali estava a acontecer com aquele grupo de Amigos, algo que não foi pensado, organizado, premeditado, mas que “aconteceu” ao longo destas oito sessões em que Amigos diversos, mas a maior parte, que se conheceram e desenvolveram essa fraterna comunhão por causa e através desta Antologia. Assim, informalmente surgiu esta Tertúlia de Amantes da Poesia - de dizer, de cantar, de desenhar Poesia e, esse é certamente um dos aspectos mais importantes que ao longo das sessões de divulgação começou a surgir - a par da sua importância literária, do papel fomentador da auto-estima e agregador da criação poética que esta obra tem em 2012 ao juntar 50 Poetas Alentejanos contemporâneos.
A construção da fraterna Amizade por estes Amantes da Beleza, que em Montemor-o-Novo, na Feira da Luz deste ano partilharam com todos os Amigos presentes, por exemplo: a Hortência Menino, vice-presidente e representante do Município, os responsáveis máximos das Freguesias da Cidade, António Danado e Vitalina Roque Sofio, os responsáveis da Cultura do Município, Luís Ferreira e da Biblioteca, Elvira Barrelas e as suas colegas ou o velho companheiro de várias jornadas e muitos “Passeios Campestres”, Alexandre Pirata. O primado da Amizade aconteceu nesta sessão na Feira da Luz.

 
3º Quadro
E Setembro começava, no dia seguinte, com uma ida a Badajoz. Motivo:  uma visita à Noite Branca”, que aconteceu naquela cidade transfronteiriça, organizada pelo Ayuntamiento local que pôs num grande bulício o casco histórico, com muitas dezenas de espaços abertos até às 04.00 horas, performances a acontecerem nas principais praças e ruas de Badajoz, denotando aquele característica frenética, muito peculiar de “nuestros hermanos” e tão pouco usual em terras lusas…
Rumámos então, a convite e na companhia do Amigo Manel (Casa Branca) e da Manuela para o atelier da pintora Clara Báez Merino, sito na calle Donoso Cortés, 12, bajo, onde se procedia aos preparativos finais da exposição “Trans”, transposição de fronteiras transparentes, com a participação de 10 autores plásticos portugueses e espanhóis, onde M. Casa Branca representava o Alentejo com o título elucidativo“Transtagana”, ou a Sul do Tejo.

João Caeiro…
A escrever sobre o Primado da Amizade, tão essencial e insubstituível tal como os Primados da Liberdade e da Beleza e, de repente sou surpreendido com uma notícia brutal, um Amigo que parte, um Amigo das Brotas, João Caeiro, um daqueles Amigos que despe a camisa se alguém tem frio… estivemos juntos  - na direcção da Casa do Alentejo - no pelouro da Cultura , na fundação do CEDA, no Encontro do CEDA em Mora e nas Brotas, em momentos únicos na sua Terra natal, em Monforte, em Reguengos, em Montemor, em tantos locais e situações;  ele que foi também a alma do Núcleo dos Amigos do Concelho de Mora. Incansável, sempre presente na defesa dos mais nobres valores, fossem no colectivo ou individualmente. Há gestos que não esquecem e o João teve-os quando a Amizade nos reconforta. Ao João Caeiro, presto aqui a minha singela Homenagem, Homem como exemplo maior do Primado da Vida. Tentaremos sempre estar conforme a tua elevada postura de humanismo, rigor e verticalidade!
Até sempre, Amigo!...  

20 de mar. de 2012

A Palavra precisa de Ternura! Zeca Afonso, sempre!


"A Palavra precisa de Ternura!"
                   Academia de Santo Amaro
                             dia 23 de Fevereiro de 2012
                                   (a dado momento registei estas palavras de) Hélder Costa


No passado dia 23 de Fevereiro, durante mais de cinco horas, ininterruptamente passaram pelo palco – que foi pequeno, tal como a plateia – da Academia de Santo Amaro, em Alcântara – dezenas de músicos, cantautores, compositores, coralistas, diseurs, para lembrarem José Afonso, exactamente 25 anos após o seu desaparecimento físico. Organizado pelo núcleo de Lisboa da Associação José Afonso, o apresentador “serviço” foi o Amigo Hélder Costa, autor e encenador natural de Grândola, - responsável pela primeira actuação do Zeca em Grândola, em 1964, que posteriormente originou o tema símbolo da Revolução de Abril – que, com grande sentido de humor, “introduziu” no palco desta antiga e conceituada colectividade de cultura e recreio: Pedro Branco, Rogério Charraz, Coro Lopes Graça da Academia dos Amadores de Música, Carlos Carranca, Coro IEFP, Francisco Fanhais – Presidente da AJA -, Grupo de Cavaquinhos da Junta de Freguesia da Charneca da Caparica, Jorge Mendes, Jorge Jordan, Vitor Sarmento, José Manuel Ésse, Quarteto Sons da Gente, Francisco Naia e Zeca Medeiros, acompanhados pelos respectivos músicos, bandas, etc, tendo a leitura de poemas estado a cargo de José Manuel Santos e Teresa Bispo. Pelas 2.30 da madrugada terminava esta sessão em que tantos intérpretes e músicos quiseram estar presentes nesta tributo a José Afonso “génio maior a Música Popular Portuguesa e um dos génios nomes maiores da Música do Mundo (World Music) (RAPOSO, 2010: 10)

