
25 de fev. de 2009
21 de fev. de 2009
20 de Fevereiro - Renascer

ESPERA-ME
Nas praias que são o rosto branco das amadas mortas
Deixarei que o teu nome se perca repetido
Mas espera-me:
Pois por mais longos que sejam os caminhos
Eu regresso.
Espero sempre por ti o dia inteiro,
Quando na praia sobe, de cinza e oiro,
O nevoeiro
E há em todas as coisas o agoiro
De uma fantástica vinda.
Quando na praia sobe, de cinza e oiro,
O nevoeiro
E há em todas as coisas o agoiro
De uma fantástica vinda.
13 de fev. de 2009
Nos 90 anos de Mestre José Salgueiro ou a pureza da Terra

Mestre José
Salgueiro homenageado no Casa do Alentejo
Foi um dia inolvidável! Não há palavras que descrevam a pureza do momento!
No dia 7 de Fevereiro, sábado, a Casa do Alentejo foi palco de uma sentida homenagem ao Mestre José Salgueiro, natural e residente em Montemor-o-Novo. O homenageado, com a sua invulgar capacidade comunicação empolgou a assistência, onde, numa assistência constituída por pessoas do meio literário, artístico, musical, associativo e autárquico se viam pessoas oriundas de Montemor - a amiga Manuel Rosa, o autarca António Danado, os filhos e netos do Mestre Salgueiro e outros montemorenses -, de Évora - os amigos Teresa Cuco, poeta, e João Cágado, músico, para além de muitos alentejanos radicados na grande cidade como o encenador Hélder Costa, natural de Grândola – e colaborador na Revista Memória Alentejana - ou a poeta Rosa Dias, natural de Campo Maior, ou ainda os poetas Nogueira Pardal de Aljustrel, Maria Olivia Sampaio e Maria vitória Afonso, estas últimas do Círculo Nacional d'Arte e Poesia, ou ainda o dirigente do Ateneu Eduardo Cottez, médico.
No dia 7 de Fevereiro, sábado, a Casa do Alentejo foi palco de uma sentida homenagem ao Mestre José Salgueiro, natural e residente em Montemor-o-Novo. O homenageado, com a sua invulgar capacidade comunicação empolgou a assistência, onde, numa assistência constituída por pessoas do meio literário, artístico, musical, associativo e autárquico se viam pessoas oriundas de Montemor - a amiga Manuel Rosa, o autarca António Danado, os filhos e netos do Mestre Salgueiro e outros montemorenses -, de Évora - os amigos Teresa Cuco, poeta, e João Cágado, músico, para além de muitos alentejanos radicados na grande cidade como o encenador Hélder Costa, natural de Grândola – e colaborador na Revista Memória Alentejana - ou a poeta Rosa Dias, natural de Campo Maior, ou ainda os poetas Nogueira Pardal de Aljustrel, Maria Olivia Sampaio e Maria vitória Afonso, estas últimas do Círculo Nacional d'Arte e Poesia, ou ainda o dirigente do Ateneu Eduardo Cottez, médico.

A sessão iniciou-se com a interpretação de temas do Cancioneiro tradicional, a cargo do Grupo Coral Feminino “Brisas do Guadiana”, que estavam de visita à Casa e fizeram questão de participar na Homenagem. Depois prosseguiu com a apresentação do livro Relatos de uma Vida, poesia do homenageado. Usaram ainda da palavra os presidentes da Casa do Alentejo e do CEDA, respectivamente João Proença e Francisco Naia, o Vice-Presidente do Município de Montemor, António Danado e o responsável pelas edições Colibri, Fernando Mão de Ferro.
A apresentação do livro esteve a cargo de Eduardo M. Raposo, director da Revista Memória Alentejana e amigo do homenageado, que foi autor do prefácio – e de que deixamos o registo em anexo. Mestre José Salgueiro, antes de fazer uma sugestiva prelecção sobre os benefícios das plantas e de uma alimentação saudável que cativou e divertiu a assistência pela sua vivacidade e sentido de humor, fez questão de agradecer a cada um dos membros da mesa, com destaque para Eduardo M. Raposo, pelo empenho deste na publicação de mais este livro do Mestre Salgueiro e pela organização e divulgação desta homenagem.

No final Francisco Naia, acompanhado de José Carita e Ricardo Fonseca, interpretou temas do seu repertório e tradicionais alentejanos e… a festa prosseguiu com o Vinho Tinto de Honra, acompanhado de queijinhos e enchidos alentejanos, ao som dos versos quase a despique por Rosa Dias e Mestre José Salgueiro. Foi um dia inolvidável! Não há palavras para descrever a pureza do momento! …
Como sublinharam alguns participantes no final, ao darem os parabéns aos organizadores desta importante realização, que esteve a cargo do CEDA e mereceu o apoio do Município de Montemor-o-Novo, da Casa do Alentejo e das Edições Colibri.

O Mestre
O Mestre José Salgueiro é uma força da natureza. É-o pela sua capacidade inata de, com ela dialogar, capacidade desenvolvida ao longo de quase nove décadas em que soube “ouvir” e “beber” os ensinamentos
O Mestre José Salgueiro é uma força da natureza. É-o pela sua capacidade inata de, com ela dialogar, capacidade desenvolvida ao longo de quase nove décadas em que soube “ouvir” e “beber” os ensinamentos
ancestrais da Mãe-Natureza e, que nos últimos 40 anos, a tempo inteiro, depois de abandonar a sua profissão de sapateiro, tem vindo a pôr em prática o que de melhor a Natureza nos sabe ofertar, quer através dos sabores divinos das suas ervas, quer enquanto alquimia de regeneração da Vida.



