31 de out. de 2012

Viva o 5 de Outubro! Não desistiremos!



Foi com este título, que mantemos, que publicámos, na edição de Outubro, a crónica mensal que assinamos no jornal Folha de Montemor. Este poste, no essencial, corresponde á referida crónica.
Para que conste!


Por estes dias foi-me dado contemplar a estátua de Afonso Henriques, com o seu olhar majestoso naquela elevação entre os campos planos de Beja – os famosos barros de Beja, os mais ricos da Europa – e a zona serrana que que culmina a sudoeste com a serra de Monchique, que há mais de 850 anos, com a sua sagacidade a percepção alargada do mundo fundou um novo reino com futuro.  Esse homem com sangue Borgonha mas também com o do seu avô Afonso VI, que antes de ser o chefe cristão todo poderoso que pus o al-Andalus a ferro e fogo, viveu na Toledo muçulmana. Já Homem maduro, Afonso VI acolheu na sua corte a bela princesa Zaida que acabara de assistir à morte do príncipe sua marido em Sevilha  e à prisão e desterro para o Sul de Marrocos do seu sogro, o Poeta-rei, Almutâmide, às mãos  do implacável chefe almorávida Yusufi. Afonso VI que tantos acordos e batalhas travara com Almutâmide - este derrotara em Zalaca num contingente com Yusufi – e vira o seu braço direito, Poeta e grande amigo Ibne Amar vencê-lo no célebre jogo de xadrez onde Amar apostou o reino do seu senhor e conseguiu que o cristão levantasse o cerco de Sevilha.Certamente  Afonso era um homem de palavra e também de paixões, pois enamorou-se pela bela Zaida, que lhe deu o único filho varão, o infante Sancho, que ainda muito jovem, morreu às mãos do almorávida em Uclés.

Poderá parecer estranho falarmos de Afonso Henriques e do contexto histórico da nacionalidade numa crónica supostamente sobre o 5 de Outubro. É que, como os revolucionários de 1910 fundaram um novo regime, Afonso Henriques, foi um revolucionário para o seu tempo – a sua instalação em Coimbra e os seus homens de confiança, “o seu bando”,  cavaleiros-vilãos originários da baixa nobreza, muitos deles de ascendência moçárabe, possibilitou-lhe a compreensão de que um novo país só era viável com a complementaridade do Norte e do Sul.  A sua capacidade negociadora permitiu-lhe sitiar Lisboa mas também  impedir o massacre da população de Lisboa -  o que conseguiu parcialmente – face a um poder militar superior ao seu dos cruzados que o “ajudaram assim como o acordo de não agressão mútua que terá estabelecido com Ibne Qasî – na altura senhor de Silves e Mértola e com estátua nesta vila-museu.

Isto faz de Afonso Henriques, não o cruel e sanguinário mata-mouros, com a ideologia ultramontana salazarista o apelidou, mas um Homem moderno para o seu tempo, mais do que um guerreiro, um diplomata sagaz e inteligente, com visão mais alargada que a dos Infanções e Ricos-Homens, seus poderosos súbditos, de quem se “libertou” ao se instalar em Coimbra, lançando os alicerces da fundação da nação portuguesa. 

A República e a (primeira) greve  geral de 1912

O regime que emerge em 1910, apesar de debilidades várias e herdeiro de um regime monárquico-liberal destroçado - onde uma alternância entre Regeneradores e Progressistas afundara o país, que muitas semelhanças encontramos nos últimos anos do actual regime  -, ainda assim houve enormes transformações: na igualdade formal de todos perante a Lei, leis da Separação da Igreja e do Estado (Registo Civil obrigatório) , do Divórcio,  da Família, no Ensino (implentação da instrução pública desde o pré-primária aosuperior - Universidades de Lisboa e do Porto), na reanimação da vida cultural e grande desenvolvimento da associativa, liberdade de imprensa ou possibilitando o desenvolvimento do movimento operário e sindical que vai impor legislação laboral importante (descanso semanal obrigatório, assistência social); todavia insuficiente face à emancipação social das classes mais desfavorecidas, o que gerou tensões e confrontos com o operariado -  Greve dos Conserveiros  (Setúbal, Março de 1911) e dos Assalariados Rurais (Évora e parte do Alentejo, Montemor-o-Novo incluído, Janeiro de 1912) e que motivou a primeira greve geral e o divórcio entre o operariado e a República, pois fora das grandes cidades, no seio dos republicanos, dominavam forças conservadoras ligadas à alta burguesia agrária e industrial, que não viam com bons olhos  a as reivindicações e estas reformas, depois anuladas por Salazar e que só vieram a ser reconquistadas em 1974 e… hoje correm novamente perigo…

"Afonso Costa, um talentoso estadista" 

 Ainda assim , conforme nos refere João Honrado, um dos mais respeitados antifascistas portugueses (passou 14 anos nas prisões salazaristas devido a sua militância comunista) numa Conferência que proferiu em 1985 na Universidade de Frankfurt-am-Main e depois publicado Associação de Municípios do Distrito Beja em 1994 com o título 25 de Abril de 1974. Um Pouco de História da Nossa História (disponível na Biblioteca Municipal), uma interessante análise com uma objectividade surpreendente, onde alia umarigorosa investigação com uma vivênciainvulgar, nomeadamente do terceiro quartel do século XX português. Mas, a respeito da República, diz-nos João Honrado: “O Chefe do Partido democrático, Afonso Costa, era um talentoso estadista e possuía uma enorme capacidade de acção, «muito acima do pessoal político do novo regime». Antifascista antes do fascismo, em 1913 presidia ao Governo e conseguiu durante algum tempo parar a anarquia administrativa e equilibrar o orçamento, a desastrosa situação herdada da monarquia. A oposição dos outros partidos crescia, ao mesmo tempo que o apoio popular se desenvolvia à volta do Partido Democrático.”