O Zeca Afonso é e será sempre a referência, a grande matriz da musica feita em português, da música enquanto arte, criação, que dignifica a nossa identidade, a nossa cultura e a criatividade e inovação, seja que de geração for (e não uma banalidade de consumo imediato, de plástico e descartável) Há que separar o trigo do joio. Mas o Zeca não é um referência fundamental apenas pela sua postura ética e humana em defensa de valores e princípios onde o primado da Liberdade está sempre presente. Ele que era um praticante da “Liberdade Livre”, ele que participou, como poucos, na construção da “Cidade sem muros nem ameias”, que do Ary cantou é, primeiro que tudo, é sobretudo uma referência porque é um génio enquanto Poeta, enquanto cantautor. enquanto músico, intérprete e compositor - como um dia escreveu Mahmud Darwich, o Poeta nacional da Palestina: “A Poesia, primeiro é poesia e só depois é que é de intervenção”.

Talvez o mais importante, certamente um dos mais belos e decisivos discos da música portuguesa, Cantigas do Maio, produzido por José Mário Branco e editado no Outono de 1971 é ponto de viragem da música portuguesa, é ponto de partida e baliza cronológica que marca o inicio da Nova Música Portuguesa (RAPOSO, Ibidem)).

Neste Março ensolarado de início de Primavera, ouçamos então Cantigas do Maio


Cantigas do Maio e a génese da Nova Música Portuguesa


No ano de 1971 termina o período da balada. A viragem dá-se com Cantigas do Maio, considerado um marco decisivo na obra de José Afonso: um dos seus melhores disco de José Afonso e que representa a partida para formas de acompanhamento mais enriquecidas e elaboradas em termos instrumentais.

«A viragem e renovação é marcada pelo José Mário Branco. Como nos diz João Paulo Guerra (RAPOSO, 2007: 85) “Este tipo de música que até aí não seria tecnicamente muito elaborada (…)”(…) embora existissem algumas canções bem construídas, do ponto de vista da melodia e das harmonias(…)”(…) anteriormente o Zeca Afonso cantava com o Rui Pato, que o acompanhava à viola”. Com o Adriano passava-se algo de semelhante, e a “entrada em “cena” do José Mário Branco representa um enriquecimento, somou as potencialidades todas da orquestração, não só nas suas canções como nas canções que orquestrou para o Zeca, nomeadamente no álbum Cantigas do Maio, introduzindo um grande enriquecimento sonoro nesse tipo de música, às vezes com efeitos extraordinários simples – como é o caso do acompanhamento da «Grândola, Vila Morena», o facto de pessoas a pisarem um saco de saibro e depois aquele efeito multiplicado no estúdio enriqueceu bastante. Como é óbvio, este disco e mais os outros três já referidos, e editados quase em simultâneo, Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades (José Mário Branco), Romance de um Dia na Estrada (Sérgio Godinho) e Gente de Aqui e de Agora (Adriano Correia de Oliveira, com música e produção de José Niza)., ficaram como referência fundamental para a música portuguesa” (RAPOSO,2007: 86)

Pode nos diz José Cordeiro” (…) a linguagem simples, imagens claras, melodia cativante são aspectos que caracterizam este disco, onde, para além de todas as inovações instrumentais, desde a orquestração aos arranjos sabiamente dirigidos por José Mário Branco, a voz de José Afonso, todavia, continua ainda a ser o grande meio – com um bom timbre, uma colocação precisa e sonoridade plena que atinge a maturidade, é “(…) a voz que expressa “tudo” porque não é só veículo, mas a condição base da canção.” (RAPOSO, Idem: 86)

Trabalho de equipa, de conjunto, introduz novos instrumentos como a darbuka, o bongo berbere, as tumbas, o adufe, o tamborim brasileiro, a guimbarda e os apitos de fole, além de efeitos especiais, para além dos instrumentos habitualmente utilizados, como a guitarra, a guitarra baixo, o trompete, a flauta, o piano, o órgão e o acordeão, compõem um conjunto que resulta instrumentalmente perfeito e ajustado às intenções dos poemas. “Procurou-se mais o som total que a «medida» convencional de instrumentos de sopro ou cordas que dariam uma plasticização clássica” (RAPOSO, Ibidem)

