16 de mar de 2016

Nico e o Alentejo

Nicolau Breyner, Alentejano de Serpa, cidadão do mundo, Actor do universo, partiu. Como dizia o mestre Almada Negreiros, "O importante é o espectáculo!" Nico deu-se todo, deu toda a sua alegria esfuziante, a sua vontade imensa de viver, de todas as formas possíveis e imaginárias, para a a arte de representar!

Nicolau Breyner partiu.
Viva Nicolau Breyner!

Nicolau Breyner amava o Alentejo!
Tal como eu e como muitos e muitas Alentejanos(as)

A seguir publico um artigo que foi a crónica da última edição da Folha de Montemor, a propósito de um livrito muito badalado, quando a mim demasiado. Pôr os pontos nos iis sobre os valores do Alentejo é também a minha forma singela mas sentida de homenagear Nicolau Breyner, ele que foi um Homem do tamanho do Mundo, ao contrário deste rapaz  - Henrique Raposo, felizmente não me é nada - um rapazito que manda umas  "bocas", meras opiniões, mas convencido que têm alguma importância e tenta elevá-las a verdades científicas... lamentáveis equívocos...




intitulei: A liberdade de expressão e o direito à indignação

A propósito de um livro polémico, Alentejo prometido, de Henrique Raposo – editado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos na colecção Retratos da Fundação - que escamoteia a realidade da ruralidade e alguns factos históricos no século XX português, iniciamos nesta edição de Março um conjunto de crónicas sobre os Alentejanos na Diáspora.
O autor situa as suas origens familiares no Litoral Alentejano, algures entre Alvalade-Sado e São Domingos – freguesias de Santiago do Cacém - em povoações nas imediações da Ribeira de Campilhas, afluente do Rio Sado, e da Barragem de Fonte de Serne; referimo-nos a Foros da Pouca Sorte – aldeia dos seus avós - vizinha do Foros da Casa Nova, onde, pela mão do meu pai, visitei diversas vezes os meus avós paternos, uns bons dez anos antes de o autor nascer. Todavia o mesmo apelido parece ser pura coincidência e para além do prazer da escrita, será porventura o único aspecto que temos em comum.
Parece-nos um absurdo o alarido provocado à volta da edição de um livro que tem previsto o seu lançamento para o final do dia de fecho desta edição sob inéditas medidas de segurança. Afinal trata-se apenas de um road movie, como o próprio autor se lhe refere. Toda a mediatização que lhe está a ser dada não faz qualquer sentido, pois concorde-se ou discorde-se, afinal a democracia é isso mesmo; é aceitar a opinião dos outros mesmo que diversa.
Curiosamente concordo com Rui Cardoso Martins, ex-jornalista do Público e escritor premiado - esteve em Montemor nas II Jornadas Literárias em 2012 – que declarou no passado dia 5 ao DN “Acho triste e estúpido que alguém queira proibir ou queimar um livro”, como já aconteceu com este livro. Diria mais; acho uma atitude quase inquisitorial, um perfeito disparate. Mas se Henrique Raposo tem o direito a expressar o seu ponto de vista, também acho que quem não concorda tem o seu direito a indignar-se; todavia, deverá fazê-lo usando os mesmos meios. Poderão contrapor-me dizendo que nem todos têm acesso aos que o autor tem… bem, também posso dizer que o livro último que lancei, há um ano em Montemor – Urbano, o Eterno Sedutor - e umas semanas depois foi apresentando na Casa do Alentejo por um dos escritores e intelectuais contemporâneos mais brilhantes como é o caso do Miguel Real – aliás o (editor) Fernando Mão de Ferro considera-o não apenas um dos mas o melhor, o mais brilhante – livro este que certamente não será um contributo menor, ainda que diferente, para conhecer o Alentejo e a sua cultura e identidade mas, por outro lado, não teve nem de perto nem de longe a visibilidade e a mediatização deste e é muito provável que toda esta polémica, este frenesim o transforme num best-seller.
É evidente que o autor denota frontalidade, irreverência e até uma certa coragem ao assumir que não se revê, não se sente alentejano nem pertença de um Alentejo que julgava prometido, ainda que mantenha memórias do cheiro do café quente e das fatias de ovos – as citadinas “douradas” – o cheiro dos candeeiros a petróleo, as corridas de bicicleta com o irmão em liberdade total, a alegria de apanhar tomate na horta – eu ainda me recordo de visitar as primas que iam trabalhar para a fábrica do tomate, em Alvalade, a viverem temporariamente naquelas casas de telha vã, ou de me deliciar na horta que o meu pai, ferroviário, tinha junto à estação da CP da Funcheira. Todos esses aspectos não me são indiferentes, de maneira nenhuma, pois estão presentes, fazem parte das minhas memórias da infância, do meu imaginário, facto que acaba por criar uma certa empatia com esta escrita. Mas isso não apaga, não atenua um conjunto de meias verdades a partir de uma leitura grosseira de factos históricos, apenas de pressupostos, ilações e meras suposições ao generalizar o que é a sua percepção pessoal, mas que o autor tem a ambição de elevar a verdades sociológicas devidamente comprovadas, o que acaba por redundar em verdadeiros disparates.