Hoje, face à situação actual de destruição e desnorte, perante a crescente perca da independência nacional é chegado o momento de honrar figuras históricas como as referidas, ou outras como D. João II – o “Princípe Perfeito”, ou o povo anómino, os “sem história”, mas que, com a sua adesão entusiástica, transformaram interesses palacianos e corporativos em amplos movimentos e revoluções com repercussões nacionais, europeias e até mundiais, como “1383”, a Expansão Marítima, o “5 de Outubro” ... ou o "25 de Abril"!

Liberté, Égalité, Fraternité

Saibamos e tenhamos a lucidez e a sapiência de, secundarizando as diferenças,  Alentejanas (os) e Portuguesas (os)  que se identificam com os mais nobres valores como os que nos ficaram da Revolução Francesa : “Liberté, Egualité, Fraternité”, dizer basta aos indivíduos incapazes e sem escrúpulos, que dia após dia estão a vender o país ao emergente imperialismo alemão – que até nos impõem a morte prematura de doentes sem cura possível para racionar os medicamentos, perspectiva que lembra as câmaras de gás hitlerianas, com que a que médicos sem escrúpulos se prestaram a pactuar.

Mas se nós, cidadãos, temos esse dever sagrado de defender valores e políticas que possibilitem vivermos com dignidade e haver um futuro para os nossos descendentes, os partidos e as forças políticas, sociais e sindicais, que podem ser a alternativa, têm também a grande responsabilidade de, não perdendo as suas características, saibam encontrar consensos, porventura alargados, democráticos e necessariamente de esquerda para se encontrar um rumo para se voltar aos ideais do 25 de Abril e à Constituição da República Portuguesa, literalmente rasgada, pelos muitos “incapazes” e oportunistas, no Governo, no aparelho de Estado, em várias estâncias, com cargos efectivos e/ou camuflados, têm corroído o regime democrático, que hoje, em Outubro de 2012, caminha a passos largos para a destruição.
Há que encontrar a convergência e salvar o regime democrático antes que seja tarde. Termino transcrevendo um excerto, que numa muito recente investigação nos Arquivos da PIDE, na Torre do Tombo,  tive acesso (jornal Avante! ano 30- Série VI  nº 293 / Setembro de 1960), intitulado 

“Viva o 5 de Outubro! Viva a unidade anti - fascista!
(…)Ao passar o 50º aniversário da Revolução republicana, o «Avante!» saúda calorosamente todos os lutadores anti- fascistas sem distinção e apela para a unificação de todas as forças democráticas na luta por um regime de liberdade.  Unidos fraternamente e ligados ao povo, tal como os revolucionários do 5 de Outubro, os anti- fascistas alcançarão a vitória!”
Pois é…52 depois, que actualidade encontramos neste apelo!...

... e que a Revolução do 5 de Outubro continue a ser dignificada e comemorada por quem assim o entender; e a ser correctamente divulgada aos mais jovens o avanço civilizacional que significou a República face à Monarquia constitucional ... e o retrocesso que aconteceu com a ditadura salazarista

20 de set. de 2012

O Primado da Amizade...



...
regressei hoje de uma praia deserta... poderia ser Tânger... mas seria lá mais para o Sul... el-Jadida, Agadir... ou na costa Mediterrânica, onde um dia às portas de Cartago recebi um ânfora com vinho do al -Andalus em troca do livro mais valioso que eu conservara depois do incêndio de Alexandria... cena que se repetiu mais de mil anos depois, numa noite de vinhos voadores num bar que depois se tornou - e quando lá torno sinto-me em casa - um espaço de fraterna partilha, a "Galeria do Desassossego" do meu Amigo Jorge Benvinda, na Baja actual, local onde, nessa noite conheci um Homem que me pediu um livro e em troca, me ofereceu um garrafa de vinho, especial, disse ele, da Andaluzia; aceitei aquela proposta "milenar" e ele, um bebedor activo e praticante - eu, ao lado dele sou um principiante em verde infância - talvez por isso se chame Dionísio... ficou radiante
perdi-me... coisa que nunca aconteceu no mar que eu fiz meu, guerreiro vindo talvez de outras latitudes, ou não, renascido na minha Fenícia natal - tenho tão presente o cheiro e a sombra dos frondosos cedros que ainda perduram no Líbano actual - navegando até Cartago e depois ao al-Andalus... onde estou agora... e desde esta longa ausência, desde Março, desde a homenagem ao Zeca, tinha mil novidades... tantas coisas para contar... mas seria demasiado exaustivo... falo-vos apenas do Roque, o meu menino guerreiro que este ano levei a ver os moinhos de vento no costa Alentejana, a ver o mar azul turquesa do Pessegueiro, a acampar...