Este disco, gravado em França (o que acontecia pela primeira vez) contou com meios extraordinários assim como a com a excelência dos músicos participantes: Michel Delaport, Christian Padovan, Tony Branis, Jacques Granier, Francisco Fanhais e José Mário Branco. As fixas são: Senhor arcanjo, Cantigas de Maio (a partir de refrão popular), Milho Verde, (popular), Cantar alentejano, Grândola, Vila Morena, Maio Maduro Maio, Ronda das Mafarricas, (de António Quadros, o pintor e José Afonso), Mulher da Erva e Coro da Primavera. A letra e a música é praticamente toda de sua autoria, à excepção de “Milho Verde”, que é um tema popular com arranjos de José Mário Branco e “Ronda das Mafarricas” que é um poema da autoria de António Quadros (pintor), mas com música do Zeca, assim como a música e letra do tema que dá o título ao disco, ainda que seja sobre letra de refrão popular, ou a intuição popular do poema, da lírica e de imagens muito simples (…) onde (…) “o refrão deve ser o “toque” e “moral” de uma história que se canta em roda, tal como o camponês o faz.”( Assim se pode constatar que «(…) Cantigas do Maio constituem a forma mais nobre e representativa da canção portuguesa, como tudo quanto anteriormente José Afonso concebeu e realizou.(…) Trata-se de mais que uma busca de uma prova absoluta e notável. ”» RAPOSO, Idem: 87)

José Afonso, em declarações para a imprensa, após a saída de Cantigas do Maio dizia relativamente ao seu último trabalho.

«Tive uma série de dificuldades para o gravar, (…) posso considerar este trabalho o melhor que fiz, mas creio que não voltarei a fazer outro assim.»

Hoje sabemos que não foi assim. A excelência de Cantigas do Maio, um dos melhores trabalhos discográficos de José Afonso, não desvaloriza o seguinte Venham mais cinco, ao nível de arranjos ou orquestração não impediu que viesse a realizar outros trabalhos, porventura diferentes, mas não com um nível inferior a este.



Foi há quase um mês. Entretanto, o essencial do teror deste texto foi publicado no Jornal Folha de Montemor. Todavia, não obstante o tempo passado e a espera em partilhar convosco - que a forte gripe não permitiu, o texto e as fotos do espectáculo , estas inéditas...




A Palavra, cada vez mais, precisa de Ternura!

Zeca, sempre!

22 de fev. de 2012

O primado da Liberdade ou Abraçar a pureza em José Luís Peixoto

Regressado do limbo, da espuma das ondas, do mistério ancestral do centro da terra, ou de mim, trago-vos notícias do mais recente livro do José Luis Peixoto, e de outras deambulações andanças, num texto, no essencial publicado recentemente no jornal Folha de Montemor...

O primado da Liberdade
ou

Abraçar a pureza em José Luís Peixoto


“Somos um país privilegiado pela natureza”… por este sol quente que nos penetra os poros, queima suavemente a pele, neste mar imenso, salgado e solar, infinito e sereno. 16,5 graus de temperatura marcava há momentos o visor do carro, neste início de tarde de Inverno… neste braço de infinito entre os Montes da Lua e o Cabo Espichel, suavidade de temperatura e de luz tão contrastante com a noite de breu anterior- a temperatura chegou a descer aos 2 graus negativos, no regresso de Monte Maior , a caminho da antiga Mina de Ouro (Almadãn) à beira tejo – que no último meio século se lançou numa fúria urbanizadora quase selvagem e que só na última década do século XX se assistiu a alguma normalização. Antes de chegar, passei uma terra que algumas década atrás era habitada por ferroviários do Sul e caramelos – vindos várias décadas antes da Beira Litoral. Dou comigo a pensar: - podia-se chamar “Centro Sul”, mas hoje tem 25 mil habitantes, chama-se Pinhal Novo e foi onde desembarquei um dia, no longínquo ano de 1967 – e menos muitos milhares de habitantes – e dei por terminada a infância ainda não tinha completado os cinco anos, tomando de uma (in)explicável dor imensa pela separação da Terra-Mãe. Julguei ao longo da vida que nesse dia era Inverno. Até que um dia, almoçava com um grupo de amigos, pais incluídos, nos Foros de Vale de Figueira, no Restaurante António (?). No dia anterior tinha lançado um livro na Feira da Luz e depois de uma noite meio dormida tínhamos ido serenar o espírito até às margens do Almansor, na Herdade do Freixo do Meio, grupo de passeantes, guiados pela Ana Fonseca e pelo Amigo Manuel Casa Branca –duas perspectivas diversas do sobreiro, terminado numa tranquilizante aula de desenho. Em fim de passeio preparávamo-nos para retemperar as forças ao som dum apetitoso ensopado de borrego, e nisto, vira-se a minha mãe para mim:

- Faz hoje 40 anos que partimos do Alentejo!

Fiquei sem respiração…. 40 anos???!!! metade, ou mais, de uma… vida… mas…. e tinha visto um céu negro e uma rua enlameada, foi há 40 anos, mas é que se fosse hoje…dia 1 de Setembro. 1967. 2007.



