12 de set. de 2010

O direito à Liberdade!... o direito à Beleza!...perante os (vários) fundamentalismos....




Poder

meu olfacto é teu odor delicioso
e o teu rosto o senhor dos olhos meus.
por seres minha, mesmo depois do adeus,
é que todos me chamam poderoso.


Almutâmide Ibne Abbade ( grande poeta nascido em Beja, em 1040, morreu prisioneiro em Agmâte. Nesta antiga capital de Marrocos existe um mausoléu onde é venerado pelos amantes da Poesia de todo o mundo)


Ontem, 11 de Setembro, um dia que em 1973 e em 2001 foi marcado por horríveis crimes contra a humanidade: em 1973, em Santiago do Chile, o golpe militar do general Pinochet contra o governo do socialista Salvador Allende, que então foi assassinado, a que se lhe seguiram muitos milhares de seus compatriotas, sumariamente fuzilados, torturados, perseguidos… tudo isto com o apoio do governo norte-americano; e o derrube das Torres Gémeas, em Nova Yorque. O ódio a falar mais alto; duas faces do fundamentalismo.


O texto que se segue, no essencial, publicamo-lo na última edição, do mensário Folha de Montemor:



Este poema, breve mas poderoso, fala-nos do poder do Amor, do encantamento, da Beleza, da irremediável sedução de que o Homem é tomado pela voluptuosa sensualidade, pela totalidade que antevemos no encontro perene de dois seres livres, libertos, sem freios, amarras ou ameias, caminhando lado a lado, irmanados pela Beleza, sublimes porque sabem o significa exacto da plenitude e dela não abdicam como bem supremo; a Liberdade plena, total, em todos os aspectos,.


Podem dizer que isto é apenas poesia e que a vida, a realidade, é outra coisa. Eu contraponho que a Vida não faria sentido – para mim não faz – para sermos apenas seres “formatados” destinados a uma “felicidadezinha podre”, acomodados ao cinzentismo dos dias vazios. Não, a Liberdade de viver, de procurar caminhos e experiências, da criação - que nos dá momentos de libertação mental, de enriquecimento e crescimento intelectual e possibilitam à comunidade momentos de exaltação da cidadania e da beleza da Vida. A Liberdade só deve ter limites no respeito pelo outro e na preservação da sua própria liberdade.


Esta breve reflexão vem a respeito de discursos e práticas xenófobas e securitárias que se iniciaram com Berlusconi e, por estes dias têm tido o seu ponto alto com a expulsão de indivíduos de etnia cigana, obrigados a regressar à Roménia e à Bulgária, ordenada por Nicolas Sarkozy - ele próprio originário de uma família de ascendência húngara. Se bem que tenhamos assistido no último fim de semana (4/9) a manifestações  onde terão participado largas dezenas de milhares de cidadãos franceses (em mais de 130 cidades) - e que aconteceram também no Porto e em Lisboa, todavia com participação diminuta. Todavia Sarkozy, e segundo as sondagens terá nestes políticas racistas e discriminatórias o apoio de 65% da população francesa. Até que ponto não é esta uma forma do Presidente francês desviar as atenções para graves alterações pretendidas na sua política social- onde tem a oposição de 70% dos franceses nas reformas do sistema de pensões – incluindo o aumento de idade de aposentação dos 60 para os 62 anos – em discussão no Parlamento francês.


Mas o que também está na ordem do dia é o debate sobre a intenção de interdir no espaço público o uso do véu integral islâmico – o niqab - curiosamente agendado para uma data que coincide com a efeméride terrorista do 11 de Setembro e o fim do Ramadão.


Segundo o Ministério do Interior francês o niqab é usado por “cerca de duas mil mulheres” em França, ou seja, três por cada cem mil habitantes, embora outras fontes citem um número ainda menor, de não mais de 600 mulheres. Noventa por cento dos casos recenseados pelo Ministério do Interior têm menos de 40 anos e um quarto são “novas convertidas”. As muçulmanas que cobrem totalmente o rosto vivem, sobretudo, nas grandes cidades e periferias de Paris, Lyon e Marselha, ainda segundo o mesmo estudo.


