29 de nov. de 2009

"Creio que o Amor tem asas de oiro"

Janita Salomé é a imagem do Sul, é a voz do Sul por excelência.
Da sua voz brotam os poemas que nos falam da totalidade do ser, da mágica magia do Amor, pleno, único e total.
Pela sua voz, pela melodia e até pelo ritmo do seu canto perpassa o silêncio do Sul, toma forma o azul do céu do meio dia a cair a pique derramando a mais luminosa luz.
A partir da sua voz imaginamos o encantamento do luar, ela desenha as casas de barras azuis e ocres onde nos sentamos à soleira fumando o silêncio do anoitecer.

Três poemas. Três poetas. Três cantos musicados e pela voz única de Janita Salomé.


Credo

(disco Janita raiano)


creio nos anjos que andam pelo mundo
creio na deusa com olhos de diamante
creio em amores lunares com piano ao fundo
creio nas lendas nas fadas nos atlantes



creio num engenho que falta mais fecundo
de harmonizar as partes mais dissonantes
creio que tudo é eterno num segundo
creio num céu futuro que houve dantes



creio nos deuses de um astral mais puro
na flor humilde que se encosta ao muro
creio na carne que enfeitiça o além



creio no incrível nas coisas assombrosas
na ocupação do mundo pelas rosas
creio que o amor tem asas de oiro amén


                                                         Natália Correia










ciganos 
 (disco Janita raiano)

como os ciganos entre sul e viagem
do outro lado do rio
como os ciganos somos de outra margem


nosso amor é bala e desafio.

e todos os amantes são raianos
como os ciganos, de passagem
como os ciganos.

                                                     Manuel Alegre








Não é fácil o Amor
(disco Tão Pouco e Tanto)




Não é fácil o amor melhor seria
Arrancar um braço fazê-lo voar
Dar a volta ao mundo abraçar
Todo o mundo fazer da alegria



O pão nosso de cada dia não copiar
Os gestos do amor matar a melancolia
Que há no amor querer a vontade fria
Ser cego surdo mudo não sujeitar



O amor ao destino de cada um não ter
Destino nenhum ser a própria imagem
Do amor pôr o coração ao largo não sofrer




Os males do amor não vacilar ter a coragem
De enfrentar a razão de ser da própria dor
Porque o amor é triste não é fácil o amor






                                                                                                  Luís  Andrade (O Pignatelli)

27 de nov. de 2009

Meu Amor quando eu morrer/Ó linda/ Eu quero ver-te na praia

Fausto, intérprete da Saudade ancestral do Mar, da inquietação permanente da viagem.

Fausto “cantautor”,  canta o Amor e a Saudade, aves marinhas,



gaivotas do Sul de nós; o mar como caminho, o universo como destino.


Tanta saudade, tanto Amor. Tanto mar!


Dois temas desse disco que marcou indelevelmente a Nova
Música Portuguesa: Por este rio acima



Porque não me vês (disco I)



Meu amor adeus


Tem cuidado


Se a dor é um espinho


Que espeta sozinho


Do outro lado


Meu bem desvairado


Tão aflito


Se a dor é um dó


Que desfaz o nó


E desata um grito


Um mau olhado


Um mal pecado


E a saudade é uma espera


É uma aflição


Se é Primavera


É um fim de Outono


Um tempo morno


É quase Verão


Em pleno Inverno


É um abandono


Porque não me vês


Maresia


Se a dor é um ciúme


Que espalha um perfume


Que me agonia


Vem me ver amor


De mansinho


Se a dor é um mar


Louco a transbordar


Noutro caminho


Quase a espraiar


Quase a afundar


E a saudade é uma espera


É uma aflição


Se é Primavera


É um fim de Outono


Um tempo morno


É quase Verão


Em pleno Inverno


É um abandono









 



Como um sonho acordado- (excerto)




Como se a Terra corresse


Inteirinha atrás de mim


O medo ronda-me os sentidos


Por abaixo da minha pele


Ao esgueirar-se viscoso


Escorre pegajoso


E sai


Pelos meus poros


Pelos meus ais


Ele penetra-me nos ossos


Ao derramar-se sedento


Nas entranhas sinuosas


Entre as vísceras mordendo


Salta e espalha-se no ar


Vai e volta


Delirante


Tão delirante


É como um sonho acordado


Esse vulto besuntado


A revolver-se no lodo


A deslizar de uma larva


Emergindo lá no fundo


Tenho medo ó medo


Leva tudo é tudo teu


Mas deixa-me ir






Arrasta-me à côncava do fundo


Do grande lago da noite


Cruzando as grades de fogo


Entre o Céu e o Inferno


Até à boca escancarada


Esfaimada


Atrás de mim


Atrás de mim


É como um sonho acordado


Esses olhos no escuro


Das carpideiras viúvas


Pelo pai assassinado


Desventrado por seu filho


Que possuiu lascivo


A sua própria mãe


E sua amante






Meu amor quando eu morrer


Ó linda


Veste a mais garrida saia


Se eu vou morrer no mar alto


Ó linda


E eu quero ver-te na praia


Mas afasta-me essas vozes


Linda







 