 ou da Nova Antologia de Poetas Alentejanos que inclue 50 Poetas contemporâneos oriundos/radicados em 25 concelhos Alentejanos e 15 na Região de Lisboa. 
Lançada nas II Jornadas Literárias de Montemor-o-Novo - A Poesia da Terra em  Monte Maior - em finais de Maio, já conheceu nove apresentações com música, canto, poesia, artes plásticas, etc - como a que é aqui referida, precisamente em Montemor - respectivamente em Almada (2), Beja (2), Sines, Évora, Alvito, Montemor e Sacavém (24ª Semana Cultural da Liga dos Amigos da Mina de S. Domingos)... e amanhã na SPESXVIII, em Alcântara, de que em breve vos daremos conta...


... desta Antologia e sua sessão em pano de fundo se construiu a última crónica, esta semana publicada na Folha de Montemor, onde também se fala do Convento dos Capuchos, da Noite Branca em Badajoz e de um Amigo, um grande Amigo que partiu... João Caeiro

A Poesia na Feira da Luz
 ou
O Primado da Amizade



1º Quadro 
Partimos de Almada, mais precisamente do Convento dos Capuchos, mais precisamente miradouro natural onde pode deixar o olhar saborear esta parte da costa em meia-lua, entre a Costa do Vapor - com o Forte  do Búzio defronte - e o Cabo Espichel . Aqui, esteve até final de Agosto uma exposição de artistas naturais ou radicados no Alentejo, e nomeadamente montemorenses e/ou ligados às Oficinas do Convento; uma intervenção criativa intitulada “Ressonâncias”, com a participação de Virgínia Fróis, José Manuel Rodrigues, Sara António Matos, Tiago Fróis e Sara Navarro.

2º Quadro
No dia seguinte, no Pavilhão da Feira do Livro, em plena Feira da Luz 2012, a Poesia acontece. A Poesia especificamente feita por Poetas que perseguem a beleza através da palavra escrita, não a poesia da Vida, os momentos em que um par de apaixonados trocam olhares embevecidos, ou até lábios, pele, cheiros, sabores, ou ainda momentos colectivos de fruição musical ou de outras criações artísticas, ou a convivialidade da Amizade pura e fraterna, o que também é Poesia. Não, a Poesia dos Poetas, que escreveram, para serem lidos para serem cantados, ou as Imagens que que são o côncavo do convexo, ou o convexo do côncavo das Palavras.
Nuno (do Ó), com a sua excelente voz cantou Pessoa  e, tal como a Arlinda (Mártires), encantou; ela com a subtileza vocal da palavra dedilhada na guitarra clássica do Carlos (Bull),  a Margarida (Morgado) disse e voltou a dizer a Poesia que adora e saboreia como poucos. A Manuela (Rosa) de como participou no projecto fazendo a pesquisa em Bibliotecas e Juntas de Freguesia na região (Alentejo central), o Manel (Casa Branca) falou da forma como construiu a esteva – símbolo do Alentejo, respeitando o branco natural da flor e como nos introduziu e possibilitou a partilha ao seu mundo muito pessoal e íntimo do seu Diário Gráfico - assim da sua experiência recente por Terras do noroeste da Península, pois tinha regressado nessa mesma tarde da Galiza, vindo directamente para a sessão - e de como nos abriu o seu atelier, realçando a importância da amizade.
 A Amizade, fraterna Amizade que ali estava a acontecer com aquele grupo de Amigos, algo que não foi pensado, organizado, premeditado, mas que “aconteceu” ao longo destas oito sessões em que Amigos diversos, mas a maior parte, que se conheceram e desenvolveram essa fraterna comunhão por causa e através desta Antologia. Assim, informalmente surgiu esta Tertúlia de Amantes da Poesia - de dizer, de cantar, de desenhar Poesia e, esse é certamente um dos aspectos mais importantes que ao longo das sessões de divulgação começou a surgir - a par da sua importância literária, do papel fomentador da auto-estima e agregador da criação poética que esta obra tem em 2012 ao juntar 50 Poetas Alentejanos contemporâneos.
A construção da fraterna Amizade por estes Amantes da Beleza, que em Montemor-o-Novo, na Feira da Luz deste ano partilharam com todos os Amigos presentes, por exemplo: a Hortência Menino, vice-presidente e representante do Município, os responsáveis máximos das Freguesias da Cidade, António Danado e Vitalina Roque Sofio, os responsáveis da Cultura do Município, Luís Ferreira e da Biblioteca, Elvira Barrelas e as suas colegas ou o velho companheiro de várias jornadas e muitos “Passeios Campestres”, Alexandre Pirata. O primado da Amizade aconteceu nesta sessão na Feira da Luz.

