23 de jun. de 2011
O aniversário do Roque!...
No dia 21 de Junho, ao nascer do Sol e do dia que marca a chegada do novo Solstício de Verão no hemisfério Norte, o Roque, o meu querido Roque completava três anos, isto é, 1095 dias. Ao final da tarde desse dia com sabor mediterrânico - a temperatura terá ultrapassado os 30º graus centígrados - este dia muito especial era assinalado no Parque da Paz com o piquenique- de que partilho alguns imagens - com alguns familiares mais próximos e... o meu Roquinho estreava a sua primeira e colorida bicicleta - ainda mal chega com os pézinhos aos pedais - que nesse dia lhe ofereci. Mas, mais do que as coisas materiais - necessárias, claro - é o meu carinho, a minha ternura, o meu amor pleno por este serzinho doce, que tenho acompanhado o crescimento atentamente. Gosto como ele me "retribui", não pedindo nada em troca, gritando de alegria quando me vê e, às vezes brindando-me com estas ternas palavras: És tão querido, avô Eduado!
21 de jun. de 2011
"A Poesia da Terra em Monte Maior" ou a sensual beleza da partilha
Aconteceu em Montemor-o-Novo nos dias 27 e 28 de Maio de 2011. Foram as 1ªs Jornadas Literárias de Montemor-o-Novo e tiveram lugar na Biblioteca Municipal Almeida Faria. Foram as 1ºs Jornadas Literárias que aconteceram no Alentejo desde que há memória, pelo menos nas últimas décadas. Este acontecimento, não só por ser inovador foi um êxito a todos os níveis.
Por Montemor passaram um conjunto de escritores, poetas, diseurs, investigadores, músicos, bailarinos, editores e moderadores que ultrapassaram uma vintena.
Na sessão de abertura Carlos Pinto de Sá, Presidente do Município - entidade organizadora, destacou a importância da realização destas Jornadas, pois “apesar da grave crise económica, o Município continua a apostar fortemente na Cultura” e nós, enquanto co-responsáveis pela realização do evento, realçamos a presença de autores representativos de todo o Alentejo “com posturas estéticas, percursos e vivências geracionais diversas” e lemos uma mensagem de José Luís Peixoto, que lamentado estar ausente, terminava: “O Alentejo precisa disto!”
No primeiro dia iniciou com o painel intitulado:
O Alentejo na criação literária, que abriu com uma intervenção de fundo de João Mário Caldeira, autor de diversas obras de ficção mas também um conhecedor profundas das terras, das gentes e dos costumes do Alentejo, mais especificamente da Margem Esquerda do Guadiana, onde foi director da antiga Escola de Artes e Ofícios Tradicionais de Serpa e que publicou em 2000 um trabalho decisivo para a compreensão da identidade alentejana: Margem Esquerda do Guadiana. As gentes, a terra, os bichos. João Mário lançou algumas questões para o debate de onde se destaca:
1 – Se o Alentejo estimula a criação literária
2 - Se essa realidade favorece a qualidade literária
3 – Até que ponto é determinante a origem alentejana para estes escritores.
Estava dado o mote, para este painel, mas que transpareceu ao longo das jornadas. Depois seguiram-se intervenções de Joseia Matos-Mira, Henrique Matos e João Luís Nabo, tendo este último feito uma intervenção bem fundamentada sobre o tema em dabate, que foi moderado pelo amigo e editor Fernando Mão de Ferro.Após o recital, de Jorge Lino seguramente um dos melhores diseurs portugueses que nos trouxe poemas de Hugo Santos e Evocação aos peixes de Padre António Vieira, seguiu-se uma evocação a José Saramago, tendo como ponto de reflexão Levantado do Chão. Aqui tivemos excelentes intervenções como a de João Céu e Silva, que biografou José Saramago e nos trouxe a poética do jornalista que persegue a “história”, neste caso, por terras de Monte Maior. Ainda neste painel, moderado por Filipe Chinita, Jorge Vaz de Carvalho, Coordenador Científico de Estudos Artísticos da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica fez uma intervenção que primou pela excelência, terminando os trabalhos do primeiro dia, que findou com a passagem do filme José Pilar no Teatro Curvo Semedo.A Mulher na Poética Mediterrânica, abriu com Vítor Encarnação, de Ourique, um nome a ter um conta para o futuro das letras portuguesas, que nos trouxe a “encontro” da poética do escritor no universo feminino. Elisa Valério, que se lhe seguiu, poeta e investigadora, deu o contraponto da incursão da mulher no universo masculino: o côncavo e o convexo. António Murteira e Francisco do Ó Pacheco, antigo edil de Sines e antigo director do Diário do Alentejo, trouxeram experiências estéticas e de latitudes diversas, de Abril à experiência africana. Terminou o painel com Elisa Valério sugerindo a realização das segundas jornadas, tal o nível de envolvimento e qualidade atingido.
Jorge Lino
Jorge Vaz de Carvalho, Filipe Chinita e João Céu e Silva
Vitor Guita introduz a leitura de textos na Evocação de João Alface
Ao final da manhã Vitor Guita evocou o escritor montemorense João Alface, numa sala apinhada onde se ouviram textos do homenageado por vozes femininas.
Margarida Morgado, André Gago, Eduardo M. Raposo, Manuel Parreira da Silva e Teresa Cuco
O painel da tarde abriu com uma intervenção de actor e escritor André Gago, que partindo do seu romance Rio Homem, falou-nos d ' O Amor, como elemento catalisador da Poesia Lírica desde Camões até à actualidade. A sua intervenção, neste painel que moderamos teve ainda intervenções entusiastas, emotivas de Margarida Morgado, Teresa Cuco e o olhar académico da professora e investigadora Manuela Parreira da Silva.
Manuel Neto dos Santos, Adel Sidarus e José OrtaO derradeiro painel , sobre A poética do Vinho e a sensualidade no Mundo Mediterrânico contou Adel Sidarus, egipcío copta e académico jubilado da Univeridade de Évora, que nos falou do vinho no mundo mediterrânico e Manuel Neto dos Santos, poeta e investigador autodidacta de Alcantarilha (Silves) que se tem vindo a especializar na obra dos poetas luso-árabes como Almutâmide e Ibne Amar. Foi moderador José Orta, docente do Instituto Politécnico de Beja.