Num e interessante e exaustivo - da maior actualidade - trabalho saído na “Pública” (28.08.2010) , que foi capa deste suplemento do Público aos domingos intitulado “Este véu que nos separa”, da autoria de Pedro Rosa Mendes, cita-se o antropólogo e filósofo argelino Malek Chebel, tradutor francês do Corão, tarefa que o obrigou a aprofundar a semântica e a história dos versículos sagrados. Chebel é claro: “O Corão é toda a minha vida nos últimos dez anos e conheço o texto como conheço as minhas mãos. Posso dizer que a palavra burqa e a palavra niqab não aparecem em lado nenhum do livro uma única vez.”


Por seu lado o poeta tunisino Abdelwahab Meddeb acrescenta uma leitura metafísica e filosófica à polémica do niqab, depois de negar a origem árabe da palavra burqa, sublinha que o rosto humano e, de entre todos, o rosto feminino, “é um espelho de Deus”, pelo que a burqa ou o niqab, “ é um crime que Mata a face, barrando a acesso perpétuo ao outro” e “ O eclipse da face oculta a luz do rosto, onde se reconhece a epifania divina que inspirou o espírito e o coração do Islão”. Meddeb, noutra passagem refere “um versículo muito belo” em que um jogo de palavras semelhantes, se contrapõem em “homofonia” a palavra árabe que quer dizer “radioso pleno de luz” e a palavra para dizer “contemplando Deus”. O mesmo fonema “designa a luminosidade do rosto e o facto desse rosto olhar a Deus. Como se a luz de Deus resplandecesse nos rostos humanos de quem o olha. “


Meddeb recorre ao poeta e místico sufi do al-Andalus Ibn Arabi, que nos diz que “ o rosto humano torna-se o espelho onde se reflecte o rosto de Deus”, e como “Deus é belo, por isso os rostos perfeitos para reflectir o rosto divino são os rostos de maior beleza, que são os das mulheres e os dos efebos”.


E ainda para o pensamento deste muçulmano sufi , onde não há lugar para o monaquismo ou o celibato, “A relação corpo a corpo entre homem e mulher seria essencialmente vulgar se não existisse a constatação de que é no momento extremo do gozo feminino que aparece a maior epifania divina. Sob todos os pontos de vista, o rosto torna-se o lugar da teofania.”


Aliás, Malek Chebel recusa que a radicalização política no final do milénio, oferecida hoje como uma suposta alternativa à hegemonia ocidental, vá beber à tradição, até porque o niqab “não é uma obrigação divina, uma farid’a, nem uma disposição cultural, uma ibâda, mas uma Ada, ou costume, conforme lembrou a Universidade de Al-Azhar, no Cairo, a maior autoridade do mundo islâmico, que tomou posição contra o véu, que conforme o mufti do Egipto, Ali Juma, “Trata-se de um costume arábico pré-islâmico que o islão está em condições de dissolve.”


Como diz a conceituada jornalista e feminista muçulmana Mona Eltahawy, nascida no Egipto (1967) e radicada nos E. U. A: “Condeno a xenofobia da direita política, mas também a misoginia da direita muçulmana, cuja ideologia promove o niqab e a burqa. O véu integral não é um símbolo do islão como a direita política e a direita muçulmana alegam. O véu integral é apenas símbolo da direita muçulmana.”


Afinal as forças que instigam a xenofobia e o fundamentalismo acabam por ter muito coisa em comum. Que distância enorme do apogeu civilizacional que existia no al-Andalus e aqui no Garbe no período histórico em que se Almutâmide terá escrito o poema com que iniciei, quando imperava a harmonia, a tolerância e a coexistência pacífica entre os povos, as (três) religiões (monoteístas) as culturas em presença na Península Ibérica.


