5 de mai. de 2011

"Alentejo Terra da cor dos olhos de quem olha! "

com a devida vénia, transcrevemos do blogue fluirdaterra, esta bela frase e o mágico poema de Miguel Torga "Alentejo", que adoptámos para o programa do VI Passeio Campestre, que este ano realizamos em S. Cristóvão, a 14 de Maio, como já é tradição, no Concelho de Montemor-o-Novo. A frase e o poema aqui destacamos:

“Espreitei a flor do jasmim quando a luz do Sol já serenava. O céu tinha a voz dos pássaros. O perfume das flores ali estava, à espera de pousar na mão aberta.”


(in fluirdaterra.blogspot.com)




Alentejo
A luz que te ilumina,
Terra da cor dos olhos de quem olha!
A paz que se adivinha
Na tua solidão
Que nenhuma mesquinha
Condição
Pode compreender e povoar!
O mistério da tua imensidão
Onde o tempo caminha
Sem chegar!...

                               Miguel Torga
                     (in fluirdaterra.blogspot.com)




3 de mai. de 2011

o "25 de Abril", a Liberdade e o direito a namorar e a beijar...

este ano comemorei o “25 de Abril” de diversas formas:
Quadro 1:
Enquanto no Alentejo, no rescaldo do dia de Páscoa - fraternalmente passada em família, porque a tradição ou o costume assim aconselha – ia-se ao campo comer o borrego, eu saboreava o mar salgado, o mar imenso, entre a areia, o Sol e o sal, deslizando em breves mas muito envolventes e apaziguadores “percursos” por entre a forte rebentação...

Quadro 2
Ao anoitecer ainda com o sabor do sal na pele, ainda sentindo esse saborear do mar em mim entrei num cinema e vi um filme acabado de estrear. “48”, ou como se lê no “ípsilon”- provavelmente o melhor suplemento publicado a imprensa portuguesa em título: “Há vidas inteiras que contam a história do país e em caixa: “48 anos de ditadura, 37 de democracia e um filme - ´48´.de Susana de Sousa Dias – sobre a tortura durante o Estado Novo, feito a partir das fotografias do cadastro da PIDE…” (Susana Moreira Marques) ou como refere na crítica Luís Miguel Oliveira: “Cansados de ler os proverbiais ‘colunistas de direita’ semana sim semana não a lembrarem que nasceram depois do 25 de Abril como se isso os desimplicasse de alguma coisa, ‘48’ é o filme da implicação absoluta, independentemente da data de nascimento. E fá-la (ou fala-a, sem a ‘dizer’) apenas através de um minucioso trabalho sobre as suas formas e os seus materiais.(…)”


Um filme pungente, onde alguns presos políticos comentam as (suas) imagens dos arquivos da PIDE, polícia política do fascismo que os humilhou, os torturou física e psicologicamente -, num exercício que sentimos doloroso, que por vezes lhes deixam a voz embargada e onde também há o choro como acontece com Álvaro Pato, o mais novo preso, preso em 1973. Este conta que um dia, quando tinha 13 anos e estava a brincar com outros miúdos na rua, foi abordado por uma desconhecida que o chamou, disse-lhe o nome do avô e perguntou-lhe se ele o conhecia; depois disse-lhe que era a sua mãe, prisioneira política tal como o pai e antes a viverem na clandestinidade e, de quem ele nem sequer tinha uma fotografia.

Para Álvaro Pato é mais difícil falar sobre a infância e a família do que sobre a tortura. “A dor da pancadaria deixa de se sentir. A outra não”. Neste filme “passam” fotografias dos arquivos da PIDE e houve-se a voz, de entre outros, Conceição Matos, Manuel Martins Pedro, Adelino Pereira da Silva e sua mulher presos na mesma altura, ou entre outros, Maria Alice Diniz Parente Capela, Domingos Abrantes, António Gervásio ou o moçambicano Matias Mboa ou um opositor angolano que conta que na prisão onde esteve em Luanda, espetavam pregos na cabeça dos presos e mandavam-nos embora, que davam uns passos e caíam mortos.
                                 


                                                  Conceição Matos
Na sala de projecção estavam três pessoas no total. Uma saiu ao intervalo…. Afinal porquê ver um filme difícil, duro num dia suave de descanso, feriado nacional?… mas no final fiquei a pensar: como era possível num país tão bonito, tão suave e tão sereno como o que há pouco saboreei no mar, como era possível acontecerem horrores como estes?
Neste nosso tempo em que o capitalismo selvagem nos tem vindo a impor o consumismo exacerbado de produtos supérfulos e desnecessários para a Felicidade, nos tem vindo a impor cada vez mais o fanatismo do futebol – será que é um saudável acto desportivo saber a marca das cuecas do Ronaldo e com quem este dormiu no dia X ? – e tudo isto em troca do quê, em troca de um vazio de ideias e de ideais, vazio que predomina de uma forma quase totalitária. E, neste orgia de vazio de valores, de ausência da procura da Beleza, da Beleza da Vida, da comunhão e do respeito pela natureza em que os mais velhos esquecem ou não querem recordar como era dantes e os mais novos, afogados nos telemóveis de última geração, não obstante serem muitas vezes analfabetos funcionais, afogados no vazio dos shots e na música (?) ensurdecedora e a metro e quase sempre medíocre não conhecem nem querem conhecer porque isso é para velhos. Claro, é que eles não sabem que hoje têm LIBERDADE porque houve uns jovens - que hoje são velhos ou já morreram – que por terem ideias e ideais foram presos, espancados, humilhados, torturados – as horríveis torturas da estátua, do sono – e até mortos.
Quadro 3
Crato, Biblioteca Municipal, dia 29 de Maio.
“A LIBERDADE nunca é demais, não é mensurável, existe ou não, é plena, é total e pressupõe desde logo o respeito pelo outro” dizia João Andrade da Silva, um dos Capitães de Abril, que em Vendas Novas, na noite de 24 para 25 de Abril tomou de assalto o quartel, chefiou uma coluna que, sem ainda saber que o golpe ía resultar, vieram estacionar no Cristo-Rei com o objectivo de dar cobertura às tropas do Salgueiro Maia do Terreiro do Paço que estavam desguarnecidas pelo flanco do rio Tejo caso os barcos da Marinha ía estacionados se mantivessem fiéis à ditadura, o que felizmente não aconteceu. O João (Andrade da Silva) tinha então 25 anos.
E disse mais. Que quando estava no liceu do Funchal recorda-se como era proibido namorar, beijar, no espaço de 300 metros em volta da escola porque era considerado um atentado aos bons costumes e quem fosse apanhado [nesse natural prática de Beleza e de exaltação dos sentidos] era sancionado disciplinarmente. O coronel Andrade da Silva falava para jovens dos 9º e 10º anos da Escola Secundária do Crato na Mesa-Redonda “25 de Abril – Cantar a Liberdade no Alentejo”, que moderamos, onde também participaram o antigo dirigente da Reforma Agrária de Foros de Vale Figueira – Montemor-o-Novo, Custódio Gingão e o cantautor, músico e compositor Francisco Ceia, , no âmbito da Exposição então inaugurada na Biblioteca do Crato “PREC Cantar a Revolução no Alentejo.
Terminámos e terminamos com uma mensagem de optimismo e de esperança, de nque é possível viver em cada momento da História, por mais sombrio que pareça, da necessidade de um regresso à Terra – entendida como Mãe-nartureza - mas também que esta geração, (ou pelo menos uma parte dela mais informada) é a mais preparada cientificamente, desde sempre, que depois de estudar fique na sua Terra, participe e desenvolva a sua vila, a sua cidade e a sua região e não abale para as grandes cidades ou para o estrangeiro (Custódio Gingão que também foi emigrante) e que não permite que lhe tirem a LIBERDADE, porque as mudanças, as revoluções (ou a defesa delas e da dignidade) e feita por jovens, como aconteceu em Portugal, como tem estado a aconteceu nos países árabes “nós, os mais velhos, estamos solidários, acompanhamos, mas são vocês, os jovens é que são os protagonistas, vocês é que fazem”. (Andrade da Silva)