Voltando a 2012. Noite fria de 6 para 7 de Fevereiro. Entro no café combinado e dou de caras com um velho companheiro de andanças várias, nomeadamente dos Congressos do Alentejo, -Manuel Lagarto, onde ele estava enquanto então dirigente associativo – o de Beja foi o último – agora Presidente da Junta de Freguesia local. Conversa breve. E dizia-lhe eu. – é preciso resistir, dar respostas políticas, ideológicas, não sectárias, tolerantes mas se necessário intransigentes em defesa dos valores, ao “radicalismo neo-liberal” -e cito j. Medeiros Ferreira em crónica, nesse dia no Correio da Manha. Eu prefiro chamar-lhe fundamentalismo, fundamentalismo neo-liberal. A que respondo com o primado da Liberdade. De reagir. De agir, De lutar. Estar, ser e viver de pé. A prumo para o Sol. Só assim faz sentido. Lutar, resistir, enfrentar a inépcia de indivíduos que nunca construíram nada pela sociedade, pela comunidade, e que apoiando-se em burocratas sem pátria, que para além da linguagem monocórdica dos números, ao serviço dos seus mandantes, dos seus “pequenos deuses” financeiros, não passam de analfabetos funcionais no mundo dos Homens livres, e até arrebanhando algumas figuras intelectualmente respeitáveis mas que se estão prestando a esta triste tragédia de destruição de relações e equilíbrios sociais tão arduamengte conquistados e construídos ao longo de todo o século XX. Que estranha similitude entre as iniciais medidas de Salazar e as que dia após dia são anunciadas. Aumento dos impostos e de horários de trabalho, diminuição de salários e de regalias sociais. Austeridade que resultou num país atrasado, provinciano, policiado, reprimido, censurado, aprisionado… que novo fascismo subtil e com outras roupagens, mas com laivos fascizantes claros, aí vem?...

A dignidade reside tanto na palavra, no poder da palavra – Sidónio Pais, o Presidente-rei, foi morto por um Alentejano, José Júlio da Costa, a quem traíram a palavra dada e assim lavou a honra.

A minha proposta é mais pacífica e provavelmente assenta mais no primado da Liberdade.

E falo-vos do mais recente livro de José luís Peixoto Abraço. Recentemente escrevi assim ao Zé Luís, que está previsto vir a Montemor-o-Novo, nas II Jornadas Literárias A Poesia da Terra em Monte Maior, no próximo mês de Maio.

“Tenho estado a ler o teu livro e estou a gostar muito. Tem crónicas excelentes, nalguns casos de cortar a respiração. Conjugas, em perfeita harmonia e comunhão, o Menino sensível que te habita e nos enternece com o Feiticeiro sábio que nos encanta porque desmistifica com suave clareza e frontalidade os mistérios da Vida. És um grande escritor e é para nos, singelos amantes apaixonados da escrita uma benção vivermos essa partilha que nos dás das tuas palavras… e dos teus abraços.”

Termino com um excerto da crónica

‘Manifesto branco’


PUREZA, ESTA PALAVRA. Os poemas da Sophia, os poemas do Eugénio, os poemas da Fiama, as crianças. Endeusa esta palavra. Uma palavra pode ser um deus, como um rio pode ser um deus (Ganges). Uma palavra pode ser um deus como o invisível pode ser um deus. Um significado pode ser um deus. Sorri


Se eu descrevesse agora a pureza iria construir uma ordem de palavras diferente da tua e diferente da minha amanhã, ontem. Esta é uma certeza evidente. É assim porque eu e tu somos diferentes, porque eu agora sou diferente do eu amanhã, eu ontem. Os filósofostiraram essas conclusões antes da electricidade. Nãqo há um grande mistério nessa ideiaapesar de ser a tentação de um poço e, já sabes, os poços servem sobretudo para cair. Não deixes que esse pormenor te impeça de nada.


(…)


Talvez te pareça que já não podes ver com pureza, talvez te parece que perdeste essa capacidade entre as coisas reais, como quem perde uma chave na rua, como quem perde a carteira. A diferença entre um sentido e uma chave ou uma carteira, por exemplo, é que um sentido pode materializar-se na palma da mão, não é feito de ferro. Se precisares de renascer, renasce. É permitido renascer. Na verdade, nada é proibido.


Nada é proibido.


Pureza, repito a palavra apenas pelo prazer de articulá-la. Experimenta. Se te sentires ridículo ao fazê-lo, sabe que essa é uma armadilha que deixaste que te colocassem. Ignora-a. Diz: Pu-re-za. Ao fazê-lo, é como se cantasses no duche ou no trânsito. Sorri.


(…)


Tudo é possível. Nada é impossível. Não deixes que te armadilhem de cálculos e labirintos. Sãqo demasiado fáceis de construir. Quando mal entendidos, são máquinas de guerra. E, no entanto, não há palavras más. Perante a pureza, deus, só há palavras boas. Avança no incandescente, na música sem muros. Não existe horizonte nessa paisagem. Pureza, repete. Tu tens direito à felicidade.