Paulo Ribeiro e E. Pablo durante o recital "O Amor e o Vinho"
As 1ªs Jornadas Literárias de Montemor-o-Novo terminaram com um emotivo recital de Música, Poesia e Dança, sobre O Amor e o Vinho, por Paulo Ribeiro, E. Pablo e Elsa Shams, ontem estiveram em destaque Manuel da Fonseca – que foi simbolicamente evocado, Martinho Marques, Paulo Ribeiro, Maria Lascas, Almutâmide, Manuel Alegre, Natália Correia, Florbela Espanca, José Luís Peixoto e Pablo Neruda.
Elsa Shams e E. Pablo ao som de Almutâmide
Quando o Sol se preparava para encontrar a Lua nos campos de Monte Maior, participantes, oradores e organizadores confraternizavam no pátio da Biblioteca, saboreando petiscos mediterrânicos com vinho tinto.
José Orta no convívio
Estas Jornadas, organizadas pelo Município de Montemor-o-Novo e que tiveram uma muito entusiástica adesão do público – de referir também a excelência dos debates – constituiram um marco e provavelmente um inicio para a divulgação e valorização das Letras Portuguesas feitas por Alentejanos e não só, a tal ponto que houve quem comparasse a importância inovadora deste evento com a instalação em Montemor do “Espaço do Tempo”, que nesse dia comemorava o seu 10º aniversário.
A Poesia da Terra em Monte Maior contou ainda com mostras de livros dos autores presentes e sessões de autógrafos de André Gago, Vítor Encarnação e Manuel Neto dos Santos.
(O texto transcrito corresponde, no essencial, à crónica mensal "À soleira da porta", publicada na edição de Junho do Jornal Folha de Montemor).
e o poema com que terminamos o recital
Credo
creio nos anjos que andam pelo mundo
creio na deusa com olhos de diamante
creio em amores lunares com piano ao fundo
creio nas lendas nas fadas nos atlantes
creio num engenho que falta mais fecundo
de harmonizar as partes mais dissonantes
creio que tudo é eterno num segundo
creio num céu futuro que houve dantes
creio nos deuses de um astral mais puro
na flor humilde que se encosta ao muro
creio na carne que enfeitiça o além
creio no incrível nas coisas assombrosas
na ocupação do mundo pelas rosas
creio que o amor tem asas de oiro amén
Natália Correia
16 de jun. de 2011
Passeio campestre ... no mês das rosas!...
Nesta longa caminhada solar, neste caminhar para a manhã clara, neste percurso para o dia, luminoso e pleno, de repente percebemos que a ausência já vai longa, Maio, o mês das rosas ficou para trás e já estamos em meados de Junho. Maio passou num ápice; no dia 14, de que hoje vos damos conta aconteceu o VI Passeio Campestre, a 20 e 21 estivemos no Festival Islâmico de Mértola, respectivamente com o Colóquio "Almutâmide e o contexto literário do Garbe al-Andalus (2ª metade do séc. XI) em parceria com o Prof. Adel Sidarus na Feira do Livro e com o espectáculo "Festa Almutâmide da Poesia - Almutâmide, o Príncipe dos Poetas. De beja a Agmat" com o Eduardo Ramos, Rui Afonso, Elsa Shams e António Dias da Silva, no Teatro Marques Duque. A 27 e 28 de Maio estivemos novamente em Montemor, na organização das 1ªs Jornadas Literárias da bela cidade Alentejana: "A Poesia da terra em Monte Maior". No próximo dia 18 de Junho estamos no Auditório da Junta de Freguesia do Feijó, Almada, a partir das 10:15m a apresentar a próxima edição - nº duplo 29/30 da Revista Memória Alentejana, no âmbito de um Colóquio onde vão estar em destaque: "A Água enquanto Direito Humano" e a "Etnomusicologia e o Cante". É nossa intenção ao longo dos próximos dias deixarmos aqui informação sobre estas actividades.
Mas, apesar desta ausência longa de postagens, congratulamo-nos com as mensagens de antigos amigos (as) e a chegada de novos. A todos, Bem Hajam!
VI Passeio Campestre
Pela Ribeira de S. Cristóvão
Entre as Ervas Medicinais, o Moinho, a Moagem e o Cromeleque do Tojal
Com a participação de cerca de meia centena de pessoas, realizou-se no dia 14 de Maio a sexta edição do já tradicional Passeio Campestre, uma feliz conjugação de esforços do CEDA e da MontemorMel, que desde 2006 já possibilitou a algumas centenas de pessoas, montemorenses e forasteiros, mas todos e todas, amantes da Mãe-natureza e da fraterna comunhão com a Terra e a ancestral paisagem humanizada nos suaves e doces campos, dos cursos de água, apiários, melarias, moinhos de água e de vento, fabricas de cortiça, fornos de cal, menires, cromeleques, as ervas medicinais e a beleza dos suaves campos do concelho de Montemor Maior, onde seres humanos, animais e plantas coexistem em harmonia há milhares de anos

Desta vez rumamos até S. Cristóvão e depois de uma visita ao menir e ao cromoleque do Tojal, guiada pelo arqueológo Mário Carvalho (da Ebora M egalithica) iniciámos um percurso junto à ribeira de S. Cristóvão que nos levou ao Moinho de Água de Henrique Gascon, recentemente recuperado, respeitando a traça original, actualmente a servir de habitação de férias e que este pretende pôr a funcionar em breve. Este referiu-nos como é auto-suficiente usando a água da nascente e a energia solar e como se delicia com o silêncio com cântico dos pássaros e o correr da água da ribeira. Foi precisamente junto à minúscula praia fluvial que nos deleitámos à sombra de uma enorme árvore e partilhando fruta, pão, vinho ou os famosos licores de mirtilo e poejo, o bolo com frutos secos, os peixinhos da horta da Ti’ Estina – uma presença já assídua nestes passeios – ou o bolo de mel da Nina Pirata, fizemos deste momento um especial momento de amizade e partilha.
