23 de jun. de 2009

o primeiro Solstício do Roque

Chegou de novo o Solstício de Verão. A primeira vez, desde que o Roque veio, com um arsinho quase assustado de acabado de chegar, mas depois sorriu-me com serenidade.


Foi um dia especial. O Roque o conjunto de linho suave debruado a azul turquesa e calçado de pele macia a condizer com tom e motivos da mesma côr, trazido propositadamente de
Marraquexe, e eu o meu shi´lab de seda, próprio para ocasiões muito especiais, perfumamo-nos com jasmim e fomos, de mãos dadas tomar uma chávena do melhor chá do mundo - de menta com hortelã. Instalámo-nos num café simpático mesmo à entrada daquela que será sempre um lugar mágico, a Praça Jemaa el-Fna...

... li-lhe alguns dos meus poemas preferidos e falei-lhe dos canaviais de Aghmâte. De irmos um dia àquele lugar secreto prestar a nossa humilde homenagem a Almutâmide e a Itimâde. Falámos a linguagem dos deuses e entendêmo-nos. Sabendo que o Amor, tal como a Poesia, não é apenas possível e necessário; é urgente, é insubstítuivel, é imprescíndivel!
Parabéns Roque, pelo teu Primeiro Solstício!

Persegue sempre o Absoluto!

Não desistas nunca da Perfeição!

Assim saberás saborear o secreto sabor da Felicidade!


29 de mai. de 2009

Encontro com Lorca em Mértola "a las cinco de la tarde em puento"


De repente, quando procurava as águas calmas do Odiana num início de noite suave, sinto-me a esvair-me em sangue. Deixo a sua marca vermelha na pedra milenar ante a indiferença dos transeuntes que já perderam o olfacto do cheiro forte de sangue e o seu tom inebriante de vida suprema e de morte…

Releio “Dom Perlimplim com Belisa em seu jardim” a propósito de uma futura encenação de um amigo. E, reencontro, de repente esse universo de fogo e sangue, de jasmim e gazela, de água pura, de menino e anjo, de duende, de água pura dada a beber à boca da amada (como em "Yerma"), na tua boca, da fonte cristalina e milenar, que torna o momento pleno e o nosso Encontro perene, doce minha. Esta leitura renovou-me o sangue, deu-me sangue novo, agora quase agonizante, convalescendo de uma cirúrgia imprevista – a morte e os seus sinais não serão sempre imprevistos?! – para não me esvair de novo em sangue…
















Agora percebo como o sangue marcado na pedra foi um Encontro com Federico, desde que em 1985, ao conhecê-lo, estudá-lo, (até homenageá-lo no ano seguinte, em Setúbal, 50 anos depois)me levou a iniciar uma longa e difícil caminhada até Almutâmide. É como se Federico me tivesse vindo visitar às margens do Odiana, na pedra milenar de Mértola, assinalando com sangue, “vermelho vivo-sangue” o subir de mais um degrau… como acontecera com a visita ao mausoléu de Almutâmide… e as rosas vermelhas que levei na bagagem para o poeta de Beja e para a sua doce Itimade. Refiro-me à apresentação de “Papoila de Odiana – Dançar a Poesia de Almutâmide” no Cine -Teatro Marques Duque, no Festival Islâmico deMértola.






















E houve o Encontro com os amigos: o Eduardo Ramos e a sua singular e bela música, o João Mário Caldeira, o Paulo Barriga e a sua simpática família, o M. Passinhas, o Santiago Macias, a Nádia Torres... os amigos que foram propositadamente ver a "Papoila"e/ou jantar connosco -o José Orta, o João Cágado, a Teresa Cuco, o Carlos Alberto e a Maria de Albufeira e... uma noite diferente, na sexta-feira, a Noite da Dycra, com a Comunidade Islâmica do país vizinho, onde fui com o Tiago e conheci novos amigos, no característico jantar islâmico...






e, partimos por dentro do arco-íris...














ou como Federico escreve, no seu Gazel I, Do Amor Imprevisto (Diván del Tamarit)


Ninguém compreendia esse perfume

da escura magnólia de teu ventre.

Ninguém sabia que martirizavas

um colibri de amor entre teus dentes.


Mil eram os potros persas que dormiam

na praça com luar da tua fronte,

enquanto eu quatro noites enlaçava

tua cintura, inimiga da neve.


Entre gesso e jasmins, o teu olhar

era um pálido ramo de sementes.