22 de abr. de 2011

AS VOZES DA NATUREZA ou Urbano, o Homem generoso e sábio apaixonado pelo irresístivel universo feminino...



Depois de uma ausência que se prolongou, regresso com 

A transparência do orvalho gemia no meu esquecimento de mim, tornava-me todo eu atenção ao saltitar das rãs amanhecendo na clara alegria do tanque grande.


O meu sangue cantava na ondulação das folhas da figueira. Agora estou nascendo a toda a volta de mim no riso verde das searas, na brisa que se quebra contra a rude atalaia, sobranceira ao rio com o seu açude e o seu moinho árabe, e sacode as franjas do silêncio nos altos choupos onde as cegonhas fazem ninho, nos pegos de eu nadar quando a Páscoa aquece as águas.


E ouço os meus segredos mais secretos no gemer das oliveiras e chaparros, meus tão íntimos parentes. E a ternura das sombras estende-se, para lá do rio e das suas narcejas, pelos ermos da Deveza de São Brás, até ao Guadiana.


A frescura do silêncio cai um instante sobre as lavradas e as folhas onde o meu ser se recria.


Comecei muito cedo a ouvi-las, as vozes da natureza.


Conheço-as desde que tenho memória de mim. Depois houve a doença, que me impedia de sair do «monte» e, quando melhorei um pouco, conseguiram que eu fizesse a primeira comunhão, mas nunca acreditei naquele inferno que me pintavam e continuei a fugir de casa e embriagar-me de luz, a correr ao lado dos rebanhos de vacas e ovelhas nesse meu regresso à natureza, de que me sentia pertença.


Foram o azul profundo das noites estreladas e o que o vento e as nuvens diziam aos meus ouvidos que fizeram nascer em mim palavras que depois naturalmente começaram a escrever-se.


Da pobreza e do sofrimento dos trabalhadores que me rodeavam só mais tarde me apercebi e senti a necessidade de lhes dar voz por entre as vozes da natureza e pela estrela da vida fui andando com eles no pensamento e nos actos.


Nas ruas de Lisboa e de outras cidades onde não entra o sol de Inverno, tapado por altos edifícios, experimentei a saudade profunda dos descampados alentejanos, das vozes do rio e da tristeza dos homens, dos seus cantares. Levei-os comigo para França e para o mundo, para as aulas que dei e até para as prisões onde os meus ossos enregelaram.


O livro é palavra de combate, mesmo quando não parece sê-lo, se apenas nos mostra os homens nas suas fainas e penas.


Assim continuarei sempre a escutar as vozes da natureza e a dar delas notícia.


                                       Urbano, foto recente


Este é, certamente o mais autobiográfico de todos os contos nesta “luminosa viagem pelos corredores secretos da vida” deste belo Os Terraços de Junho contos e sonhos acabado de sair. Como refere na contracapa “Quase todos estes contos se caracterizam pelo insólito, pelo mágico, pelo surpreendente. Pairam entre o real e o irreal numa fascinante contradança de amor, aventura e desespero. E, contudo, o social nunca é esquecido. Mas é na segunda parte, um conjunto de textos intitulado «Angústia com licor de rosas», que o onírico prevalece e a intensa pulsão poética da escrita de Urbano Tavares Rodrigues ganha contornos de invulgar sedução.


Jamais o autor de O Eterno Efémero foi tão longe na devassa do ser humano e dos seus alçapões.(…)”


Ou ainda como se lê na badana “Urbano Tavares Rodrigues não é apenas o grande escritor do Alentejo, das suas gentes e das suas paisagens, é também o romancista e o contista de Lisboa e de outras atmosferas cosmopolitas que, como jornalista e professor universitário, bem conheceu, viajando por todo o mundo.


Catedrático jubilado na Faculdade de Letras de Lisboa, membro da Academia de Ciências (Secção de Letras), tem uma vasta obra literária e ensaística traduzida em vários idiomas, do francês e do espanhol ao russo, ao grego, ao romeno, ao búlgaro, ao checo, ao alemão e ao inglês, ao catalão, ao ucraniano, ao croata, ao japonês, ao italiano, ao holandês, ao chinês. Obteve diversos prémios, entre eles o da Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores, o Prémio Fernando Namora e o Ricardo Malheiros da Academia de Ciências.


De entre os seus maiores êxitos de crítica e de público, lembramos A Noite Roxa, Bastardos do Sol, Os Insubmissos, Imitação da Felicidade, Fuga Imóvel, Violeta e a Noite, O Supremo Interdito, Nunca Diremos Quem Sois, A Estação Dourada, O Etreno Efémero, Ao Contrário das Ondas, Os Cadernos Secretos do Prior do Crato, A Última Colina e Assim se Esvai a Vida – três livros num só. Urbano Tavares Rodrigues, que foi afastado do ensino universitário durante as ditaduras de Salazar e Caetano, participou activamente na resistência e foi preso e encarcerado por várias vezes nos anos sessenta.”