Quem estava “com a corda toda” era o Mestre José Salgueiro, que não obstante as temperaturas superiores a 30º que convidavam a uma retemperadora sesta a que alguns não resistiram, Zé Salgueiro, com os seus 92 anos intensamente vividos, não se cansava de referir os benefícios das diversas plantas que conhece melhor que as palmas das suas mãos e que combatem a doença, preservando até a longevidade, como ele é exemplo paradigmático, que para além de alguma surdez, está activo em todo o seu potencial.
Depois de uma visita à Moagem, agora inactiva, que foi guiada pela proprietária Sisbela Carvalho, o passeio terminou no referido restaurante com um lanche tradicional patrocinado pela Junta de Freguesia local, onde esteve presente o respectivo presidente António Fitas, que mostrou o seu apreço por iniciativas como estas que praticam a valorização do património natural e humanizado do Alentejo, neste caso concreto do concelho de Monte Maior. Uma palavra também ao Município local que ajudou a divulgação e inscrição através do Posto de Turismo, assim como na feitura do flyer de divulgação, que mais uma vez apresentou uma excelente qualidade gráfica, nomeadamente com a escolha de belas fotografias. Ao responsával gráfico do trabalho, António Pedro, os nossos reiterados parabéns. Por parte da organização, de que assumimos conjuntamente com o Alex Pirata, para o ano haverá um novo passeio… pelo menos tão bom como este… e se for melhor… melhor será.
Ainda parece que estou a ouvir a voz do Mestre Salgueiro…
Fotos de Manuela Rosa e Eduardo M. Raposo
Mas, apesar desta ausência longa de postagens, congratulamo-nos com as mensagens de antigos amigos (as) e a chegada de novos. A todos, Bem Hajam!
VI Passeio Campestre
Pela Ribeira de S. Cristóvão
Entre as Ervas Medicinais, o Moinho, a Moagem e o Cromeleque do Tojal
Com a participação de cerca de meia centena de pessoas, realizou-se no dia 14 de Maio a sexta edição do já tradicional Passeio Campestre, uma feliz conjugação de esforços do CEDA e da MontemorMel, que desde 2006 já possibilitou a algumas centenas de pessoas, montemorenses e forasteiros, mas todos e todas, amantes da Mãe-natureza e da fraterna comunhão com a Terra e a ancestral paisagem humanizada nos suaves e doces campos, dos cursos de água, apiários, melarias, moinhos de água e de vento, fabricas de cortiça, fornos de cal, menires, cromeleques, as ervas medicinais e a beleza dos suaves campos do concelho de Montemor Maior, onde seres humanos, animais e plantas coexistem em harmonia há milhares de anos
Desta vez rumamos até S. Cristóvão e depois de uma visita ao menir e ao cromoleque do Tojal, guiada pelo arqueológo Mário Carvalho (da Ebora M egalithica) iniciámos um percurso junto à ribeira de S. Cristóvão que nos levou ao Moinho de Água de Henrique Gascon, recentemente recuperado, respeitando a traça original, actualmente a servir de habitação de férias e que este pretende pôr a funcionar em breve. Este referiu-nos como é auto-suficiente usando a água da nascente e a energia solar e como se delicia com o silêncio com cântico dos pássaros e o correr da água da ribeira. Foi precisamente junto à minúscula praia fluvial que nos deleitámos à sombra de uma enorme árvore e partilhando fruta, pão, vinho ou os famosos licores de mirtilo e poejo, o bolo com frutos secos, os peixinhos da horta da Ti’ Estina – uma presença já assídua nestes passeios – ou o bolo de mel da Nina Pirata, fizemos deste momento um especial momento de amizade e partilha.
Quem estava “com a corda toda” era o Mestre José Salgueiro, que não obstante as temperaturas superiores a 30º que convidavam a uma retemperadora sesta a que alguns não resistiram, Zé Salgueiro, com os seus 92 anos intensamente vividos, não se cansava de referir os benefícios das diversas plantas que conhece melhor que as palmas das suas mãos e que combatem a doença, preservando até a longevidade, como ele é exemplo paradigmático, que para além de alguma surdez, está activo em todo o seu potencial.
Como falou a tarde inteira, focou os mais diferentes assuntos, nomeadamente a capacidade de algumas pessoas “eleitas” para assimilarem e fazerem uso dos sábios poderes da natureza, referindo-se mais especificamente ao famoso curandeiro Chico Vurtuoso, que ele conheceu desde miúdo, avô da amiga Manuela Rosa, outra grande amante da natureza – que precisamente nesta edição inicia uma crónica sobre ervas medicinais e de um texto exactamente sobre o Mestre Salgueiro, e que é autora de algumas das fotos desta “peça”. A Manuela Rosa estava nas “sete quintas” a fotografar borboletas e outros insectos e flores que vão certamente embelezar o suave blogue “fluir da terra”, de onde retiramos a frase e o poema que surge no programa para este passeio:
Incansável estava também o nosso companheiro da organização destes passeios, o Amigo e apicultor Alex Pirata que resolveu fazer umas acrobacias nas represas da ribeira a montante do Moinho do Conde e… que demonstrou excepcionais dotes para equilibrista. Também quem deu nas vistas e lhe foi solicitado discurso, no lanche realizado no Restaurante “O Chouriço” foi o Amigo Jesus, natural de Saragoça e companheira da AmigaVina (Etelvina Santos), que mantém viva a tradição da pintura no mobiliário tradicional alentejano e que iniciou na edição anterior uma crónica nestes páginas sobre a temática referida.Depois de uma visita à Moagem, agora inactiva, que foi guiada pela proprietária Sisbela Carvalho, o passeio terminou no referido restaurante com um lanche tradicional patrocinado pela Junta de Freguesia local, onde esteve presente o respectivo presidente António Fitas, que mostrou o seu apreço por iniciativas como estas que praticam a valorização do património natural e humanizado do Alentejo, neste caso concreto do concelho de Monte Maior. Uma palavra também ao Município local que ajudou a divulgação e inscrição através do Posto de Turismo, assim como na feitura do flyer de divulgação, que mais uma vez apresentou uma excelente qualidade gráfica, nomeadamente com a escolha de belas fotografias. Ao responsával gráfico do trabalho, António Pedro, os nossos reiterados parabéns. Por parte da organização, de que assumimos conjuntamente com o Alex Pirata, para o ano haverá um novo passeio… pelo menos tão bom como este… e se for melhor… melhor será.