Mas a energia positiva que Mestre Salgueiro espalha em seu redor, reside muito numa prática saudável do que aprendeu a “ler” na Natureza, e que foi ao longo da vida apreendendo e desenvolvendo uma muito própria postura de preservação e respeito supremo pela Natureza, numa sábia co-habitação espacial com esta rica, diversificada e bela paisagem alentejana – que nos emociona e nos lava o olhar e a alma -, humanizada há milénios, num diálogo de tolerância e de respeito mútuo.

Nesta terra suave onde gosto de ir e de estar, onde gosto de ficar a contemplar o horizonte do cimo do seu Montemaior – concelho de onde o Mestre é natural, onde sempre viveu e vive – e do seu castelo, lugar mágico, de silêncio e reencontro. Terra que me encanta e apazigua, em comunhão plena e quase incestuosa com a Natureza, onde encontro pessoas muito especiais, amigos, patrícios do Mestre Salgueiro, praticantes exímios, também eles, deste diálogo permanente e apaixonado com a Mãe-Terra; e refiro-me ao Manuel Casa Branca que transporta para a tela o gesto indelével de coreografar o Montado e ao Alexandre Pirata e à sua paixão e prática de amante apaixonado das suas abelhinhas. Com eles já organizámos excelentes passeios campestres - o último dos quais com o Mestre Salgueiro - e certamente outros vão acontecer.


Homem dos sete ofícios, Mestre Salgueiro, “na juventude foi jogador de bola, músico e mestre de orquestra. Mas a actividade era tanta que ficou doente. Hoje é campeão de damas a que dedica parte dos dias, estudando lances. Este seu hobbie levou-o a percorrer o país participando no mais diverso tipo de torneios. A poesia popular é outro dos seus passatempos, descrevendo-nos as dificuldades dos tempos antigos, aos animais ou as forças da natureza – como o seu rio Almansor - ou ainda às plantas. Também aqui arrecadou diversos prémios em jogos florais ou jogos diversos através «dessas palavras tão fortes que muitos vão combater».
Ardente inimigo do tabaco publicou artigos em jornais sobre os perigos do tabaco. Defensor duma alimentação equilibrada diz que «não comer carne é um disparate pois o organismo precisa e assimila todas as substâncias ingeridas. Mas a carne deve-se comer apenas duas ou três vezes por semana». O que deve fazer parte duma alimentação saudável «não deve faltar diariamente são as saladas” que podem e devem ser feitas à base duma grande diversidade de plantas, muitas delas ervas espontâneas. Ainda sobre a alimentação diz-nos que começa o dia “tomando sumo de cenoura com duas colheres de limão», realçando ser este o pequeno almoço com maior riqueza vitamínica”, escrevíamos em 2005 na Revista Tempo Livre.
Ainda sobre o seu anterior e muito divulgado livro Ervas, Usos e Saberes – Plantas medicinais no Alentejo e outros produtos naturais – de que já saíram três edições, - escrevíamos nesse mesmo ano na Revista Memória Alentejana (nºs 15/16 – 2005)
“Da subtileza dessas coisas, milenares e únicas e invencíveis e frágeis como o canto do rouxinol, das ervas nos fala o Mestre, José Salgueiro, octogenário, com doutoramentos vários feitos no saber ancestral da terra ardente, dos humanos e das plantas…”

Mas não é para falar dessa tão rica e plural diversidade feita de forma tão peculiar – que chegou até fazer desenhos nas paredes, um auto-retrato em tamanho natural, como nos recordava recentemente, qual pioneiro avant-la-letre da arte dos graffitis. Fui encarregado da tarefa de escrever o prefácio deste livro de poesia Relatos de uma vida – quase um diário de oito décadas tal a diversidade cronológica que encontramos neste trabalho, embora a sua passagem para o papel não ultrapasse as duas décadas. Mas falar do Mestre Salgueiro Poeta, poeta popular que é, implica falar do Homem no seu tempo e no seu espaço, o Homem no seu todo, porque o Poeta, a poesia nasceu nesse contexto e nesse caldo de cultura, sem as vivências, a postura e as opções humanas e humanistas de José Salgueiro não haveria lugar para o poeta… ou havendo, para outro que não este poeta, autor deste livro que está nas vossas mãos.
Mestre José Salgueiro tem o dom inexcedível da palavra. Poeta da palavra. Da força e do poder da palavra, marcante e perene na tradição milenar mediterrânica. Poeta da escrita. Na sua poesia, dita popular, de forte componente temática popular, feita de uma grande diversidade com estrutura do tipo tradicional, com rima aparelhada ou cruzada, onde predomina a quadra, mas onde encontramos ainda quintilhas, sextilhas, décimas e redondilhas menores e maiores – respectivamente com sete, oito, doze ou catorze versos. Poesia eivada de um ritmo sincopado, por vezes quase vertiginoso. De um ritmo ao sabor da Vida, numa luta corpo a corpo, de suor e sangue. Poesia de combate. Poesia de Intervenção. Poesia, antes de mais, primeiro que tudo. De Salgueiro se pode dizer, como disse da sua poesia Mahmud Darwich, o «poeta nacional da Palestina», “Primeiro a poesia é poesia, e depois é que é poesia de resistência”.
A poesia de José Salgueiro é feita com rigor, a um ritmo cadenciado de quem sabe o valor de cada palavra e dimensão espacial e o sabor do som de cada palavra, apreendido pela intuição criativa e pelo autodidactismo da Vida.
Com um agudo sentido social, feito de uma vida dura e árdua ao longo de quase todo o século XX, nas mais duras condições como nos testemunha na sua escrita, feita também de desinquietação permanente, sempre atento e revoltado com as actuais injustiças, tem a clara lucidez de não confundir o alhos com bugalhos, e não vir dizer das injustiças e das pulhices institucionais dos dias de hoje “agora é pior do que no tempo do Salazar”, antes pelo contrário, “ o Salazar que foi o que mais mal fez aos pobres deste País”, como escreve na Nota de Abertura.