Afinal o autor desconhece o mundo rural, todo o mundo rural de Norte a Sul, que certamente teria – ou terá muitas semelhanças àquelas que aponta ao Alentejo, a saber: a discriminação das mulheres que só o 25 de Abril alterou por força da lei e dos costumes nas décadas seguintes e que até então estava generalizada especialmente a todo o mundo rural e que mesmo nas grandes cidades só encontramos alterações significativas em classes sociais elevadas a partir de sessenta. É evidente que as gerações mais jovens, com outros horizontes, encontram nas cidades uma certa libertação - “ só tive sexo em Lisboa… “(p. 31)  à claustrofobia das terras do interior, mas certamente de todo o interior, desde o Minho ao Algarve. Admira-se o autor, por outro lado, como os habitués dum café em Alvalade-Sado, em 2010, que estavam embasbacados com a tatuagem que a empregada tinha “…entre o rabo e as costas”(mesma p.). Não fazendo juízos de valor sobre o propósito eventualmente sedutor da tatuagem, que a proprietária desta tinha o direito de ter, as “bocas” e a desatenção ao futebol que provocava, situações dessas são similares em todo o lado – dou num ápice meia dúzia de exemplos na “libertadora” cintura industrial para onde os alentejanos migraram às centenas de milhar. Até nos bairros populares de Lisboa, Porto. Excepções serão os locais frequentados pelas elites de Lisboa e Porto… e pouco mais
Como não percebo por que razão seria quase revolucionário a aproximação à religião católica – convívio e amizade próxima dos seus primos de Santiago para com o pároco local – e tenho que voltar a concordar com o Rui C. Martins, quando refere que a pouca religiosidade dos alentejanos – para ele e para mim - é um motivo de elogio, ao contrário do autor que a apelida de amoral… não sei se é desconhecimento mas o autor devia ter presente que o Alentejo tem na sua génese cultural um território marcado pelo encontro de todas as culturas urbanas - e  religiões - que, nos últimos cinco mil anos alicerçaram o espaço indo-europeu – não foi só a romanização, nem só o Garbe al-Andalus e o seu apogeu civilizacional, ou  a 1ª dinastia e sobretudo a segunda que estabeleceu a corte itinerante quase sempre em cidades e vilas alentejanas: D. João II ou D. Manuel que casou em primeiras e segundas núpcias em Alcácer do Sal… a guerra civil no século XIX os resquícios nas décadas seguintes trouxeram muita violência a todo o país, nomeadamente ao mundo rural e não só ao Alentejo… mas nada que obstaculiza-se a que D. Carlos que tanto gostava de estar em Vila Viçosa não tivesse ido beber ao montado alentejano a inspiração para as grandes obras que pintou e que fez dele um dos grandes pintores portugueses da época… afinal, ainda hoje a grande religiosidade do alentejano baseia-se na sua relação ancestral com a terra!...
No que concerne à questão da violência versus honra, aconselhava o autor a documentar-se melhor sobre a Comuna da Luz, o pensamento tolstoisiano de António Gonçalves Correia – que protegia formigas do afogamento eminente e libertava pássaros no Jardim público de Beja, dando vivas à Liberdade. A importância da palavra – que marca o nosso mundo mediterrânico – e do seu valor como factor de exteriorização da Honra e talvez perceba a razão porque José Júlio da Costa – natural de Garvão, como eu - matou Sidónio Pais, facto que terá que merecer a respectiva contextualização histórica tanto quanto a morte dos cunhados – que conjuravam para o matar – às mãos do Príncipe Perfeito… e recordar-lhe que até pelo menos meados do século XX os contratos era selados com um aperto de mãos…
O Alentejo foi a região mais politizada do país fora dos grandes centros urbanos – Brito Camacho, foi o 1º deputado republicano eleito antes de 1910, pelo círculo de Beja -  daí que enfrentar a PIDE durante o Estado Novo, como o autor refere, não é uma questão propriamente de “masoquismo” mas sim de consciencialização política.
Quanto à questão dos filhos ilegítimos, que tanto incomoda o autor, gostaria de lhe recordar que a segunda dinastia foi fundada na bastardia – o Mestre de Avis era filho da criada de Inês de Castro e foi um seu filho bastardo, ao se unir à filha do Condestável, que deu originem à poderosa Casa de Bragança que ainda hoje perdura…
Quanto à acusação dos Alentejanos serem individualistas, serem hostis ou terem orgulho de analfabetismo ou querer que Santiago seja representativo do universo Alentejo… meu caro leitor, estamos apenas perante um road movie. Termino desejando ao autor tanto êxito quanto as revistas que tem nome de mulher!