E, como diz o tradutor do Corão o véu integral “diz respeito a apenas 650 mulheres em França,na maior parte convertidas”, a quem Chebel atribui “excesso de zelo.”


Considera este filósofo do Islão que embora suprimir o véu lhe convenha este não é o método correcto.”Legislar é má ideia. (…) legisla-se por causa de 650 mulheres numa população de 64 milhões de pessoas.”, e propõe outro tipo de acções como uma campanha de pedagogia e de incitamento junto das mulheres para levantar o véu e explicar que o espaço público francês não lhe permite usar o véu integral”.


A diferença entre a tolerância e a arrogância, o espírito autoritário, policial… afinal para que servem os ensinamentos da História ?!…


Arrogância, poder pela força não rima com o poder do Amor, o poder da Beleza…..

Será que quase mil anos depois deste belo poema ver a luz do dia, o ser humano regrediu?

Não!  Acreditamos que não!...
 O Poder do Amor é, de todos, o maior poder!


O Amor é o Sol da Vida!


2 de set. de 2010

Mil Anos de Poesia...

Já se encontra disponível desde meados de Agosto e distribuída pelos 47 Concelhos Alentejanos, Bibliotecas Públicas e Municipais, Associações Culturais, Livrarias de referência e outras entidades a mais recente  edição da Revista Memória Alentejana. Capa e caderno principal sobre o Centenário da República, dá-nos conta  da realização do Colóquio "O Alentejo e a 1ª República" - com a participação de 37 oradores e movimentando um total de 73 participantes em: Beja - 24 e 25; Aljustrel e Mina de S. Domingos  - 26 de Setembro, Setúbal - 1 de Outubro e 4 de Outubro na Casa do Alentejo (Lisboa). Um realização conjunta do CEDA, Instituto Politécnico de Beja e Município de Beja.
Mas este é m ano de efemérides, senão vejamos: 100 anos de República; 45 anos de carreira do Mestre e génio da guitarra portuguesa António Chainho - em destaque; 35 anos do PREC - Período Revolucionário em Curso; 30 anos do projecto Vila-Museu de Mértola (ADPM e CAM) onde Cláudio Torres nos fala do percurso realizado.
Em pano de fundo, a Poesia, sempre!
O grande Poeta Almutâmide Ibne Abbade, nascido em Beja, completam-se no próximo mês de Dezembro,  a bonita data de 970 anos...

Entrevistas aos Presidentes do Município da Cidade da Planície e do Instituto Politécnico, respectivamente Jorge Pulido Valente e Vito Carioca e a Paulo Ribeiro, o novo cantautor da Planície. Em destaque ainda a biodiversidade - onde José Maria Pós-deMina nos fala na aposta nas energias renováveis -, o Alqueva, a arquitectura tradicional, as artes plásticas, o V Passeio Campestre em Monte Maior, as Artes Plásticas, o mobiliário alentejano, os moinhos de vento de Santiago do Cacém, 22 livros publicados recentemente, 4 discos, Festival de Teatro de Almada e outros eventos referentes ao Alentejo realizados na Margem Sul, Agendas Culturais, etc,etc....  em breve em edição on-line, até lá pode ser solicitada para o endereço: memorialentejana@gmail.com
Edição é apoiada, é justo referir: pelas entidades organizadoras do Colóquio e os Governos Civis de Beja e de Setúbal, Municípios de Montemor-o-Novo, Aljustrel, Águas Públicas do Alentejo, Somincor, IELT - FCSH/UNL, Associações de Municípios do Alentejo - AMBAAL, AMDE, CIMAA e ainda Município de Moura, ADPM e Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República (na divulgação).
Mas aqui fica em cheirinho, com o Editorial que assino:


100 Anos de República!



                                        Mil Anos de Poesia…


(…)


E sempre que um homem sonha
O mundo pula e avança
Como bola colorida
Por entre as mãos de uma criança”


                   António Gedeão, Pedra Filosofal (excerto)


Aproximo-me de Beja. Anoiteceu. Deixo-me guiar pela Torre do seu majestoso castelo para onde todos caminhos se dirigem.