Agora, vai. Tens a vida à espera de abraçar-te.


Mais do que a ler, a saborear sofregamente.

Abraço de José Luis Peixoto




1 de jan. de 2012

O "Cante" e o solstício

A essência do Cante está na Terra. Os Homens por mais bela, e é, a forma como o entoam, são meros interpretes dessa grandeza divina.

mas estes Homens conhecem a Terra, respeitam-na porque sabem que a harmonia está na Terra e no encontro com ela. Diferem de como o recentemente desaparecido, o dramaturgo e antigo presidente checoslovaco Vaclav Havel se referia e suspeitava que a "nossa civilizacão caminha para a catástrofe", a menos que corrija "a sua miopia e a sua estúpida convicção de omnisciência, o seu desmesurado orgulho", e eu acresecentaria: a ignorância e a mediocridade, a pequenez. Porque se temos que resistir, como disse a um amigo que hoje de Moura, o Santiago Macias, me desejava um bom 2013, eu não desisto de 2012 e a minha esperança está na luta... na luta e na Beleza... e se faz aqui sentido citar Manuel Alegre e a
"Trova",

Mesmo na noite mais triste
em tempos de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.

mesmo assim não abdico da Beleza, daBbeleza que está na Terra de onde nasce o jorra o Cante - de que vos irei falar -  e nestes últimos minutos de 2011 deixo-vos este plena e avassaladora Poesia da Terra...

             
                                                                  Imagens recolhidas recentemente
                                                                    algures a caminho de Mértola...                                                                              
Cante, a alma do povo,
a Património Mundial


A propósito do projecto de elevar o Cante a Património Imaterial da Humanidade, que agora terá ganho novo fôlego com esse mesmo estatuto que o Fado alcançou; afinal, o Cante é certamente, para nós Alentejanos, muito mais representativo de uma genética identitária colectiva.

Neste mês do solstício e de outras celebrações pagãs (no sentido ancestral), depois cristianizadas e na contemporaneidade banalizadas pelo consumismo doentio de um mundo sem valores, achamos oportuno dar o nosso modesto contributo a este novo projecto de autoestima identitária, socorrendo-nos de um trabalho que em 2006 publicamos na Revista de Estudios Extremeños, editada em Badajoz desde 1927. O texto que se segue surge a partir de um capítulo do citado artigo.

“ O Cante nos campos do Sul

A ruralidade, embora parcialmente urbanizada, onde no passado o Canto de Intervenção e na actualidade a Nova Música Portuguesa muito foram ‘beber’, essa ruralidade manteve-se quase intacta nos campos do Sul, essa forma polifónica pura que é o Cante. E se a sua origem se perde na noite dos tempos com tantas similitudes na Córsega e no Magrebe, o Canto atravessa diacronicamente a História e depois de estar vedado temporariamente às mulheres, salvo raras excepções, quando se mudou da ceifa para a taberna – com a mecanização agrícola – posteriormente a mulher recuperou o seu direito próprio de cantar em público como surgimento dos grupos corais femininos.

A mulher alentejana, tal como o homem, é contemplativa, vive com dignidade e morre de pé, até porque, o doce sabor agreste da planície não lhe deixa outra alternativa. O Cante, tal como o foi o Canto de Intervenção, foi e é, por excelência, uma forma de resistência ao poder. Senão, vejamos este exemplo, uma adaptação popular de Francisco Naia: Mas que linda comitiva/ Vejo na rua a passar/ São os nossos governantes/ Que nos vêm a visitar/ Têm jeito no vestir/ e bons modos no falar/ Mas aquilo que prometem/ Não os vemos a realizar.

O Cante, é uma polifonia simples, a duas vozes paralelas, à terceira superior. Como polifonia, situamo-la na época em que esta tinha o principal lugar na música, toda ela vocal, a que se deu o nome de Milénio vocal, uma polifonia sem instrumentos, como nos diz o Padre Marvão .

Ainda segundo o mesmo investigador, em algumas das modas que compõem o Cante sobressaem dois sistemas musicais, inteiramente distintos, que são: o sistema modal, em uso durante toda a Idade Média, e o sistema tonal, já fruto do Renascimento. O sistema modal grego, adaptado e modificado por S. Gregório, era composto dos modos Dórico, Frigio, Lídio, Mixolídio e Eólio. Os modos gregos tinham também sete notas, cujos tons variavam na escala, ao contrário das nossas escalas, cujas melodias giram em volta da tónica ou super-dominante, segundo o tom é maior ou menor.

                                                              ... perto de Torrão do Alentejo...
Mas se a definição de Cante não gera polémicas, a sua origem, essa é alvo de acesas discussões; desde este autor que defende o seu nascimento nas escolas de polifonia clássica do século XV de Évora, frequentada pelos monges de Serra de Ossa, que se estabeleceram em Serpa, mas que é contra-posto por outros investigadores e até interpretes/músicos (como entre outros Jorge Raposo, José Orta, Francisco Fanhais) devido à não existência de indícios históricos do Fabordão na referida Escola de Música da Sé de Évora. A relação com os cantos árabes, defendida por outros, é posta em causa por terceiros, com o argumento de que o Cancioneiro do Magrebe não uma estrutura polifónica.