21 de nov. de 2009

A Menina que gostava de flores amarelas




Esta é a história de um menino e de uma menina que poderiam ter-se conhecido no mar, tal a importância do mar para eles o que de comum lhes aconteceu. E se a história de uma vida é tão complexa ainda mais o é quando de dois seres se trata, um mundo vasto feito de encontros e desencontros que se pode resumir a efémeros dias, mas que se pode estender a anos, décadas ou até séculos ou milénios.
A menina vivia num castelo, um lindo castelo alvo como a espuma das ondas. Vivia embasbacada de tédio debaixo da grande asa protectora de um pai omnipresente e poderoso, mas triste porque no mais profundo do seu íntimo sabia que não lhe podia dar a felicidade por que ela tanto ansiava. Viviam os dois infelizes , mas ricos e faustosos e anafados de mordomias, pois afinal ele era um dos representantes mais poderosos do rei na região e a população do povoado junto ao castelo rendia-lhes homenagem, fossem os camponeses, os artesãos ou os demais habitantes.
A menina, que gostava de flores amarelas, era muito bonita e endiabrada mas quando o pai lhe levantava a voz caía em si na tristeza da sua vida de honrarias e fausto.
Um dia em que foram viajar ela conheceu um menino. Aconteceu num palácio onde havia uma fonte com água cristalina, papoilas, jasmim e pétalas de rosa. O menino deu-lhe água daquela fonte que ela achou a mais refrescante. Ele era de um país onde os pássaros eram de cristal e o mar era sulcado por sereias que entoavam cânticos a Iemanjá, cânticos nascidos da boca de velhos marinheiros seduzidos irremediavelmente pela doçura da sua voz. O menino era de um país azul, mas esse era o seu país adoptivo pois ele antes já havia sido pássaro e demandara todos os mares do Sul em busca da beleza. A primeira vez que desembarcará naquela cidade, pássaro do Sul, vindo na gávea dum barco sentiu sinais da menina nas montanhas azuis que recortavam o horizonte. Então tomou a forma humana e esperou serenamente a sua chegada. Naquele tempo de espera aprendeu com os velhos feiticeiros e encantadores de serpentes a construir caixinhas de música com lindas bailarinas que dançavam sempre e lhe lembravam a voz inigualável da menina por quem esperava. Usava-as para lembrar aos pardais seus irmãos a chegada dos caçadores e na Primavera fazia dos campos de papoilas imensos bailados e belas coreografias.
As saudades da menina deram-lhe uma ideia: e como “não há nada mais poderoso do que uma ideia cujo momento chegou” como diria Víctor Hugo, trabalhou de dia e de noite para lhe fazer uma surpresa. Construiu a mais bela caixinha de música de que havia memória, incrustada de safiras e de rosas do deserto com uma bailarina coberta das mais lindas flores amarelas que dançava, dançava com doçura e volúpia. E partiu do seu país azul e distante. Percorreu esse país com casas de barras ocre de campos imensos e trigais a perder de vista com flores de esteva nas encostas, atravessou um deserto onde quase sucumbiu e uma montanha com neves eternas e frondosos cedros. Poucos dias antes de chegar ao país da menina enviou uma irmã pomba branca, que teve a triste sorte de chegar num dia em que os caçadores percorriam os campos em redor do castelo. Morreu com um tiro certeiro de um deles, o pai da menina, mas não sem antes de cair moribunda aos pés desta e lhe entregar a boa nova da vinda do menino do país azul. A tristeza pela morte da pomba não retirou a ambos completamente o sorriso pelo encontro eminente, pois sabiam que a vida também era feita de sofrimento.
O pai todavia ficou desconfiado ao ver a pomba morta à entrada do castelo e interrogou a menina ameaçando-a com um terrível castigo: expulsá-la do belo castelo que ela tanto amava, caso não cumprisse as suas ordens. A menina ficou muito assustada e quando nessa noite se esgueirou por entre as ameias do castelo e encontrou o menino numa praia banhada pelo luar estava muito nervosa: estava quase hirta em vez do seu andar sensual e do brilho fulminante do seu olhar apenas uma réstea envergonhada se via. Quando falou a sua voz perdera a doçura, era falsamente dura de assustada e tristeza escondida. O menino que já tinha pressentido, com a morte da pomba que algo de estranho e mau se passava, mesmo assim estava embevecido pela sua beleza, quase a chorar de emoção, ficou estupefacto pelo medo que saia do seu olhar. A sua voz de medo era tão dura e as palavras tão terríveis que as ondas ficaram suspensas nas suas cristas os peixes ficaram parados e a lua escondeu a face. E a menina a tremer de cólera com o medo no olhar espalhava a dor e a mágoa na alma do menino. Este contemplou-a longamente tocou-lhe ao de leve no rosto e partiu para o seu país azul não sem antes deitar ao mar a mais bela caixinha de música que tinha existido. Caiu-lhe de rosto uma lágrima de cristal como o palácio onde se conheceram, enquanto a bailarina com o som da voz doce da menina rodopiava pela última vez.
Percorreu o caminho de regresso cada vez mais triste e indiferente a tudo e quando chegou ao país azul o mar que antes era turquesa estava escuro e cinzento. Entrou no mar dentro deitou-se nas ondas e no meio de uma imensa tristeza foi escoltado pelas sereias que choravam a sua perca e o seu regresso ao início dos tempos. O Sol deitou uma lágrima de fogo e de cristal e as pessoas assustaram-se pensando que o mundo ia acabar. Uma gaivota levou então a notícia e a menina chorou muito e ficou muito triste. Era tarde de mais. A tristeza fê-la perder a vontade de contemplar o mar, o Sol e as estrelas, o luar, as papoilas, a beleza e a poesia da vida. A menina envelheceu rapidamente tomando conta do seu pai, também ele cada vez mais triste por saber que a tristeza nunca mais os abandonaria pois a menina tinha desperdiçado a sua única possibilidade de poder ser feliz, coisa que ele não lhe podia dar.
A menina e o seu pai omnipresente morreram de tédio e de tristeza.
O medo pode tanto, pode até levar à insensibilidade e à tristeza infinita.