Eu busquei, para dar-te, no meu peito

as letras de marfim que dizem sempre.

(...)






Convalesço, reencontro o sangue novo, renovado, sabendo que, em breve

“Voltarei
no meu cavalo de fogo
voando entre pessegueiros em flor
e campos de papoilas
pleno de vida
rejuvenescido
voltarei
ao teu encontro.”


13 de mai. de 2009

"Cantigas do Maio" - tributo maior ao Amor... e ao Alentejo


8 de Maio

Na RTP Memória, Programa "Pontos nos íis"
"A nossa canção de protesto"
por Mário de Figueiredo
Mesa-redonda com José Jorge Letria, Viriato Teles e Eduardo M. Raposo


Recebi uma simpática mensagem, de que publico um excerto.
Intitula-se:

O Poeta chorou

"Caro amigo
Quero dizer-lhe algumas palavras sobre o programa “Pontos nos is”de ontem. Vi, com o meu marido do princípio ao fim até porque éramos no passado telespectadores assíduos do Zip.
Mas como tenho um sentimento profundo de partilha, avisei o meu amigo Fernando Reis Costa da hora do programa e ao intervalo aí estávamos nós a trocar impressões via net.
Ele é um poeta sensível e inspirado (pena n/ ser alentejano) mas é de Coimbra .Eu trato-o por meu irmão pois tem-me ajudado muito a crescer na literatura e na vida.
É uma pessoa incrível.
Ele gostou muito do seu depoimento e disse que quando o sr. Falou da Funcheira e de seus pais ,captando a sua sensibilidade(ele era da área da psiquiatria) ele chorou..
Finalmente digo que o programa foi extraordinário(...)"

Maria Vitória Afonso


Um abraço de agradecimento, extensivo a todos os amigos que viram ou gostaríam de ter visto o programa


e este belo Poema/canção, um dos meus preferidos do Zeca,
para a Mulher que eu adoro!...

Eu fui ver a minha amada
Lá p'rós baixos dum jardim
Dei-lhe uma rosa encarnada
Para se lembrar de mim

Eu fui ver o meu benzinho
Lá p'rós lados dum passal
Dei-lhe o meu lenço de linho
Que é do mais fino bragal

Eu fui ver uma donzela
Numa barquinha a dormir
Dei-lhe uma colcha de seda
Para nela se cobrir

Eu fui ver uma solteira
Numa salinha a fiar
Dei-lhe uma rosa vermelha
Para de mim se escantar

Eu fui ver a minha amada
Lá nos campos eu fui ver
Dei-lhe uma rosa encarnada
Para de mim se prender

Verdes prados, verdes campos
Onde está minha paixão
As andorinhas não param
Umas voltam outras não

Refrão:
Minha mãe quando eu morrer
Ai chore por quem muito amargou
Para então dizer ao mundo
Ai Deus mo deu. Ai Deus mo levou
José Afonso (Poema e música sobre a letra de refrão popular)

25 de abr. de 2009

O Canto da Utopia - 35 anos de Abril



Cantor de Intervenção

Evocando! Sob uma azinheira
O menestrel compõe sua poesia

No montado, escondido da cegueira
Da ditadura feroz que o perseguia.

Grândola o protege e se esgueira
Faz o poema senha que dá magia
Ao cariz da revolução obreira
Que devolve a Liberdade, a Alegria.

Tu, sábio cantor de intervenção
Fizeste poema e musicalidade
A Grândola com tua gratidão

25 de Abril não será esquecido
Tu foste o arauto apetecido
Um Premonitor da Libertação


Maria Vitória Afonso




Qual não foi a surpresa, na madrugada de 24 quando fui ver as mensagens, cansado de viajar e deparo-me com este soneto, - “Cantor de Intervenção” - que acima publico, com a devida vénia, e transcrevi a (exageradamente) simpática mensagem da poetisa Maria Vitória Afonso.

"Caro amigo:Venho por este meio agradecer a oportunidade de assistir à apresentação do seu livro que já comecei a ler.O senhor é um alentejano brilhante . Comoveu-me o prefácio da terceira edição quando fala de sua casa no Sul na Funcheira. Eu tb adoro o concelho de Ourique. Os meus avós viviam em Santa Luzia e eu vivi lá. E um lugar mítico para mim . Eu tenho a paixão do Alentejo . Não sei descrevê-lo como o senhor. Os meus parabéns. Envio-lhe um soneto que acabei de escrever há 5 minutos e que o seu livro me inspirou. Um bom feriado.
Maria Vitória Afonso"


A minha casa, é o Alentejo todo, é o Mediterrâneo, é o universo... é onde o meu Amor estiver!