Ainda parece que estou a ouvir a voz do Mestre Salgueiro…
Fotos de Manuela Rosa e Eduardo M. Raposo
5 de mai. de 2011
"Alentejo Terra da cor dos olhos de quem olha! "
com a devida vénia, transcrevemos do blogue fluirdaterra, esta bela frase e o mágico poema de Miguel Torga "Alentejo", que adoptámos para o programa do VI Passeio Campestre, que este ano realizamos em S. Cristóvão, a 14 de Maio, como já é tradição, no Concelho de Montemor-o-Novo. A frase e o poema aqui destacamos:
“Espreitei a flor do jasmim quando a luz do Sol já serenava. O céu tinha a voz dos pássaros. O perfume das flores ali estava, à espera de pousar na mão aberta.”
(in fluirdaterra.blogspot.com)
Alentejo
A luz que te ilumina,
Terra da cor dos olhos de quem olha!
A paz que se adivinha
Na tua solidão
Que nenhuma mesquinha
Condição
Pode compreender e povoar!
O mistério da tua imensidão
Onde o tempo caminha
Sem chegar!...
Miguel Torga
(in fluirdaterra.blogspot.com)

“Espreitei a flor do jasmim quando a luz do Sol já serenava. O céu tinha a voz dos pássaros. O perfume das flores ali estava, à espera de pousar na mão aberta.”
(in fluirdaterra.blogspot.com)
Alentejo
A luz que te ilumina,
Terra da cor dos olhos de quem olha!
A paz que se adivinha
Na tua solidão
Que nenhuma mesquinha
Condição
Pode compreender e povoar!
O mistério da tua imensidão
Onde o tempo caminha
Sem chegar!...
Miguel Torga
(in fluirdaterra.blogspot.com)
3 de mai. de 2011
o "25 de Abril", a Liberdade e o direito a namorar e a beijar...
este ano comemorei o “25 de Abril” de diversas formas:
Quadro 1:
Enquanto no Alentejo, no rescaldo do dia de Páscoa - fraternalmente passada em família, porque a tradição ou o costume assim aconselha – ia-se ao campo comer o borrego, eu saboreava o mar salgado, o mar imenso, entre a areia, o Sol e o sal, deslizando em breves mas muito envolventes e apaziguadores “percursos” por entre a forte rebentação...
Quadro 2Ao anoitecer ainda com o sabor do sal na pele, ainda sentindo esse saborear do mar em mim entrei num cinema e vi um filme acabado de estrear. “48”, ou como se lê no “ípsilon”- provavelmente o melhor suplemento publicado a imprensa portuguesa em título: “Há vidas inteiras que contam a história do país e em caixa: “48 anos de ditadura, 37 de democracia e um filme - ´48´.de Susana de Sousa Dias – sobre a tortura durante o Estado Novo, feito a partir das fotografias do cadastro da PIDE…” (Susana Moreira Marques) ou como refere na crítica Luís Miguel Oliveira: “Cansados de ler os proverbiais ‘colunistas de direita’ semana sim semana não a lembrarem que nasceram depois do 25 de Abril como se isso os desimplicasse de alguma coisa, ‘48’ é o filme da implicação absoluta, independentemente da data de nascimento. E fá-la (ou fala-a, sem a ‘dizer’) apenas através de um minucioso trabalho sobre as suas formas e os seus materiais.(…)”
Um filme pungente, onde alguns presos políticos comentam as (suas) imagens dos arquivos da PIDE, polícia política do fascismo que os humilhou, os torturou física e psicologicamente -, num exercício que sentimos doloroso, que por vezes lhes deixam a voz embargada e onde também há o choro como acontece com Álvaro Pato, o mais novo preso, preso em 1973. Este conta que um dia, quando tinha 13 anos e estava a brincar com outros miúdos na rua, foi abordado por uma desconhecida que o chamou, disse-lhe o nome do avô e perguntou-lhe se ele o conhecia; depois disse-lhe que era a sua mãe, prisioneira política tal como o pai e antes a viverem na clandestinidade e, de quem ele nem sequer tinha uma fotografia.
Para Álvaro Pato é mais difícil falar sobre a infância e a família do que sobre a tortura. “A dor da pancadaria deixa de se sentir. A outra não”. Neste filme “passam” fotografias dos arquivos da PIDE e houve-se a voz, de entre outros, Conceição Matos, Manuel Martins Pedro, Adelino Pereira da Silva e sua mulher presos na mesma altura, ou entre outros, Maria Alice Diniz Parente Capela, Domingos Abrantes, António Gervásio ou o moçambicano Matias Mboa ou um opositor angolano que conta que na prisão onde esteve em Luanda, espetavam pregos na cabeça dos presos e mandavam-nos embora, que davam uns passos e caíam mortos.

Conceição Matos
Na sala de projecção estavam três pessoas no total. Uma saiu ao intervalo…. Afinal porquê ver um filme difícil, duro num dia suave de descanso, feriado nacional?… mas no final fiquei a pensar: como era possível num país tão bonito, tão suave e tão sereno como o que há pouco saboreei no mar, como era possível acontecerem horrores como estes?
Neste nosso tempo em que o capitalismo selvagem nos tem vindo a impor o consumismo exacerbado de produtos supérfulos e desnecessários para a Felicidade, nos tem vindo a impor cada vez mais o fanatismo do futebol – será que é um saudável acto desportivo saber a marca das cuecas do Ronaldo e com quem este dormiu no dia X ? – e tudo isto em troca do quê, em troca de um vazio de ideias e de ideais, vazio que predomina de uma forma quase totalitária. E, neste orgia de vazio de valores, de ausência da procura da Beleza, da Beleza da Vida, da comunhão e do respeito pela natureza em que os mais velhos esquecem ou não querem recordar como era dantes e os mais novos, afogados nos telemóveis de última geração, não obstante serem muitas vezes analfabetos funcionais, afogados no vazio dos shots e na música (?) ensurdecedora e a metro e quase sempre medíocre não conhecem nem querem conhecer porque isso é para velhos. Claro, é que eles não sabem que hoje têm LIBERDADE porque houve uns jovens - que hoje são velhos ou já morreram – que por terem ideias e ideais foram presos, espancados, humilhados, torturados – as horríveis torturas da estátua, do sono – e até mortos.