8 de nov. de 2009

Com um brilhozinho nos olhos

Com um brilhozinho nos olhos
E a saia rodada
Escancaraste a porta do bar
Trazias o cabelo aos ombros
Passeando de cá para lá
Como as ondas do mar
Conheço tão bem esses olhos
E nunca me enganam
O que é que aconteceu diz lá
É que hoje fiz um amigo
E coisa mais preciosa no mundo não há
É que hoje fiz um amigo
E coisa mais preciosa no mundo não há


Com um brilhozinho nos olhos
Metemos o carro
Muito à frente muito à frente dos bois
Ou seja fizemos promessas
Trocámos retratos
Traçámos projectos a dois
Trocámos de roupa trocámos de corpo
Trocámos de beijos tão bom é tão bom
E com um brilhozinho nos olhos
Tocámos guitarras
Pelo menos a julgar pelo som

E com um brilhozinho nos olhos
Tocámos guitarras
Pelo menos a julgar pelo som


E o que é que foi que ele disse?
E o que é que foi que ele disse?
Hoje soube-me a pouco
Hoje soube-me a pouco
Hoje soube-me a pouco
Hoje soube-me a pouco
Hoje soube-me a pouco
Hoje soube-me a pouco
Hoje soube-me a pouco
Hoje soube-me a pouco
Passa aí mais um bocadinho
Que estou quase a ficar louco
Hoje soube-me a tanto
Hoje soube-me a tanto
Hoje soube-me a tanto
Hoje soube-me a tanto
Portanto
Hoje soube-me a pouco


Com um brilhozinho nos olhos
Corremos os estores
Pusemos a rádio no on
Acendemos a já costumeira
Velinha de igreja
Pusemos no off o telefone
E olha não dá para contar
Mas sei que tu sabes
Daquilo que sabes que eu sei
E com um brilhozinho nos olhos
Ficámos parados
Depois do que não te contei
E com um brilhozinho nos olhos
Ficámos parados
Depois do que não te contei


Com um brilhozinho nos olhos
Dissemos sei lá
Tudo o que nos passou pela tola
Do estilo: és o number one
Dou-te vinte valores
És um treze no totobola
E às duas por três
Bebemos um copo
Fizemos o quatro e pintámos o sete
E com um brilhozinho nos olhos
Ficámos imóveis
A dar uma de tête a tête
E com um brilhozinho nos olhos
Ficámos imóveis
A dar uma de tête a tête


E o que é que foi que ele disse?
E o que é que foi que ele disse?
Hoje soube-me a pouco
Hoje soube-me a pouco
Hoje soube-me a pouco
Hoje soube-me a pouco
Hoje soube-me a pouco
Hoje soube-me a pouco
Hoje soube-me a pouco
Hoje soube-me a pouco
Passa aí mais um bocadinho
Que estou quase a ficar louco
Hoje soube-me a tanto
Hoje soube-me a tanto
Hoje soube-me a tanto
Hoje soube-me a tanto
Portanto
Hoje soube-me a pouco


E com um brilhozinho nos olhos
Tentámos saber
Para lá do que muito se amou
Quem éramos nós
Quem queríamos ser
E quais as esperanças
Que a vida roubou
E olhei-o de longe
E mirei-o de perto
Que quem não vê caras
Não vê corações
E com um brilhozinho nos olhos
Guardei um amigo
Que é coisa que vale milhões
E com um brilhozinho nos olhos
Guardei um amigo
Que é coisa que vale milhões


E o que é que foi que ele disse?
E o que é que foi que ele disse?
Hoje soube-me a pouco
Hoje soube-me a pouco
Hoje soube-me a pouco
Hoje soube-me a pouco
Hoje soube-me a pouco
Hoje soube-me a pouco
Hoje soube-me a pouco
Hoje soube-me a pouco
Passa aí mais um bocadinho
Que estou quase a ficar louco
Hoje soube-me a tanto
Hoje soube-me a tanto
Hoje soube-me a tanto
Hoje soube-me a tanto
Portanto
Hoje soube-me a pouco



Sérgio Godinho (Canto da boca)
           


10 de out. de 2009

D. Dinis-o Rei-Poeta ... ou o Poeta-Rei

Foi cognominado "O Lavrador" pelo impulso que deu a esta actividade, assim como a criação do pinhal de Leiria, que ainda se mantém, de forma a proteger as terras agrícolas do avanço das areias costeiras.