E, a propósito:
Onde é que estavas quando foi o 25 de Abril?
(frase que se celebrizou pela voz do Baptista Bastos…)

Bem, eu recordo-me de estar a andar de bicicleta - não numa ecopiosta, claro - com um amigo da altura, o Carlos, que há muito lhe perdi o rasto. Andávamos no Ciclo Preparatório. Recordo de termos comentado com a ingenuidade e a ignorância da idade e da altura que talvez os espanhóis tivessem invadido Portugal…



E o outro poema, tambem inédito, julgo, com a devida vénia, a que a autora lhe chamou (Rimas) Canto de Intervenção, foi lido na apresentação que fez deste livro (Canto de Intervenção 1960-1974) no lançamento desta 3ª edição, há exactamente dois anos, na Casa da Música, - quando, ao se referir a mim, o fez como nunca ninguém o tinha feito, de uma forma muito especial … única – e já tenho tido o prazer e o orgulho de excelentes apresentações –mas daquela vez encontrou as palavras certas, pois teve a sabedoria de exprimir em poucas palavras o que caracteriza o melhor de mim… de que não resisto a citar um trecho.



"Trabalho árduo e persistente, feito com paixão.
A fraternidade e a persistência foram as primeiras qualidades que conheci do Dr. Eduardo Raposo no final de 2002 pouco antes da apresentação a 30 de Novembro do meu segundo livro de poesia “ o meu Amor é Árabe”no Páteo Árabe na Casa do Alentejo em Lisboa de que era Vice-Presidente pelo Ceda-centro de estudos documentais do Alentejo, de que foi fundador e era e é [foi]Presidente.


Hoje posso dizer,
como De Gaulle ao receber as credenciais de um diplomata sírio
“ Conheço-vos as areias e os sonhos”


Eduardo Manuel da Conceição Raposo nasceu a 8 de Dezembro de 1962, dia em que nasceu e faleceu Florbela Espanca e dia de Nossa Senhora da Conceição, Padroeira de Portugal. Nasceu na Funcheira, concelho de Ourique, distrito de Beja.

O autor tinha assim 11 anos quando aconteceu 25 de Abril.
O berço alentejano deu-lhe para sempre a necessidade da liberdade desmedida, infinita mesmo, associada à planície e à lonjura do horizonte, uma liberdade natural, parca de bens matérias mas perfumada e apaixonada em que “só o sonho comanda a vida.”
Lugares parcos de palavras, em que só as necessárias são ditas, mas por isso mesmo as ditas são sentidas e com sentido. O Alentejano quando fala “não desvia a cabeça nem baixa nunca o seu olhar” palavras do Poeta Manuel Alegre em Alentejo e Ninguém."




Canto de Intervenção

Tempo em que a Canção foi arma
apontada à raiz do pensamento
Quando os Capitães avançaram
ao som de Grândola, Vila morena
As Gentes da rua se lhes juntaram
Com o cravo vermelho, a sua arma
e os canos das espingardas taparam
O ventre aberto a Catarina bastara!
…e as lágrimas de tantas mulheres!
sobre caixões regressados da guerra


Maria Lascas

20 de mar. de 2009

21 de Março - Dia Mundial da Poesia

"(...) dei por mim a tentar imaginar como seria (ou não seria...) a vida sem poesia e sem música... Por certo que a vida não seria vida, nem o mundo, tal como o vivemos, seria este mundo.
(...)"

"A poesia da terra"

José Alberto Alegria, arquitecto, Cônsul Honorário do Reino de Marrocos


"A música é meu arco, minha flecha, meu motor, meu combustível e minha solidão"


Elis Regina




Eu não sei se me salvo ou se me perco

ou se és tu que te perdes e me salvas

só sei que me redimo quando peco

e corpo a corpo ao céu vão nossas almas


"Sete Sonetos e Um Quarto"

Manuel Alegre

9 de mar. de 2009

8 de Março


BELA

Bela,
como na pedra fresca
da fonte, a água
abre um vasto relâmpago de espuma,
assim é o sorriso do teu rosto,
bela.