Urbano que é autor de um total de 89 títulos – 45 livros de Ficção, 28 de Ensaio e Crítica, 15 de Viagens e Crónica e um de Poesia é também um Homem generoso, fraterno e solidário, como já me deu provas participando em projectos colectivas para os quais o convidei – como a apresentação pública do Centro de Estudos Documentos do Alentejo – CEDA (de que é sócio fundador), na Casa do Alentejo, Lisboa, Outubro de 2000, no júri do "Prémio Literário Pedro Ferro", a que presidiu – entre 2004 e 2006, ou escrevendo prefácios, textos, organizando, apresentando – como foi o caso dos livros de Poesia de José da Fonte Santa – no âmbito da homenagem a este Poeta realizada em 1999 – ou a Maria Lascas, ou mais recentemente na redacção do prefácio para Nova Antologia de Poetas Alentejanos.


Numa das visitas que lhe fiz, quando ele estava a escrever Os Cadernos Secretos do Prior do Crato - a propósito de D. António, Pior do Crato, que teve 10 filhos de 10 mães, que vivia dividido, dilacerado, entre a entrega a uma fé verdadeira e pura e a entrega plena à sensualidade feminina, afinal a mais bela razão de ser do homem. Foi num dia em que Urbano não tinha muitos compromissos, passamos uma tarde a falar e, a páginas tantas, estávamos a discorrer sobre os amores passados. Olhando para o fundo da memória, concordávamos que de nada nos arrependíamos, excepto num aspecto… ser melhor. Foi tão forte a partilha que, por momentos olvideu que 39 anos separam mestre e o discípulo…


Recentemente visitei-o e fiquei muito incomodado da forma como Urbano me relatou pormenorizadamente a sua própria morte, que segundo ele estava para breve, receei que para muito breve… percebi a sua fragilidade física e fiquei emocionado quando me ofereceu o seu primeiro livro de poemas.


Mas, na semana seguinte, no lançamento deste fulgurante livro de contos - de que transcrevi o que mais me impressionou -, neste livro onde a morte está presente, mas a para com o desejo, a sedução, a sensualidade… e senti uma breve centelha de vitalidade neste homem generoso, de enorme sensibilidade e delicadeza


Depois de confraternizar com o Hugo Santos e o José Luís Peixoto, preparava-me para me despedir do Urbano, quando surgiu de rompante um menino  com cinco anos, de ar franzino mas firme e decidido, tão parecido com as fotos de infância que se conhece do Urbano e lhe disse:


- Ó Urbano, despacha-te, para irmos embora!...


Urbano, agora com 87 anos, sagitário de Dezembro, respondeu ao apelo do seu filho e levantou-se de imediato como se fossem dois meninos que se preparavam para ir sorver com sofreguidão a imensidão do “riso verde das searas, ouvir as vozes da natureza nos descampados alentejanos”.


2 de abr. de 2011

Sete Sonetos e Um Quarto...

Manuel Alegre nasceu em Águeda em 1936. Na crise académica de 1962 em Coimbra era já uma referência. Escreveu alguns dos mais belos que a voz que melhor cantou a saudade de ser português, contra a guerra colonial, pela Vida e pela paz - Adriano Correia de Oliveira, “esse calmeirão de alma lírica” que tal como Elis Regina morreu novo, afogado na mágoa da hipocrisia e da mediocridade que o rodeava. Para ele Manuel escreveu aquele que se tornou um hino dos estudantes e dos que enfrentaram a ditadura “Trova do Vento que Passa”, ao som da guitarra mágica de Fogo e Água de António Portugal, cantado pela primeira vez em público na Festa dos Caloiros, na Cantina do Hospital de S. Maria, Lisboa, Fevereiro de 1964.
Foi, enquanto autor, com José Afonso, Adriano Correia de Oliveira e luís Cília um dos precursores do Canto de Intervenção, movimento musical e poético - que tendo em Zeca Afonso o "pai espiritual", enquanto génio maior deste movimento, foi a matriz e a génese da Nova Música Portuguesa, isto é o que de melhor acontece actualmente em Portugal na criação e produção musical.


Incorporado compulsivamente no serviço militar em 1962, participou numa tentativa de sublevação no Açores e em 1963 numa tentativa de golpe em Angola – pouco conhecida - onde foram presos dezenas de militares, desde milicianos a capitães e coronéis . Viajou prisioneiro e estava com residência fixa em Coimbra, quando “às escondidas” da polícia política foram a Lisboa cantar a "Trova". Deu “o salto” para Paris quando a resistência o avisou que ia ser de novo preso. Conheceu Luís Cília nas margens do Sena; escreveu duma assentada...



Venho dizer-vos que não tenho medo
A verdade é mais forte que as algemas
Venho dizer-vos que não há degredo
Quando se traz a alma cheia de poemas




… que Cília musicou de imediato e depois editou no disco Portugal Resiste



Oposicionista convicto foi comunista e depois de 64, em Argel abraçou a guerrilha da palavra aos microfones da Rádio Portugal Livre, onde ele e Fernando Piteira Santos dirigiram a resistência no exílio à ditadura do professor de finanças que destruiu o futuro irremediavelmente de várias gerações neste país, Oliveira Salazar, afinal o todo poderoso lacaio-mor dos grandes interesses agrários, financeiros e industriais – futuro hipotecado que ainda hoje se faz sentir. Em Argel Alegre privou com figuras decisivas da lusofonia como Amílcar Cabral, Eduardo Mondlane e conheceu Che Guevara. Grande Poeta, viu a sua poesia cantada ter uma grande divulgação, chegando o seu livro O Canto e as Armas e ter edições de 10 mil e 20 mil exemplares na década de sessenta.

Regressou a Portugal e rapidamente receando acontecer cá o mesmo que no Chile de Allende, como refere, juntou-se aos moderados, teve pontualmente cargos governamentais, mas foi sobretudo um parlamentar respeitado e aplaudido de pé por todas as bancadas quando há pouco anos abandonou o Parlamento.