Quadro 3Crato, Biblioteca Municipal, dia 29 de Maio.
“A LIBERDADE nunca é demais, não é mensurável, existe ou não, é plena, é total e pressupõe desde logo o respeito pelo outro” dizia João Andrade da Silva, um dos Capitães de Abril, que em Vendas Novas, na noite de 24 para 25 de Abril tomou de assalto o quartel, chefiou uma coluna que, sem ainda saber que o golpe ía resultar, vieram estacionar no Cristo-Rei com o objectivo de dar cobertura às tropas do Salgueiro Maia do Terreiro do Paço que estavam desguarnecidas pelo flanco do rio Tejo caso os barcos da Marinha ía estacionados se mantivessem fiéis à ditadura, o que felizmente não aconteceu. O João (Andrade da Silva) tinha então 25 anos.
E disse mais. Que quando estava no liceu do Funchal recorda-se como era proibido namorar, beijar, no espaço de 300 metros em volta da escola porque era considerado um atentado aos bons costumes e quem fosse apanhado [nesse natural prática de Beleza e de exaltação dos sentidos] era sancionado disciplinarmente. O coronel Andrade da Silva falava para jovens dos 9º e 10º anos da Escola Secundária do Crato na Mesa-Redonda “25 de Abril – Cantar a Liberdade no Alentejo”, que moderamos, onde também participaram o antigo dirigente da Reforma Agrária de Foros de Vale Figueira – Montemor-o-Novo, Custódio Gingão e o cantautor, músico e compositor Francisco Ceia, , no âmbito da Exposição então inaugurada na Biblioteca do Crato “PREC Cantar a Revolução no Alentejo.
Terminámos e terminamos com uma mensagem de optimismo e de esperança, de nque é possível viver em cada momento da História, por mais sombrio que pareça, da necessidade de um regresso à Terra – entendida como Mãe-nartureza - mas também que esta geração, (ou pelo menos uma parte dela mais informada) é a mais preparada cientificamente, desde sempre, que depois de estudar fique na sua Terra, participe e desenvolva a sua vila, a sua cidade e a sua região e não abale para as grandes cidades ou para o estrangeiro (Custódio Gingão que também foi emigrante) e que não permite que lhe tirem a LIBERDADE, porque as mudanças, as revoluções (ou a defesa delas e da dignidade) e feita por jovens, como aconteceu em Portugal, como tem estado a aconteceu nos países árabes “nós, os mais velhos, estamos solidários, acompanhamos, mas são vocês, os jovens é que são os protagonistas, vocês é que fazem”. (Andrade da Silva)
22 de abr. de 2011
AS VOZES DA NATUREZA ou Urbano, o Homem generoso e sábio apaixonado pelo irresístivel universo feminino...
Depois de uma ausência que se prolongou, regresso com
A transparência do orvalho gemia no meu esquecimento de mim, tornava-me todo eu atenção ao saltitar das rãs amanhecendo na clara alegria do tanque grande.
O meu sangue cantava na ondulação das folhas da figueira. Agora estou nascendo a toda a volta de mim no riso verde das searas, na brisa que se quebra contra a rude atalaia, sobranceira ao rio com o seu açude e o seu moinho árabe, e sacode as franjas do silêncio nos altos choupos onde as cegonhas fazem ninho, nos pegos de eu nadar quando a Páscoa aquece as águas.
E ouço os meus segredos mais secretos no gemer das oliveiras e chaparros, meus tão íntimos parentes. E a ternura das sombras estende-se, para lá do rio e das suas narcejas, pelos ermos da Deveza de São Brás, até ao Guadiana.
A frescura do silêncio cai um instante sobre as lavradas e as folhas onde o meu ser se recria.
Comecei muito cedo a ouvi-las, as vozes da natureza.
Conheço-as desde que tenho memória de mim. Depois houve a doença, que me impedia de sair do «monte» e, quando melhorei um pouco, conseguiram que eu fizesse a primeira comunhão, mas nunca acreditei naquele inferno que me pintavam e continuei a fugir de casa e embriagar-me de luz, a correr ao lado dos rebanhos de vacas e ovelhas nesse meu regresso à natureza, de que me sentia pertença.
Foram o azul profundo das noites estreladas e o que o vento e as nuvens diziam aos meus ouvidos que fizeram nascer em mim palavras que depois naturalmente começaram a escrever-se.
Da pobreza e do sofrimento dos trabalhadores que me rodeavam só mais tarde me apercebi e senti a necessidade de lhes dar voz por entre as vozes da natureza e pela estrela da vida fui andando com eles no pensamento e nos actos.
Nas ruas de Lisboa e de outras cidades onde não entra o sol de Inverno, tapado por altos edifícios, experimentei a saudade profunda dos descampados alentejanos, das vozes do rio e da tristeza dos homens, dos seus cantares. Levei-os comigo para França e para o mundo, para as aulas que dei e até para as prisões onde os meus ossos enregelaram.
O livro é palavra de combate, mesmo quando não parece sê-lo, se apenas nos mostra os homens nas suas fainas e penas.
Assim continuarei sempre a escutar as vozes da natureza e a dar delas notícia.
Urbano, foto recente
Este é, certamente o mais autobiográfico de todos os contos nesta “luminosa viagem pelos corredores secretos da vida” deste belo Os Terraços de Junho contos e sonhos acabado de sair. Como refere na contracapa “Quase todos estes contos se caracterizam pelo insólito, pelo mágico, pelo surpreendente. Pairam entre o real e o irreal numa fascinante contradança de amor, aventura e desespero. E, contudo, o social nunca é esquecido. Mas é na segunda parte, um conjunto de textos intitulado «Angústia com licor de rosas», que o onírico prevalece e a intensa pulsão poética da escrita de Urbano Tavares Rodrigues ganha contornos de invulgar sedução.
