2 de ago de 2007

Al Berto em "Degredo no Sul" e o Fogo da Terra

Acabo de receber Degredo no Sul pela mão amiga do Paulo Barriga, o seu organizador, que saúdo. Álbum de textos e poemas de Al Berto, poeta do mundo, assim homenageado dez anos depois da partida, numa revisitação da sua «poesia alentejana», o mesmo é dizer do regresso ao mar; Sines, Milfontes, S. Torpes, a Ilha... ao Sul, até Aghmat em "Degredo no Sul Al Mouhatamid", como termina, com a maioria e mais irreversível de todas as percas, neste conjunto de textos e poemas onde a marca do desencanto, da solidão, da destruição, da inquieta realidade onde já não há lugar para a felicidade que teria existido num tempo distante. "Rumos que apontam insistentemente o caminho do exílio, da expatriação, da solidão. O caminho do Sul. A antiga rota dos poetas/guerreiros árabes. O «Degredo no Sul". como nos diz



percorro todos os teus buracos inúteis... alastra-me em re-
dor do coração uma dor de sangue, o asfalto cobre-se de luzes
alucinantes e solidão
da noite ecoam passoa, nas ruas desertas ficam à solta os
animais lendários da minha bebedeira
lutam comigo atá de manhã, morrem à beira da minha
boca


e conheço o amargo pão da tua solda/dura, o ouro líquido
que não chega para enriquecer o homem
o mar tem a solidão dos teus ais... medonhos ais, que per-
sistem para lá da demorada insónia
o sal tornou-se rubro e cospe flores que provocam o sono,
e o esquecimento


neste mesmo mar a Sul, meu mar iniciático em inícios de sessenta, onde regresso ciclicamente encantado, década após década, nestes areais onde caminhei ao vento, onde dormi ao luar, onde levei a Sofia a descobrir os seus mistérios da maresia, onde nadei, nado, ao encontro da Ilha, desafio serenamente o poder do mar imenso e implacável, onde mais recente de novo... fui, sou feliz... no encontro comigo mesmo, iniciando agora um tempo pleno e novo...


















...e depois do mar aconteceu o reencontro com a terra de que andava apartado... o fogo da terra na urgência da Vida, na felicidade, comunhão plena da alma e dos corpos...





Alentejo, Meu Amor




O Sol
fecunda os corpos
incendeia os sentidos …
Uma louca sinfonia
vinda do fundo dos tempos
insaciável e urgente!
Encontro pleno!
o côncavo e o convexo
que se sorvem
que se respiram
que se bebem
… sem palavras


Cavalo de fogo!…
Poderoso!
risca o silêncio do montado
…beija a terra mágica



PS. havia uma ponte antiga, talvez romana…

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