Foi duas vezes candidato a Presidente da República
Mas tanto as traições de velhos companheiros socialistas e de alguns boys do seu partido, assim como o conservadorismo da direita, que não lhe perdoam ter lutado contra a criminosa guerra colonial, como se isso é que fosse crime, como até uma parte da esquerda que não esqueceu ele por ter optado pelos socialistas de Mário Soares, não lhe permitiram ser Presidente de Portugal e termos um Poeta na Presidência, uma Homem de Cultura, um Humanista, assumidamente de esquerda, com uma visão aberta ao mundo ao contrário da visão estreita, provinciana e neo-liberal do actual presidente.
Portugal não teve o discernimento, como os irmãos brasileiros souberam eleger Lula e Dilma, um Presidente operário e uma Presidente guerrilheira. O Brasil superou a crise e Portugal não… essa é a diferença entre sermos governados por grandes ou por pequenos estadistas…

Manuel Alegre, escritor consagrado é um dos mais importantes poetas de língua portuguesa de todos os tempos… e em 2000 deu-me a honra de escrever o prefácio de um livro que publiquei sobre uma temática que tão bem conhece e viveu Cantores de Abril. Entrevistas a Cantores e outros protagonistas do Canto de Intervenção. (Edições Colibri)


De Alegre, partilhou excertos deste seu belo livro de sonetos...
espero que gostem...


Bendita sejas tu porque mulher
bendita sejas não porque te dás
mas porque o teu prazer é o meu prazer
e só no teu prazer encontro paz.


Correrão muitos rios mas o teu
é o que me leva às águas do baptismo
contigo em cada orgasmo eu subo ao céu
noite a noite contigo eu vejo o abismo.


Corre o Jordão e o Tigre os rios correm
contigo em cada orgasmo eu me baptismo
contigo noite a noite a dor e o riso.


Nas curvas do teu corpo os diabos morrem
bendita sejas tu porque me levas
onde a luz do prazer nasce das trevas.



 
Gostava de morar na tua pele
Desintegrar-me em ti e reintegrar-me
Não este exílio escrito no papel
Por não poder ser carne em tua carne.


Gostava de fazer o que tu queres
Ser alma em tua alma em um só corpo
Não o perto e o distante entre dois seres
Não este haver sempre um e sempre o outro.


Um corpo noutro corpo e ao fim nenhum
Tu és eu e eu sou tu e ambos ninguém
Seremos sempre dois sendo só um.


Por isso esta ferida que faz bem
Este prazer que dói como outro algum
E este estar-se tão dentro e sempre aquém.

Eu não sei se me salvo ou se me perco
Ou se és tu que te perdes e me salvas
Só sei que me redimo quando peco
E corpo a corpo ao céu vão nossas almas.


             Manuel Alegre
Sete Sonetos e Um Quarto
Desenhos de João Cutileiro
           Dom Quixote, Lx, 2005

26 de mar. de 2011

"O Amor tem para mim uma importância fundamental"

...nestes dias de adoração da Vida, da chegada da Primavera e de exaltação da Poesia, convites imprevistos levaram-me a escolas, colectividades, tertúlias. No dia 21, dei por mim a dizer: 
- Primavera, Poesia, Mulher, triologia secreta e imprescindível, urgente, para a Vida em plenitude.
Nestes dias disse poemas de vários autores, mas no dia 21 resolvi dizer Poetas Mulheres, disse FlorBela e outra Poeta de quem já aqui partilhei poemas. É como Florbela,  alentejana, mas nasceu em 1962, no Monte das Courelas do Portaleiro, Lavre, Montemor-o-Novo, como refere no seu último livro plenitude. Na contracapa Urbano (Tavares Rodrigues) escreveu :

"plenitude é um autêntico relicário de serena beleza, ou de dramática convulsão, da paisagem alentejana, das formas e das cores, dos sons e cheiros da planície. É também o retrato fremente de um alma, ou de uma sensibilidade feita para o amor, com os seus excessos e as suas dores.

Um livro sempre perto da natureza, por vezes muito conseguido nos seus achados e ritmos, na junção do som e do sentido."

Falamos de Maria Lascas, que num entrevista ao diário do Sul, diz em título: " O Amor tem para mim uma importância fundamental"

Poemas entre o Amor e o Alentejo:

Sol
perfume de laranjeira
e a abelha

a sombra do beijo
nas paredes de cal
Mértola, a sul


















Paraíso

Na alquimia de cores, negras andorinhas dançavam
músicas do silêncio da terra

estou no Paraíso! disseste
vestida de Sol na erva

a serpente?!
encantava pássaros nos salgueiros do rio Degebe


Safira perdida

Safira, altares nus em chão de pedra

anjos e pássaros partiram...
as abóbadas persistem
do sabugueiro e laranjeira perfumes

meu irmão! do vento da terra do sul

...agora amparam-me os sobreiros
tempo medido nos meus braços
em que tu não estás

e trago-te sempre comigo!
no cemitério só as cruzes de ferro
e montinhos de terra brava sem nome


A voz

A sua voz é água da fonte no estio
apetece-me saboreá-la na aurora
esperar o sol dentro dela... é mel!
néctar de flores... vazio a sua falta
escuto-a no melro, voo da gaivota
é brilho, cintila nas estrelas

não são palavras a sua voz
é afago dos olhos, a mão deslizante
a minha boca e a sua, o seu silêncio

ou um outro, este também de uma beleza avassaladora, muito recentemente publicado no seu blog homónimo


Vinho



Serve-me vinho, muito vinho sempre!


corre-me nas veias água, insípida clara…
dá-me vinho! não a uva a enrolar-se na língua
abram-se tonéis se acabarem as garrafas: tinto rosé Porto
deixa meu corpo mergulhar no fundo, curtir no tempo
que seja a taça que transborda
sorva a última gota do néctar maturado na pipa
parido em cor de sangue


e bebe o vinho do amor em mim, suavemente…

24 de mar. de 2011

FlorBela Espanca... a exaltação plena do sentir....

FlorBela Espanca, a grande Poeta que percorreu a plenitude da exaltação dos sentimentos, a quem já dediquei vários postes, nomeadamente referentes ao dia 8 de Dezembro - de 1894 em que chegou, na suave terra ardente de Vila Viçosa - e no dia 8 de Dezembro, de 1930, em que se suicidou numa casa perto do mar em Matosinhos. Dela partilho este soneto... tão belo como a própria Vida!...

Se Tu Viesses Ver-me…



Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços…


Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca… o eco dos teus passos…
O teu riso de fonte… os teus abraços…
Os teus beijos… a tua mão na minha…

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri


E é como um cravo ao sol a minha boca…
Quando os olhos se me cerram de desejo…
E os meus braços se estendem para ti…

21 de mar. de 2011

A Poesia chega na Primavera... entre o Amor e o Vinho...