Preocupado e atento às questões que afligem a humanidade, cada poema é uma história renascida, desde a sua mais tenra infância – o mais longo, com 39 quadras e 37 sextilhas – onde nos relata a vida difícil da sua numerosa família nos tempos da infância – ou os malteses, até aos caminhos de um futuro mais harmonioso com que o Mestre anseia e nos transmite no “Diálogo entre o homem velho e o homem novo”, passando pela denúncia da destruição que os senhores da guerra vêem fazendo em tantas partes do mundo ou ainda as injustiças sociais que permanecem.

Poesia onde também o lirismo está presente, filiando-se porventura na nossa poesia lírica. Poemas de Amor, como “O Beijo” ou “Análise aprofundada sobre o Amor”, ou os poemas dedicados à memória do pai e da mãe, quando eles partiram, deixam-nos perceber o Menino que subsiste, não o menino ancião que o ciclo da vida fragiliza, antes o Menino-Homem renascido.
José Salgueiro, Mestre da Vida, Mestre da Poesia… ou simplesmente… o Mestre!
Ardente inimigo do tabaco publicou artigos em jornais sobre os perigos do tabaco. Defensor duma alimentação equilibrada diz que «não comer carne é um disparate pois o organismo precisa e assimila todas as substâncias ingeridas. Mas a carne deve-se comer apenas duas ou três vezes por semana». O que deve fazer parte duma alimentação saudável «não deve faltar diariamente são as saladas” que podem e devem ser feitas à base duma grande diversidade de plantas, muitas delas ervas espontâneas. Ainda sobre a alimentação diz-nos que começa o dia “tomando sumo de cenoura com duas colheres de limão», realçando ser este o pequeno almoço com maior riqueza vitamínica”, escrevíamos em 2005 na Revista Tempo Livre.
Ainda sobre o seu anterior e muito divulgado livro Ervas, Usos e Saberes – Plantas medicinais no Alentejo e outros produtos naturais – de que já saíram três edições, - escrevíamos nesse mesmo ano na Revista Memória Alentejana (nºs 15/16 – 2005)
“Da subtileza dessas coisas, milenares e únicas e invencíveis e frágeis como o canto do rouxinol, das ervas nos fala o Mestre, José Salgueiro, octogenário, com doutoramentos vários feitos no saber ancestral da terra ardente, dos humanos e das plantas…”

Mas não é para falar dessa tão rica e plural diversidade feita de forma tão peculiar – que chegou até fazer desenhos nas paredes, um auto-retrato em tamanho natural, como nos recordava recentemente, qual pioneiro avant-la-letre da arte dos graffitis. Fui encarregado da tarefa de escrever o prefácio deste livro de poesia Relatos de uma vida – quase um diário de oito décadas tal a diversidade cronológica que encontramos neste trabalho, embora a sua passagem para o papel não ultrapasse as duas décadas. Mas falar do Mestre Salgueiro Poeta, poeta popular que é, implica falar do Homem no seu tempo e no seu espaço, o Homem no seu todo, porque o Poeta, a poesia nasceu nesse contexto e nesse caldo de cultura, sem as vivências, a postura e as opções humanas e humanistas de José Salgueiro não haveria lugar para o poeta… ou havendo, para outro que não este poeta, autor deste livro que está nas vossas mãos.
Mestre José Salgueiro tem o dom inexcedível da palavra. Poeta da palavra. Da força e do poder da palavra, marcante e perene na tradição milenar mediterrânica. Poeta da escrita. Na sua poesia, dita popular, de forte componente temática popular, feita de uma grande diversidade com estrutura do tipo tradicional, com rima aparelhada ou cruzada, onde predomina a quadra, mas onde encontramos ainda quintilhas, sextilhas, décimas e redondilhas menores e maiores – respectivamente com sete, oito, doze ou catorze versos. Poesia eivada de um ritmo sincopado, por vezes quase vertiginoso. De um ritmo ao sabor da Vida, numa luta corpo a corpo, de suor e sangue. Poesia de combate. Poesia de Intervenção. Poesia, antes de mais, primeiro que tudo. De Salgueiro se pode dizer, como disse da sua poesia Mahmud Darwich, o «poeta nacional da Palestina», “Primeiro a poesia é poesia, e depois é que é poesia de resistência”.
A poesia de José Salgueiro é feita com rigor, a um ritmo cadenciado de quem sabe o valor de cada palavra e dimensão espacial e o sabor do som de cada palavra, apreendido pela intuição criativa e pelo autodidactismo da Vida.
Com um agudo sentido social, feito de uma vida dura e árdua ao longo de quase todo o século XX, nas mais duras condições como nos testemunha na sua escrita, feita também de desinquietação permanente, sempre atento e revoltado com as actuais injustiças, tem a clara lucidez de não confundir o alhos com bugalhos, e não vir dizer das injustiças e das pulhices institucionais dos dias de hoje “agora é pior do que no tempo do Salazar”, antes pelo contrário, “ o Salazar que foi o que mais mal fez aos pobres deste País”, como escreve na Nota de Abertura.