Olho a cidade. Por mim perpassam mais de mil anos de história e… lembrei-me, cheio de alegria, do menino que nasceu em “Baja” e que, certamente se banhou nas águas do Odiana, e a quem a sua ama que o trouxe ao mundo lhe chamou Príncipe dos Poetas; tomou o nome de Almutâmide, o mais luminoso poeta de Beja de todos os tempos:  símbolo da cidade – poesia, capital da Poesia. Vinho e Poesia?! Cidade do Futuro! Calcorreio as velhas ruas estreitas e milenares, chego à Praça da República renovada e descanso às sombras das árvores de tília, frondosas. Ali, há 100 anos foi proclamada a República…


Depois de visitar a suave Biblioteca Municipal, o elegante Campus Universitário do Instituto Politécnico, com vista para a planície, percorro a estrada antiga até Aljustrel, o “Centro Republicano”, o Museu do Mineiro, a estátua de Brito Camacho, de seguida sigo até à Mina de S. Domingos, ao “Centro Republicano 5 Outubro”, à praia fluvial. Regresso a Mértola, lavo o olhar na sua beleza ancestral, no belo Odiana, visito a Casa Amarela e a ADPM, 30 anos depois do início do futuro…


Encaminho-me agora para o litoral e do cimo de um monte, ao som das velas dum gigante restaurado a “abraçar Santiago”; fico a imaginar as mágicas noites passadas por António Chainho, a tocar guitarra à lua no moinho do seu avô… Mestre Chainho e a sua guitarra e fogo e vento, 45 anos depois de começar a tocar na “Severa”.


De novo em Beja. Sento-me na esplanada do lago com o Paulo (Ribeiro) e o Zé Orta, refresco-me do vento suão e parto de novo. Caminho entre Évora e Beja, entre Beja e Évora e chego a outro belo lugar com o seu castelo de sonho no MonteMaior. Visito a Galeria “9Ocre”, saboreio as últimas telas do amigo Manuel Casa Branca, o “Celeiro das Artes” da Vina (Etelvina), as amoras na Ecopista, o mel e o licor do Alex, e ao anoitecer subo à esplanada do Castelo, bebo um ”belo tinto” e falo com a Manuela Rosa dos próximos projectos.


Dias depois estou em Setúbal, onde a República foi proclamada a 4 de Outubro: dia em que o CEDA comemora o seu 10º aniversário - da apresentação pública do projecto na Casa do Alentejo.


Regresso ao Sul, às casas de taipa construídas, à “Poesia da Terra”, ao meu Sul azul: Alentejano, Algarvio, Mediterrânico …arquitectura dos elementos primordiais, que o jovem João Caeiro resgatou do fundo da biodiversidade dos tempos…no México, no Gana…


Oiço ao longe uma voz…uma voz familiar…muito doce… é intercalada com um canto, uma canto muito bonito, como que vindo do fundo do âmago das profundezas da terra… mas é o Zeca Afonso a cantar um poema a Zélia?!!... oiço água a correr… será o mar? Maria/ Nascida no Monte…


… toca-me ao de leve, muito suavemente… uma suave, quase imperceptível carícia, com mil anos de ternura, no rosto… a voz tão doce – "tens uma voz tão doce meu Amor !..."- de há pouco acorda-me com um beijo. Sinto papoilas nos seus lábios.


Mil anos de Poesia. De Almutâmide e Itimad ao Zeca… a Poesia do PREC…


Abro os olhos e vejo o castelo de conto de fadas ao longe . Retribuo o beijo de mel … e continuo a ouvir o Zeca a cantar … Maria…


                                               eduardoepablo@gmail.com

22 de ago. de 2010

Roque no palácio azul...