 
3º Quadro
E Setembro começava, no dia seguinte, com uma ida a Badajoz. Motivo:  uma visita à Noite Branca”, que aconteceu naquela cidade transfronteiriça, organizada pelo Ayuntamiento local que pôs num grande bulício o casco histórico, com muitas dezenas de espaços abertos até às 04.00 horas, performances a acontecerem nas principais praças e ruas de Badajoz, denotando aquele característica frenética, muito peculiar de “nuestros hermanos” e tão pouco usual em terras lusas…
Rumámos então, a convite e na companhia do Amigo Manel (Casa Branca) e da Manuela para o atelier da pintora Clara Báez Merino, sito na calle Donoso Cortés, 12, bajo, onde se procedia aos preparativos finais da exposição “Trans”, transposição de fronteiras transparentes, com a participação de 10 autores plásticos portugueses e espanhóis, onde M. Casa Branca representava o Alentejo com o título elucidativo“Transtagana”, ou a Sul do Tejo.

João Caeiro…
A escrever sobre o Primado da Amizade, tão essencial e insubstituível tal como os Primados da Liberdade e da Beleza e, de repente sou surpreendido com uma notícia brutal, um Amigo que parte, um Amigo das Brotas, João Caeiro, um daqueles Amigos que despe a camisa se alguém tem frio… estivemos juntos  - na direcção da Casa do Alentejo - no pelouro da Cultura , na fundação do CEDA, no Encontro do CEDA em Mora e nas Brotas, em momentos únicos na sua Terra natal, em Monforte, em Reguengos, em Montemor, em tantos locais e situações;  ele que foi também a alma do Núcleo dos Amigos do Concelho de Mora. Incansável, sempre presente na defesa dos mais nobres valores, fossem no colectivo ou individualmente. Há gestos que não esquecem e o João teve-os quando a Amizade nos reconforta. Ao João Caeiro, presto aqui a minha singela Homenagem, Homem como exemplo maior do Primado da Vida. Tentaremos sempre estar conforme a tua elevada postura de humanismo, rigor e verticalidade!
Até sempre, Amigo!...  

20 de mar. de 2012

A Palavra precisa de Ternura! Zeca Afonso, sempre!


"A Palavra precisa de Ternura!"
                   Academia de Santo Amaro
                             dia 23 de Fevereiro de 2012
                                   (a dado momento registei estas palavras de) Hélder Costa


No passado dia 23 de Fevereiro, durante mais de cinco horas, ininterruptamente passaram pelo palco – que foi pequeno, tal como a plateia – da Academia de Santo Amaro, em Alcântara – dezenas de músicos, cantautores, compositores, coralistas, diseurs, para lembrarem José Afonso, exactamente 25 anos após o seu desaparecimento físico. Organizado pelo núcleo de Lisboa da Associação José Afonso, o apresentador “serviço” foi o Amigo Hélder Costa, autor e encenador natural de Grândola, - responsável pela primeira actuação do Zeca em Grândola, em 1964, que posteriormente originou o tema símbolo da Revolução de Abril – que, com grande sentido de humor, “introduziu” no palco desta antiga e conceituada colectividade de cultura e recreio: Pedro Branco, Rogério Charraz, Coro Lopes Graça da Academia dos Amadores de Música, Carlos Carranca, Coro IEFP, Francisco Fanhais – Presidente da AJA -, Grupo de Cavaquinhos da Junta de Freguesia da Charneca da Caparica, Jorge Mendes, Jorge Jordan, Vitor Sarmento, José Manuel Ésse, Quarteto Sons da Gente, Francisco Naia e Zeca Medeiros, acompanhados pelos respectivos músicos, bandas, etc, tendo a leitura de poemas estado a cargo de José Manuel Santos e Teresa Bispo. Pelas 2.30 da madrugada terminava esta sessão em que tantos intérpretes e músicos quiseram estar presentes nesta tributo a José Afonso “génio maior a Música Popular Portuguesa e um dos génios nomes maiores da Música do Mundo (World Music) (RAPOSO, 2010: 10)

O Zeca Afonso é e será sempre a referência, a grande matriz da musica feita em português, da música enquanto arte, criação, que dignifica a nossa identidade, a nossa cultura e a criatividade e inovação, seja que de geração for (e não uma banalidade de consumo imediato, de plástico e descartável) Há que separar o trigo do joio. Mas o Zeca não é um referência fundamental apenas pela sua postura ética e humana em defensa de valores e princípios onde o primado da Liberdade está sempre presente. Ele que era um praticante da “Liberdade Livre”, ele que participou, como poucos, na construção da “Cidade sem muros nem ameias”, que do Ary cantou é, primeiro que tudo, é sobretudo uma referência porque é um génio enquanto Poeta, enquanto cantautor. enquanto músico, intérprete e compositor - como um dia escreveu Mahmud Darwich, o Poeta nacional da Palestina: “A Poesia, primeiro é poesia e só depois é que é de intervenção”.

Talvez o mais importante, certamente um dos mais belos e decisivos discos da música portuguesa, Cantigas do Maio, produzido por José Mário Branco e editado no Outono de 1971 é ponto de viragem da música portuguesa, é ponto de partida e baliza cronológica que marca o inicio da Nova Música Portuguesa (RAPOSO, Ibidem)).

