9 de mar de 2010

A Primavera no corpo duma Mulher (8 de Março)


Parto de Baja, (a Baja do século XI, mil anos depois) a cidade mais bonita, a minha primeira cidade de Alentejano campaniço, cidade de recantos oblíquos e pedras milenares cravejadas de cheiros e sabores e silêncios, onde se adivinham paixões eternas quando deixamos o Convento de Nª Sª da Conceição e de Mariana Alcoforada e percorremos a subtil Praça da Repúbica - onde em breve as sinuosas e delicadas árvores irão derramar as suas suaves flores de tília sobre os forasteiros e os viajantes em busca da eternidade…

Percorro uma a uma todas flores como o corpo de uma mulher, com a ponta de língua buscando os secretos segredos de todas as enseadas; percorro sôfrego de desejo o corpo de mil mulheres numa só, Cidade, Mulher, Princesa de Planície, venerada, entre as duas cidades femininas de milenares pedras inscritas de amores secretos e quase proibidos, de amantes apaixonados, histórias nas pedras inscritas. Atravesso Évora em correria num dia de tempestade e quando chego a Extremoz e me dirijo para o tabernáculo, para as talhas inscrustadas, encontro o Mestre Omar Khayyam compondo as suas persas – tão longínquos e tão actuais - robaiyats sobre o vinho, o escanção, a taberna, a bem-amada. O vinho, que significado o amado, amado do Amor ou Amante do Amor.




E depois de uma longa viagem por sobre um Guadiana revolto e ondulado (dança tão igual à do Arade em Silves no dia do encontro de Almutâmide com Itimade), e do alegre convívio em VillaFranca de los Barros (Cáceres) na Expósición Internacional de Arte Contemporáneo, com os pintores M. Casa Branca, a Felícia, a Alice e outros amigos.














Mais tarde numa viagem nocturno pela sublime Mãe-Natureza, ali para os lados do Ciborro, deparo-me com seis pequenos espantados coelhinhos, que afago com o olhar, contente de no meu olhar não ir um predador - daqueles que involuiram muitos milhares de anos (desde o Homo sapiens sapiens) - e fazem do seu poder a barbárie do poder do fogo e da morte. E, já perto de Montemaior, de repente o Sol irrompe poderoso, de súbito é dia luminoso e resplandescente, iluminando todos(as) que anseiam, com sede de infinito,  pelos campos floridos, privadas (os), da sua luz e do seu calor. Sinto então  chegada da Primavera, Mulher, nome de Mulher, Corpo, cheiro, sabor, olhar enigmático feminino, amada, adorada, como no poema de Florbela, como em todos os dias 8 de Março, sempre em cada dia primaveril ou não, no Universo.







Primavera






É Primavera agora, meu Amor!


O campo despe a veste de estamenha;


Não há árvore nenhuma que não tenha


O coração aberta, todo em flor!






Ah! Deixa-te vogar, calmo, ao sabor


Da vida … não há bem que nos não venha


Dum mal que o nosso orgulho que em vão desdenha!


Não há bem que não possa ser melhor!






Também despi meu triste burel pardo,


E agora cheiro a rosmaninho e a nardo


E ando agora tonta, à tua espera …




Pus rosas cor-de-rosa em meus cabelos …


Parecem um rosal! Vem desprendê-los!


Meu Amor, meu Amor, é Primavera!...









Florbela Espanca

Um comentário:

Ezul disse...

Fantásticos campos verdes!
Aqui fica o roteiro das laranjas:
http://www.cm-vidigueira.pt/cultura/agenda/c/47AC41FBB3BB4
:)