Surpreende-me e emociona-me este frágil menino de oiro que sabe falar a linguagem do silêncio,como se na sua alegria esfuziante e arrebatadora de menino, habitasse a serenidade reflectida nos seus longos olhos mediterrânicos amendoados ao som de tâmaras do deserto.



Neste dia, especial, partilhamos um lugar secreto. O Roque visitou-me no meu palácio de jasmim. Mirou extasiado o meu mundo azul feito de mil livros de tantas latitudes e de toda a ternura do mundo no voo sereno dos pássaros de porcelana...


Sem dizer uma palavra começou por saborear o puf de pele da Marraquexe. ... e, no exterior, sentiu-se poderoso reflectindo o seu olhar doce no céu imenso...  com a cidade a seus pés e… o mar no horizonte..


Falámos a linguagem dos pássaros, trocámos afectos com o olhar de viajantes do vento que percorrem os caminhos de pássaros do Sul...

...momentos antes da partida tirou um disco.... Rui Veloso, Concerto Acústico... para quando regressar ao meu palácio azul... laranja... oásis onde nasce a flor perfumada de laranjeira...








O meu menino é d'oiro


É d'oiro fino


Não façam caso que é pequenino


O meu menino é d'oiro


D'oiro fagueiro


Hei-de levá-lo no meu veleiro.






Venham aves do céu


Pousar de mansinho


Por sobre os ombros do meu menino


Do meu menino, do meu menino


Venha comigo venham


Que eu não vou só


Levo o menino no meu trenó.






Quantos sonhos ligeiros


p'ra teu sossego


Menino avaro não tenhas medo


Onde fores no teu sonho


Quero ir contigo


Menino de oiro sou teu amigo






Venham altas montanhas


Ventos do mar


Que o meu menino


Nasceu p'r'amar


Venha comigo venham


Que eu não vou só


Levo o menino no meu trenó.






O meu menino é d'oiro


É d'oiro é de oiro fino ....






Venham altas montanhas


Ventos do mar ....


Zeca Afonso
Letra e música
Canção de embalar, Fado de Coimbra




14 de ago. de 2010

a Verdade!...

A VERDADE




tu és bonita.


tu és feita de sol.


eu amo-te.






este livro. passa um dedo pela página, sente o papel


como se sentisses a pele do meu corpo, o meu rosto.




este livro tem palavras. esquece as palavras por


momentos. o que temos para dizer não pode ser dito.




sente o peso deste livro. o peso da minha mão sobre


a tua. damos as mãos quando seguras este livro.




não me perguntes quem sou. não me perguntes nada.


eu não sei responder a todas as perguntas do mundo.




pousa os lábios sobre a página. pousa os lábios sobre


o papel. devagar, muito devagar. vamos beijar-nos.







a tua ausência é, em cada momento, a tua ausência.


não esqueço que os teus lábios existem longe de mim.


aqui há casas vazias. há casas desertas. há lugares.






mas eu lembro que o tempo é outra coisa, e tenho


tanta pena de perder um instante dos teus cabelos.






aqui não há palavras. há a tua ausência. há o medo sem os


teus lábios, sem os teus cabelos. fecho os olhos para te ver


e para não chorar.



A MULHER MAIS BONITA DO MUNDO






estás tão bonita hoje. Quando digo que nasceram


flores novas na terra do jardim, quero dizer


que estás bonita.






entro na casa, entro no quarto, abro o armário, abro


uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio


de ouro.






entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como


se tocasse a pele do teu pescoço.






há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.






estás tão bonita hoje.






os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.






estás dentro de algo que está dentro de todas as


coisas, a minha voz nomeia-te para descrever


a beleza.