Bela,
de finas mãos e delicados pés
como um cavalinho de prata,
caminhando, flor do mundo,
assim te vejo,
Bela.

Bela,
como um ninho de cobre enrolado
na cabeça, um ninho
da cor do mel sombrio
onde o meu coração arde e repousa,
bela.

Bela,
não te cabem os olhos na cara,
não te cabem os olhos na terra.
há países, há rios
nos teus olhos,
a minha pátria está nos teus olhos,
eu caminho por eles,
eles dão luz ao mundo
por onde quer que eu vá,
bela.

Bela,
os teus seios são como dois pães feitos
de terra cereal e lua de ouro,
bela.

Bela,
a tua cintura
moldou-a o meu braço como um rio quando
passou mil anos por teu doce corpo,
bela.

Bela,
não há nada como as tuas coxas
talvez a terra guarde
em algum lugar oculto
a curva e o aroma do teu corpo,
talvez em algum lugar,
bela

Bela, minha bela,
a tua voz, a tua pele, as tuas unhas,
bela, minha bela,
o teu ser, a tua luz, a tua sombra,
bela,
tudo isso é meu, minha,
quando caminhas ou repousas,
quando cantas ou dormes,
quando sofres ou sonhas,
sempre,
quando estás perto ou longe,
sempre,
és minha, minha bela,
sempre.

(Os Versos do Capitão)

Pablo Neruda



25 de fev. de 2009

o caminho...





Na comunhão plena com a Natureza-Mãe que se regenera diariamente encontro o caminho... o caminho que percorro, degrau a degrau, lenta mas serenamente em busca da essência, em busca da Verdade e da perfeição, que embora inatíngiveis são a meta constante, diária, permanente...





cada vez mais "Todos os meus dias são um adeus" (Chateaubriand)




21 de fev. de 2009

20 de Fevereiro - Renascer


ESPERA-ME

Nas praias que são o rosto branco das amadas mortas
Deixarei que o teu nome se perca repetido

Mas espera-me:
Pois por mais longos que sejam os caminhos
Eu regresso.




Espero sempre por ti o dia inteiro,
Quando na praia sobe, de cinza e oiro,
O nevoeiro
E há em todas as coisas o agoiro
De uma fantástica vinda.






PRECE

Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.

Para ti eu criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.

Sophia

13 de fev. de 2009

Nos 90 anos de Mestre José Salgueiro ou a pureza da Terra


Mestre José
Salgueiro homenageado no Casa do Alentejo







Foi um dia inolvidável! Não há palavras que descrevam a pureza do momento!

No dia 7 de Fevereiro, sábado, a Casa do Alentejo foi palco de uma sentida homenagem ao Mestre José Salgueiro, natural e residente em Montemor-o-Novo. O homenageado, com a sua invulgar capacidade comunicação empolgou a assistência, onde, numa assistência constituída por pessoas do meio literário, artístico, musical, associativo e autárquico se viam pessoas oriundas de Montemor - a amiga Manuel Rosa, o autarca António Danado, os filhos e netos do Mestre Salgueiro e outros montemorenses -, de Évora - os amigos Teresa Cuco, poeta, e João Cágado, músico, para além de muitos alentejanos radicados na grande cidade como o encenador Hélder Costa, natural de Grândola – e colaborador na Revista Memória Alentejana - ou a poeta Rosa Dias, natural de Campo Maior, ou ainda os poetas Nogueira Pardal de Aljustrel, Maria Olivia Sampaio e Maria vitória Afonso, estas últimas do Círculo Nacional d'Arte e Poesia, ou ainda o dirigente do Ateneu Eduardo Cottez, médico.





A sessão iniciou-se com a interpretação de temas do Cancioneiro tradicional, a cargo do Grupo Coral Feminino “Brisas do Guadiana”, que estavam de visita à Casa e fizeram questão de participar na Homenagem. Depois prosseguiu com a apresentação do livro Relatos de uma Vida, poesia do homenageado. Usaram ainda da palavra os presidentes da Casa do Alentejo e do CEDA, respectivamente João Proença e Francisco Naia, o Vice-Presidente do Município de Montemor, António Danado e o responsável pelas edições Colibri, Fernando Mão de Ferro.
A apresentação do livro esteve a cargo de Eduardo M. Raposo, director da Revista Memória Alentejana e amigo do homenageado, que foi autor do prefácio – e de que deixamos o registo em anexo. Mestre José Salgueiro, antes de fazer uma sugestiva prelecção sobre os benefícios das plantas e de uma alimentação saudável que cativou e divertiu a assistência pela sua vivacidade e sentido de humor, fez questão de agradecer a cada um dos membros da mesa, com destaque para Eduardo M. Raposo, pelo empenho deste na publicação de mais este livro do Mestre Salgueiro e pela organização e divulgação desta homenagem.