Jamais o autor de O Eterno Efémero foi tão longe na devassa do ser humano e dos seus alçapões.(…)”
Ou ainda como se lê na badana “Urbano Tavares Rodrigues não é apenas o grande escritor do Alentejo, das suas gentes e das suas paisagens, é também o romancista e o contista de Lisboa e de outras atmosferas cosmopolitas que, como jornalista e professor universitário, bem conheceu, viajando por todo o mundo.
Catedrático jubilado na Faculdade de Letras de Lisboa, membro da Academia de Ciências (Secção de Letras), tem uma vasta obra literária e ensaística traduzida em vários idiomas, do francês e do espanhol ao russo, ao grego, ao romeno, ao búlgaro, ao checo, ao alemão e ao inglês, ao catalão, ao ucraniano, ao croata, ao japonês, ao italiano, ao holandês, ao chinês. Obteve diversos prémios, entre eles o da Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores, o Prémio Fernando Namora e o Ricardo Malheiros da Academia de Ciências.
De entre os seus maiores êxitos de crítica e de público, lembramos A Noite Roxa, Bastardos do Sol, Os Insubmissos, Imitação da Felicidade, Fuga Imóvel, Violeta e a Noite, O Supremo Interdito, Nunca Diremos Quem Sois, A Estação Dourada, O Etreno Efémero, Ao Contrário das Ondas, Os Cadernos Secretos do Prior do Crato, A Última Colina e Assim se Esvai a Vida – três livros num só. Urbano Tavares Rodrigues, que foi afastado do ensino universitário durante as ditaduras de Salazar e Caetano, participou activamente na resistência e foi preso e encarcerado por várias vezes nos anos sessenta.”
Urbano que é autor de um total de 89 títulos – 45 livros de Ficção, 28 de Ensaio e Crítica, 15 de Viagens e Crónica e um de Poesia é também um Homem generoso, fraterno e solidário, como já me deu provas participando em projectos colectivas para os quais o convidei – como a apresentação pública do Centro de Estudos Documentos do Alentejo – CEDA (de que é sócio fundador), na Casa do Alentejo, Lisboa, Outubro de 2000, no júri do "Prémio Literário Pedro Ferro", a que presidiu – entre 2004 e 2006, ou escrevendo prefácios, textos, organizando, apresentando – como foi o caso dos livros de Poesia de José da Fonte Santa – no âmbito da homenagem a este Poeta realizada em 1999 – ou a Maria Lascas, ou mais recentemente na redacção do prefácio para Nova Antologia de Poetas Alentejanos.
Numa das visitas que lhe fiz, quando ele estava a escrever Os Cadernos Secretos do Prior do Crato - a propósito de D. António, Pior do Crato, que teve 10 filhos de 10 mães, que vivia dividido, dilacerado, entre a entrega a uma fé verdadeira e pura e a entrega plena à sensualidade feminina, afinal a mais bela razão de ser do homem. Foi num dia em que Urbano não tinha muitos compromissos, passamos uma tarde a falar e, a páginas tantas, estávamos a discorrer sobre os amores passados. Olhando para o fundo da memória, concordávamos que de nada nos arrependíamos, excepto num aspecto… ser melhor. Foi tão forte a partilha que, por momentos olvideu que 39 anos separam mestre e o discípulo…
Recentemente visitei-o e fiquei muito incomodado da forma como Urbano me relatou pormenorizadamente a sua própria morte, que segundo ele estava para breve, receei que para muito breve… percebi a sua fragilidade física e fiquei emocionado quando me ofereceu o seu primeiro livro de poemas.
Mas, na semana seguinte, no lançamento deste fulgurante livro de contos - de que transcrevi o que mais me impressionou -, neste livro onde a morte está presente, mas a para com o desejo, a sedução, a sensualidade… e senti uma breve centelha de vitalidade neste homem generoso, de enorme sensibilidade e delicadeza
Depois de confraternizar com o Hugo Santos e o José Luís Peixoto, preparava-me para me despedir do Urbano, quando surgiu de rompante um menino com cinco anos, de ar franzino mas firme e decidido, tão parecido com as fotos de infância que se conhece do Urbano e lhe disse:
- Ó Urbano, despacha-te, para irmos embora!...
Urbano, agora com 87 anos, sagitário de Dezembro, respondeu ao apelo do seu filho e levantou-se de imediato como se fossem dois meninos que se preparavam para ir sorver com sofreguidão a imensidão do “riso verde das searas, ouvir as vozes da natureza nos descampados alentejanos”.
2 de abr. de 2011
Sete Sonetos e Um Quarto...
Manuel Alegre nasceu em Águeda em 1936. Na crise académica de 1962 em Coimbra era já uma referência. Escreveu alguns dos mais belos que a voz que melhor cantou a saudade de ser português, contra a guerra colonial, pela Vida e pela paz - Adriano Correia de Oliveira, “esse calmeirão de alma lírica” que tal como Elis Regina morreu novo, afogado na mágoa da hipocrisia e da mediocridade que o rodeava. Para ele Manuel escreveu aquele que se tornou um hino dos estudantes e dos que enfrentaram a ditadura “Trova do Vento que Passa”, ao som da guitarra mágica de Fogo e Água de António Portugal, cantado pela primeira vez em público na Festa dos Caloiros, na Cantina do Hospital de S. Maria, Lisboa, Fevereiro de 1964.
Foi, enquanto autor, com José Afonso, Adriano Correia de Oliveira e luís Cília um dos precursores do Canto de Intervenção, movimento musical e poético - que tendo em Zeca Afonso o "pai espiritual", enquanto génio maior deste movimento, foi a matriz e a génese da Nova Música Portuguesa, isto é o que de melhor acontece actualmente em Portugal na criação e produção musical.
Incorporado compulsivamente no serviço militar em 1962, participou numa tentativa de sublevação no Açores e em 1963 numa tentativa de golpe em Angola – pouco conhecida - onde foram presos dezenas de militares, desde milicianos a capitães e coronéis . Viajou prisioneiro e estava com residência fixa em Coimbra, quando “às escondidas” da polícia política foram a Lisboa cantar a "Trova". Deu “o salto” para Paris quando a resistência o avisou que ia ser de novo preso. Conheceu Luís Cília nas margens do Sena; escreveu duma assentada...