José Luís Peixoto, A Casa, a Escuridão, Temas e Debates, Lx, 2002.

8 de ago. de 2010

Teatro do Amor e da morte!...

Há mais de sete anos, em finais de 2002, escrevi noutro espaço um breve texto sobre um exercício teatral acontecido na Casa Amarela, o resultado de um atelier de expressão dramática, curiosamente a partir de "Sonho de uma Noite de Verão" de Shakespeare. Intitulei o texto "Nasce uma Actriz".



No dia 30 de Julho assisto a um espectáculo (Casa do Povo de Corrios) em que estou perante a mesma menina, agora com 20 anos. A actriz transfigura-se numa Mulher madura, Leonor: marcada pelo sofrimento, pelo Amor, pela perca e pela morte.


Quase 60 minutos onde temos alguns momentos de verdadeiro Teatro. Onde a revelação de há quase 8 anos se confirma plenamente. Esta actriz dá-nos uma lição da Arte de representar, unanimemente referida pelo público. Afinal, do que escrevi então, não mudo uma vírgula. A actriz chama-se Sofia Raposo. .


A 3ª edição do meu livro Canto de Intervenção 1960-1974, apresentada no Casa da Música (Porto), 25 de Abril de 2007, dediquei-a a pessoas muito especiais para a minha Vida e para o meu caminho. Transcrevo este excerto:


"Quero dedicar à minha filha Sofia, linda como o Sol, que está a aprender a fazer da arte de representar uma forma muito bela de estar na Vida, que sabe que é preciso estar de pé com dignidade, que sabe que é preciso sonhar..."


Parabéns Sofiazinha! Persegue o teu sonho porque o sentido para a Vida está aí!






Voltando a 2010. Este espectáculo"Ironia da Razão",
tem encenação de Tiago Durão, que contracena com Sofia Raposo e com Rute Guerreiro. Tem produção plástica de Irina de Almeida, luminotecnia e sonoplastia de Cristina Rodrigues, Publicidade e marketing de Jéssica Costa e Figurinos de Maria Sécio.






Nesta tragédia Skakespeariana, "Irona da Razão" - como nos diz o jovem encenador com apenas 18 anos- "são retratadas as temáticas do amor, perda, desilusão, razão e morte. Evoca as grandes questões da existência humana com base nas grandes personagens shakespearianas. David ao interrogar-se sobre as suas questões existenciais perde Leonor, ficando num estado de loucura e contraditoriamente mais perto da razão."
A dramaturgia também é de sua autoria, pois é um texto resultante da fusão de obras tão diversas como por, "Hamlet" de William Shakespeare, "A loucura" de Mario Sá Carneiro, "Veronica Decide Morrer" de Paulo Coelho, o guião do Filme "Patch Adams" e no "ensaio sobre a Loucura" de Joaquim Nogueira.




O encenador deste novo projecto teatral, que já teve uma primeira experiência com o exercício teatral “a Miragem”, baseado em textos de William Shakespeare empreende uma busca da percepção de questões centrais da condição humana, busca curiosamente encetada por um tão jovem encenador, e com ele toda uma equipa, também muito jovem, mas muito esforçada.


Fazemos votos para que “limadas algumas arestas” técnicas e outras, este "Teatro Experimental da Casa do Povo de Corroios" trilhe os caminhos do verdadeiro Teatro, entre o riso e o choro, entre o Amor e a morte.


Parabéns aos jovens intervenientes, nomeadamente ao Tiago e especialmente à actriz revelação.


Bem Hajam!