D. Dinis organizou o reino, ordenou a exploração de minas e fundou as bases para uma verdadeira marinha portuguesa ao serviço da Coroa. Redistribuiu terras e fundou várias comunidades rurais, assim como mercados e feiras, criando as chamadas feiras francas ao conceder a várias povoações diversos privilégios e isenções.



Salvou a Ordem dos Templários em Portugal através da criação da Ordem de Cristo em Tomar. Assinou um tratado com o papa Nicolau III e a paz com Castela, desistindo duma guerra em troca das vilas de Serpa e Moura.



A sua prioridade governativa foi essencialmente a organização e a administração do reino e não a guerra. Continuou a vertente legisladora de seu pai D. Afonso III, a profusa acção legislativa está contida, hoje, no Livro da Leis e Posturas e nas "Ordenações Afonsinas" - não são "códigos" legislativos tal como os entendemos hoje, mas sim compilações de leis e do direito consuetudinário municipal, alteradas e reformuladas pela Coroa.



O reinado de D. Dinis acentuou a predilecção por Lisboa como local de permanência da corte régia. A articulação entre o norte e o sul do país - este sul que se torna alvo da maior atenção e permanência dos reis - fazem de Lisboa centro giratório para tornar Portugal viável.




Neto de Afonso X, "o Sábio", de quem terá herdado a sabedoria e a erudição, durante o seu reinado, Lisboa tornou-se um dos centros europeus de cultura. A Universidade de Coimbra, a primeira universidade em Portugal, foi fundada pelo seu decreto Magna Charta Priveligiorum, onde se ministraram as Artes, o Direito Civil, o Direito Canónico e a Medicina Mandou traduzir importantes obras, tendo sido a sua Corte um dos maiores centros literários da Península Ibérica.




Numa dinastia em que os cinco reis que o antecederam não seriam alfabetizados ele foi o Rei-Poeta ou o Rei-Trovador, grande poeta e trovador, autor 51 Cantigas de Amigo, 73 Cantihgas de Amor e 10 Cantigas de Escárnio e Maldizer, bem como a música original de 7 delas, inscrita num pergaminho que servia de capa a um livro de registos notariais do século XVI (descoberto ocasionalmente na Torre do Tombo, em 1990 pelo Prof. Harvey L. Sharrer)




D. Dinis , Rei-Poeta ou Poeta-Rei, foi claramente o rei mais culto e mais dotado da 1ª dinastia e o grande poeta da História da Monarquia Portuguesa - só tem paralelo com Almutâmide, o grande Poeta nascido em Beja e depois rei em Sevilha.



No passado dia 9 de Outubro completou-se 748 anos sobre o seu nascimento.

Nesse dia abrimos um belo tinto "Mouras de Arraiolos", reserva de 2006 e bebemos em homenagem a este homem brilhante e à beleza da sua Poesia - que nos recorda a beleza da Vida e de que queremos partilhar dois belos poemas: uma Cantiga de Amor e uma Cantiga de Amigo.





Uma Cantiga de Amor

Levantou-s’ a velida,
levantou-s’ alva
e vai lavar camisas
em o alto.
Vai-las lavar alva.

Levantou-se a louçana
Levantou-se alva
e vai lavar delgadas
em o alto.
Vai-los lavar alva.

E vai lavar camisas,
levantou’s alva
o vento lh’as desvia
em o alto.
Vai-las lavar alva.

E vai lavar delgadas
levantou-s’ alva;
o vento lh’as levava
em o alto.
Vai-las lavar alva.

O vento lh’as desvia,
levantou-s’ alva;
meteu-s’ alva em ira
em o alto.
Vai-las lavar alva.

O vento lh’as levava,
levantou-s’ alva;
meteu-s’ alva em sonho
em o alto…
Vai-las lavar, alva…

E uma Cantiga de Amigo, expressão pungente de saudade e de espera


Ai flores, ai flores do verde pino,
Se sabêdes novas do meu amigo!
Ai Deus, e u é?


Ai flores, ai flores do verde ramo,
Se sabêdes novas do meu amado!
Ai Deus, e u é?

Se sabêdes novas do meu amigo,
Aquele que mentiu do que pôs comigo!
Ai Deus, e u é?

Se sabêdes novas do meu amado,
Aquele que mentiu do que me há jurado!
Ai Deus, e u é?

- Vós me preguntades pelo voss’ amigo?
E eu bem vos digo que é san’, e vivo.
Ai Deus, e u é?

