29 de out de 2010

Anouar Brahem e o Jardim Adormecido

Anouar Brahemnasceu na Medina de Tunis (Tunísia) e é considerado o especialista de Ud (instrumento árabe tradicional de cordas) mais criativo e inovador do seu país. Discípulo do grande mestre Ali Sriti na arte do Maqam, o sistema de modos da música erudita árabe, e do Taqsim, a arte da improvisação, Brahem atribuiu-se a missão de restaurar o Ud enquanto instrumento solista, emblemático da música árabe. Grande conhecedor da música tradicional árabe é também um músico imbuído da contemporaneidade, pois rompeu com a tradição ao integrar nas suas composições elementos de Jazz e de outras tradições, orientais e mediterrânicas, tendo-se lançado definitivamente na exploração das músicas do mundo, como se pode ler no folheto de apresentação do recital.


Anouar Brahem Quartet deliciou-nos, no passado dia 25 no Grande Auditório da Fundação Gulnbenkian com um excelente momento instrumental marcado por uma extrema subtileza e criatividade. Composto, para além de Anouar, pelo músico libanês Khaled Yassine na percussão (Darbouka e Bendir), o nórdico Björn Meyer no baixo eléctrico e o alemão Klaus Gesing no clarinete baixo. Foram momentos empolgantes para os amantes das sonoridades mediterrânicas e para os amantes do Jazz – para nós foi-o duplamente como há muito não nos acontecia.


Momentos partilhados numa imensa plateia esgotada com o nosso Amigo, músico, compositor e intérprete Eduardo Ramos, que se apaixonou pelo alaúde, depois de um dia, há muito ter assistido a um recital de Anouar Brahem.


“Tenho necessidade dos dois mundos”, reconhece Anouar, provavelmente o mesmo que sentimos quando passamos horas bebendo o delicioso chá marroquino de menta com hortelã, fumando o aromático tabaco noire local, sentados na esplanada do “Grand Café Paris” em Tânger, cidade dos dois mundos.

                                                    Anouar Brahem na sessão de autógrafos

Temas como “The lover of Beirute”, “Dance with waves”, “Stopover at Djibouti”, “The astounding eyes of Rita” , “Galilee mon amour”, “Sur le fleuve”, “Waking state”, “For no apparent reason” e “Al Birwa” com o título do programa precisamente “The astounding eyes of Rita” em referência à obra poética de mahmoud Darwish (1941-2008), considerado o Poeta nacional da Palestina - autor de uma grande obra poética e figura muito influente na esfera cultural árabe.

 
O título que dá o nome ao livro traduzido para portuguesa é precisamente este poema que transcrevo e dedico aos (às) que perseguem ideais e valores e não abdicam do Amor e da dignidade mesmo em vez das “sensatas materialidades” e também a quem vive, completamente solitário, a solidão existente no seu próprio coração…





O JARDIM ADORMECIDO


Quando o sono a tomou nos braços, retirei a mão,
contornei os seus sonhos,
vi o mel desaparecer atrás das suas pálpebras,
orei por duas pernas miraculosas.
Inclinei-me sobre as palpitações do seu coração,
vi trigo sobre mármore e sono.
uma gota do meu sangue chorou,
estremeci…
Um jardim dorme no meu leito.


Dirigi-me para a porta
sem olhar para a minha alma sempre adormecida.
Ouvi o rumor antigo dos seus passos e o sino do seu coração.
Dirigi-me para a porta.
- A chave está na sua bolsa
e ela dorme como um anjo depois do amor –
Noite chuvosa na rua e nenhum ruído,
a não ser as palpitações do seu coração e a chuva.
Dirigi-me para a porta.
Esta abre-se.
Saio.
Ela fecha-se.
A minha sombra desliza atrás de mim.
Porque digo adeus?
Eu sou, a partir de agora, estranho às lembranças e à

                                                                           minha casa.
Desci as escadas.
Nenhum ruído,
a não ser as palpitações do seu coração, a chuva
e os meus passos sobre os degraus que vão
das duas mãos a um desejo de viajar.


Cheguei à árvore.
Aqui, ela abraçara-me.
Aqui, feriram-me raios de prata e de cravos.
Aqui, começava o meu universo.
Aqui, ele terminava.
Parei durante alguns instantes feitos de lírio e de inverno,
caminhei,
hesitei,
depois avancei.
Levava os meus passos e a minha memória salgada.
Caminhei na minha companhia.

Nem adeus nem árvore.
Os desejos adormeceram atrás das janelas,
as histórias de amor e as traições
adormeceram atrás das janelas,
e os agentes de segurança também.
Rita dorme… dorme e desperta os seus sonhos.
De manhã terá o seu beijo
e as suas visitas,
em seguida preparará o meu café árabe
e o seu café com leite.
Interrogar-me-á, pela milésima vez, sobre o nosso amor.
Responder-lhe-ei:
Eu sou o mártir das mãos que
todas as manhãs me preparam o café.
Rita dorme… Dorme e desperta os seus sonhos
- Vamos casar-nos?
- Sim.
- Quando?
- Quando o lilás crescer nos bonés dos soldados.
Ultrapassei as ruelas, o edifício dos correios, as
                                                                    esplanadas dos
cafés, as boites nocturnas e as suas bilheteiras.
Amo-te, Rita. Amo-te. Dorme.
Daqui a treze invernos, perguntarei,
perguntarei:
- Ainda dormes?
- Já acordaste?
Rita! Rita, amo-te.
Amo-te…

Mahmud Darwich, O Jardim Adormecido e outros poemas, 
(Trad. de Albano Martins), Caampo das Letras, Porto, 2001


4 comentários:

Paulo Francisco disse...

Texto enriquecedor. Poema lindo, muito lindo. Parabéns!

Majju disse...

Sem palavras!!! Belíssimo!!!

perfume de laranjeira disse...

Hoje, as visitas do Brasil totalizaram 2.000.
Um abraço muito especial para as(os) Amigas(os) que me visitam do País irmão do outro lado do Atlântico.
Bem hajam!...

Christin disse...

Great!