31 de jul. de 2010

plenitude...


plenitude





Serenamente, tão serenamente
como a folha que cai da azinheira
no verão sem brisa, ao fim da tarde
ponho as mãos no teu rosto


chamas-me Plenitude!
não tenho mais que esse momento






Sol
perfume de laranjeira
e a abelha


a sombra do beijo
nas paredes de cal
Mértola, a sul




Amo-te




Amo-te!
leva escrito na janela
o comboio que percorre a campina
nem o Sol é tão poderoso!




insignificante o florir das mimosas
o voo das garças o cio dos alazões…






Paraíso



Na alquimia de cores, negras andorinhas dançavam
músicas do silêncio da terra




estou no Paraíso! Disseste
vestida de Sol na erva


a serpente?!
encantava pássaros nos salgueiros do rio Degebe










Desejo



Escreves amor em papel perfumado
no teclado


poesia de açucenas e vulcânicas lavas!


a terra greta a ânsia
sementes germinam a esperança


o corpo sabe a inutilidade das palavras!






A voz




A sua voz é água da fonte no estio
apetece-me saboreá-la na aurora
esperar o sol dentro dela… é mel!
néctar de flores… vazio a sua falta
escuto-a no melro, voo da gaivota
é brilho, cintila nas estrelas


não são palavras a sua voz
é afago dos olhos, a mão deslizante
a minha boca e a sua, o seu silêncio






Safira perdida






Safira, altares nus em chão de terra


anjos e pássaros partiram…
as abóbadas persistem
do sabugueiro e laranjeira perfumes


meu irmão! do vento da terra do sul


…agora amparam-me os sobreiros
tempo medido nos meus braços
em que tu não estás


e trago-te sempre comigo!
no cemitério só as cruzes de ferro
e montinhos de terra brava sem nome




Maria José Lascas Fernandes,  plenitude, 2ª edição, Ed. de autor, Porto, 2006.
(O poema “A voz”, como a Poeta refere, foi também publicado na Antologia
Neruda, Cem Anos Depois…Coord. Cristino Cortes, Universitária Editora, Lx, 2004)

28 de jul. de 2010

do Sul...


Meu Olhar do Sul




Tenho tido vários sítios na vida


                                                  mas só no Sul


meu corpo fareja o seu chão


                                            e desabrocha todas as suas folhas


e flores


            Meu olhar do Sul rima com água


e com o azul


dos cerros ao longe


                               mas também com o chão bravio


de estevas em flor


                            e com a terra de regadio


                                                                     eternamente noiva


coroada de perfume de flor de laranjeira


                                                                   Meu olhar do Sul


ama os montes mas também as planícies


                                                                 mesmo de chão


de mar


            Entre água e terra


                                          entre praia e serra


                                                                        entre barco e raiz


entre casa e asa


                         meu coração balança


                                                           como um papagaio de papel


Teresa Rita Lopes, O Sul dos Meus Sonhos, Gente Singular Editora, Olhão, 2009


23 de jul. de 2010

Saborear a Beleza da Poesia cantada...



Vieste ver-me
ao anoitecer.

Trazias Almutâmide
no olhar.
O menino triste sorriu;
e fez para ti um traço azul…
um traço de silêncio
de Beja
a Agmâte.

Vieste ver-me
ao anoitecer
e partiste comigo no teu olhar…


                                                             (in Antologia Os Dias do Amor, 2009)


21 de jul. de 2010

Paraíso...


Bendita sejas tu porque mulher
bendita sejas não porque dás
mas porque o teu prazer é o meu prazer
e só no teu prazer encontro paz.

Correrão muitos rios mas o teu
é o que me leva às águas do baptismo
contigo em cada orgasmo eu subo ao céu
noite a noite contigo eu vejo o abismo.

Corre o Jordão e os Tibre os rios correm
contigo em cada orgasmo eu me baptizo
contigo noite a noite a dor e o riso.

Nas curvas do teu corpo os diabos morrem
bendita sejas tu porque me levas
onde a luz do prazer nasce das trevas.



Eu não sei se me salvo ou se me perco
ou se és tu que te perdes e me salvas
só sei que me redimo quando peco
e corpo a corpo ao céu vão nossas almas.  