Para assinalar o Dia Mundial da Poesia e a chegada da Primavera, que é uma e a mesma, vamos referir alguns poetas que se expressam em português ou castelhano ou os nossos antepassados, nomeadamente os poetas luso-árabes.
Temas em destaque: o Amor e o Vinho.
Ibne Amar, natural de Estombar, Silves, que terá nascido cerca de 1031 e é morto em 1086, talentoso poeta, que em muito nos recorda a lírica camoniana - que data de quase 500 anos depois. Ibne Amar, de famílias humildes, escreveu alguns dos mais belos poemas de Amor que brotaram fulgurantes nesta Terra abençoada pelos deuses, aqui no Ocidente da Península no Garbe al-Andalus. Ele foi o grande amigo do Príncipe e depois Rei Almutâmide, de quem foi governador em Silves, vizir em Sevilha e Embaixador. Terá sido nessa qualidade que, segundo a lenda, um dia bateu num jogo de xadrez o poderoso rei Afonso VI – pai da D. Teresa – que unificara pela 1ª vez os reinos cristãos da Península, e resolvera sitiar Sevilha, num “fossado”(ataque de surpresa) ao Sul. A astuciosa proposta de Amar era resolver-se a batalha no tabuleiro. Afonso VI acatou o resultado e retirou… afinal era um homem de palavra e… sabia jogar xadrez, devido ao desterro que tinha “sofrido” na Toledo muçulmana, quando foi vencido pelo seu irmão que o antecedeu no trono, e que acabou morto à traição.


Ibne Amar acabou morto às mãos do seu rei e amigo, fruto de uma ambição desmedida que o levou a rebelar-se contra Amutâmide…


Mas aqui fala-se de Poesia. Os poemas que queremos partilhar… entre o Amor e oVinho...

À bem-amada



minh’alma quer-te com paixão
ainda que haja nisso uma tortura
e alegre vai na ânsia da procura


que estranho ser difícil nossa ligação
se os desejos d’ambos concordaram!


que quereria mais meu coração,
ao desejoso te buscar em vão,
se meus olhos te viram e amaram?


Allâh bem sabe que não há razão
de vir aqui senão para te ver.


que o vigia não nos possa achar
se o nosso reencontro acontecer
p’ra os teus lábios doces eu provar.


folgarei no jardim da tua face,
beberei desses olhos o langor,


e mesmo que um terno ramo imtasse
o teu talhe grácil, sedutor,
valerias mais que o imitador.


não te ocultes, oh jardim secreto:
quero colher meu fruto predilecto!
                                                                       
                                                          (Versão de Adalberto Alves)



9 de mar. de 2011

Pássaro de cristal

José da Fonte Santa (1925-1998) era um Homem genial. Desde que comecei a frequentar a sua casa no início de oitenta, pela sua mão redescobri o meu Alentejo adormecido em mim - desde aquele dia terrível de 1 de Setembro de 1967 quando parti para a diáspora e aos 5 anos, acabou a infância e fiquei um menino triste. o Zé da Fonte Santa deu-me a conhecer o Alentejo da verticalidade, da honra, da dignidade, da frontalidade, da coragem. Através dele conheci e privei com alguns dos mitos vivos (então) da Pátria transtagana: o Manel da Fonseca, o António Alexandre Raposo, o João Honrado (felizmente ainda entre nós), mas também outras enormes figuras do Alentejo como o Rogério de Brito e da Cultura portuguesa como a David Mourão-Ferreira, o Jorge Listopad (que revi recentemente numa estreia no Teatro Nacional, já nonagenário, me saudou efusivamente). o Zé, que era um verdadeiro gentleman, no seu porte altivo e elegante e tinha o dom da palavra como ninguém.


No livro que organizei, no âmbito da Homenagem promovida pelo Município de Santiago do Cacém - que coordenei, um ano após a sua morte, José da Fonte Santa. Memória(s), onde 50 amigos (as) do Zé - o matemático Nuno Crato, Manuel Geraldo, João Honrado, Baptista Bastos, Rógério de Brito, António Avelãs, Luís Filipe Rocha, Domingos Carvalho, Jorge Listopad, José Matias, José Baguinho, mas também Bárbara Grumer, Nédia Correia, Fernanda Pinela, Mariana Pombinho, Esperança Valente e a própria neta, Sofia Raposo, então com 9 anos, que escreveu:


Avôzinho


Eu olho para o teu quarto
cheio de tudo aquilo que deixaste
e fico suspensa a olhar
pela janela por aí fora


A pensar num mundo
cheio de alegria
que tu gostarias que existisse.

Nestas memórias perpassa muitas décadas do século XX no Alentejo e figuras dos mais variados estractos sociais, culturais ou profissionais, que com ele se cruzaram e ficaram irremediavelmente marcados, pois como escrevi na introdução:


O Zé da Fonte Santa era um homem admirável, com uma personalidade irresistivelmente sedutora e fascinante. Criador no mais puro sentido da palavra - onde  criação superava de longe a transpiração, como normalmente acontece -, de uma intuição assombrosa, com uma perspicácia e uma fluência verbal a que se aliava uma clarividente capacidade de exposição e raciocínio que lhe dava um dom da palavra de excepção. De discurso arguto e transparente, foi na palavra escrita onde, porventura, levou ao cúmulo a sua extrema sensibilidade artística e de revolta contra as injustiças sociais. (..)
A sua obra poética (...) onde podemos encontrar alguns dos mais belos poemas em língua portuguesa e onde a mulher é elevada a um pedestal, endeusada e de onde tranborda um lirismo avassalador. A mulher (...) está sempre presente nos seus magníficos desenhos, de traço inigualável (...).


No final era um homem onde a amargura, a angústia coabitavam já com o sonho, a liberdade desmesurada de criar e sonhar.


Mas como diz Baptista Bastos no seu depoimento:


(....)Tudo em José da Fonte Santa, configurava a ideia de que a esperança tem sempre razão - e tudo, também, sublinhava aquele frase antiga que eu lhe ouvira numa certa tarde antiquíssima, em Ferreira do Alentejo.


Aprendi muita coisa com o Zé da Fonte Santa. Mas sobretudo, com aquele ele homem altivo, elegante, fraterno, solidário, imensamente sonhador e tão frugal nos bens materiais, aprendi que a Beleza da Vida é perseguirmos os Sonhos em que acreditamos com uma desmesurada paixão, alegria e serenidade até à sua concretização. Com verticalidade. Sem essa postura a Vida não tem Beleza e... deixa de haver razão para existirmos... é o conhecimento desse caminho, irremediável e perene, que um dia gostaria de dar ao Roque, o meu neto... que afinal ainda tem um pouco de sangue do Zé da Fonte Santa...