Preocupado e atento às questões que afligem a humanidade, cada poema é uma história renascida, desde a sua mais tenra infância – o mais longo, com 39 quadras e 37 sextilhas – onde nos relata a vida difícil da sua numerosa família nos tempos da infância – ou os malteses, até aos caminhos de um futuro mais harmonioso com que o Mestre anseia e nos transmite no “Diálogo entre o homem velho e o homem novo”, passando pela denúncia da destruição que os senhores da guerra vêem fazendo em tantas partes do mundo ou ainda as injustiças sociais que permanecem.

Poesia onde também o lirismo está presente, filiando-se porventura na nossa poesia lírica. Poemas de Amor, como “O Beijo” ou “Análise aprofundada sobre o Amor”, ou os poemas dedicados à memória do pai e da mãe, quando eles partiram, deixam-nos perceber o Menino que subsiste, não o menino ancião que o ciclo da vida fragiliza, antes o Menino-Homem renascido.
José Salgueiro, Mestre da Vida, Mestre da Poesia… ou simplesmente… o Mestre!
2 de jan. de 2009
DEIXEM A PALESTINA EM PAZ - A CRENÇA NA POESIA

Nas derradeiras horas de 2007, manifestava neste espaço a minha indignação pelo brutal assassinato de Benazir Bhutto. Um ano antes, precisamente no mesmo dia referia a minha revolta pelo sumária execução do ditador Saddam Hussein, pelos homens de mão do senhor Bush, líder internacional do terrorismo de Estado. Neste início do novo ano, assistimos a mais um inqualificável acto terrorista do Estado de Israel: em menos de uma semana mataram 400 pessoas e feriram mais de 1000 palestinianos. A desculpa é defenderem Israel de roquettes artesanais lançados pelos radicais do Hamas. A MNE isrealita – provável candidata a PM pelo actual maior partido governamental, em visita a Sarkozi no 1º dia do ano, mostrou-se indisponível para o seu governo negociar, com o argumento de que estavam “a defender os valores do mundo livre" era "uma questão de valores”, sublinhou.
Que valores? Que arrogância falar em liberdade, falar em valores, - quando acabam de condenar à morte 400 pessoas, e quanto mais serão? – Será que regressámos à barbárie das cruzadas que massacraram Jerusalém no Século XII?, será que regressamos ao espírito da Inquisição? será que regressamos ao espírito nazi?, espírito de destruição, de arrogância, de crimes bárbaros contra a humanidade, onde os dirigentes israelitas parece que tanto se revêem – e curiosamente une o espectro político: direita, centro e a suposta esquerda trabalhista. Em memória de tantos milhares de vítimas de genocídios como estes – e o último onde tantos judeus pereceram, entre muitos outros cidadãos - esta senhora devia ter tento na língua. Devia tentar perceber melhor a história da civilização urbana iniciada na Crescente Fértil há quase 15 000 anos, que no Mediterrâneo foi preservada ao longo de milénios e nas últimas décadas está a ser destruída – através da guerra, do saque – pela civilização ocidental, esta civilização com apenas 1000 anos de existência e que tanta destruição e morte causou já.
Estamos perante o confronto entre a barbárie e a tolerância. E se o Hamas - que já matou quatro israelitas com os bombardeamentos – “ é terrorista, porque de facto é, pratica o terror", ,” então o exército israelita, que mata famílias inteiras, não é terrorista?” com a desculpa de querer liquidar elementos do Hamas, como sublinhava Ângelo Correia na Televisão
.
Este é o terror organizado de que fala Sophia no poema “Vemos, Ouvimos e Lemos”. Esperemos que esses senhores, responsáveis por tantas mortes, tanta destruição, tanto terror, sejam um dia julgados - a começar por Bush - e condenados como aconteceu com os vencidos senhores da guerra da Jugoslávia. Julgados em nome dos valores da Vida, da liberdade, da democracia!
Mas este não é um post de tristeza, de resignação. Pelo contrário! Trazer aqui temas que pela sua actualidade e continuidade envergonham os Homens e as Mulheres que se reclamam de Liberdade Livre – que era a postura do Zeca Afonso, como também já aqui referi - é apenas a constatação de que é preciso continuar a lutar, diariamente, também com a nossa luta interior, para sermos melhores, pois só assim estaremos capacitados, para nos combates diários, espalharmos a bondade e a beleza no mundo, espalharmos a alegria e a luz.
Recordo-vos aqui, como foi importante para o meu percurso interior a peregrinação espiritual que fiz há poucos meses a Agmâte, ao mausoléu de Almutâmide e de Itimade, onde depositei duas rosas vermelhas do Amor. Aí soube da minha crença, da minha profunda crença. Eu que não sou católico nem muçulmano e que anteriormente, nos momentos de maior sofrimento e desespero pensava que seria mais fácil se acreditasse, porque pensava que não acreditava, soube após Agmâte com toda a clareza, que sou crente, crente na Poesia, crente no Amor, crente na Vida.
Talvez, como dizia a um amigo recentemente: - a minha religião seja a Poesia.
É pois com a serenidade que me construí nos últimos anos que ergo o estandarte da Poesia face à destruição, o estandarte do Amor face ao medo, o estandarte da Vida face à morte e vos deixo - um excerto de - um poema de Amor!
Este é o terror organizado de que fala Sophia no poema “Vemos, Ouvimos e Lemos”. Esperemos que esses senhores, responsáveis por tantas mortes, tanta destruição, tanto terror, sejam um dia julgados - a começar por Bush - e condenados como aconteceu com os vencidos senhores da guerra da Jugoslávia. Julgados em nome dos valores da Vida, da liberdade, da democracia!
Mas este não é um post de tristeza, de resignação. Pelo contrário! Trazer aqui temas que pela sua actualidade e continuidade envergonham os Homens e as Mulheres que se reclamam de Liberdade Livre – que era a postura do Zeca Afonso, como também já aqui referi - é apenas a constatação de que é preciso continuar a lutar, diariamente, também com a nossa luta interior, para sermos melhores, pois só assim estaremos capacitados, para nos combates diários, espalharmos a bondade e a beleza no mundo, espalharmos a alegria e a luz.
Recordo-vos aqui, como foi importante para o meu percurso interior a peregrinação espiritual que fiz há poucos meses a Agmâte, ao mausoléu de Almutâmide e de Itimade, onde depositei duas rosas vermelhas do Amor. Aí soube da minha crença, da minha profunda crença. Eu que não sou católico nem muçulmano e que anteriormente, nos momentos de maior sofrimento e desespero pensava que seria mais fácil se acreditasse, porque pensava que não acreditava, soube após Agmâte com toda a clareza, que sou crente, crente na Poesia, crente no Amor, crente na Vida.
Talvez, como dizia a um amigo recentemente: - a minha religião seja a Poesia.
É pois com a serenidade que me construí nos últimos anos que ergo o estandarte da Poesia face à destruição, o estandarte do Amor face ao medo, o estandarte da Vida face à morte e vos deixo - um excerto de - um poema de Amor!
Um poema, precisamente da autoria de Mahmud Darwich, considerado o Poeta Nacional da Palestina, um dos mais importantes poetas árabes contemporâneos, recentemente homenageado em Lisboa.

