12 de set de 2010

O direito à Liberdade!... o direito à Beleza!...perante os (vários) fundamentalismos....




Poder

meu olfacto é teu odor delicioso
e o teu rosto o senhor dos olhos meus.
por seres minha, mesmo depois do adeus,
é que todos me chamam poderoso.


Almutâmide Ibne Abbade ( grande poeta nascido em Beja, em 1040, morreu prisioneiro em Agmâte. Nesta antiga capital de Marrocos existe um mausoléu onde é venerado pelos amantes da Poesia de todo o mundo)


Ontem, 11 de Setembro, um dia que em 1973 e em 2001 foi marcado por horríveis crimes contra a humanidade: em 1973, em Santiago do Chile, o golpe militar do general Pinochet contra o governo do socialista Salvador Allende, que então foi assassinado, a que se lhe seguiram muitos milhares de seus compatriotas, sumariamente fuzilados, torturados, perseguidos… tudo isto com o apoio do governo norte-americano; e o derrube das Torres Gémeas, em Nova Yorque. O ódio a falar mais alto; duas faces do fundamentalismo.


O texto que se segue, no essencial, publicamo-lo na última edição, do mensário Folha de Montemor:



Este poema, breve mas poderoso, fala-nos do poder do Amor, do encantamento, da Beleza, da irremediável sedução de que o Homem é tomado pela voluptuosa sensualidade, pela totalidade que antevemos no encontro perene de dois seres livres, libertos, sem freios, amarras ou ameias, caminhando lado a lado, irmanados pela Beleza, sublimes porque sabem o significa exacto da plenitude e dela não abdicam como bem supremo; a Liberdade plena, total, em todos os aspectos,.


Podem dizer que isto é apenas poesia e que a vida, a realidade, é outra coisa. Eu contraponho que a Vida não faria sentido – para mim não faz – para sermos apenas seres “formatados” destinados a uma “felicidadezinha podre”, acomodados ao cinzentismo dos dias vazios. Não, a Liberdade de viver, de procurar caminhos e experiências, da criação - que nos dá momentos de libertação mental, de enriquecimento e crescimento intelectual e possibilitam à comunidade momentos de exaltação da cidadania e da beleza da Vida. A Liberdade só deve ter limites no respeito pelo outro e na preservação da sua própria liberdade.


Esta breve reflexão vem a respeito de discursos e práticas xenófobas e securitárias que se iniciaram com Berlusconi e, por estes dias têm tido o seu ponto alto com a expulsão de indivíduos de etnia cigana, obrigados a regressar à Roménia e à Bulgária, ordenada por Nicolas Sarkozy - ele próprio originário de uma família de ascendência húngara. Se bem que tenhamos assistido no último fim de semana (4/9) a manifestações  onde terão participado largas dezenas de milhares de cidadãos franceses (em mais de 130 cidades) - e que aconteceram também no Porto e em Lisboa, todavia com participação diminuta. Todavia Sarkozy, e segundo as sondagens terá nestes políticas racistas e discriminatórias o apoio de 65% da população francesa. Até que ponto não é esta uma forma do Presidente francês desviar as atenções para graves alterações pretendidas na sua política social- onde tem a oposição de 70% dos franceses nas reformas do sistema de pensões – incluindo o aumento de idade de aposentação dos 60 para os 62 anos – em discussão no Parlamento francês.


Mas o que também está na ordem do dia é o debate sobre a intenção de interdir no espaço público o uso do véu integral islâmico – o niqab - curiosamente agendado para uma data que coincide com a efeméride terrorista do 11 de Setembro e o fim do Ramadão.


Segundo o Ministério do Interior francês o niqab é usado por “cerca de duas mil mulheres” em França, ou seja, três por cada cem mil habitantes, embora outras fontes citem um número ainda menor, de não mais de 600 mulheres. Noventa por cento dos casos recenseados pelo Ministério do Interior têm menos de 40 anos e um quarto são “novas convertidas”. As muçulmanas que cobrem totalmente o rosto vivem, sobretudo, nas grandes cidades e periferias de Paris, Lyon e Marselha, ainda segundo o mesmo estudo.


Num e interessante e exaustivo - da maior actualidade - trabalho saído na “Pública” (28.08.2010) , que foi capa deste suplemento do Público aos domingos intitulado “Este véu que nos separa”, da autoria de Pedro Rosa Mendes, cita-se o antropólogo e filósofo argelino Malek Chebel, tradutor francês do Corão, tarefa que o obrigou a aprofundar a semântica e a história dos versículos sagrados. Chebel é claro: “O Corão é toda a minha vida nos últimos dez anos e conheço o texto como conheço as minhas mãos. Posso dizer que a palavra burqa e a palavra niqab não aparecem em lado nenhum do livro uma única vez.”


