16 de jan de 2011

Festa Almutâmide da Poesia - Evocação do Poeta bejense na passagem dos 970 anos do seu nascimento

             Convite

 às/aos Amantes da Poesia
e da Beleza...




Almutâmide - O Príncipe dos Poetas

de Beja a Agmat


Almutâmide Ibne Abbade, (Beja–1040/Agmat-1055) é considerado o mais importante poeta da segunda metade do século XI no Garbe al-Andalus, num período excepcionalmente rico ao nível da criação poética, de entre cerca de 40 excelentes poetas que viveram nesse período.

Terá nascido na Casa dos Corvos, perto onde se situa o Cine-Teatro Pax Julia. Aos 13 anos instalou-se em Silves, onde viveu até aos 28 anos, período muito rico de criação literária, marcado pela exaltação dos sentidos e dos sentimentos. Foi quando conheceu a futura princesa Itimade e o seu maior amigo, o grande poeta Ibne Amar.

O seu breve reinado de 22 anos em Sevilha, designado por “Século de Almutâmide”, protagonizou o apogeu civilizacional que deu continuidade e superou as cortes califais de Damasco, Bagdade e Córdova, onde as Ciências, a Filosofia, as Artes, as Letras, a Música e a Poesia eram protegidas e honradas.

Com a tomada do al-Andalus pelos Almorávidas, é desterrado para Agmat em 1091, onde morre, quatro anos depois, no meio do maior sofrimento, miséria e tristeza.

Hoje descansa num mausoléu com Itimade e uma das suas filhas, onde é visitado e venerado pelos amantes da Poesia de todo o mundo.

Almutâmide é um símbolo de uma época onde personifica o Príncipe renascentista avant la lettre: Poeta, rei, amante, cultor das artes, das letras, da Beleza. Mas é também a marca da perenidade, pois os quase mil anos que nos distanciam de Almutâmide são apenas um breve “parêntesis”; ao lermos a sua Poesia percebemos que estamos perante uma vertiginosa “aventura poética”, de que é símbolo e protagonizou com outros grandes poetas seus contemporâneos (como Ibne Amar, Ibne Sara, Ibne Bassame, Ibne Darrague, Ibne Abdune, entre muitos) que nos “falam”do que nos é familiar, do que sentimos, vivemos, do Sol e do luar e nos iluminam e encantam; sentimos a sua respiração, comem connosco à mesa, bebem connosco o vinho da fraternidade e da exaltação dos sentidos.

Com esta evocação da passagem dos 970 anos do nascimento de Almutâmide em Beja, propomo-nos assumir esta nossa matriz identitária mediterrânica milenar, resgatando do fundo da Memória este nosso património intangível latente nas soleiras das nossas casas do Sul, nas cores azul e ocre, no silêncio, nos cheiros, nos sabores, no triangulo feito do Pão, Azeite e Vinho.

Esta será uma primeira realização, a que esperamos dar continuidade, num âmbito mais alargado e diversificado, devolvendo à comunidade, valorizando-o este riquíssimo património.

É tempo de fazer de Beja a Capital da Poesia, resgatar a antiga Pax Julia romana e a Baja islâmica, posicionando-a na perspectiva de uma centralidade cultural no País, na Península e no mundo Mediterrânico.

                                                                                                                          Eduardo M. Raposo



O Vinho


a noite lavava as sombras
das suas pálpebras com a aurora,
ligeira corria a brisa.


bebemos vinho velho, cor de rubi,
denso aroma, suave corpo.



Saudação a Silves


viva Abû Bakr!
saúda por mim, asinha, 

os queridos lugares de Silves
e diz-me se deles a saudade
é tão grande quanto a minha.




saúda o palácio dos Balcões
da parte de quem não esqueceu.
a morada de gazelas e leões,
salas e sombras onde eu
doce refúgio encontrava
Entre ancas que lá achava
e bem tão estreitas cinturas.


moças níveas ou escuras
atravessavam-me alma
como brancas espadas
ou lanças aceradas.
ai quantas noites fiquei,
lá no remanso do rio,
nos jogos d'amor m'embaracei
com a da pulseira curva
igual aos meandros da água,
sem ver o tempo passar…


bebia vinho, sem mágoa:
o vinho do seu olhar
às vezes o do seu copo
e outras o da boca.




tangia-me cordas de alaúde:
minh'alma ficava louca
como se ouvisse crispados
tendões de colos cortados.


e se retirava as vestes
mostrando encantos de amor,
era um salgueiro prestes
a abrir o seu botão
para me mostrar a flor.



(Versões de Adalberto Alves)


Um comentário:

Braulio Pereira disse...

gostei de passear por aqui..


abraço !!