1 de jan de 2012

O "Cante" e o solstício

A essência do Cante está na Terra. Os Homens por mais bela, e é, a forma como o entoam, são meros interpretes dessa grandeza divina.

mas estes Homens conhecem a Terra, respeitam-na porque sabem que a harmonia está na Terra e no encontro com ela. Diferem de como o recentemente desaparecido, o dramaturgo e antigo presidente checoslovaco Vaclav Havel se referia e suspeitava que a "nossa civilizacão caminha para a catástrofe", a menos que corrija "a sua miopia e a sua estúpida convicção de omnisciência, o seu desmesurado orgulho", e eu acresecentaria: a ignorância e a mediocridade, a pequenez. Porque se temos que resistir, como disse a um amigo que hoje de Moura, o Santiago Macias, me desejava um bom 2013, eu não desisto de 2012 e a minha esperança está na luta... na luta e na Beleza... e se faz aqui sentido citar Manuel Alegre e a
"Trova",

Mesmo na noite mais triste
em tempos de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.

mesmo assim não abdico da Beleza, daBbeleza que está na Terra de onde nasce o jorra o Cante - de que vos irei falar -  e nestes últimos minutos de 2011 deixo-vos este plena e avassaladora Poesia da Terra...

             
                                                                  Imagens recolhidas recentemente
                                                                    algures a caminho de Mértola...                                                                              
Cante, a alma do povo,
a Património Mundial


A propósito do projecto de elevar o Cante a Património Imaterial da Humanidade, que agora terá ganho novo fôlego com esse mesmo estatuto que o Fado alcançou; afinal, o Cante é certamente, para nós Alentejanos, muito mais representativo de uma genética identitária colectiva.

Neste mês do solstício e de outras celebrações pagãs (no sentido ancestral), depois cristianizadas e na contemporaneidade banalizadas pelo consumismo doentio de um mundo sem valores, achamos oportuno dar o nosso modesto contributo a este novo projecto de autoestima identitária, socorrendo-nos de um trabalho que em 2006 publicamos na Revista de Estudios Extremeños, editada em Badajoz desde 1927. O texto que se segue surge a partir de um capítulo do citado artigo.

“ O Cante nos campos do Sul

A ruralidade, embora parcialmente urbanizada, onde no passado o Canto de Intervenção e na actualidade a Nova Música Portuguesa muito foram ‘beber’, essa ruralidade manteve-se quase intacta nos campos do Sul, essa forma polifónica pura que é o Cante. E se a sua origem se perde na noite dos tempos com tantas similitudes na Córsega e no Magrebe, o Canto atravessa diacronicamente a História e depois de estar vedado temporariamente às mulheres, salvo raras excepções, quando se mudou da ceifa para a taberna – com a mecanização agrícola – posteriormente a mulher recuperou o seu direito próprio de cantar em público como surgimento dos grupos corais femininos.

A mulher alentejana, tal como o homem, é contemplativa, vive com dignidade e morre de pé, até porque, o doce sabor agreste da planície não lhe deixa outra alternativa. O Cante, tal como o foi o Canto de Intervenção, foi e é, por excelência, uma forma de resistência ao poder. Senão, vejamos este exemplo, uma adaptação popular de Francisco Naia: Mas que linda comitiva/ Vejo na rua a passar/ São os nossos governantes/ Que nos vêm a visitar/ Têm jeito no vestir/ e bons modos no falar/ Mas aquilo que prometem/ Não os vemos a realizar.

O Cante, é uma polifonia simples, a duas vozes paralelas, à terceira superior. Como polifonia, situamo-la na época em que esta tinha o principal lugar na música, toda ela vocal, a que se deu o nome de Milénio vocal, uma polifonia sem instrumentos, como nos diz o Padre Marvão .

Ainda segundo o mesmo investigador, em algumas das modas que compõem o Cante sobressaem dois sistemas musicais, inteiramente distintos, que são: o sistema modal, em uso durante toda a Idade Média, e o sistema tonal, já fruto do Renascimento. O sistema modal grego, adaptado e modificado por S. Gregório, era composto dos modos Dórico, Frigio, Lídio, Mixolídio e Eólio. Os modos gregos tinham também sete notas, cujos tons variavam na escala, ao contrário das nossas escalas, cujas melodias giram em volta da tónica ou super-dominante, segundo o tom é maior ou menor.

                                                              ... perto de Torrão do Alentejo...
Mas se a definição de Cante não gera polémicas, a sua origem, essa é alvo de acesas discussões; desde este autor que defende o seu nascimento nas escolas de polifonia clássica do século XV de Évora, frequentada pelos monges de Serra de Ossa, que se estabeleceram em Serpa, mas que é contra-posto por outros investigadores e até interpretes/músicos (como entre outros Jorge Raposo, José Orta, Francisco Fanhais) devido à não existência de indícios históricos do Fabordão na referida Escola de Música da Sé de Évora. A relação com os cantos árabes, defendida por outros, é posta em causa por terceiros, com o argumento de que o Cancioneiro do Magrebe não uma estrutura polifónica.

O que é certo é que o Cante, com um percurso que o próprio Estado Novo tentou utilizar para a sua Política de Espírito, manteve as suas característica essenciais de pureza e de ruralidade, onde tematicamente, por ordem decrescente, surgem: o Amor, a Natureza e o Trabalho. Nos últimos anos, os cantadores estão organizados na MODA – Associação do Cante, onde através da pesquisa, tentam preservar a pureza e a dignidade do Cante, condenando a sua adulteração e entoando as modas do Cancioneiro Tradicional.”

                                                         ... entre Viana e Portel


Que esta ‘aventura’ resulte possibilite que a UNESCO venha o reconhecer o Cante como Património Intangível é certamente algo que os Alentejanos ambicionam. Nestes tempos em que alguns líderes políticos portugueses querem vergonhosamente alienar a nossa soberania, os nossos valores civilizacionais e até a nossa História de Nação independente quase milenar, que o Alentejo e a Pátria Alentejana possam, através do reconhecimento internacional do nosso Cante, dar um contributo identitário e civilizacional a toda a Nação portuguesa, erguendo bem alto os nossos valores e a nossa Cultura, que não são revisíveis pelo Eixo Germano-Francês, que já é chamado de IV Reich.

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