A Arte de Amar
"Com a taça engastada de azul,
espero-a
ao pé do tanque, das flores de madressilva e da noite
espero-a
com a paciência do cavalo selado para as veredas da
montanha,
espero-a
com o requinte do príncipe delicado e belo,
espero-a
com sete almofadas cheias de nuvens leves,
espero-a
com o fogo do incenso feminino omnipresente,
espero-a
com o perfume masculino do sândalo cobrindo o dorso
dos cavalos,
espero-a.
(…)"

A Arte de Amar
"Com a taça engastada de azul,
espero-a
ao pé do tanque, das flores de madressilva e da noite
espero-a
com a paciência do cavalo selado para as veredas da
montanha,
espero-a
com o requinte do príncipe delicado e belo,
espero-a
com sete almofadas cheias de nuvens leves,
espero-a
com o fogo do incenso feminino omnipresente,
espero-a
com o perfume masculino do sândalo cobrindo o dorso
dos cavalos,
espero-a.
(…)"
15 de dez. de 2008
Depois de uma correria pelas estradas de chuva, abro os vidros, os dois, e aspiro a plenos pulmões o cheiro terno do rio Degebe e.. depois de parar por breves olhando o Monte das Estevas, no sopé, como se fosse uma fábula, continuo até Barrancos, onde passo um serão memorável com os amigos autarcas - António Tereno, Isabel Sabino - o realizador Fernando Ruiz e os novos amigos António e Filmena. Num sábado bem frio saboreio os pratinhos com minúsculos copinhos de vinho com que os velhos se ocupam antes do almoço, faço-me de novo à estrada, agora acompanhado com o meu amigo Ruiz, poeta da imagem e dos afectos, que me segue no seu velho carro. Quando inicio a subida da encosta do Monte das Estevas tenho à minha frente um arco-íris como nunca vi, esplendoroso, que me espera, e antes de chegar ao sopé, de repente entro naquelas cores divinas... ao chegar ao cimo recordo o texto poético de Amadeu Baptista

"Uma fábula põe-nos os dentes a arder, ardentemente levantamos uma haste de paz que é o princípio e o fim de tudo, nestas ruas cinzentas, indagador, sei que poderei aproximar-me do lobo sem receio, há algo que sara as feridas, é agora que o cariz dos gritos explode na excelência do amor, a paixão avança, a escuridão se extingue na clareira para que a tesoura não volte a espetar-se no céu das nossas bocas.
Atravesso o deserto e amo-te, amo-te, o rubi com asas dentro que trazes no coração é uma fada protegendo-me, com desmedida volúpia acaricio os teus ombros, o corvo foge a toda a velocidade, a noite é muito longa mas nós não dormiremos, por esses cabelos luminosos é que o futuro chega, nos conduz ao litoral, nos leva até à criança que há em nós, esperemos que a criatura justa volte a nascer, os pequenos sonhos se façam realidade, a salvação, desta vez, seja total e definitiva."8 de dez. de 2008
Florbela
Às 2 horas da madrugada do dia 8 de Dezembro de 1894 uma mulher de condição humilde, de seu nome Antónia da Conceição Lobo, dá à luz, na Rua do Angerino em Vila Viçosa, uma menina. É um lindo bebé – tão lindo que alguém afirma mesmo: «É uma flor!», ao que a mãe terá respondido: «Flor se chamará…»

«Sou uma céptica que crê em tudo, uma desiludida cheia de ilusões, uma revoltada que aceita, sorridente, todo o mal da vida, uma indiferente a transbordar de ternura. Grave e metódica até à mania, atenta a todas as subtilezas dum raciocínio claro e lúcido, não deixo no entanto, de ser uma espécie de D. Quixote fêmea a combater moinhos de vento, quimérica e fantástica, sempre enganada e sempre a pedir novas mentiras à vida, num dom de mim própria que não acaba, que não desfalece, que não descansa!»
dirá, numa carta, datada de 27 de Julho de 1930, ao seu amigo italiano Guido Batteli
"És tu! És tu! Sempre vieste, enfim!
Oiço de novo o riso dos teus passos!
És tu que eu vejo a estender-me os braços
Que Deus criou pra me abraçar a mim!
Tudo é divino e santo visto assim …
Foram-se os desalentos, os cansaços …
O mundo não é mundo: é um jardim!
Um céu aberto: longes, os espaços!
Prende-me toda, Amor, prende-me bem!
Que vês tu em redor? Não há mim!
A Terra? – Um astro morto que flutua …
Tudo o que é chama a arder, tudo o que sente.
Tudo o que é vida e vibra eternamente
É tu seres meu, Amor, e eu ser tua!"
19 de nov. de 2008
Outubro e o arabismo português