 Deixo-vos dois, dos muitos
e belos, poemas de José da Fonte Santa



Poema


A mão fria
sacode o teu silêncio
num ramo de vento:


- Cai agonia
no teu pensamento


Um pássaro branco
triste e desfolhado
- Com indiferença –
bebe a angústia
que há no teu rosto
seco e gelado.



Claro é o Dia


Claro é o dia
onde transparece
toda a verdade
que não disseste.


A tua voz é um rio
mordida de peixes
na sombra da tarde.



O teu olhar:
um coração partido
feito de sangue
e de cristal.

6 de mar. de 2011

Manuel da Fonseca - Cem anos de Poesia!...

Num poste editado em 21 de Outubro referia  dois grandes poetas - Federico García Lorca e Manuel da Fonseca - que me marcaram profundamente e, nomeadamente o Manel (era assim que o tratavamos) da Fonseca, que nos longínquos anos 70, revelou-me um mundo para mim até aí desconhecido - ou oculto?.. à espera de ser desflorado, lapidado -  a tal ponto, que no dia em que o ouvi, nasci poeta. O Manel nasceu a 15 de Outubro de 1911. Este ano de 2011 é pois o ano dos Cem anos do nascimento do Manel - figura decisiva das letras, no Alentejo e no mundo, o Manel, figura mítica que valorizou a aurea do maltês, livre como o vento, e valorizou-o não apenas na literatura, mas também na Vida, senhor de uma ironia sibilina, quase corrosiva, homem de uma enorme coragem intelectual e física - foi campeão de boxe e protagonizou atitudes de frontal desafio a inspectores da PIDE e tenentes da Guarda (GNR), como o Zé da Fonte Santa - seu companheiro de muitas "aventuras" intelectuais, políticas e conviviais - me confidenciou, nomeadamente quando em plena ditadura, à saída de um Tribunal Plenário (onde eram julgados os oposicionistas ao regime ditatorial, um inspector da PIDE identificou e tentou prender o Zé, ao que o Manel, assim que se apercebou, fez de imediato um"comício", e como havia muitos oposicionistas, o agente da polícia política viu-se em desvantagem e teve que fazer uma retirada estratégica. Doutra vez, dias depois de um movimento grevista, violentamente reprimido com feridos e muitas prisões, em Santiago do Cacém, o Manel enfrentou o comandante da Guarda, deu-lhe uma valente descompostura publicamente - e o chefe local das forças repressivas, senhor todo poderoso, a mudar de cores, a bater nervoso com a chibata na mesa - e o Zé temendo a reacção do militar (o Zé que também era muito corajoso mas aqui tentou ser sensato) a tentar levar o Manel, mas este enquanto não disse tudo o que tinha a dizer ao comandante da guarda, que bufava e mudava de cores mas nada fez, não abalou.
O Manel, o saudoso Manel que numa entrevista que me deu em meados de oitenta - publicada no trissemanério Setubalense com o sugestivo e provocante título, citando o Manel: "Quem diz que Portugal é um País de poetas está a armar ao cágado", o saudoso Manel, que como ninguém fez da palavra escrita e falada o "instrumento"mais poderoso e mais belo do universo, do velho e querido Poeta - agora que já envelheci a ser maltês e vagabundo, a ser sobretudo Livre para dar e receber Amor, agora meu querido Manel já tenho coragem para te chamar Compadre como nunca aconteceu em vida. Compadre! Onde estiveres, a semear a Beleza, no universo, deixa-me ser este teu...


O Vagabundo do Mar



Sou barco de vela e remo
sou vagabundo do mar.
Não tendo escala marcada
nem hora para chegar:
é tudo conforme o vento,
tudo conforme a maré…
Muitas vezes acontece
largar o rumo tomado
da praia para onde ia…
Foi o vento que virou?
Foi o mar que enraiveceu
e não há porto de abrigo?
ou foi a minha vontade
de vagabundo do mar?
Sei lá.
Fosse o que fosse
não tenho rota marcada
ando ao sabor da maré.
É por isso, meus amigos,
que a tempestade da Vida
me apanhou no alto mar.
E agora,
queira ou não queira,
cara alegre e braço forte:
estou no meu posto a lutar!
Se for ao fundo acabou-se,
Estas coisas acontecem
Aos vagabundos do mar.

28 de fev. de 2011

José Salgueiro lança um novo livro... aos 92 anos...

É assim José Salgueiro, o Mestre Salgueiro, o sábio das plantas medicinais e ... da Vida!
um exemplo de preserverança, de boa disposição, de verticalidade (como sublinhou o Autarca Carlos Pinto de Sá), sábio da simplicidade e um exemplo para os que se acomodam... perante a sua vontade férrea de Viver cada dia com a Poesia na Alma, não abdicando de tirar o melhor da Vida, de transformar a realidade, por mais dura e negra que possa parecer, numa benção que temos o direito e dever de dignificar, de Amarmos a Natureza amando-nos a Nós próprios, com a serenidade de sabermos Amar e aceitar o Amor... pois se nos Amam é por o merecemos!...
O seu exemplo é uma indicação perene que o Caminho faz-se de preserverança e luta pela Verdade, pela Beleza, onde não há lugar para perder tempo...
Pois é, lá tive mais uma vez a difícil tarefa de apresentar o seu  novo livro "Extractos do Meu Sentir", apresentado no passado dia 26 na Biblioteca Municipal Almeida Faria, em Montemor-o-Novo, de que escrevi o prefácio... e ele, com aquela enorme pujança, lá foi avisando que tem três livros na calha - um sobre Medicina Tradicional, uma biografia romanceada (que vai ter a colaboração da Manuela Rosa), e um quarto livro de Poesia - por entre os elogios aos colegas de Mesa - ao Carlos que quase viu nascer, ao Fernando (Mão de Ferro, da Colibri) e aqui ao escriba - enormes e excessivos elogios, que vindos do Homem tão sábio, me deixam vaidoso, mas naquele momento tão envergonhado que, se tivesse "um buraquinho metia-me nele"... mas ele sabe do que fala... e lá me foi, publicamente, avisando que em breve estou de novo metido em "trabalhos", por sua causa! ... uma causa que me dá muita força para continuar o Caminho e não desistir nunca!...


Num Passeio Campreste, S. Gens, Maio 2009



Partilho o Prefácio:


"Há Homens e Mulheres que não se limitam a passar pela Vida. Antes pelo contrário; marcam os momentos e os espaços, as vivências e as pessoas. Encontrᬠlos é uma bênção, um privilégio para todos aqueles que são iluminados pela sua vontade férrea e pelo seu poder imenso de sonhar, de partilhar o Sonho e a Beleza com os demais.