O que é certo é que o Cante, com um percurso que o próprio Estado Novo tentou utilizar para a sua Política de Espírito, manteve as suas característica essenciais de pureza e de ruralidade, onde tematicamente, por ordem decrescente, surgem: o Amor, a Natureza e o Trabalho. Nos últimos anos, os cantadores estão organizados na MODA – Associação do Cante, onde através da pesquisa, tentam preservar a pureza e a dignidade do Cante, condenando a sua adulteração e entoando as modas do Cancioneiro Tradicional.”

                                                         ... entre Viana e Portel


Que esta ‘aventura’ resulte possibilite que a UNESCO venha o reconhecer o Cante como Património Intangível é certamente algo que os Alentejanos ambicionam. Nestes tempos em que alguns líderes políticos portugueses querem vergonhosamente alienar a nossa soberania, os nossos valores civilizacionais e até a nossa História de Nação independente quase milenar, que o Alentejo e a Pátria Alentejana possam, através do reconhecimento internacional do nosso Cante, dar um contributo identitário e civilizacional a toda a Nação portuguesa, erguendo bem alto os nossos valores e a nossa Cultura, que não são revisíveis pelo Eixo Germano-Francês, que já é chamado de IV Reich.

14 de dez. de 2011

Soneto

Afinal já passou bastante tempo desde o último poste, ao contrário do que previra.
Quero partilhar algo que me enviaram recentemente, pelo meu aniversário. A falta de saúde e a dúvida se devia publicar um soneto que me dedicaram, atrasou a sua publicação. Mas cheguei à conclusão que a autora, a minha querida Amiga Maria Vitória Afonso é mais que merecdora da sua divulgação... para ela um grande e sentido abraço... extensível a todos vós...



Aniversariante na Diáspora


Ao Eduardo


Da Funcheira viajou em criança
Quis apanhar o comboio do futuro
Procurou a cultura com esperança
Deixar o pátrio berço era pois duro.


Dessa terra amada cheia de pujança
Saudoso, então desse Alentejo puro
O honra e divulga com confiança.
Continue a servi-lo, bem lhe auguro


O seu labor não é nada restrito
Dá aulas em Beja, seu distrito
Da região evoca a memória.


A matriz cultural exorta com esmero
Seu sentimento é natural e vero
Do Alentejo assume sua história.




Maria Vitória Afonso

10 de nov. de 2011

A propósito das insígnias de Doutor ou o direito à indignação/à dignidade

Depois de uma longa ausência - devido a momentos atribulados - que espero não se repita, regresso ao V/ convívio para vos dar conta de um acto onde participei no passado dia 2 de Novembro: a imposição das insígnias de Doutor, onde também houve a entrega de diplomas a alunos de mérito bem como a vencedores de diversos prémios, desde investigação, empreendedorismo, fotografia, desporto, etc., tudo isto no âmbito do Dia da Nova, refiro-me à Universidade Nova de Lisboa, onde várias dezenas de antigos e actuais alunos receberam as respectivas distinções.

Numa cerimónia com todas as formalidades, com o respectivo corpo académico trajando a rigor – com as respectivas togas e cores de cada uma das faculdades que dirigem, assim como os respectivos departamentos, mas também os Pro-Reitores, Vice e antigo Reitor, Administradores, Presidente do Conselho Geral (PCG) e claro, o Reitor, com o Presidente a dirigir a sessão numa mesa onde quem apenas estava à “civil” era o Secretário de Estado do Ensino Superior e, onde não faltavam, no anfiteatro reservado aos convidados, representantes dos três ramos das Forças Armadas, da GNR e da PSP.