No passado mês de Outubro, a par de um conjunto de interessantes iniciativas, como uma semana luso-marroquina que decorreu em Silves - “Marrakech visita Silves”, ou um colóquio na Faculdade de Letras sobre a Argélia –que contou com uma interessante exposição patente na átrio da dita faculdade, houve dois acontecimentos marcantes que gostava de destacar.
O Prof. António Borges Coelho, o arabista português da actualidade, que desde há quatro décadas foi o pioneiro do arabismo português contemporâneo, foi homenageado no passado dia 7, no Espaço Tejo, antiga FIL, pelo jornal Monde Diplomátique , que em tempos dirigiu, a que aderiram algumas centenas de figuras da cultura, do meio académico, literário, sindical e da política portuguesa, onde esteve toda a esquerda portuguesa, nomeadamente a informada e a culta, e ainda de cidadãos anónimos, como é o nosso caso. Numa Festa bonita e fraterna, Borges Coelho, o professor apaixonado, o homem fraterno e o cidadão empenhado foi, após uma introdução da Sónia, da direcção do jornal organizador, Cláudio Torres, a propósito da recentemente edição de Portugal na Espanha Árabe pela Editorial Caminho, essa obra pioneira e decisiva do encontro com o nosso passado mediterrânico – falou-nos de como o Mestre, também se, “associou um projecto político de reabilitação dos vencidos, enquanto legado da cultura mediterrânica, esse mundo activo e dinâmico, sociedade tributária por excelência em posição ao Norte feudal que acabou por vencê-lo devido à desagregação politica do califado. Falou-nos de como o que possibilitou Mértola se iniciou com esse livro e de como a geração que em 74 frequentava a Faculdade de Letras foi uma geração diferente, que iniciou a experimentação muito completa da liberdade. E de como esses jovens profs. levaram centros de apoio a estudantes em Beja, Algarve, e Açores, ou ainda como foi possível em Portugal, depositário dessa herança trazida do Mediterrânico pelo Islão, acontecer a Expansão, capitaneada por uma nova classe social que em Lisboa estava a tomar o poder, e de como ele e Borges Coelho aprenderam mutuamente”

O Mestre homenageado, visivelmente emocionado, passou em revista períodos decisivos da sua, não deixando de evocar a dignidade e a coragem de presos políticos com quem privou, pois foi um deles, mas teve sempre uma perspectiva de futuro, um olhar positivo e o encarar a vida com alegria, mas nas condições difíceis, e a necessidade de nos opormos ao medo e à violência. Uma mensagem poética de fraternidade e de humanismo nos deixou, ele o historiador-poeta.

Na semana seguinte Adalberto Alves, arabista que na esteira de ABC, tem-nos desvendado os grandes poetas luso-árabes, era distinguido pela UNESCO, o poeta, ensaísta e tradutor português, autor da obra emblemática, o Meu Coração é Árabe, vai receber 22 mil euros, o valor do prémio Sharjah para a Cultura Árabe, o mesmo acontecendo ao egípcio Gabel Asfour, director da Fundação Nacional no Cairo. Adalbero Alves, director do Centro de Estudos Luso-Árabe de Silves, revelou que a verba vai ajudar a financiar uma enciclopédia que aguardava apoios que se realizar.
Aos dois Arabistas, aos dois Amigos, as mais sentidas e fraternais saudações e um grande abraço.
2 de out. de 2008
Encontro com o Mestre

Um encontro com Cláudio Torres é sempre um momento fascinante, de um grande, enorme prazer. Recordo, relatado aqui nestas páginas um encontro com Cláudio Torres, precisamente no dia 8 de Março de 2007. De várias horas, um dia inteiro, quase. Ou aquele outro, em Badajoz, no II Encontro Transfronteiriço de Revistas de Cultura, em Novembro passado. Ontem encontrei-me de novo com o Cláudio Torres, o Amigo, o Mestre. Em Março passado tinha-o apelidado de um dos (muito poucos) sábios do nosso tempo. Depois deste encontro relativamente breve mas indescritível, reafirmo-o.
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O Encontro deu-se em sua casa em Lisboa seguido de um jantar memorável. O Cláudio é um mestre e um sábio, não só pelo que sabe, mas também pela paixão, pelo entusiasmo que põe, com que nos transmite cada palavra, pelos mundos novos que nos abre, que surgem com as suas palavras afectuosas e apaixonadas, de cada vez que temos esse prazer único de ficarmos a ouvi-lo, a lançar-lhe questões… mas o Cláudio é um mestre e um sábio, genial também pelo entusiasmo com que vive, que se deixa seduzir e aceita e adere, e digo-o com toda a humildade, aos nossos projectos sobre o Al Mouhatamid ou mesmo nas sugestões para a tese de doutoramento, nas alterações, nos caminhos a apontar e a corrigir.
Desse mundo irresistível, onde na Península se fez a apologia do poder através da beleza, da poesia, desse mundo mediterrânico onde a poesia e o vinho andavam de mãos dadas, desconhecido para almorávidas e almóadas e infinitamente diferente de Norte cristão, pobre, austero, demasiado frugal, espartano, desse mundo onde as antecâmaras do poder eram feitas de seda, jasmim e pedras preciosas… desse mundo onde a quase totalidade da população era moçarabe ou muladi, aqui no Gharb - os actuais alentejanos, algarvios, saloios, ribatejanos, até uma parte dos beirões mais ao Sul, ou no Gharb aqui ao lado, irmão, do outro lado do estreito, por onde Hércules terá passado - desse (nosso) mundo maravilhoso e tão próximo onde os poetas luso-árabes nos falam do que nos é mais caro como o Amor pleno e total, a Beleza infinita dos seres e da Natureza, a Liberdade desmesurada da Vida, nas falam da Terra, do Mar, do Sol e do luar.
Desse mundo irresistível, onde na Península se fez a apologia do poder através da beleza, da poesia, desse mundo mediterrânico onde a poesia e o vinho andavam de mãos dadas, desconhecido para almorávidas e almóadas e infinitamente diferente de Norte cristão, pobre, austero, demasiado frugal, espartano, desse mundo onde as antecâmaras do poder eram feitas de seda, jasmim e pedras preciosas… desse mundo onde a quase totalidade da população era moçarabe ou muladi, aqui no Gharb - os actuais alentejanos, algarvios, saloios, ribatejanos, até uma parte dos beirões mais ao Sul, ou no Gharb aqui ao lado, irmão, do outro lado do estreito, por onde Hércules terá passado - desse (nosso) mundo maravilhoso e tão próximo onde os poetas luso-árabes nos falam do que nos é mais caro como o Amor pleno e total, a Beleza infinita dos seres e da Natureza, a Liberdade desmesurada da Vida, nas falam da Terra, do Mar, do Sol e do luar.