Vós me preguntades pelo voss’ amado?
E eu bem vos digo que é vivo e sano.
Ai Deus, e u é?


E eu bem vos digo que é san’, e vivo.
E será vosc’ ant’ o prazo saído.
Ai Deus, e u é?

E eu bem vos digo que é viv’ e sano
E será vosc’ ant’ o prazo passado..
Ai Deus, e u é?

1 de out. de 2009

Sol de madrugada Flor de tangerina

Nestes dias decisivos, quase fatais, em que um gesto, uma resposta positiva ou não pode significar o êxito ou o fracasso de um trabalho longo de quase cinco anos, mesmo assim sinto uma estranha serenidade apoderar-se de mim - de aprendiz de feiticeiro - embora sabendo que o chegar a bom porto, se depende em muito de mim, não só de mim...

Manuel Amado



Dordio Gomes


Enquanto recordo uma ida breve a S. aleixo, Monforte, a uma apresentação informal da mais recente edição da Revista Memória Alentejana - que em breve divulgaremos - ou uma visita ao sumptuoso Palácio de D. Manuel, em Évora, onde está, até final do mês uma exposição itinerante de pintura sobre um século de pintura portuguesa, "arte partilhada millennium bcp", o espólio desta entidade bancária que origina uma excelente exposição, imperdível, com material de apoio para as escolas e um excelente catálogo da autoria da Prof. Raquel Henriques da Silva - que há muitos anos nos deu o grato prazer de ser a docente da cadeira de História de Arte que frequentamos na FCSH... - aqui, nesta cidade carregada de uma subtil arquitectura...



Júlio Pomar


Enquanto oiço L. Represas cantar como ninguém "Ser Poeta" em Florbela antes de com ele me encontrar ou saboreio a bela versão ao piano de"um redondo vacábulo" pelo João, sobrinho do Zeca, quando... de repente leio... de repente chega-me a voz do Zeca Afonso, talvez trazida pelo deuses, uma paz e serenidade imensa que me chega com...


Maria

Maria
Nascida no monte
À beira da estrada
Maria
Bebida na fonte
Nas ervas criada

Talvez
Que Maria se espante
De ser tão louvada
Mas não
Quem por ela se prende
De a ver tão prendada

Maria
Nascida do trevo
Criada na trigo
Quem dera
Maria que o trevo
Casara comigo

Prouvera
A Maria sem medo
Crer no que lhe digo
Maria
Nascida no trevo
Beiral do mendigo
Maria
Nascida no trevo
Beiral do mendigo

Maria
De todas primeira
De todas menina
Maria
Soubera a cigana
Ler a tua sina


Não sei
Se deveras se engana
Quem demais se afina
Maria
Sol da madrugada
Flor de tangerina
Maria
Sol de madrugada
Flor de tangerina

José Afonso






28 de ago. de 2009

Amoras silvestres


Caminho nos antigos trilhos do comboio. E imagino como seria maravilhoso contornar o monte maior, o altaneiro castelo e caminhar lentamente sobre a ponte e... entrar na estação as fervilhar de gente - o centro do mundo. Quando os percorro ao anoitecer, por vezes penso sentir o som longíquo de um comboio da minha infância.



Enquanto caminho o Sol aquece-me o corpo... e a alma, penetrar-me nos poros, um a um, sinto-e cheio de vida, rejunevescido, poderoso, pleno, com cada um dos cinco sentidos...
Oiço uma voz dum monte póximo. É Almeida Garrett que fala:

Os Cinco Sentidos

São belas – bem o sei, essas estrelas,
Mil cores – divinais, têm essas flores,
Mas eu não tenho, amor, olhos para elas:
Em toda a Natureza
Não vejo outra beleza
Senão a ti – a ti!

Divina – ai! Sim, será a voz que afina
Saudosa – na ramagem densa, umbrosa,
Será; mas eu do rouxinol que trina
Não oiço a melodia,
Nem sinto outra harmonia
Senão a ti – a ti!

Respira – n’aura que entre as flores gira,
Celeste - incenso de perfume agreste.
Sei… não sinto: minha alma não aspira,
Não percebe, não toma
Senão o doce aroma
Que vem de ti – de ti!

Formosos – são os pomos saborosos,
É um mimo – de néctar o racimo:
E eu tenho fome e sede… sequiosos,
Famintos meus desejos
Estão… mas é de beijos,
É só de ti – de ti!

Macia – deve a relva luzidia
Do leito – ser por certo em que me deito.
Mas quem, ao pé de ti, quem poderia
Sentir outras carícias,
Tocar noutras delícias
Senão em ti- em ti!

A ti! ai, a ti só os meus sentidos
Todos num confundidos,
Sentem, ouvem, respiram;
Em ti, por ti deliram.
Em ti a minha sorte,
A minha vida em ti;
E quando venha a morte,
Será morrer por ti.