Neste Março ensolarado de início de Primavera, ouçamos então Cantigas do Maio


Cantigas do Maio e a génese da Nova Música Portuguesa


No ano de 1971 termina o período da balada. A viragem dá-se com Cantigas do Maio, considerado um marco decisivo na obra de José Afonso: um dos seus melhores disco de José Afonso e que representa a partida para formas de acompanhamento mais enriquecidas e elaboradas em termos instrumentais.

«A viragem e renovação é marcada pelo José Mário Branco. Como nos diz João Paulo Guerra (RAPOSO, 2007: 85) “Este tipo de música que até aí não seria tecnicamente muito elaborada (…)”(…) embora existissem algumas canções bem construídas, do ponto de vista da melodia e das harmonias(…)”(…) anteriormente o Zeca Afonso cantava com o Rui Pato, que o acompanhava à viola”. Com o Adriano passava-se algo de semelhante, e a “entrada em “cena” do José Mário Branco representa um enriquecimento, somou as potencialidades todas da orquestração, não só nas suas canções como nas canções que orquestrou para o Zeca, nomeadamente no álbum Cantigas do Maio, introduzindo um grande enriquecimento sonoro nesse tipo de música, às vezes com efeitos extraordinários simples – como é o caso do acompanhamento da «Grândola, Vila Morena», o facto de pessoas a pisarem um saco de saibro e depois aquele efeito multiplicado no estúdio enriqueceu bastante. Como é óbvio, este disco e mais os outros três já referidos, e editados quase em simultâneo, Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades (José Mário Branco), Romance de um Dia na Estrada (Sérgio Godinho) e Gente de Aqui e de Agora (Adriano Correia de Oliveira, com música e produção de José Niza)., ficaram como referência fundamental para a música portuguesa” (RAPOSO,2007: 86)

Pode nos diz José Cordeiro” (…) a linguagem simples, imagens claras, melodia cativante são aspectos que caracterizam este disco, onde, para além de todas as inovações instrumentais, desde a orquestração aos arranjos sabiamente dirigidos por José Mário Branco, a voz de José Afonso, todavia, continua ainda a ser o grande meio – com um bom timbre, uma colocação precisa e sonoridade plena que atinge a maturidade, é “(…) a voz que expressa “tudo” porque não é só veículo, mas a condição base da canção.” (RAPOSO, Idem: 86)

Trabalho de equipa, de conjunto, introduz novos instrumentos como a darbuka, o bongo berbere, as tumbas, o adufe, o tamborim brasileiro, a guimbarda e os apitos de fole, além de efeitos especiais, para além dos instrumentos habitualmente utilizados, como a guitarra, a guitarra baixo, o trompete, a flauta, o piano, o órgão e o acordeão, compõem um conjunto que resulta instrumentalmente perfeito e ajustado às intenções dos poemas. “Procurou-se mais o som total que a «medida» convencional de instrumentos de sopro ou cordas que dariam uma plasticização clássica” (RAPOSO, Ibidem)

Este disco, gravado em França (o que acontecia pela primeira vez) contou com meios extraordinários assim como a com a excelência dos músicos participantes: Michel Delaport, Christian Padovan, Tony Branis, Jacques Granier, Francisco Fanhais e José Mário Branco. As fixas são: Senhor arcanjo, Cantigas de Maio (a partir de refrão popular), Milho Verde, (popular), Cantar alentejano, Grândola, Vila Morena, Maio Maduro Maio, Ronda das Mafarricas, (de António Quadros, o pintor e José Afonso), Mulher da Erva e Coro da Primavera. A letra e a música é praticamente toda de sua autoria, à excepção de “Milho Verde”, que é um tema popular com arranjos de José Mário Branco e “Ronda das Mafarricas” que é um poema da autoria de António Quadros (pintor), mas com música do Zeca, assim como a música e letra do tema que dá o título ao disco, ainda que seja sobre letra de refrão popular, ou a intuição popular do poema, da lírica e de imagens muito simples (…) onde (…) “o refrão deve ser o “toque” e “moral” de uma história que se canta em roda, tal como o camponês o faz.”( Assim se pode constatar que «(…) Cantigas do Maio constituem a forma mais nobre e representativa da canção portuguesa, como tudo quanto anteriormente José Afonso concebeu e realizou.(…) Trata-se de mais que uma busca de uma prova absoluta e notável. ”» RAPOSO, Idem: 87)

José Afonso, em declarações para a imprensa, após a saída de Cantigas do Maio dizia relativamente ao seu último trabalho.

«Tive uma série de dificuldades para o gravar, (…) posso considerar este trabalho o melhor que fiz, mas creio que não voltarei a fazer outro assim.»

Hoje sabemos que não foi assim. A excelência de Cantigas do Maio, um dos melhores trabalhos discográficos de José Afonso, não desvaloriza o seguinte Venham mais cinco, ao nível de arranjos ou orquestração não impediu que viesse a realizar outros trabalhos, porventura diferentes, mas não com um nível inferior a este.



Foi há quase um mês. Entretanto, o essencial do teror deste texto foi publicado no Jornal Folha de Montemor. Todavia, não obstante o tempo passado e a espera em partilhar convosco - que a forte gripe não permitiu, o texto e as fotos do espectáculo , estas inéditas...