Por seu lado o poeta tunisino Abdelwahab Meddeb acrescenta uma leitura metafísica e filosófica à polémica do niqab, depois de negar a origem árabe da palavra burqa, sublinha que o rosto humano e, de entre todos, o rosto feminino, “é um espelho de Deus”, pelo que a burqa ou o niqab, “ é um crime que Mata a face, barrando a acesso perpétuo ao outro” e “ O eclipse da face oculta a luz do rosto, onde se reconhece a epifania divina que inspirou o espírito e o coração do Islão”. Meddeb, noutra passagem refere “um versículo muito belo” em que um jogo de palavras semelhantes, se contrapõem em “homofonia” a palavra árabe que quer dizer “radioso pleno de luz” e a palavra para dizer “contemplando Deus”. O mesmo fonema “designa a luminosidade do rosto e o facto desse rosto olhar a Deus. Como se a luz de Deus resplandecesse nos rostos humanos de quem o olha. “


Meddeb recorre ao poeta e místico sufi do al-Andalus Ibn Arabi, que nos diz que “ o rosto humano torna-se o espelho onde se reflecte o rosto de Deus”, e como “Deus é belo, por isso os rostos perfeitos para reflectir o rosto divino são os rostos de maior beleza, que são os das mulheres e os dos efebos”.


E ainda para o pensamento deste muçulmano sufi , onde não há lugar para o monaquismo ou o celibato, “A relação corpo a corpo entre homem e mulher seria essencialmente vulgar se não existisse a constatação de que é no momento extremo do gozo feminino que aparece a maior epifania divina. Sob todos os pontos de vista, o rosto torna-se o lugar da teofania.”


Aliás, Malek Chebel recusa que a radicalização política no final do milénio, oferecida hoje como uma suposta alternativa à hegemonia ocidental, vá beber à tradição, até porque o niqab “não é uma obrigação divina, uma farid’a, nem uma disposição cultural, uma ibâda, mas uma Ada, ou costume, conforme lembrou a Universidade de Al-Azhar, no Cairo, a maior autoridade do mundo islâmico, que tomou posição contra o véu, que conforme o mufti do Egipto, Ali Juma, “Trata-se de um costume arábico pré-islâmico que o islão está em condições de dissolve.”


Como diz a conceituada jornalista e feminista muçulmana Mona Eltahawy, nascida no Egipto (1967) e radicada nos E. U. A: “Condeno a xenofobia da direita política, mas também a misoginia da direita muçulmana, cuja ideologia promove o niqab e a burqa. O véu integral não é um símbolo do islão como a direita política e a direita muçulmana alegam. O véu integral é apenas símbolo da direita muçulmana.”


Afinal as forças que instigam a xenofobia e o fundamentalismo acabam por ter muito coisa em comum. Que distância enorme do apogeu civilizacional que existia no al-Andalus e aqui no Garbe no período histórico em que se Almutâmide terá escrito o poema com que iniciei, quando imperava a harmonia, a tolerância e a coexistência pacífica entre os povos, as (três) religiões (monoteístas) as culturas em presença na Península Ibérica.


E, como diz o tradutor do Corão o véu integral “diz respeito a apenas 650 mulheres em França,na maior parte convertidas”, a quem Chebel atribui “excesso de zelo.”


Considera este filósofo do Islão que embora suprimir o véu lhe convenha este não é o método correcto.”Legislar é má ideia. (…) legisla-se por causa de 650 mulheres numa população de 64 milhões de pessoas.”, e propõe outro tipo de acções como uma campanha de pedagogia e de incitamento junto das mulheres para levantar o véu e explicar que o espaço público francês não lhe permite usar o véu integral”.


A diferença entre a tolerância e a arrogância, o espírito autoritário, policial… afinal para que servem os ensinamentos da História ?!…


Arrogância, poder pela força não rima com o poder do Amor, o poder da Beleza…..

Será que quase mil anos depois deste belo poema ver a luz do dia, o ser humano regrediu?

Não!  Acreditamos que não!...
 O Poder do Amor é, de todos, o maior poder!


O Amor é o Sol da Vida!


3 comentários:

Flor de Lys disse...

Lembrança do horror... há pombas para amenizar essa dor?

A Escafandrista disse...

agrada-me bastante este blog ;) muito bonito, parabéns.

Paulo Francisco disse...

Gostei deste texto. Gostei deste blog. Parabéns!