Sentam-se connosco à mesa e estão vivos e vivem e amam hoje, como há mil anos o fizeram porque se espelham na sua Poesia perene bela e poderosa que iniciou a lírica portuguesa, mas que ao mesmo tempo vive hoje com tal intensidade como se tivesse sido escrita, cantada, dita agora!... actual e eterna!...
24 de ago. de 2008
Leãozinho
5 de jul. de 2008
Jornada em Serpa, a Vila Branca e Evocação de Al Mouhatamid em Baja, a luminosa


Foi no dia 6 de Junho. Quarenta e oito horas depois de um recital no Feira do Livro de Évora, Praça Giraldo, com os companheiros Francisco Naia, Ricardo Fonseca e José Carita, numa noite por sinal bem fria, percorríamos agora velozes o Alentejo a Sul, e passávamos à desfilhada frente ao castelo altaneiro com a maior torre de menagem, a capital da planície, a luminosa, a radiosa que é exactamente o significado do topónimo Baja – a designação no período islâmico, depois de ter sido a Pax Júlia romana…Dirigíamo-nos para a Vila Branca, a suave Serpa, uma estivemos numa tertúlia organizada pelo amigo Paulo Barriga – poeta, jornalista, crítico literário no Diário do Alentejo… naquele espaço mitíco que um outro amigo, Luís Afonso, o cartoonista um dia baptizou com o belo poema de Sophia, que um outro amigo, o Francisco Fanhais cantou como canta o rouxinol “Vemos, Ouvimos e Lemos”. Pois é, é a VOL, onde no pátio interior, tipicamente mediterrânico, onde foram chegando amigos e ficamos, pela noite, esta bem quente, e desafiar o Naia a cantar mais uma, e ele a entusiasmar-se e… o que se previa ser um excerto do recital de dois dias antes, que dura quase duas horas, durou quase quatro… começaram a chegar amigos… 
o João Mário Caldeira que apresentou esta 3ª edição livro em destaque Canto de Intervenção- 1960-1974, o Bartolomeu Afonso, autarca em Aljustrel e pai do Luís, o Pedro Mestre, o jovem mas já mestre; tocador, construtor e divulgador da viola campaniça, a mesma viola que o Ricardo Fonseca dedilhou ao anoitecer com um som mágico e o cheiro de flor de estevas – ouvir tocar viola campaniça faz-me chegar o sabor, o cheiro inconfundível da flor de esteva – o Ricardo que esta a fazer um percurso muito rico interessante com a viola campaniça, explorando-a, estilizando-a, quase como se fosse um alaúde, ele que aprendeu a tocar um dia a dar aulas em Almodôvar, a terra daquele amigo artesão que fez questão de ir ou… aquela amiga que conheceu o Naia há mais de 25 anos num recital no Canadá e… veio dar-lhe um abraço…




... foi bonito voltar a estar naquele espaço que visitei a primeira vez há 5 anos, em plena “Manifesta”, numa tarde bem quente de suão; um grupo de amigos a refrescarmo-nos com todas aquelas cervejas estrangeiras que o Luís (Afonso) disponibilizava, e… muito perto de mim, quase lhe saboreava o cheiro, uma mulher linda, a mulher mais bonita do mundo…Outra agradável surpresa foi o alojamento: a casa antiga e bem familiar e bem alentejana – a “Casa de Serpa”, logo no outro lado do largo… e o regresso logo ao final da manhã, a coração a dizer saudade, tanta vontade de ficar, tanta…


...que logo na semana seguinte, exactamente sete dias depois, também ao cair da tarde não resisti e… percorri os 28 quilómetros entre a cidade luminosa e… Vila Branca… mas antes parei demoradamente na ponte que atravessa o grande rio do Sul, o belo Guadiana e… levei o meu pai, que me acompanhava, e ver a velhinha ponte lá em baixo, por onde passava o comboio para Pias e Moura e, depois passavam os carros… foi há mais de 30 que o meu pai me levou lá, talvez em 1975, no período da Reforma Agrária, das ocupações, as azeitonas ficaram por apanhar naquela colina e… foram oferecidas penso que aos ferroviários. Tinha acompanhado o meu pai a Pias, onde ele se ía abastecer de azeite e, no regresso, descemos naquela apeadeiro e ali ficamos a apanhar azeitonas …, foi um dia memorável para mim! Teria talvez 12 anos. 33 anos depois voltamos aquele lugar mágico e o meu velho pai, nervoso e doente momentos antes ficou sereno ao ver o pôr do sol naquele ponte nova sobre o Guadiana e… depois levei-o a Serpa, linda, cheia de luz, branca ao anoitecer, levei-o a beber uma imperial, a melhor imperial do mundo, no “Lebrinha”...



