9 de dez de 2010

Florbela, a ânsia desmesurada de infinito... na Liberdade e no Amor



Ontem, 8 de Dezembro, dia da Nossa Senhora da Conceição, os Amantes da Poesia  todo o mundo assinalaram, evocaram, até interiormente, os 80 anos da morte de Florbela Espanca. Neste blogue essa data nunca foi esquecida.
Florbela nasceu e morreu no dia 8 de Dezembro. Nasceu no meu doce e infinito Alentejo e suicidou-se 36 depois em Matosinhos, numa casa de uma rua estreita perto do Mar, cidade que perpetua o seu nome numa suave Biblioteca e num Festival de Poesia que acontece entre 6 e 8 de Dezembro, todos os anos. Também Vila Viçosa, que a viu nascer não olvida a sua diva, onde descansa num singelo mausóleu, onde em 2006 me foi dada viver momentos únicos.

Tenho eu, grau da areia ou gota de oceano, com esta Mulher Poderosa e Sublime, nome maior da Poesia universal, em comum ter nascido no mesmo dia, e... talvez também, essa "necessidade desmesurada, infinta mesmo de Liberdade", como um dia alguém, que me conhece bem, me caracterizou depois de parafrasear De Gaulle, referindo-se a um Embaixador sírio, de quem recebia a crendenciais:" conheço-vos as areias e os desertos".

Acrescentaria, também me une a Florbela esse anseio imenso e fremente de Amor, de Amar e ser Amado.


Do nascimento distanciam-nos duas breves horas, entre as 2 e as 4 horas nocturnas.


Partilho dois poemas, entre muitas possíveis, um deles já aqui publicado, mas que não posso deixar esquecer hoje, talvez personificadores dessa  grande Alma feita para a Liberdade e para o Amor: não se opõem, completam-se!




Não sou de ninguém!


Eu não sou de ninguém!... Quem me quiser
Há-de ser luz do Sol em tardes quentes;
Nos olhos de água clara há-de trazer
As fúlgidas pupilas dos videntes!


Há-de ser seiva no botão repleto,
Voz no murmúrio do pequeno insecto,
Vento que enfurna as velas sobre os mastros!...


Há-de ser Outro e Outro num momento!
Força viva, brutal, em movimento,
Astro arrastando catadupas de astros!




Ser Poeta


Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Áquem e de Além Dor!


É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!
É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhas de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!


E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!
                                       Florbela Espanca

 
Depois de um dia intenso em que familiares e amigos me brindaram com muitas provas de carinho e de fraternidade, entre fartos e bem regados repastos, ao anoitecer, um pequeno grupo de Amigos - porque os verdadeiros Amigos são poucos mas poderosos e imprescíndiveis, para além da necessidade permanente do Infinito, outras coisas suaves me ofertaram - essas coisas subtis e "confortáveis" - e se faltaram as rosas vermelhas, hove Vinho Tinto (o poderoso Cartuxa 2007), canetas, música, muita música e... até um retrato feito com rotring e vinho, pelo Amigo pintor Manuel Casa Branca. Sei outros(as) Amigos(as) por motivos impresvistos de última hora não estiveram. Um grande bem haja aos Amigos (as) Manel, Natacha, Céu, Ramos, Constantino e Zé Carita, que me cantaram os votos da fraterna Amizade nas velas de um bolo que dizia: "parabéns maltês!".
Deles  partilho este retrato e estes discos, que aconselho.









ao chegar a casa, deparei-me com uma mensagem: este soneto que a Amiga Maria Vitória Afonso me dedicou, que humildemente agradeço (meio sem jeito) e... partilho!


Eduardo, o Sábio Amigo




Enquanto o comboio riscava a paisagem
Ali na Funcheira perto de Garvão
Nascia o filho de uma mãe coragem
Fruto de amor e de grande paixão.


Longos plainos lhe deram percepção
Do mundo antigo, de sonho e miragem.
E impõe-lhe misteriosa a intuição
Tirar do vazio a mítica personagem.

Herdeiro da civilização mediterrânica
Do Alentejo privilegia a panorâmica
E evoca Almutâmide o árabe poeta.

E fazendo jus a seus antecedentes
O fio condutor assim, sem precedentes
Estabelece, na obra que o projecta.

                                              Maria Vitória Afonso

Um comentário:

Confissões de uma borboleta disse...

Parabéns...
Que hora fortuita para nascer.
os poetas tem disso, são marcantes nas horas e datas certas e se misturam em gostos e versos.]
beijos