No final Francisco Naia, acompanhado de José Carita e Ricardo Fonseca, interpretou temas do seu repertório e tradicionais alentejanos e… a festa prosseguiu com o Vinho Tinto de Honra, acompanhado de queijinhos e enchidos alentejanos, ao som dos versos quase a despique por Rosa Dias e Mestre José Salgueiro. Foi um dia inolvidável! Não há palavras para descrever a pureza do momento! …
Como sublinharam alguns participantes no final, ao darem os parabéns aos organizadores desta importante realização, que esteve a cargo do CEDA e mereceu o apoio do Município de Montemor-o-Novo, da Casa do Alentejo e das Edições Colibri.











O Mestre

O Mestre José Salgueiro é uma força da natureza. É-o pela sua capacidade inata de, com ela dialogar, capacidade desenvolvida ao longo de quase nove décadas em que soube “ouvir” e “beber” os ensinamentos
ancestrais da Mãe-Natureza e, que nos últimos 40 anos, a tempo inteiro, depois de abandonar a sua profissão de sapateiro, tem vindo a pôr em prática o que de melhor a Natureza nos sabe ofertar, quer através dos sabores divinos das suas ervas, quer enquanto alquimia de regeneração da Vida.










Mas a energia positiva que Mestre Salgueiro espalha em seu redor, reside muito numa prática saudável do que aprendeu a “ler” na Natureza, e que foi ao longo da vida apreendendo e desenvolvendo uma muito própria postura de preservação e respeito supremo pela Natureza, numa sábia co-habitação espacial com esta rica, diversificada e bela paisagem alentejana – que nos emociona e nos lava o olhar e a alma -, humanizada há milénios, num diálogo de tolerância e de respeito mútuo.






Nesta terra suave onde gosto de ir e de estar, onde gosto de ficar a contemplar o horizonte do cimo do seu Montemaior – concelho de onde o Mestre é natural, onde sempre viveu e vive – e do seu castelo, lugar mágico, de silêncio e reencontro. Terra que me encanta e apazigua, em comunhão plena e quase incestuosa com a Natureza, onde encontro pessoas muito especiais, amigos, patrícios do Mestre Salgueiro, praticantes exímios, também eles, deste diálogo permanente e apaixonado com a Mãe-Terra; e refiro-me ao Manuel Casa Branca que transporta para a tela o gesto indelével de coreografar o Montado e ao Alexandre Pirata e à sua paixão e prática de amante apaixonado das suas abelhinhas. Com eles já organizámos excelentes passeios campestres - o último dos quais com o Mestre Salgueiro - e certamente outros vão acontecer.

























Homem dos sete ofícios, Mestre Salgueiro, “na juventude foi jogador de bola, músico e mestre de orquestra. Mas a actividade era tanta que ficou doente. Hoje é campeão de damas a que dedica parte dos dias, estudando lances. Este seu hobbie levou-o a percorrer o país participando no mais diverso tipo de torneios. A poesia popular é outro dos seus passatempos, descrevendo-nos as dificuldades dos tempos antigos, aos animais ou as forças da natureza – como o seu rio Almansor - ou ainda às plantas. Também aqui arrecadou diversos prémios em jogos florais ou jogos diversos através «dessas palavras tão fortes que muitos vão combater».
Ardente inimigo do tabaco publicou artigos em jornais sobre os perigos do tabaco. Defensor duma alimentação equilibrada diz que «não comer carne é um disparate pois o organismo precisa e assimila todas as substâncias ingeridas. Mas a carne deve-se comer apenas duas ou três vezes por semana». O que deve fazer parte duma alimentação saudável «não deve faltar diariamente são as saladas” que podem e devem ser feitas à base duma grande diversidade de plantas, muitas delas ervas espontâneas. Ainda sobre a alimentação diz-nos que começa o dia “tomando sumo de cenoura com duas colheres de limão», realçando ser este o pequeno almoço com maior riqueza vitamínica”, escrevíamos em 2005 na Revista Tempo Livre.
Ainda sobre o seu anterior e muito divulgado livro Ervas, Usos e Saberes – Plantas medicinais no Alentejo e outros produtos naturais – de que já saíram três edições, - escrevíamos nesse mesmo ano na Revista Memória Alentejana (nºs 15/16 – 2005)
“Da subtileza dessas coisas, milenares e únicas e invencíveis e frágeis como o canto do rouxinol, das ervas nos fala o Mestre, José Salgueiro, octogenário, com doutoramentos vários feitos no saber ancestral da terra ardente, dos humanos e das plantas…”