Venho dizer-vos que não tenho medo
A verdade é mais forte que as algemas
Venho dizer-vos que não há degredo
Quando se traz a alma cheia de poemas
… que Cília musicou de imediato e depois editou no disco Portugal Resiste
Oposicionista convicto foi comunista e depois de 64, em Argel abraçou a guerrilha da palavra aos microfones da Rádio Portugal Livre, onde ele e Fernando Piteira Santos dirigiram a resistência no exílio à ditadura do professor de finanças que destruiu o futuro irremediavelmente de várias gerações neste país, Oliveira Salazar, afinal o todo poderoso lacaio-mor dos grandes interesses agrários, financeiros e industriais – futuro hipotecado que ainda hoje se faz sentir. Em Argel Alegre privou com figuras decisivas da lusofonia como Amílcar Cabral, Eduardo Mondlane e conheceu Che Guevara. Grande Poeta, viu a sua poesia cantada ter uma grande divulgação, chegando o seu livro O Canto e as Armas e ter edições de 10 mil e 20 mil exemplares na década de sessenta.
Regressou a Portugal e rapidamente receando acontecer cá o mesmo que no Chile de Allende, como refere, juntou-se aos moderados, teve pontualmente cargos governamentais, mas foi sobretudo um parlamentar respeitado e aplaudido de pé por todas as bancadas quando há pouco anos abandonou o Parlamento.
Foi duas vezes candidato a Presidente da República
Mas tanto as traições de velhos companheiros socialistas e de alguns boys do seu partido, assim como o conservadorismo da direita, que não lhe perdoam ter lutado contra a criminosa guerra colonial, como se isso é que fosse crime, como até uma parte da esquerda que não esqueceu ele por ter optado pelos socialistas de Mário Soares, não lhe permitiram ser Presidente de Portugal e termos um Poeta na Presidência, uma Homem de Cultura, um Humanista, assumidamente de esquerda, com uma visão aberta ao mundo ao contrário da visão estreita, provinciana e neo-liberal do actual presidente.
Portugal não teve o discernimento, como os irmãos brasileiros souberam eleger Lula e Dilma, um Presidente operário e uma Presidente guerrilheira. O Brasil superou a crise e Portugal não… essa é a diferença entre sermos governados por grandes ou por pequenos estadistas…
De Alegre, partilhou excertos deste seu belo livro de sonetos...
espero que gostem...
Bendita sejas tu porque mulher
bendita sejas não porque te dás
mas porque o teu prazer é o meu prazer
e só no teu prazer encontro paz.
Correrão muitos rios mas o teu
é o que me leva às águas do baptismo
contigo em cada orgasmo eu subo ao céu
noite a noite contigo eu vejo o abismo.
Corre o Jordão e o Tigre os rios correm
contigo em cada orgasmo eu me baptismo
contigo noite a noite a dor e o riso.
Nas curvas do teu corpo os diabos morrem
bendita sejas tu porque me levas
onde a luz do prazer nasce das trevas.
Gostava de morar na tua pele
Desintegrar-me em ti e reintegrar-me
Não este exílio escrito no papel
Por não poder ser carne em tua carne.
Gostava de fazer o que tu queres
Ser alma em tua alma em um só corpo
Não o perto e o distante entre dois seres
Não este haver sempre um e sempre o outro.
Um corpo noutro corpo e ao fim nenhum
Tu és eu e eu sou tu e ambos ninguém
Seremos sempre dois sendo só um.
Por isso esta ferida que faz bem
Este prazer que dói como outro algum
E este estar-se tão dentro e sempre aquém.
Eu não sei se me salvo ou se me perco
Ou se és tu que te perdes e me salvas
Só sei que me redimo quando peco
E corpo a corpo ao céu vão nossas almas.
Manuel Alegre
Sete Sonetos e Um Quarto
Desenhos de João Cutileiro
Dom Quixote, Lx, 2005
Foi, enquanto autor, com José Afonso, Adriano Correia de Oliveira e luís Cília um dos precursores do Canto de Intervenção, movimento musical e poético - que tendo em Zeca Afonso o "pai espiritual", enquanto génio maior deste movimento, foi a matriz e a génese da Nova Música Portuguesa, isto é o que de melhor acontece actualmente em Portugal na criação e produção musical.
Incorporado compulsivamente no serviço militar em 1962, participou numa tentativa de sublevação no Açores e em 1963 numa tentativa de golpe em Angola – pouco conhecida - onde foram presos dezenas de militares, desde milicianos a capitães e coronéis . Viajou prisioneiro e estava com residência fixa em Coimbra, quando “às escondidas” da polícia política foram a Lisboa cantar a "Trova". Deu “o salto” para Paris quando a resistência o avisou que ia ser de novo preso. Conheceu Luís Cília nas margens do Sena; escreveu duma assentada...
Venho dizer-vos que não tenho medo
A verdade é mais forte que as algemas
Venho dizer-vos que não há degredo
Quando se traz a alma cheia de poemas
… que Cília musicou de imediato e depois editou no disco Portugal Resiste
Oposicionista convicto foi comunista e depois de 64, em Argel abraçou a guerrilha da palavra aos microfones da Rádio Portugal Livre, onde ele e Fernando Piteira Santos dirigiram a resistência no exílio à ditadura do professor de finanças que destruiu o futuro irremediavelmente de várias gerações neste país, Oliveira Salazar, afinal o todo poderoso lacaio-mor dos grandes interesses agrários, financeiros e industriais – futuro hipotecado que ainda hoje se faz sentir. Em Argel Alegre privou com figuras decisivas da lusofonia como Amílcar Cabral, Eduardo Mondlane e conheceu Che Guevara. Grande Poeta, viu a sua poesia cantada ter uma grande divulgação, chegando o seu livro O Canto e as Armas e ter edições de 10 mil e 20 mil exemplares na década de sessenta.