...uma serenidade invade-me cada vez que toco, saboreio uma aroma silvestre sinto a voz dos Deuses partilhando aquele momento único. Dizem-me: vive este momento em toda a sua plenitude, agora! Só o Amor é eterno. As amoras silvestres em breve partiram, mas no fim do próximo Verão regressam tal como a papoila na Primavera. E tu, ser mais poderoso e frágil da criação, tu? encontra a sabedoria para viveres a eternidade agora, sê simples serás poderoso. Não ambiciones parar o tempo. Serás arrogante e só sentirás infelicidade.
VIVE!














2 de ago. de 2009

a Poesia da Música ao som da Pintura

Escrevo por dentro da música. Falo dos poetas que fizeram das palavras canto. Enamoro-me das imagens, da poesia dos montes ao anoitecer. Construo palavras que fazem do meu canto a música da Terra.



Sinto o sangue latejar e danço, danço. Elevo-me no ar, o castelo vai aos poucos tornando-se um pequeno ponto e chego ao mar.

Ao mar onde o sol passa num barco que viaja, viaja sempre. ..





Escrevo. Escrevo sempre . Escrevo-te Poema. Escrevo-te Vida. Escrevo-te
"Antes de te conhecer", como o Zé Luís no poema.


O tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias,
como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo,
mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.
Eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar,
que eu amava quando imaginava que amava.
Era tua a tua voz que dizia as palavras da vida.
Era o teu rosto.
Era a tua pele.
Antes de te conhecer,
existias nas árvores e nos montes e nas nuvens
que olhava ao fim da tarde.
Muito longe de mim,
dentro de mim, eras tu a claridade

José Luis Peixoto


Escrevo por dentro da música rodeado de tripés, paletas, tintas, e de afectuosa amizade. Escrevo da poesia a latejar a música no meio da pintura dos campos do Sul. Escrevo ao Sol a pique impiedoso e belo que me enche de Vida. Escrevo ao luar no castelo e nas palavras e nos silêncios e na espera.









E mesmo quando visito Sophia, Deusa grega na cidade branca, Senhora da luminosa claridade, é a Ti que escrevo.















E quando saboreio as virgens amoras selvagens é de liberdade plena, desmedida, infinita mesmo, que te falo!...






Escrevo por dentro da Música. Escrevo de Poesia, rodeado da bela e suave Pintura.





Escrevo-te.
Espero-te …

5 de jul. de 2009

Morreu o Poeta José Rodrigues Vilhena

Amigo Zé Vilhena


Nunca mais acenderás no meu o teu cigarro!


Certamente onde estiveres continuarás com o teu riso franco e luminoso e contagiante, sempre optimista e bem disposto, "um construtor permanente de sonhos" e "um militante da Vida" onde "o Amor vence o ódio e o medo", como um dia escrevi.

Doeu-me a notícia do teu desaparecimento, mas doeu-me também pela forma como me foi dada, pelo jornal e... tantos dias depois.

E, fiquei parado no tempo, pensando se fará sentido o tempo que às vezes sou obrigado a perder com indivíduos medríocres que simplesmente não existem, em vez de estar a "gastar " o tempo com algo útil para a humanidade e.... há tanta coisa para fazer, e que está ao nosso alcance ou.... como, por vezes, se perde tanto tempo acomodados com o status e a mera e bizarra "felicidade" material e o "parecer bem" e se deixa a Vida passar ao lado, o Amor passar ao lado... quando somos assim confrontados com a morte como eu fui confrontado com a tua morte, Amigo Zé Vilhena, percebemos que cada minuto perdido é... a negação das belas teorias que faltam tornar-se realidade.

Recordo-me agora do prefácio que me pediste para o teu (último livro) A Essência da Raiz e da sessão de apresentação em Sines, em 2006, naquela bonita festa que a população te dedicou e da forma fraterna como me recebeste a mim e ao meu pai na tua casa.

Aqui deixo um excerto e...

até sempre, Companheiro Zé Vilhena!
Em Novembro de 2008, quando foi distinguido com a Medalha de Mérito Municipal


Carta a um Amigo

Pediste-me, Zé Vilhena, para escrever um prefácio para o teu novo livro A Essência da Raiz. Fiquei cheio de contentamento mas também receoso. E se não fosse o prefácio que tu esperavas? Mas como aprendi a não virar a cara às dificuldades, resolvi meter mãos à obra, o que me dava muita alegria, pois sentia-me honrado por este amigo - que conheci pela mão do Zé da Fonte Santa e ao longo dos anos aprendi a respeitar e a admirar - me ter destinado esta bonita tarefa.

Quando comecei a ler o livro percebi que tinha pela frente algo mais complexo. Mas comecei a sentir-me transportado para um tempo outro, da meninice. Um tempo das viagens de automotora desde a Funcheira, nesses dias sempre especiais. A Festa da chegada à praia. Sines. A Festa que era para o do menino o mar, o sol, o sal, as gaivotas. A liberdade do mar. E depois o regresso ao lusco-fusco no cântico dos insectos. A magia de ser livre, de ser um pássaro do Sul, aconteceu aí pela primeira vez. Só muito mais tarde compreendeu, quando se deu a perca da liberdade dos pássaros. A serenidade do seu mundo dos campos e da ribeira e da horta e dos pais, jovens belos e felizes e da avó que lhe dava toda a ternura do mundo e da menina distante mas ao seu lado, falando-lhe dos seus mistérios na soleira da porta do monte. E o menino rodopiando na estação, no seu pequeno palco do mundo. O menino feliz.

