1 de out de 2010

A República ou o Alentejo... por Eugénio





Planície

As ancas nuas das éguas bravas
Cheiram ao sol verde das searas

A caminho de Beja

Chega ao fim o enlouquecido
amarelo dos girassóis;
chega ao fim extenuado.

Só o branco,
o branco enraivecido
da cal, continua a sangrar
nos flancos - como toiro ferido.


Nestes dias de correrias e de exaustiva actividade- depois de muitos, muitos meses, quase um ano de longos trabalhos preparatórios – a verificar os últimos pormenores, a receber os últimos textos para as pastas, a abrir sessões, a receber os convidados, a moderar mesas, a despedir-se dos convidados e a contar as poucas horas de sono pela frente para, no outro dia, para logo bem cedo tudo recomeçar de novo. Nestes dias em Beja, Aljustrel e na Mina de S. Domingos passaram-se momentos extraordinários, fosse ouvindo as intervenções de António Ventura, António Pedro Vicente, Alice Samara, António Quaresma, Fernando Rosas, Fernando Gameiro, João Esteves, Luís Farinha, Manuel Baioa, Miguel Bento, Jorge Feio ou Paulo Guimarães, ou Mário Soares na sessão de encerramento, dia 25 em Beja, ou  Alfredo Caldeira na inauguração da exposição,Vito Carioca e Miguel Góis na abertura; momentos de grande serenidade e exaltação nos apontamentos musicais dos "Rastolhice" ou do Paulo Ribeiro – que se está cada vez mais a tornar-se um cantor do Sul com tonalidades mediterrânicas - ou o que se vai passar dia 1 em Setúbal com Macaísta Malheiros, Rogério de Brito e os oradores Albérico Afonso e Álvaro Arranja e depois a encerrar o ciclo dia 4 na Casa do Alentejo com Nelson Brito e José Manuel Mariano – respectivamente Presidente do Município e Presidente do Centro Republicano, como já se passou em Aljustrel,  - na homenagem a Brito Camacho, proferida pelo Luís Bartolomeu Afonso – pai do Luís Afonso – e Francisco Colaço, Jorge Nunes e depois da apresentação da Memória Alentejana, como já aconteceu nos outros locais. A encerrar vão ser simbolicamente uma trintena de personalidades, amigos, patrícios desta nossa Pátria Alentejana que se têm distinguidos , nas mais variadas áreas, na valorização e na dignificação da Identidade, da Memória, dos valores patrimoniais do Alentejo.


Tudo isto... é muito – fruto dum imenso e aturado trabalho de tantos meses - mas… tudo isso é pouco, não chega… por isso sinto-me dividido e… depois das cerimónias, das formalidades mesmo que o mais informais possíveis… apetece-me urgentemente despir o casaco, arregaçar as mangas da camisa e… correr pelos campos, nestes campos do Sul, do meu imenso Sul azul....






Do Sul


O branco branquíssimo do muro:
a beleza concreta, acidulada,
do rigoroso espírito do Sul




Caminhar pelos campos, como fiz recentemente junto a um afluente do Almansor, nestes dias cálidos de fim de Verão em que o doirado das folhas dos plátanos subtilmente ocupa o luga primaveril da fogosidade do desejo adivinhado no decote entreaberto ou um traço de seda por entre a saia que apetece despir… lentamente...  ou a ânsia torrencial do sol a pique na paisagem parada … em tarde de vento suão, céu e terra rubros de sangue e fogo e lava ardente e os corpos brilhantes suados de desejo de prazer momentaneamente saciados, apenas momentamente… corpos e alma insaciáveis…. Cavalos de fogo e vento… mas agora há doçura serena na paisagem, caminhando por uma clareira onde os cães - o trigo e o joio - se banham como se fosse ao luar…. Caminhamos entre as ruínas da igreja de S. Aleixo e a barragem do Raimundo onde avistamos as garças brancas de que fala Eugénio, quando …