A terminar cito um excerto com que me identifico, com a devida vénia, do blogue

A Gata Christie ,

"Como disse, são opiniões. Ele tem as dele, eu tenho as minhas. E, acima de tudo, há algo que me separa de Henrique Raposo: é que eu gosto muito do Alentejo, amo-o profundamente com todos os seus defeitos (e nisso não serei muito diferente das outras pessoas amam as suas terras, imagino). O meu olhar sobre o Alentejo é toldado por esta paixão, o olhar de Henrique Raposo é toldado pelo ressentimento por todo o sofrimento que os seus antepassados viveram e até, parece-me, por um certo desprezo por tudo aquilo. O percurso do autor tem sido, até aqui, de afastamento consciente de todos os sinais de alentejanismo que ainda pudessem restar nos seus poros, algo que o próprio assume neste livro.
Dito isto, o livro Alentejo Prometido pode até, de uma certa forma, ser interessante como exemplo da opinião de um forasteiro - o que será que eles pensam de nós? - e o livro está bem escrito, há que dizê-lo. Mas aquele não é o meu Alentejo. E, embora não me ofenda (pelo amor de deus, é só um livrinho de 107 páginas de um rapaz que gosta de dizer coisas), entristece-me. Eu, como boa alentejana que sou, gostava que toda a gente gostasse da minha terra e sentisse a alegria que eu sinto quando vou no meu carro e vejo a planície a aproximar-se, aquela imensidão, aquele cheiro, aquele desolamento, aquela sensação única de estar em casa."




Eduardo M. Raposo
eduardoepablo@gmail.com

Um comentário:

Luis Eme disse...

Ainda não li o livro, mas as generalizações dão quase sempre mau resultado.

E claro que liberdade não é dizer o que nos apetece, como o autor pensa e escreve, Eduardo.