Depois deu-se a perca terrível. A chegada aos arredores da grande cidade num dia cinzento. E veio o medo. E o menino não mais dançou. E partia de regresso ao mar que lhe amenizava a dor. A ânsia da procura da felicidade. A praia estava diferente e partiu para a ilha e percorreu a costa. Antes de Rui Veloso e de “o primeiro beijo”. Tempo de vida, de amigos, de aprendizagem e de esperanças depois desfeitas. A Sofia chegou e levava-a a brincar no mar. Ainda hoje. Mas a inquietação mantinha-se. A falta da menina da sua infância deixava-o infeliz. Então deu-se o regresso da luz. O reencontro. A Felicidade. Plenitude do momento ou da eternidade. E de novo o mar. (...)

Os teus frescos desta tua terra de gaivotas levaram-me por esse (meu) tempo outro. São crónicas da vida onde por vezes se atingem momentos de grande beleza. O Amor, a Amizade, a Dignidade, a luta pela Liberdade, Abril, a construção da democracia, o movimento sindical, a esperança e a desilusão, a justiça, a solidariedade, a ironia, a festa do mar e do Carnaval…
És amigo, um carpinteiro multifacetado usando várias ferramentas, onde se destacam as imagens poéticas e uma investigação muito particular, onde houve até o cuidado de documentar o texto ou o poema com imagens da epóca. És, mas és mais do que o autoditacta, do que o historiador, do que o
antropólogo, do que o poeta.
És, amigo Zé Vilhena, um assumido poeta da vida, que os desencantos não conseguem desgastar, porque tu não desistes de deixar-te encantar pela magia da vida, pela capacidade de acreditar que a felicidade é possível, que existe. Não abdicas da luta pela Vida, pelo Amor.

És, Amigo, um construtor permanente de sonhos onde não há lugar para a tristeza, para o silêncio, sim para a partilha, para a comunhão, para o encontro. Deixas-nos momentos de grande beleza nas crónicas onde nos falas do Amor, onde o Amor vence o ódio e o medo. És um apaixonado, um militante da Vida, do Amor.

Obrigado Amigo Zé Vilhena, por partilhares comigo, com todos nós, a beleza da construção do sonho, da Felicidade, a razão afinal de estarmos aqui.



1 de jul. de 2009

Leolinda na Casa do Alentejo


Leolinda é Calipolense. É Poeta. É música – fez o curso complementar de acordeon, toca piano…. Leolinda é pintora...

Num dia mágico, depois de logo pela manhã termos visitado Florbela, presenteou-nos com uma visita guiada ao seu imenso espólio, das suas muitas dezenas de belas pinturas que preenchem todas as paredes e não só, duma antiga casa, bem alentejana, de muitas assoalhadas e vários pisos. Foi num dia mágico em Vila Viçosa…


Leolinda Trindade foi organista no paço Ducal de Vila Viçosa. Está representada em várias colecções particulares. Colaborou em vários jornais do Alentejo, foi premiada em diversos jogos florais e figura em Antologias de Poesia, como na Antologia de Poetas Alentejanos do século XX, realizada por Francisco Dias da Costa, provavelmente a mais importante Antologia feita até hoje sobre Poetas Alentejanos.



Leolinda tem uma exposição na Casa do Alentejo – Salão de Olivença.
Leolinda está feliz, pois cumpriu um dos seus sonhos: expôr na Casa do Alentejo, como me disse ao telefone com um grande sorriso. Fico contente, Amiga Leolinda!



Parabéns Leolinda!


Inaugurada no dia 19 de Junho, a exposição está patente até meados de Julho. A não perder!


Do seu livro o silêncio das palavras, com capa por si ilustrada, partilho dois belos sonetos


Momentos

Abriram-se as roseiras do jardim
ao vires à minha casa p’la tardinha,
e veio pousar-me à porta uma andorinha,
só p’ra te ver passar ao pé de mim!

Eu vi-me num palácio de marfim
como uma afortunada princesinha…
ciosa de uma jóia que era minha
e que eu guardei feliz até ao fim

Não era sonho não… que a tua imagem
enchia a minha casa como um grito,
e eras mesmo tu… e não miragem…

sentado ao pé de mim, de fronte erguida
à nossa volta estava o infinito…
já não contava o tempo, nem a vida


Júbilo

Chegaste ao pé de mim… como sorrias,
dir-se-ia que a terra estremeceu,
tinhas luz no olhar e não sabias
Que o mundo mais parecia ser só teu.

E as horas que passavam tão sombrias,
ficaram tão felizes como eu…
Se entrasses no meu peito tu dirias
Que até o coração me enlouqueceu.