O Mestre José Salgueiro é um desses seres únicos que marcam indelevelmente o seu tempo e as gerações posteriores. Seres que pela sua força interior são o centro do universo, onde quer que estejam. Mas Salgueiro distingue¬ se neste universo restrito, mas imenso, por pôr as suas potencialidades ao serviço da comunidade, do bem comum.


Por outro lado, o Mestre Salgueiro é um exemplo vivo de como foi o século XX português no Alentejo, ele que “comeu o pão que o diabo amassou”. Todavia, essa marcante vivência não o tornou um ser triste, azedo, desiludido, antes pelo contrário, mantêm intacta, aos 91 anos, essa particularidade que o caracteriza: uma personalidade de espírito aberto e entusiasta, ainda com muitos sonhos para cumprir.


Ao mesmo tempo revela de forma analítica rara, uma enorme lucidez social. José Salgueiro não se “aburguesou” e assume¬ se com uma frontalidade na defesa dos seus pontos de vista. Tal característica não denota qualquer espécie de intolerância peran-te factos e ideias. A sua lucidez e visão incisiva perante uma clara injustiça social actual – reflexo das “nuances” neo¬ liberais que marcam o nosso tempo – não o faz esquecer os seus tempos de meninice, quando a miséria era incomparavelmente mais profunda e flagrante. Como ele próprio escreve, sobre esse tempo em que também começou a apreender a sabedoria ancestral dos Homens e das Mulheres, fruto de uma vivência em harmonia e respeito pela Mãe-Natureza:


Nasci em 1919, num monte afastado 5 km de Montemor. (…) À noite, porque os meus pais trabalhavam de sol a sol, regressávamos a casa, onde só chegávamos pela noite cerrada. Era aí, a um canto do lume, ou seja, à chaminé, enquanto a minha mãe fazia a ceia, que meu pai nos divertia para que o sono não nos atormentasse. Era também ele que nos contava histórias, umas com fantasia, outras verdadeiras, de tudo quanto sabia de si, seu pai, seu avô e muito mais. E assim me foi transmitindo muito do que ainda hoje conservo na memória, referente aos meus antepassados. Como o tempo não parava, foi com 5, 6 anos que comecei a reparar em tudo o que minha mãe fazia, para nos tratar das doenças que nos atormentavam.


E cá estamos perante este ser fascinante, que nos tem deli-ciado nalguns passeios campestres, transmitindo os ensinamentos imensos sobre as “ervas medicinais”, mas também nos tem levado a percorrer espaços paradisíacos existentes no seu concelho encimado pelo Montemaior, um dos lugares mais bonitos do mundo. Nestes espaços que nos seduzem irremediavelmente descobrimos, um dia, que Vida só fazia sentido se vivida intensamente, apaixonada e perfumada; sobretudo depois de sentir o cheiro da morte a rondar. Por isso foi inevitável essa opção radical e plena de viver intensamente cada minuto, no universo romântico e belo das papoilas e das flores de esteva que caracterizam a suave tela das colinas únicas desta Terra abençoada: As colinas da minha aldeia são as mais bonitas do mundo. Essas colinas, que podem ser estas. Mas estas belas paisagens, curiosamente, estão unidas às primeiras através de uma linha do meridiano de Greenwich, como se de dois seres feitos para a comunhão e para o Amor se tratasse.


Nesta suave e doce terra que é do Mestre Salgueiro e que também já sentimos um pouco como nossa, onde vivemos momentos plenos e encontramos pessoas únicas. No prefácio do anterior livro de José Salgueiro, Relatos de uma vida, referi dois amigos. Permitam¬ me hoje falar-vos de duas mulheres, duas amigas: a Manela Rosa, uma apaixonada activa e persistente pela Natureza e pelo meio ambiente, senhora de uma escrita de rara beleza, amiga de mútuas afinidades várias; a Vina (Etelvina Maria), amiga mais recente, mestra de uma diversidade artística mas onde se interpenetram os conhecimento científico e empírico e, como exímia artesã, assume ao pintar de forma tão bela – e assim preservar a tradição – , o suave mobiliário alentejano que sai das suas mãos de talentosa artista.


Podia referir¬ me ao Mestre e ao seu mundo, este mundo que aqui, em traços muitos breves vos trouxe. Mas o mundo de José Salgueiro é o universo; até porque ele é “um animal de palco”, que se sente como peixe na água sempre que se dirige a uma enorme plateia rendida a seus pés. Refiro só dois exemplos: Na concorrida homenagem na Casa do Alentejo, que com outros ami-gos e no âmbito do CEDA lhe prestamos, quando, em Fevereiro de 2009, Salgueiro completou noventa anos e foi lançado o seu ante-rior livro de poesia. No final, o amigo encenador Hélder Costa, despedia¬ se confidenciando-nos com um abraço carregado de emoção: Nunca assisti a um lançamento dum livro com esta pureza, um momento tão grande e genuíno como este.


Na edição da Festa da Primavera deste ano de 2010, na Her-dade do Freixo do Meio, encontrei Mestre Salgueiro na sua banca com muitos chás e livros, a discursar para uma pequena mas entu-siasmada plateia. Quando me viu, abraçou¬ me e apresentou¬ me da seguinte forma: Este é o senhor que escreve os prefácios para os meus livros, o que, como é compreensível, me deixou completamente “encavacado”.


Este é o Homem único e aglutinador que, mais uma vez me destinou a difícil tarefa de escrever o prefácio do seu terceiro livro de poesia. Este livro, no fundo é como que uma continuida-de, pois José Salgueiro no trabalho anterior inicialmente projectava um livro demasiado extenso, acabou por deixar certamente na “gaveta” um alargado conjunto de poemas. Para o nascimento desta nova obra apenas teve que acrescentar outros poemas mais recentes.