Mas não é para falar dessa tão rica e plural diversidade feita de forma tão peculiar – que chegou até fazer desenhos nas paredes, um auto-retrato em tamanho natural, como nos recordava recentemente, qual pioneiro avant-la-letre da arte dos graffitis. Fui encarregado da tarefa de escrever o prefácio deste livro de poesia Relatos de uma vida – quase um diário de oito décadas tal a diversidade cronológica que encontramos neste trabalho, embora a sua passagem para o papel não ultrapasse as duas décadas. Mas falar do Mestre Salgueiro Poeta, poeta popular que é, implica falar do Homem no seu tempo e no seu espaço, o Homem no seu todo, porque o Poeta, a poesia nasceu nesse contexto e nesse caldo de cultura, sem as vivências, a postura e as opções humanas e humanistas de José Salgueiro não haveria lugar para o poeta… ou havendo, para outro que não este poeta, autor deste livro que está nas vossas mãos.

Mestre José Salgueiro tem o dom inexcedível da palavra. Poeta da palavra. Da força e do poder da palavra, marcante e perene na tradição milenar mediterrânica. Poeta da escrita. Na sua poesia, dita popular, de forte componente temática popular, feita de uma grande diversidade com estrutura do tipo tradicional, com rima aparelhada ou cruzada, onde predomina a quadra, mas onde encontramos ainda quintilhas, sextilhas, décimas e redondilhas menores e maiores – respectivamente com sete, oito, doze ou catorze versos. Poesia eivada de um ritmo sincopado, por vezes quase vertiginoso. De um ritmo ao sabor da Vida, numa luta corpo a corpo, de suor e sangue. Poesia de combate. Poesia de Intervenção. Poesia, antes de mais, primeiro que tudo. De Salgueiro se pode dizer, como disse da sua poesia Mahmud Darwich, o «poeta nacional da Palestina», “Primeiro a poesia é poesia, e depois é que é poesia de resistência”.
A poesia de José Salgueiro é feita com rigor, a um ritmo cadenciado de quem sabe o valor de cada palavra e dimensão espacial e o sabor do som de cada palavra, apreendido pela intuição criativa e pelo autodidactismo da Vida.
Com um agudo sentido social, feito de uma vida dura e árdua ao longo de quase todo o século XX, nas mais duras condições como nos testemunha na sua escrita, feita também de desinquietação permanente, sempre atento e revoltado com as actuais injustiças, tem a clara lucidez de não confundir o alhos com bugalhos, e não vir dizer das injustiças e das pulhices institucionais dos dias de hoje “agora é pior do que no tempo do Salazar”, antes pelo contrário, “ o Salazar que foi o que mais mal fez aos pobres deste País”, como escreve na Nota de Abertura.




Preocupado e atento às questões que afligem a humanidade, cada poema é uma história renascida, desde a sua mais tenra infância – o mais longo, com 39 quadras e 37 sextilhas – onde nos relata a vida difícil da sua numerosa família nos tempos da infância – ou os malteses, até aos caminhos de um futuro mais harmonioso com que o Mestre anseia e nos transmite no “Diálogo entre o homem velho e o homem novo”, passando pela denúncia da destruição que os senhores da guerra vêem fazendo em tantas partes do mundo ou ainda as injustiças sociais que permanecem.





Poesia onde também o lirismo está presente, filiando-se porventura na nossa poesia lírica. Poemas de Amor, como “O Beijo” ou “Análise aprofundada sobre o Amor”, ou os poemas dedicados à memória do pai e da mãe, quando eles partiram, deixam-nos perceber o Menino que subsiste, não o menino ancião que o ciclo da vida fragiliza, antes o Menino-Homem renascido.
José Salgueiro, Mestre da Vida, Mestre da Poesia… ou simplesmente… o Mestre!