Manuel Alegre, Sete Sonetos e Um Quarto - Desenhos de João Cutileiro - Lx, Dom Quixote, 2005

12 de jul. de 2010

Plenamente!...

II


Dois hemisférios
os teus dois seios
Dois hemisférios
as tuas pálpebras
Dois hemisférios
os teus joelhos
Dois hemisférios
as tuas nádegas
Dois hemisférios
as tuas faces
uma de espuma
outra de mármore
Dois hemisférios
essas metades
que estão no fundo
da tua alma
uma de tudo
outra de nada

Ah vasto império
ingovernável
por tantos mundos
a desdobrar-se


X


A luz que vibre
sob o teu rosto


O mar que oscile
sob os teus ombros


O que me atinge
vem de mais longe


lá dos confins
em que te sonho


Vll


Horizonte
de zeros
nebulosos


todos os rostos
que não são
o teu


Um dia
sem ouvir
a tua voz


é como descobrir
que o mar
morreu
 



David Mourão-Ferreira
Os Ramos  Os Remos, Areal Editores, Porto, 1985

9 de jul. de 2010

António Chainho - a magia da Música ao vento


Começou a tocar guitarra aos 5 ou 6 anos e ao som do vento no moinho do seu avô em São Francisco da Serra:



“Lembro-me de levá-la e às vezes passar noites no moinho. Tinha uma irmã com mais um ano que eu. Ela também tocava guitarra. “


Este homem aparentemente frágil é o génio, o Mestre da Guitarra Portuguesa. A sua modéstia, simplicidade e simpatia estão a par com a sua genialidade.


Chama-se António Chainho e esteve recentemente no Auditório da FNAC de Almada a apresentar o seu mais recente CD LisGoa.


Fruto de um novo reencontro com a música de outras paragens – desde África ou o Brasil com Lisboa-Rio (2000) – nele pressentimos o reencontro com a Sitar, ou com a percussão executadas ou… saboreadas por músicos ocidentais, respectivamente Paulo Sousa e Raimund Engelhardt, um reencontro milenar de Portugal com o extremo oriental indo-europeu; afinal nós, pequeno país ponto de encontro, de chegada e de partida, de seres seduzidos irremediavelmente pelo Mar , miscigenando-nos, amando, inquietos, na busca terrivelmente permanente do infinito, da perfeição – que não existe – e o resultado …. é Almutâmide, é Camões, é Pessoa, é Florbela, é Sofia, é Alegre, é… Zeca Afonso, é Fausto, é Sérgio, é Veloso, é Janita, é Elis, é Caetano, é Chico, é…. esta Música suave e bela e sedutora que nos transporta pelo mar, na crista das ondas, é… o reencontro com a nossa genética ancestral.


E recordo o que Chainho contou sobre o que lhe aconteceu numa digressão recente pela China, quando um miúdo chorou de emoção por Chainho ter aceitado autografar o própia pauta… depois de aquele se ter apropriado dela. António Chainho soube recentemente que provavelmente descende de um viajante cines que se terá instalado na região de Sines há cerca de 500 anos.
                                            fotos de Pedro Roxo
LisGoa um disco luminoso que, para além dos músicos e instrumentos referidos é produzido pelo músico goês Carlos Barreto Xavier, no sintetizador, que também assina os arranjos nalguns temas, outros são de Jonathan Miler – responsável pela mistura e masterização -, na guitarra clássica o excelente músico Tiago Oliveira , as vozes sedutoras, suaves e bem timbradas de Isabel Noronha e da indiana Natasha Lewis e…, claro o Mestre António Chainho, o génio da Guitarra Portuguesa, que nos leva a percorrer o universo, a levitar… ao som do vento, como quando, porventura, em noites de luar ensolarado, passava o tempo tocando, no moinho do seu avô… em São Francisco da Serra, paredes meias com a serra de Grândola, talvez vislumbrando o Mar oceano ali tão perto, na extensa e doce costa Alentejana.