…antes tínhamos estado no Congresso do Alentejo, agora tem outro nome, mas para o menino que voltou à ponte do Guadiana, é … será sempre o Congresso do Alentejo!


Numa comunicação breve que apresentámos, intitulada "CEDA e Memória Alentejana : Espaços de Valorização da Memória" evocámos a grande figura do poeta-rei, o bejense Al Mouhatamid, nascido talvez ali ao lado do belo Pax Júlia… citamos um excerto, com que terminamos, onde justamente se evoca a figura do poeta-rei:
“Depois de Monforte e de Montemor-o-Novo este é o terceiro Congresso do Alentejo em participamos – depois de quase um dezena de participações anteriores - enquanto Centro de Estudos Documentais do Alentejo – Memória Colectiva e Cidadania e enquanto Memória Alentejana. A designação do Congresso não é, para nós, relevante, seja Alentejo XXI, seja sobre ou do Alentejo, isso pouco diferença faz. Para nós é, como sempre foi, o Congresso do Alentejo, da grande Pátria do Sul, ou se, quiserem, da Mátria Alentejana – terra de Liberdade e de esperança, catedral do Cante, do vinho, do pão, do queijo e do silêncio, Pátria do sonho e da beleza ancestral em todo este vasto território, paisagem humanizada ao longo de milénios por onde passaram as grandes civilizações vindas do Mediterrâneo, que acolheu príncipes e plebeus, nomeadamente quando Portugal, porque usufruindo e valorizando todo o legado civilizacional anterior, liderava esse grande processo histórico que foi a Expansão Marítima, onde capitanearam alguns filhos do Alentejo, e falo de Vasco da Gama, ou até, porventura de Colombo.Todo o vasto Património, quer seja imaterial, quer seja construído, histórico – os cacos como lhes chama Cláudio Torres atesta esse passado rico e diversificado – como revelam a passagem dos povos que da bacia mediterrânica navegavam até Mértola – então “o último Porto do Mediterrâneo” para trocarem o nosso minério e artesanato pelas especiarias. Mas o fulgor fez-se de comércio mas fez-se também de poesia, de pensamento. Como não recordar aqui hoje o grande figura do maior poeta luso-árabe – Al Mouhatamid Ibn Abbâd – nascido nesta grande urbe, em 1040, provavelmente aqui ao lado, na Casa dos Corvos, já desaparecida. Ele e mais de meia centenas de grandes figuras das letras que viveram no nosso território entre os sécs XI e XIII, portanto no dealbar da nacionalidade, foram os fundadores da génese da nossa lírica, tanto a nível da estrutura como temático, e tiveram a sua continuidade em D.Dinis, na lírica Camoniana, em Bernardim Ribeiro – natural do Torrão, Alcácer do Sal até chegarem a Fernando Pessoa, que diz em determinado trecho sobre a Ibéria e o Iberismo, talvez duma forma excessiva, mas muito acertada:
Nós Ibéricos, somos o cruzamento de duas civilizações – a romana e a árabe. Somos, por isso, mais complexos e fecundos… Vinguemos a derrota que os do Norte infligiram aos Árabes nossos maiores. Expiemos o crime que cometemos, ao expulsar da Península os árabes que a civilizaram
Este bejense ilustre, que foi Rei em Sevilha, governando a mais importante Taifa de então, figura nas Mil e Uma Noite porque é de facto um grande poeta como se pode apreciar neste breve e poderoso poema, justamente intitulado,
Poder

Podermeu olfacto é teu odor delicioso
e o teu rosto o senhor dos olhos meus
por seres minha, mesmo depois do adeus
é que todos me chamam poderoso

embora tenha sofrido as consequências da sua tolerância governativa – fez acordos com os príncipes cristãos e uma filha sua – a princesa Zaida casou com Afonso VI de Leão e Castela, avô de Afonso Henriques. Al Mouhatamid acabou vencido pelos Amorávidas que não lhe perdoaram a tolerância religiosa e morreu no degredo em Aghmat, a Sul de Marraquexe, qual D. Sebastião, mas governou com a sabedoria D. João II, o Príncipe Perfeito ou com a justiça de D. Pedro ou a eloquência de Dinis ou de D. Duarte.Porque estão estas figuras e o seu tempo esquecidos, sonegados da nossa Memória?... não obstante o excelente trabalho que na esteira de António Borges Coelho, Cláudio Torres, Santiago Macias e outros têm desenvolvido no âmbito do Campo Arqueológico de Mértola – com grande prestígio internacional - e inclusive a sua revista Arquelogia Medieval, das mais conceituadas a nível europeu. Isto para não falar de todo o trabalho de Adalberto Alves, que nos devolveu a beleza da grande produção poética de então, génese da nossa lírica, ou o estudo e revitalização da construção em Taipa, entre outros, pelo arquitecto José Alberto Alegria, actual cônsul de Marrocos no Algarve.”
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