A Palavra, cada vez mais, precisa de Ternura!

Zeca, sempre!

22 de fev. de 2012

O primado da Liberdade ou Abraçar a pureza em José Luís Peixoto

Regressado do limbo, da espuma das ondas, do mistério ancestral do centro da terra, ou de mim, trago-vos notícias do mais recente livro do José Luis Peixoto, e de outras deambulações andanças, num texto, no essencial publicado recentemente no jornal Folha de Montemor...

O primado da Liberdade
ou

Abraçar a pureza em José Luís Peixoto


“Somos um país privilegiado pela natureza”… por este sol quente que nos penetra os poros, queima suavemente a pele, neste mar imenso, salgado e solar, infinito e sereno. 16,5 graus de temperatura marcava há momentos o visor do carro, neste início de tarde de Inverno… neste braço de infinito entre os Montes da Lua e o Cabo Espichel, suavidade de temperatura e de luz tão contrastante com a noite de breu anterior- a temperatura chegou a descer aos 2 graus negativos, no regresso de Monte Maior , a caminho da antiga Mina de Ouro (Almadãn) à beira tejo – que no último meio século se lançou numa fúria urbanizadora quase selvagem e que só na última década do século XX se assistiu a alguma normalização. Antes de chegar, passei uma terra que algumas década atrás era habitada por ferroviários do Sul e caramelos – vindos várias décadas antes da Beira Litoral. Dou comigo a pensar: - podia-se chamar “Centro Sul”, mas hoje tem 25 mil habitantes, chama-se Pinhal Novo e foi onde desembarquei um dia, no longínquo ano de 1967 – e menos muitos milhares de habitantes – e dei por terminada a infância ainda não tinha completado os cinco anos, tomando de uma (in)explicável dor imensa pela separação da Terra-Mãe. Julguei ao longo da vida que nesse dia era Inverno. Até que um dia, almoçava com um grupo de amigos, pais incluídos, nos Foros de Vale de Figueira, no Restaurante António (?). No dia anterior tinha lançado um livro na Feira da Luz e depois de uma noite meio dormida tínhamos ido serenar o espírito até às margens do Almansor, na Herdade do Freixo do Meio, grupo de passeantes, guiados pela Ana Fonseca e pelo Amigo Manuel Casa Branca –duas perspectivas diversas do sobreiro, terminado numa tranquilizante aula de desenho. Em fim de passeio preparávamo-nos para retemperar as forças ao som dum apetitoso ensopado de borrego, e nisto, vira-se a minha mãe para mim:

- Faz hoje 40 anos que partimos do Alentejo!

Fiquei sem respiração…. 40 anos???!!! metade, ou mais, de uma… vida… mas…. e tinha visto um céu negro e uma rua enlameada, foi há 40 anos, mas é que se fosse hoje…dia 1 de Setembro. 1967. 2007.



Voltando a 2012. Noite fria de 6 para 7 de Fevereiro. Entro no café combinado e dou de caras com um velho companheiro de andanças várias, nomeadamente dos Congressos do Alentejo, -Manuel Lagarto, onde ele estava enquanto então dirigente associativo – o de Beja foi o último – agora Presidente da Junta de Freguesia local. Conversa breve. E dizia-lhe eu. – é preciso resistir, dar respostas políticas, ideológicas, não sectárias, tolerantes mas se necessário intransigentes em defesa dos valores, ao “radicalismo neo-liberal” -e cito j. Medeiros Ferreira em crónica, nesse dia no Correio da Manha. Eu prefiro chamar-lhe fundamentalismo, fundamentalismo neo-liberal. A que respondo com o primado da Liberdade. De reagir. De agir, De lutar. Estar, ser e viver de pé. A prumo para o Sol. Só assim faz sentido. Lutar, resistir, enfrentar a inépcia de indivíduos que nunca construíram nada pela sociedade, pela comunidade, e que apoiando-se em burocratas sem pátria, que para além da linguagem monocórdica dos números, ao serviço dos seus mandantes, dos seus “pequenos deuses” financeiros, não passam de analfabetos funcionais no mundo dos Homens livres, e até arrebanhando algumas figuras intelectualmente respeitáveis mas que se estão prestando a esta triste tragédia de destruição de relações e equilíbrios sociais tão arduamengte conquistados e construídos ao longo de todo o século XX. Que estranha similitude entre as iniciais medidas de Salazar e as que dia após dia são anunciadas. Aumento dos impostos e de horários de trabalho, diminuição de salários e de regalias sociais. Austeridade que resultou num país atrasado, provinciano, policiado, reprimido, censurado, aprisionado… que novo fascismo subtil e com outras roupagens, mas com laivos fascizantes claros, aí vem?...

A dignidade reside tanto na palavra, no poder da palavra – Sidónio Pais, o Presidente-rei, foi morto por um Alentejano, José Júlio da Costa, a quem traíram a palavra dada e assim lavou a honra.

A minha proposta é mais pacífica e provavelmente assenta mais no primado da Liberdade.