2 de jan. de 2009

DEIXEM A PALESTINA EM PAZ - A CRENÇA NA POESIA



Nas derradeiras horas de 2007, manifestava neste espaço a minha indignação pelo brutal assassinato de Benazir Bhutto. Um ano antes, precisamente no mesmo dia referia a minha revolta pelo sumária execução do ditador Saddam Hussein, pelos homens de mão do senhor Bush, líder internacional do terrorismo de Estado. Neste início do novo ano, assistimos a mais um inqualificável acto terrorista do Estado de Israel: em menos de uma semana mataram 400 pessoas e feriram mais de 1000 palestinianos. A desculpa é defenderem Israel de roquettes artesanais lançados pelos radicais do Hamas. A MNE isrealita – provável candidata a PM pelo actual maior partido governamental, em visita a Sarkozi no 1º dia do ano, mostrou-se indisponível para o seu governo negociar, com o argumento de que estavam “a defender os valores do mundo livre" era "uma questão de valores”, sublinhou.

Que valores? Que arrogância falar em liberdade, falar em valores, - quando acabam de condenar à morte 400 pessoas, e quanto mais serão? – Será que regressámos à barbárie das cruzadas que massacraram Jerusalém no Século XII?, será que regressamos ao espírito da Inquisição? será que regressamos ao espírito nazi?, espírito de destruição, de arrogância, de crimes bárbaros contra a humanidade, onde os dirigentes israelitas parece que tanto se revêem – e curiosamente une o espectro político: direita, centro e a suposta esquerda trabalhista. Em memória de tantos milhares de vítimas de genocídios como estes – e o último onde tantos judeus pereceram, entre muitos outros cidadãos - esta senhora devia ter tento na língua. Devia tentar perceber melhor a história da civilização urbana iniciada na Crescente Fértil há quase 15 000 anos, que no Mediterrâneo foi preservada ao longo de milénios e nas últimas décadas está a ser destruída – através da guerra, do saque – pela civilização ocidental, esta civilização com apenas 1000 anos de existência e que tanta destruição e morte causou já.



Estamos perante o confronto entre a barbárie e a tolerância. E se o Hamas - que já matou quatro israelitas com os bombardeamentos – “ é terrorista, porque de facto é, pratica o terror", ,” então o exército israelita, que mata famílias inteiras, não é terrorista?” com a desculpa de querer liquidar elementos do Hamas, como sublinhava Ângelo Correia na Televisão


.
Este é o terror organizado de que fala Sophia no poema “Vemos, Ouvimos e Lemos”. Esperemos que esses senhores, responsáveis por tantas mortes, tanta destruição, tanto terror, sejam um dia julgados - a começar por Bush - e condenados como aconteceu com os vencidos senhores da guerra da Jugoslávia. Julgados em nome dos valores da Vida, da liberdade, da democracia!

Mas este não é um post de tristeza, de resignação. Pelo contrário! Trazer aqui temas que pela sua actualidade e continuidade envergonham os Homens e as Mulheres que se reclamam de Liberdade Livre – que era a postura do Zeca Afonso, como também já aqui referi - é apenas a constatação de que é preciso continuar a lutar, diariamente, também com a nossa luta interior, para sermos melhores, pois só assim estaremos capacitados, para nos combates diários, espalharmos a bondade e a beleza no mundo, espalharmos a alegria e a luz.
Recordo-vos aqui, como foi importante para o meu percurso interior a peregrinação espiritual que fiz há poucos meses a Agmâte, ao mausoléu de Almutâmide e de Itimade, onde depositei duas rosas vermelhas do Amor. Aí soube da minha crença, da minha profunda crença. Eu que não sou católico nem muçulmano e que anteriormente, nos momentos de maior sofrimento e desespero pensava que seria mais fácil se acreditasse, porque pensava que não acreditava, soube após Agmâte com toda a clareza, que sou crente, crente na Poesia, crente no Amor, crente na Vida.
Talvez, como dizia a um amigo recentemente: - a minha religião seja a Poesia.
É pois com a serenidade que me construí nos últimos anos que ergo o estandarte da Poesia face à destruição, o estandarte do Amor face ao medo, o estandarte da Vida face à morte e vos deixo - um excerto de - um poema de Amor!


Um poema, precisamente da autoria de Mahmud Darwich, considerado o Poeta Nacional da Palestina, um dos mais importantes poetas árabes contemporâneos, recentemente homenageado em Lisboa.