Regressou a Portugal e rapidamente receando acontecer cá o mesmo que no Chile de Allende, como refere, juntou-se aos moderados, teve pontualmente cargos governamentais, mas foi sobretudo um parlamentar respeitado e aplaudido de pé por todas as bancadas quando há pouco anos abandonou o Parlamento.
Foi duas vezes candidato a Presidente da República
Mas tanto as traições de velhos companheiros socialistas e de alguns boys do seu partido, assim como o conservadorismo da direita, que não lhe perdoam ter lutado contra a criminosa guerra colonial, como se isso é que fosse crime, como até uma parte da esquerda que não esqueceu ele por ter optado pelos socialistas de Mário Soares, não lhe permitiram ser Presidente de Portugal e termos um Poeta na Presidência, uma Homem de Cultura, um Humanista, assumidamente de esquerda, com uma visão aberta ao mundo ao contrário da visão estreita, provinciana e neo-liberal do actual presidente.
Portugal não teve o discernimento, como os irmãos brasileiros souberam eleger Lula e Dilma, um Presidente operário e uma Presidente guerrilheira. O Brasil superou a crise e Portugal não… essa é a diferença entre sermos governados por grandes ou por pequenos estadistas…
Manuel Alegre, escritor consagrado é um dos mais importantes poetas de língua portuguesa de todos os tempos… e em 2000 deu-me a honra de escrever o prefácio de um livro que publiquei sobre uma temática que tão bem conhece e viveu Cantores de Abril. Entrevistas a Cantores e outros protagonistas do Canto de Intervenção. (Edições Colibri)
De Alegre, partilhou excertos deste seu belo livro de sonetos...
espero que gostem...
Bendita sejas tu porque mulher
bendita sejas não porque te dás
mas porque o teu prazer é o meu prazer
e só no teu prazer encontro paz.
Correrão muitos rios mas o teu
é o que me leva às águas do baptismo
contigo em cada orgasmo eu subo ao céu
noite a noite contigo eu vejo o abismo.
Corre o Jordão e o Tigre os rios correm
contigo em cada orgasmo eu me baptismo
contigo noite a noite a dor e o riso.
Nas curvas do teu corpo os diabos morrem
bendita sejas tu porque me levas
onde a luz do prazer nasce das trevas.
Gostava de morar na tua pele
Desintegrar-me em ti e reintegrar-me
Não este exílio escrito no papel
Por não poder ser carne em tua carne.
Gostava de fazer o que tu queres
Ser alma em tua alma em um só corpo
Não o perto e o distante entre dois seres
Não este haver sempre um e sempre o outro.
Um corpo noutro corpo e ao fim nenhum
Tu és eu e eu sou tu e ambos ninguém
Seremos sempre dois sendo só um.
Por isso esta ferida que faz bem
Este prazer que dói como outro algum
E este estar-se tão dentro e sempre aquém.
Eu não sei se me salvo ou se me perco
Ou se és tu que te perdes e me salvas
Só sei que me redimo quando peco
E corpo a corpo ao céu vão nossas almas.
Manuel Alegre
Sete Sonetos e Um Quarto
Desenhos de João Cutileiro
Dom Quixote, Lx, 2005
26 de mar. de 2011
"O Amor tem para mim uma importância fundamental"
...nestes dias de adoração da Vida, da chegada da Primavera e de exaltação da Poesia, convites imprevistos levaram-me a escolas, colectividades, tertúlias. No dia 21, dei por mim a dizer:
- Primavera, Poesia, Mulher, triologia secreta e imprescindível, urgente, para a Vida em plenitude.
Nestes dias disse poemas de vários autores, mas no dia 21 resolvi dizer Poetas Mulheres, disse FlorBela e outra Poeta de quem já aqui partilhei poemas. É como Florbela, alentejana, mas nasceu em 1962, no Monte das Courelas do Portaleiro, Lavre, Montemor-o-Novo, como refere no seu último livro plenitude. Na contracapa Urbano (Tavares Rodrigues) escreveu :
"plenitude é um autêntico relicário de serena beleza, ou de dramática convulsão, da paisagem alentejana, das formas e das cores, dos sons e cheiros da planície. É também o retrato fremente de um alma, ou de uma sensibilidade feita para o amor, com os seus excessos e as suas dores.
Um livro sempre perto da natureza, por vezes muito conseguido nos seus achados e ritmos, na junção do som e do sentido."
Falamos de Maria Lascas, que num entrevista ao diário do Sul, diz em título: " O Amor tem para mim uma importância fundamental"
Poemas entre o Amor e o Alentejo:
Sol
perfume de laranjeira
e a abelha
e a abelha
a sombra do beijo
nas paredes de cal
Mértola, a sul
Na alquimia de cores, negras andorinhas dançavam
músicas do silêncio da terra
estou no Paraíso! disseste
vestida de Sol na erva
a serpente?!
encantava pássaros nos salgueiros do rio Degebe
Safira perdida
Safira, altares nus em chão de pedra
anjos e pássaros partiram...
as abóbadas persistem
do sabugueiro e laranjeira perfumes
meu irmão! do vento da terra do sul
...agora amparam-me os sobreiros
tempo medido nos meus braços
em que tu não estás
e trago-te sempre comigo!
no cemitério só as cruzes de ferro
e montinhos de terra brava sem nome
A voz
A sua voz é água da fonte no estio
apetece-me saboreá-la na aurora
esperar o sol dentro dela... é mel!
néctar de flores... vazio a sua falta
escuto-a no melro, voo da gaivota
é brilho, cintila nas estrelas
não são palavras a sua voz
é afago dos olhos, a mão deslizante
a minha boca e a sua, o seu silêncio
ou um outro, este também de uma beleza avassaladora, muito recentemente publicado no seu blog homónimo
Vinho
Serve-me vinho, muito vinho sempre!
corre-me nas veias água, insípida clara…
dá-me vinho! não a uva a enrolar-se na língua
abram-se tonéis se acabarem as garrafas: tinto rosé Porto
deixa meu corpo mergulhar no fundo, curtir no tempo
que seja a taça que transborda
sorva a última gota do néctar maturado na pipa
parido em cor de sangue
e bebe o vinho do amor em mim, suavemente…
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