No Alentejo, com as cegonhas

Há quem goste do Alentejo pelo ensopado de borrego, os brancos da Vidigueira, os tintos de Borba ou do Redondo. Outros gostarão dele pelo cromeleque dos Almendres, o Templo de Diana, o Convento da Conceição, onde a quase lendária Mariana Alcoforada teria aberto o coração e o cama ao Cavaleiro de Chamilly, e depois escrito as mais exasperadas e comoventes cartas de amor, que alguns têm ainda por autênticas, e que, juntamente com o desvairado amor de Pedro e Inês, tanta importância têm no nosso imaginário. Outros ainda virão ao Alentejo pelos cavalos de Alter, os girassóis em flor dos arredores de Beja, as garças brancas dos campos de Montemor, o ulmeiro de Portalegre, que o Régio não soube levar a um poema. Mas também se poderia descer ao Alentejo pela ásperta melancolia dos corais de Vila Nova de S. Bento, ou somente pelas gloriosas oliveiras de Serpa, algumas tão veneráveis como as de Colono, terra de exílio de Édipo, que Sófocles tinha por imortais, “florescendo sem receios de inimigos, jovens ou velhos, pois Zeus e Atenas de olhos glaucos continuamente não as perdem de vista”.
São boas razões para amar o Alentejo, mas as minhas são outras. quem minimamente me conheça é capaz de saber que escolhi o Porto para viver, ou antes, para trabalhar, mas que nasci na Beira, em terras interiores que prolongam o Alentejo. E saberá talvez que tenho a nostalgia do Sul. Mas o Sul, que tão insistentemente vem à tona nos meus versos, se na verdade começa na extensão rara dos campos alentejanos, e no branco coalhado dos  seus muros, atravessa a Andaluzia e vai espraiar-se nas costas do Mar Mediterrâneo. A luz quente e acidulada que encheu os olhos de Ulisses é também a minha, e as terras, que apenas são produtivas graças ao aturado esforço dos seus habitantes, são as terras da minha cultura - essas em que o saber e a mão do homem não se tinha ainda divorciado.
(...)
Abalámos na manhã seguinte, levando nos olhos a torre da cidade, de onde se avista, não direi o mundo inteiro, mas pelo menos todo o Alentejo. E não tardou que a luz matinal ainda fresca, e as cigarras, me levassem a esquecer a gárgula e a mulher a quem Rilke chamava emblematicamente "a Portuguesa". Longe, porque tudo no Alentejo é distante, duas cegonhas, num campanário, espanejavam as asas, erguiam-se ligeiramente no ar, voltavam a cair. Não tardaria que o sol começasse a ferver.
(...)
Voltei a Beja para o lançamento de uma das edições das "Cartas", a oitava, se não estou em erro. Fizemos então leituras no Convento e na Biblioteca, ceámos n'Os Infantes, percorremos as ruas empinadas da Mouraria, sentámo-nos na Praça da "loggia"florentina, contemplámos longamente os pequenos painéis do tríptico flamengo, 'Cristo e os Discípulos', demorámo-nos na Biblioteca, cujos labirintos encantariam Jorge Luís Borges, deixámo-nos envolver, como se fora um linho fresco, pela serenidade da igreja da Santa Maria.
Só faltava descobrir o Convento de S. Francisco, transformado com inteligência e bom gosto em pousada. E é aqui, onde me sinto como andorinha ou cegonha que regressa ao sítio onde fez ninho, que termino. E vou assinar.

Eugénio de Andrade

in Alentejo
 Eugénio de Andrade & Armando Alves, Beja, Dez. 1997

neste livro onde a Beleza existe em cada poro: a escrita de Eugénio, as ilustrações de Armando Alves, a delicadeza do papel e de cada pormenor... no grafismo, na paginação, na imprensão... onde transparece a subtileza infinita, como diz o poeta: capaz da suprema elegância de ser simples.

4 comentários:

Flor de Lys disse...

São lindas e tocantes as palavras desse lugar...

Beijo.
Álly

JB disse...

Incrível a quantidade e qualidade da cultura, história e literatura que se pode encontrar em cada um dos seus posts!
Foi como se tivesse viajado, nas palavras e imagens, nas suas entrelinhas!

Parabéns!
Beijinho

Priscilla Marfori... disse...

Textos que nos tira o fôlego, que nos fazem querer le-los e rele-los...
Parabéns pelo blog e abraço.

perfume de laranjeira disse...

Obrigado Amigas, por amarem a Beleza como eu amo...