Senhor de uma escrita escorreita e sibilina, onde a componente da temática popular é marcante, José Salgueiro utiliza na sua construção poética uma estrutura de tipo tradicional, com uma variedade que vai desde a quadra até à décima, onde o soneto também está presente, descrevendo situações e vivências, qual repórter do quotidiano, fruto da sua longa e rica experiência; como o” filme dos acontecimentos” das privações passadas com a sua família entre 1919 e 1950 que nos descreve através de 37 quadras e 34 sextilhas. Atento observador, dissecando os acontecimentos, seja os passados na sua Montemor natal, mas também o que se passam pelo mundo, desde o Iraque a Timor Mestre Salgueiro, com uma subtileza invulgar e um “olho cirúrgico”, analisa, opina, denuncia as tragédias e as calamidades, fruto tantas vezes dos “interesses soberanos” das poderosas nações do Norte”


Mas para além das questões sociais, das injustiças que conti-nuam a lavrar por esse mundo fora e pelo nosso país, José Salgueiro apresenta¬ nos neste livro poemas que são verdadeiras elegias ao Alentejo, à sua bela cidade de Montemor, ao altivo castelo semi¬ destruído, ao suave rio Almansor, aos (seus irmãos) poetas, à Mulher Alentejana, onde embora se leia quase nas entrelinhas uma certa mágoa e nostalgia, são sobretudo caracterizados por uma grande paixão, por um grande amor pela beleza da terra e dos nobres sentimentos das gentes.


E assim termino esta breve prosa. Provavelmente esperavam um texto analítico dissecando profundamente a Poesia do Mestre. Mas eu, honro¬ me de ser apenas um simples e modesto discípulo, que quase nada sabe de Poesia, apenas sei que não sei viver sem ela, que é, a par do Amor e da Amizade fraterna, a Beleza que faz sentido na Vida.


Parabéns querido Mestre!


Esperamos muito de si e do seu trabalho para que os nossos dias continuem a ser mais luminosos."


Almada, 9 de Julho de 2010



Foto de Manuela Rosa
Foto de Manuela Rosa

E este luminso Poema dedicado à Mulher (do Alentejo)... que ambos adoramos...


À MULHER DO ALENTEJO



Heroína das mulheres
Filha da chuva e do vento
Suportava as intempéries
Sem esboçar um lamento.


Mulher de aço formada
Que Deus fundiu e adora
Ao romper da madrugada
Já ía p´los campos fora.


É a mulher ideal
Desde a cozinha à costura.
Nos campos de Portugal
É professora e rainha.


Era vê-la a trabalhar
Quer fosse de dia ou de noite

Nas cavas ou a ceifar
Das outras sobressaía.


Aquela que mais sofria
Com a dieta forçada
Com vergonha, só comia
Das outras, muito afastada.


Trabalhava todo o dia
À noite fazia a ceia
Depois passava e cozia
A roupa à luz da candeia.

25 de fev. de 2011

Zeca Afonso - O Canto da Utopia continua!... 24 anos depois....

A arte de José Afonso é um jorro de água clara, puríssima, portuguesa sem mácula. Realmente é a «pureza» a nota maior desta arte. Pureza de voz, pureza no poema, pureza na música… Trova antiga purificada, folclore limpo de excrescências, balada de combate em que a justiça vai de bandeira. E o ouvinte fica tonificado, «limpo», cheio de graça, com mais vigar para a luta. No chiqueiro velho e saudosista, insignificante e feio da música ligeira do nosso país, José Afonso surgiu como um renovador: de riso claro e leal, com punho duro de diamante, terno e gentil sem amaneiramentos. Limpou crostas, desatou amarras, descobriu ramos verdes e ocultos, abriu janelas na parede bolorenta do fatalismo lusíada. E como esta arte pura e viril habitava já, nebulosamente, nos anseios da juventude que tanto pechisbeque musical mórbido e paupérrimo trazia nauseada, José Afonso conseguiu rapidamente uma enorme audiência: Ele é hoje o mais autêntico trovador do povo português, nesta hora que todos vivemos. Ninguém melhor que ele transmite os seus desesperos e raivas, as suas aspirações de amor, de paz, de justiça de verdade. Por isso, todos o amam. E o amor do povo, dos jovens, de todos aqueles que ainda não estão definitivamente contaminados, esclerosados, é, tenho a certeza, a recompensa e a glória de José Afonso. Nem tudo está podre no reino da Dinamarca.

                                                                                   Bernardo Santareno



No dia 23 passaram 24 anos sobre o desaparecimento físico do génio maior da Música Popular Portuguesa e um dos mais importantes da World Musica. Prefiro as datas iniciais, o nascimento, o início da Vida... mas ainda assim partilho este texto do dramaturgo Bernardo Santareno, que não obstante ter várias referências a um tempo outro, antes da Revolução de Abril, e ser até optimista relativamente até à divulgação da genial obra do Zeca junto do povo - pois o Zeca, embora o reconhecimento geral, continua a ser uma figura etiquetada e mal amada por algum do conservadorismo que impera nas mentes obtusas, resquídeos do salazarismo que não desapareceram de fez - mas dizia, é um texto actualissimo quando nos fala da imensa e grandeza da obra musical e poética do Zeca. 

O Zeca nunca se escusou a estar nos combates em defesa da dignidade colectiva por causa da sua liberdade individual, mas também nunca abdicou da sua "Liberdade Livre", como referi a sua postura filosófica e existencial, em 2007 na Casa da Música - Porto, e de ser o "seu próprio comité central".
Por isso é para mim uma referência fundamental, para além do génio criador, uma filosofia de Vida feita de Liberdade imensa, tolerância e intransigência nos defesa dos valores humanistas.

Partilho um dos mais belos temas interpretados pelo Zeca, que escreveu e musicou magistralmente a partir de refrão popular, agora que a Primavera se começa a fazer anunciar...

Cantigas do Maio


Eu fui ver a minha amada
Lá p'rós baixos dum jardim
Dei-lhe uma rosa encarnada
Para se lembrar de mim

Eu fui ver o meu benzinho
Lá p'rós lados dum passal
Dei-lhe o meu lenço de linho
Que é do mais fino bragal

Minha mãe quando eu morrer
Ai chore por quem muito amargou
Para então dizer ao mundo
Ai Deus mo deu Ai Deus mo levou


Eu fui ver uma donzela
Numa barquinha a dormir
Dei-lhe uma colcha de seda
Para nela se cobrir

Eu fui ver uma solteira
Numa salinha a fiar
Dei-lhe uma rosa vermelha
Para de mim se encantar

Minha mãe quando eu morrer
Ai chore por quem muito amargou
Para então dizer ao mundo
Ai Deus mo deu Ai Deus mo levou


Eu fui ver a minha amada
Lá nos campos eu fui ver
Dei-lhe uma rosa encarnada
Para de mim se prender


Verdes prados, verdes campos
Onde está minha paixão
As andorinhas não param
Umas voltam outras não

Minha mãe quando eu morrer
Ai chore por quem muito amargou
Para então dizer ao mundo
Ai Deus mo deu Ai Deus mo levou

(Refrão popular/José Afonso)