E falo-vos do mais recente livro de José luís Peixoto Abraço. Recentemente escrevi assim ao Zé Luís, que está previsto vir a Montemor-o-Novo, nas II Jornadas Literárias A Poesia da Terra em Monte Maior, no próximo mês de Maio.

“Tenho estado a ler o teu livro e estou a gostar muito. Tem crónicas excelentes, nalguns casos de cortar a respiração. Conjugas, em perfeita harmonia e comunhão, o Menino sensível que te habita e nos enternece com o Feiticeiro sábio que nos encanta porque desmistifica com suave clareza e frontalidade os mistérios da Vida. És um grande escritor e é para nos, singelos amantes apaixonados da escrita uma benção vivermos essa partilha que nos dás das tuas palavras… e dos teus abraços.”

Termino com um excerto da crónica

‘Manifesto branco’


PUREZA, ESTA PALAVRA. Os poemas da Sophia, os poemas do Eugénio, os poemas da Fiama, as crianças. Endeusa esta palavra. Uma palavra pode ser um deus, como um rio pode ser um deus (Ganges). Uma palavra pode ser um deus como o invisível pode ser um deus. Um significado pode ser um deus. Sorri


Se eu descrevesse agora a pureza iria construir uma ordem de palavras diferente da tua e diferente da minha amanhã, ontem. Esta é uma certeza evidente. É assim porque eu e tu somos diferentes, porque eu agora sou diferente do eu amanhã, eu ontem. Os filósofostiraram essas conclusões antes da electricidade. Nãqo há um grande mistério nessa ideiaapesar de ser a tentação de um poço e, já sabes, os poços servem sobretudo para cair. Não deixes que esse pormenor te impeça de nada.


(…)


Talvez te pareça que já não podes ver com pureza, talvez te parece que perdeste essa capacidade entre as coisas reais, como quem perde uma chave na rua, como quem perde a carteira. A diferença entre um sentido e uma chave ou uma carteira, por exemplo, é que um sentido pode materializar-se na palma da mão, não é feito de ferro. Se precisares de renascer, renasce. É permitido renascer. Na verdade, nada é proibido.


Nada é proibido.


Pureza, repito a palavra apenas pelo prazer de articulá-la. Experimenta. Se te sentires ridículo ao fazê-lo, sabe que essa é uma armadilha que deixaste que te colocassem. Ignora-a. Diz: Pu-re-za. Ao fazê-lo, é como se cantasses no duche ou no trânsito. Sorri.


(…)


Tudo é possível. Nada é impossível. Não deixes que te armadilhem de cálculos e labirintos. Sãqo demasiado fáceis de construir. Quando mal entendidos, são máquinas de guerra. E, no entanto, não há palavras más. Perante a pureza, deus, só há palavras boas. Avança no incandescente, na música sem muros. Não existe horizonte nessa paisagem. Pureza, repete. Tu tens direito à felicidade.


Agora, vai. Tens a vida à espera de abraçar-te.


Mais do que a ler, a saborear sofregamente.

Abraço de José Luis Peixoto




1 de jan. de 2012

O "Cante" e o solstício

A essência do Cante está na Terra. Os Homens por mais bela, e é, a forma como o entoam, são meros interpretes dessa grandeza divina.

mas estes Homens conhecem a Terra, respeitam-na porque sabem que a harmonia está na Terra e no encontro com ela. Diferem de como o recentemente desaparecido, o dramaturgo e antigo presidente checoslovaco Vaclav Havel se referia e suspeitava que a "nossa civilizacão caminha para a catástrofe", a menos que corrija "a sua miopia e a sua estúpida convicção de omnisciência, o seu desmesurado orgulho", e eu acresecentaria: a ignorância e a mediocridade, a pequenez. Porque se temos que resistir, como disse a um amigo que hoje de Moura, o Santiago Macias, me desejava um bom 2013, eu não desisto de 2012 e a minha esperança está na luta... na luta e na Beleza... e se faz aqui sentido citar Manuel Alegre e a
"Trova",

Mesmo na noite mais triste
em tempos de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.

mesmo assim não abdico da Beleza, daBbeleza que está na Terra de onde nasce o jorra o Cante - de que vos irei falar -  e nestes últimos minutos de 2011 deixo-vos este plena e avassaladora Poesia da Terra...

             
                                                                  Imagens recolhidas recentemente
                                                                    algures a caminho de Mértola...                                                                              
Cante, a alma do povo,
a Património Mundial


A propósito do projecto de elevar o Cante a Património Imaterial da Humanidade, que agora terá ganho novo fôlego com esse mesmo estatuto que o Fado alcançou; afinal, o Cante é certamente, para nós Alentejanos, muito mais representativo de uma genética identitária colectiva.

Neste mês do solstício e de outras celebrações pagãs (no sentido ancestral), depois cristianizadas e na contemporaneidade banalizadas pelo consumismo doentio de um mundo sem valores, achamos oportuno dar o nosso modesto contributo a este novo projecto de autoestima identitária, socorrendo-nos de um trabalho que em 2006 publicamos na Revista de Estudios Extremeños, editada em Badajoz desde 1927. O texto que se segue surge a partir de um capítulo do citado artigo.