O PCG, Eduardo Arantes de Oliveira abriu a sessão, que terminou com uma intervenção muito humanista do Reitor, António Rendas, que é simultaneamente Presidente do Conselho de Reitores. Na cerimónia, usaram ainda da palavra o Director do Expresso, Ricardo Costa, o representante do Conselho de Alunos, Diogo Pereira e António Barreto, a quem coube a intervenção de fundo, convidado para o efeito, tendo de facto dissecado o papel da Academia e as relações, ou falta destas, com o mundo exterior, lamentando perca da cultura humanista Académica nas últimas duas décadas, em prol da ciência, inclusive fazendo propostas inovadoras (que o Reitor, enquanto presidente do Conselho prometeu fazer chegar aos seus pares). Barreto, com a argúcia e a capacidade analítica que lhe é reconhecida neste âmbito académico que domina com uma excelência certamente muito diversa dos temas agrícolas, fez uma intervenção brilhante.
E eu, filho de um ferroviário com a 4ª classe (quase parafraseando José Saramago) “um dos homens cultos que conheço”, e esteve lá. Senti nesse dia o meu esforço reconhecido, o meu trabalho por vezes tão árduo, sobretudo nas palavras do Reitor, muito simpáticas, expressivas e de alento para os novos doutores; para continuarmos a enfrentar os novos desafios e a darmos o nosso melhor contributo à Universidade e ao país. Mas depois comecei a pensar a frio, já fora daquele meio elitista: de que me servem estas distinções cá fora – neste mundo real e “cão”, onde não me coíbo de tentar realizar diariamente as utopias que idealizo; e tenho vindo a realizar algumas, pois tenho tido a felicidade de encontrar interlocutores à altura – Homens e Mulheres de cultura, sensibilidade, verticalidade e dignidade – como tem vindo a acontecer, nomeadamente em algumas cidades e vilas alentejanas (mas não só), deste nosso Alentejo amado, e honra lhe seja feita, neste município de Abril, onde não obstante as dificuldades e certamente alguns possíveis os erros (inerentes ao ser humano), neste município onde diariamente aprofundam a democracia e o espírito do 25 de Abril.

É evidente que estas distinções não deixam de dar algum alento a quem luta diariamente para manter a dignidade, para não soçobrar, desistir… neste mundo em radicais transformações, onde dia após dia são postas em causa conquistas da civilização e do humanismo quer remontam, pelo menos e em muitos casos, ao início do século XX, dirigida por gente sem escrúpulos.

Neste país de Abril onde o rudimentar Estado social está a ser sistematicamente destruído – depois de o terem sido as forças produtivas: agricultura, pescas, indústria, etc, às ordens de Bruxelas. O que permanece indestrutível é a imensa obra transformadora do Poder local – os equipamentos culturais, desportivos, educativos, de lazer mudaram a face desta país; e quem como eu, com apetência de leitura, viveu no início de 70 fora das grandes cidades, como não recordar as saudosas bibliotecas itinerantes Gulbenkian, as saudosas carrinhas que semanalmente nos traziam a magia de descobrir novos mundos, naqueles mundos, por vezes tão pouco coloridos, para não dizer cinzentos. E pois uma conquista civilizacional que tem a ver com a nossa identidade secular e milenar de Nação mais antiga da Europa, o municipalismo desde a romanização, o período islâmico, etc. A nossa identidade, a nossa auto-estima enquanto comunidade, é algo que não poderemos permitir o desaparecimento. As autarquias são verdadeiros esteios da democracia, da harmonização da vida comunitária.

O que nos resta? resta-nos resistir, resta-nos indignar! Resta-nos talvez lutar, unido-nos, perante uma escassa, reduzidíssima minoria, representante do capitalismo especulativo, financeiro. Para isso ser possível é necessário a tolerância para unir esforços, sem sectarismos, onde, quem se revê nos valores do humanismo, nos valores civilizacionais, conquistados, mas também a conquistar (do meio ambiente, da natureza, do futuro), pois desde há muitas décadas certamente Marx não estava tão actual… mas permitir também que uma certa classe que vingou à sombra da democracia, que conquistou cargos e “tachos” no aparelho de Estado, tantas vezes à sombra dos ideais de Abril, à sombra da acção altruísta, da abnegação de Homens e Mulheres que construíram primeiros anos da democracia, ideais que esta classe tem maltratado, espezinhado, enxovalhado, e que provoca em cidadãos menos informados impensáveis ímpetos saudosistas…

Que é necessário, é preciso indignar-nos, não restam dúvidas. Mas será que as forças da ordem, os seus elementos também sacrificados com a crise, será que irão reprimir os indignados ou também se irão indignar, como seres humanos que são?

E as Forças Armadas, estarão novamente ao lado do povo, como aconteceu mas transformações político-civilizacionais – 5 de Outubro, 25 de Abril – como o Tenente-Coronel Vasco Lourenço recentemente referia?

Termino com um poema-canção que tanta nos direcciona para a luta, para a indignação.


“Os Vampiros” de José Afonso

"No céu cinzento / Sob o astro mudo / Batendo as asas / Pela noite calada / Vêm em bandos / Com pés de veludo / Chupar o sangue / Fresco da manada

Se alguém se engana / Com seu ar sisudo / E lhes franqueia / As portas à chegada / Eles comem tudo / Eles comem tudo / Eles comem tudo / E não deixam nada

São os mordomos / Do universo todo / Senhores à força / Mandadores sem lei / Enchem as tulhas / Bebem vinho novo / Dançam a ronda / No pinhal do rei

Eles comem tudo / Eles comem tudo / Eles comem tudo / E não deixam nada"

(Do LP "Dr. José Afonso em Baladas de Coimbra", 1963)

27 de set. de 2011

"Aldeia Nova" no Pax Julia

"Aldeia Nova"
A partir de um conto de Manuel da Fonseca

Um espectáculo de Paulo Ribeiro, evocativo do centenário do nascimento do poeta, contista, romancista e cronista alentejano e... universal