E tu estavas ali na minha frente,
sereno como um Deus… quase indiferente
À Primavera que brotava em mim…

Saíam estrelas lindas dos teus dedos
E vinham-me dizer estranhos segredos
Com pena de eu te amar, tão louca, assim!
Leolinda Trindade

23 de jun. de 2009

o primeiro Solstício do Roque

Chegou de novo o Solstício de Verão. A primeira vez, desde que o Roque veio, com um arsinho quase assustado de acabado de chegar, mas depois sorriu-me com serenidade.


Foi um dia especial. O Roque o conjunto de linho suave debruado a azul turquesa e calçado de pele macia a condizer com tom e motivos da mesma côr, trazido propositadamente de
Marraquexe, e eu o meu shi´lab de seda, próprio para ocasiões muito especiais, perfumamo-nos com jasmim e fomos, de mãos dadas tomar uma chávena do melhor chá do mundo - de menta com hortelã. Instalámo-nos num café simpático mesmo à entrada daquela que será sempre um lugar mágico, a Praça Jemaa el-Fna...

... li-lhe alguns dos meus poemas preferidos e falei-lhe dos canaviais de Aghmâte. De irmos um dia àquele lugar secreto prestar a nossa humilde homenagem a Almutâmide e a Itimâde. Falámos a linguagem dos deuses e entendêmo-nos. Sabendo que o Amor, tal como a Poesia, não é apenas possível e necessário; é urgente, é insubstítuivel, é imprescíndivel!
Parabéns Roque, pelo teu Primeiro Solstício!

Persegue sempre o Absoluto!

Não desistas nunca da Perfeição!

Assim saberás saborear o secreto sabor da Felicidade!


29 de mai. de 2009

Encontro com Lorca em Mértola "a las cinco de la tarde em puento"


De repente, quando procurava as águas calmas do Odiana num início de noite suave, sinto-me a esvair-me em sangue. Deixo a sua marca vermelha na pedra milenar ante a indiferença dos transeuntes que já perderam o olfacto do cheiro forte de sangue e o seu tom inebriante de vida suprema e de morte…

Releio “Dom Perlimplim com Belisa em seu jardim” a propósito de uma futura encenação de um amigo. E, reencontro, de repente esse universo de fogo e sangue, de jasmim e gazela, de água pura, de menino e anjo, de duende, de água pura dada a beber à boca da amada (como em "Yerma"), na tua boca, da fonte cristalina e milenar, que torna o momento pleno e o nosso Encontro perene, doce minha. Esta leitura renovou-me o sangue, deu-me sangue novo, agora quase agonizante, convalescendo de uma cirúrgia imprevista – a morte e os seus sinais não serão sempre imprevistos?! – para não me esvair de novo em sangue…
















Agora percebo como o sangue marcado na pedra foi um Encontro com Federico, desde que em 1985, ao conhecê-lo, estudá-lo, (até homenageá-lo no ano seguinte, em Setúbal, 50 anos depois)me levou a iniciar uma longa e difícil caminhada até Almutâmide. É como se Federico me tivesse vindo visitar às margens do Odiana, na pedra milenar de Mértola, assinalando com sangue, “vermelho vivo-sangue” o subir de mais um degrau… como acontecera com a visita ao mausoléu de Almutâmide… e as rosas vermelhas que levei na bagagem para o poeta de Beja e para a sua doce Itimade. Refiro-me à apresentação de “Papoila de Odiana – Dançar a Poesia de Almutâmide” no Cine -Teatro Marques Duque, no Festival Islâmico deMértola.






















E houve o Encontro com os amigos: o Eduardo Ramos e a sua singular e bela música, o João Mário Caldeira, o Paulo Barriga e a sua simpática família, o M. Passinhas, o Santiago Macias, a Nádia Torres... os amigos que foram propositadamente ver a "Papoila"e/ou jantar connosco -o José Orta, o João Cágado, a Teresa Cuco, o Carlos Alberto e a Maria de Albufeira e... uma noite diferente, na sexta-feira, a Noite da Dycra, com a Comunidade Islâmica do país vizinho, onde fui com o Tiago e conheci novos amigos, no característico jantar islâmico...






e, partimos por dentro do arco-íris...














ou como Federico escreve, no seu Gazel I, Do Amor Imprevisto (Diván del Tamarit)


Ninguém compreendia esse perfume

da escura magnólia de teu ventre.

Ninguém sabia que martirizavas

um colibri de amor entre teus dentes.


Mil eram os potros persas que dormiam

na praça com luar da tua fronte,

enquanto eu quatro noites enlaçava

tua cintura, inimiga da neve.


Entre gesso e jasmins, o teu olhar

era um pálido ramo de sementes.

Eu busquei, para dar-te, no meu peito

as letras de marfim que dizem sempre.

(...)






Convalesço, reencontro o sangue novo, renovado, sabendo que, em breve

“Voltarei
no meu cavalo de fogo
voando entre pessegueiros em flor
e campos de papoilas
pleno de vida
rejuvenescido
voltarei
ao teu encontro.”