“ O Cante nos campos do Sul

A ruralidade, embora parcialmente urbanizada, onde no passado o Canto de Intervenção e na actualidade a Nova Música Portuguesa muito foram ‘beber’, essa ruralidade manteve-se quase intacta nos campos do Sul, essa forma polifónica pura que é o Cante. E se a sua origem se perde na noite dos tempos com tantas similitudes na Córsega e no Magrebe, o Canto atravessa diacronicamente a História e depois de estar vedado temporariamente às mulheres, salvo raras excepções, quando se mudou da ceifa para a taberna – com a mecanização agrícola – posteriormente a mulher recuperou o seu direito próprio de cantar em público como surgimento dos grupos corais femininos.

A mulher alentejana, tal como o homem, é contemplativa, vive com dignidade e morre de pé, até porque, o doce sabor agreste da planície não lhe deixa outra alternativa. O Cante, tal como o foi o Canto de Intervenção, foi e é, por excelência, uma forma de resistência ao poder. Senão, vejamos este exemplo, uma adaptação popular de Francisco Naia: Mas que linda comitiva/ Vejo na rua a passar/ São os nossos governantes/ Que nos vêm a visitar/ Têm jeito no vestir/ e bons modos no falar/ Mas aquilo que prometem/ Não os vemos a realizar.

O Cante, é uma polifonia simples, a duas vozes paralelas, à terceira superior. Como polifonia, situamo-la na época em que esta tinha o principal lugar na música, toda ela vocal, a que se deu o nome de Milénio vocal, uma polifonia sem instrumentos, como nos diz o Padre Marvão .

Ainda segundo o mesmo investigador, em algumas das modas que compõem o Cante sobressaem dois sistemas musicais, inteiramente distintos, que são: o sistema modal, em uso durante toda a Idade Média, e o sistema tonal, já fruto do Renascimento. O sistema modal grego, adaptado e modificado por S. Gregório, era composto dos modos Dórico, Frigio, Lídio, Mixolídio e Eólio. Os modos gregos tinham também sete notas, cujos tons variavam na escala, ao contrário das nossas escalas, cujas melodias giram em volta da tónica ou super-dominante, segundo o tom é maior ou menor.

                                                              ... perto de Torrão do Alentejo...
Mas se a definição de Cante não gera polémicas, a sua origem, essa é alvo de acesas discussões; desde este autor que defende o seu nascimento nas escolas de polifonia clássica do século XV de Évora, frequentada pelos monges de Serra de Ossa, que se estabeleceram em Serpa, mas que é contra-posto por outros investigadores e até interpretes/músicos (como entre outros Jorge Raposo, José Orta, Francisco Fanhais) devido à não existência de indícios históricos do Fabordão na referida Escola de Música da Sé de Évora. A relação com os cantos árabes, defendida por outros, é posta em causa por terceiros, com o argumento de que o Cancioneiro do Magrebe não uma estrutura polifónica.

O que é certo é que o Cante, com um percurso que o próprio Estado Novo tentou utilizar para a sua Política de Espírito, manteve as suas característica essenciais de pureza e de ruralidade, onde tematicamente, por ordem decrescente, surgem: o Amor, a Natureza e o Trabalho. Nos últimos anos, os cantadores estão organizados na MODA – Associação do Cante, onde através da pesquisa, tentam preservar a pureza e a dignidade do Cante, condenando a sua adulteração e entoando as modas do Cancioneiro Tradicional.”

                                                         ... entre Viana e Portel


Que esta ‘aventura’ resulte possibilite que a UNESCO venha o reconhecer o Cante como Património Intangível é certamente algo que os Alentejanos ambicionam. Nestes tempos em que alguns líderes políticos portugueses querem vergonhosamente alienar a nossa soberania, os nossos valores civilizacionais e até a nossa História de Nação independente quase milenar, que o Alentejo e a Pátria Alentejana possam, através do reconhecimento internacional do nosso Cante, dar um contributo identitário e civilizacional a toda a Nação portuguesa, erguendo bem alto os nossos valores e a nossa Cultura, que não são revisíveis pelo Eixo Germano-Francês, que já é chamado de IV Reich.

14 de dez. de 2011

Soneto

Afinal já passou bastante tempo desde o último poste, ao contrário do que previra.
Quero partilhar algo que me enviaram recentemente, pelo meu aniversário. A falta de saúde e a dúvida se devia publicar um soneto que me dedicaram, atrasou a sua publicação. Mas cheguei à conclusão que a autora, a minha querida Amiga Maria Vitória Afonso é mais que merecdora da sua divulgação... para ela um grande e sentido abraço... extensível a todos vós...



Aniversariante na Diáspora


Ao Eduardo


Da Funcheira viajou em criança
Quis apanhar o comboio do futuro
Procurou a cultura com esperança
Deixar o pátrio berço era pois duro.


Dessa terra amada cheia de pujança
Saudoso, então desse Alentejo puro
O honra e divulga com confiança.
Continue a servi-lo, bem lhe auguro


O seu labor não é nada restrito
Dá aulas em Beja, seu distrito
Da região evoca a memória.


A matriz cultural exorta com esmero
Seu sentimento é natural e vero
Do Alentejo assume sua história.




Maria Vitória Afonso