"A música já estava contida no rumor das sílabas... foi só aguardar um pouco, até que as melodias envolvessem o silêncio e acariciassem as palavras: 'chicotadas de vento' que eclodiram da voz irrepetível de Manuel da Fonseca e que hão-de para sempre ecoar no 'horizonte todo de roda caiado de sol...'. (...) pode ler-se no folheto de apresentação

O espectáculo começou na Praça da República (Beja) com a actuação da Banda Filarmónica de Serpa, como se fossemos marchando ao som da “Marcha Almadanim” percorreu uma daquelas ruas estreitas e antiquíssimas do casco histórico da milenar Beja até ao CineTeatro Pax Julia, onde, junto à entrada continuou a actuação com “Quando cheguei ao barreiro/no vapor que passa o Tejo”


Depois surgiu o Paulo (Ribeiro) que, nas escadarias, apresentou o espectáculo. Entramos e então surgiu em palco o Grupo Coral e Etnográfico da Casa do Povo de Serpa, que interpretou, duma forma avassaladora dois temas, um deles do Manel (da Fonseca) e “Terra sagrada do pão”. Estava dado o mote: a força imensa da Terra, ou melhor, o Alentejo na sua plenitude.

Seis músicos, três cantores, duas bailarinas e um actor, uma dúzia de almas para nos trazerem a emoção da poética do Manel da Fonseca, a sua mística neste espectáculo imensamente emotivo, onde a força telúrica dos Grupo Coral de Serpa teve continuidade com o excelente naipe de músicos, a voz quente e bem timbrada do Paulo, o cantautor da planície, como o ano passado lhe chamámos numa entrevista na Memória Alentejana, e as vozes, forte e segura do Fernando Pardal e melodiosa da Marisela, em coro ou as masculinas a solo. Um cenário cativante com a voz off e a imagem tão real em fundo do Manel, que tantas recordações me trazem de tantas férias passadas na sua companhia única em Santiago do Cacém, e ainda as prestações da Joana Cavaco e da Ana Fabião, na dança ou do António Revez no representação. Uma noite imensa de afectividades ao som da Poesia do Manel, continuada, com o elenco, quase todo reunido na “Galeria do Desassossego”, à conversa, entre dois belos tintos, com o seu responsável, o amigo Jorge Benvida, o líder dos “Virgem Sutta”, o Paulo, o Jorge Moniz, o grande jazzman com raízes em Aljustrel, o Zé Orta e outros, muitos amigos e… já perto do romper da alva, noutro local, a ouvir de novo a voz do Paulo, nos então “Anonimato”, que o disco jokey, seu admirador, fez questão de o/nos presentear entre a música e a dança.



Onze Poemas de Manuel da Fonseca musicadas por Paulo Ribeiro, constituem o fio condutor do espectáculo como "Vagabundo", "Maria campaniça", "Caminhos do Alentejo".

Aqui ficam alguns exemplos com que o Paulo e os seus companheiros de palco nos deliciaram...


As balas

Dá o Outono as uvas e o vinho
Dos olivais o azeite nos é dado
Dá a cama e a mesa o verde pinho
As balas dão o sangue derramado


Dá a chuva o Inverno criador
As sementes da sulcos o arado
No lar a lenha em chama dá calor
As balas dão o sangue derramado


Dá a Primavera o campo colorido
Glória e coroa do mundo renovado
Aos corações dá amor renascido
As balas dão o sangue derramado


Dá o Sol as searas pelo Verão
O fermento ao trigo amassado
No esbraseado forno dá o pão
As balas dão o sangue derramado


Dá cada dia ao homem novo alento
De conquistar o bem que lhe é negado
Dá a conquista um puro sentimento
As balas dão o sangue derramado


Do meditar, concluir, ir e fazer
Dá sobre o mundo o homem atirado
À paz de um mundo novo de viver
As balas dão o sangue derramado


Dá a certeza o querer e o concluir
O que tanto nos nega o ódio armado
Que a vida construir é destruir
Balas que o sangue derramado


Que as balas só dão sangue derramado
Só roubo e fome e sangue derramado
Só ruína e peste e sangue derramado
Só crime e morte e sangue derramado.


Tu e eu meu Amor

Tu e Eu Meu Amor
Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.


Nua a mão que segura
outra mão que lhe é dada
nua a suave ternura
na face apaixonada
nua a estrela mais pura
nos olhos da amada
nua a ânsia insegura
de uma boca beijada.


Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.


Nu o riso e o prazer
como é nua a sentida
lágrima de não ver
na face dolorida
nu o corpo do ser
na hora prometida
meu amor que ao nascer
nus viemos à vida.


Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.


Nua nua a verdade
tão forte no criar
adulta humanidade
nu o querer e o lutar
dia a dia pelo que há-de
os homens libertar
amor que a eternidade
é ser livre e amar.


Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.