A Arte de Amar

"Com a taça engastada de azul,
espero-a
ao pé do tanque, das flores de madressilva e da noite
espero-a
com a paciência do cavalo selado para as veredas da
montanha,

espero-a
com o requinte do príncipe delicado e belo,
espero-a
com sete almofadas cheias de nuvens leves,
espero-a
com o fogo do incenso feminino omnipresente,
espero-a
com o perfume masculino do sândalo cobrindo o dorso
dos cavalos,
espero-a.
(…)"

15 de dez. de 2008

Monte das Estevas

Depois de uma correria pelas estradas de chuva, abro os vidros, os dois, e aspiro a plenos pulmões o cheiro terno do rio Degebe e.. depois de parar por breves olhando o Monte das Estevas, no sopé, como se fosse uma fábula, continuo até Barrancos, onde passo um serão memorável com os amigos autarcas - António Tereno, Isabel Sabino - o realizador Fernando Ruiz e os novos amigos António e Filmena.
Num sábado bem frio saboreio os pratinhos com minúsculos copinhos de vinho com que os velhos se ocupam antes do almoço, faço-me de novo à estrada, agora acompanhado com o meu amigo Ruiz, poeta da imagem e dos afectos, que me segue no seu velho carro. Quando inicio a subida da encosta do Monte das Estevas tenho à minha frente um arco-íris como nunca vi, esplendoroso, que me espera, e antes de chegar ao sopé, de repente entro naquelas cores divinas... ao chegar ao cimo recordo o texto poético de Amadeu Baptista



"Uma fábula põe-nos os dentes a arder, ardentemente levantamos uma haste de paz que é o princípio e o fim de tudo, nestas ruas cinzentas, indagador, sei que poderei aproximar-me do lobo sem receio, há algo que sara as feridas, é agora que o cariz dos gritos explode na excelência do amor, a paixão avança, a escuridão se extingue na clareira para que a tesoura não volte a espetar-se no céu das nossas bocas.
Atravesso o deserto e amo-te, amo-te, o rubi com asas dentro que trazes no coração é uma fada protegendo-me, com desmedida volúpia acaricio os teus ombros, o corvo foge a toda a velocidade, a noite é muito longa mas nós não dormiremos, por esses cabelos luminosos é que o futuro chega, nos conduz ao litoral, nos leva até à criança que há em nós, esperemos que a criatura justa volte a nascer, os pequenos sonhos se façam realidade, a salvação, desta vez, seja total e definitiva."



Antes de partir para S. Pedro do Corval deito um último olhar, emocionado, muito emocionado, às figueiras sagradas, que me contemplam com as suas copas ondeando ao vento frio e, na sua sabedoria ancestral, me sorriem com doçura...

8 de dez. de 2008

Florbela

Às 2 horas da madrugada do dia 8 de Dezembro de 1894 uma mulher de condição humilde, de seu nome Antónia da Conceição Lobo, dá à luz, na Rua do Angerino em Vila Viçosa, uma menina. É um lindo bebé – tão lindo que alguém afirma mesmo: «É uma flor!», ao que a mãe terá respondido: «Flor se chamará…»




«Sou uma céptica que crê em tudo, uma desiludida cheia de ilusões, uma revoltada que aceita, sorridente, todo o mal da vida, uma indiferente a transbordar de ternura. Grave e metódica até à mania, atenta a todas as subtilezas dum raciocínio claro e lúcido, não deixo no entanto, de ser uma espécie de D. Quixote fêmea a combater moinhos de vento, quimérica e fantástica, sempre enganada e sempre a pedir novas mentiras à vida, num dom de mim própria que não acaba, que não desfalece, que não descansa!»

dirá, numa carta, datada de 27 de Julho de 1930, ao seu amigo italiano Guido Batteli

"És tu! És tu! Sempre vieste, enfim!
Oiço de novo o riso dos teus passos!
És tu que eu vejo a estender-me os braços
Que Deus criou pra me abraçar a mim!

Tudo é divino e santo visto assim …
Foram-se os desalentos, os cansaços …
O mundo não é mundo: é um jardim!
Um céu aberto: longes, os espaços!

Prende-me toda, Amor, prende-me bem!
Que vês tu em redor? Não há mim!
A Terra? – Um astro morto que flutua …

Tudo o que é chama a arder, tudo o que sente.
Tudo o que é vida e vibra eternamente
É tu seres meu, Amor, e eu ser tua!"