28 de mai. de 2008

o Zeca em Gondomar e a amizade em S. Tirso


Estive recentemente na Biblioteca Municipal de Gondomar, num encontro com autores, onde apresentei, em síntese, a conferência "José Afonso - o canto da Utopia" , realizada no dia 25 de Abril do ano passado, na Casa da Música, quando foi apresentada a 3ª edição do meu livro Canto de Intervenção 1960-1974







A inicitaiva teve a colaboração da Associação José Afonso-Norte, houve música, poesia e o Miguel Gouveia deu a conhecer - eu não conhecia, Escritas do Maio - escrever com José Afonso - um livro didáctico destinado aos alunos do 1º e 2º ciclos à descoberta do Zeca. O Vereador da Cultura, Dr. Fernando Paulo, fez uma excelente intervenção sobre os valores e o espírito do 25 de Abril, mas não se ficou só pelas palavras; ofereceu-nos um conjunto de postais que reproduzem os trabalhos vencedores do concurso de cartazes realizado nas várias escolas do concelho, de vários graus de ensino - do 7º ao 12º - "Cartazes para Abril", de que reproduzimos alguns. Ofereceu-nos ainda uma medalha, bonita, imaginativa: um rosto de arlequim num círculo, intitulado "Viva o Teatro", em homenagem a um oposicionista gondomarense ao Estado Novo...


























quando me recolhi às excelentes instalações de Turismo Rural onde fiquei alojado, dei comigo a pensar que o 25 de Abril está mais vivo no Norte do que no Sul...No dia seguinte tive ainda oportunidade de visitar, a seguir a um excelente pequeno-almoço, a Casa S. Miguel, na companhia das duas amáveis proprietárias, irmãs que se deleitaram a mostrar-me o jardim, o museu rural e ... a fazerem questão de eu assinar o livro de honra.


















































Antes de seguir um pouco mais para Norte tive ainda oportunidade de dar um salto à bela Cidade Invicta e saborear o Douro e a foz da Ponte da Arrábida.
















Depois percorri de mota a suave cidade de S. Tirso até à Igreja situada no cimo duma serra, que vos deixo imagens, junto a outra serra homónima da Serra do Pilar - esta na margem sul do Douro, que o Rui Veloso divulgou.



























































À meia-noite estávamos, com o Jorge e a sua simpática esposa, a Ana, a ver a cidade do terraço do bar de um hotel que é uma torre com 12 andares, depois de um esplêndido jantar regado com bons vinhos alentejanos e antecedidos de um belo queijo... depois, um seu amigo, o Jimmy, que tinha estado a assistir, com o Jorge, ao recital na Casa da Música, poucos dias antes da apresentação que refiro no início, quando soube da minha presença, fez questão de nos ver, disse-me que era uma honra eu estar na sua cidade e... entramos pela noite dentro e apresentar-me a todos os seus amigos e... passei uma parte da noite a dar autógrafos em discoteca.,






Afinal, no Norte também há muita hospitalidade... temos é que estar com as pessoas certas...






… mas depois regressei ao Sul


4 de mai. de 2008

1º de Maio em Terra Vermelha

Chama-se Terra Vermelha e tem por subtítulo Crença e Insubmissão no Alentejo do Século XX o mais recente livro de Paulo Barriga. Trata-se, como se pode ler na badana, de "Um livro de histórias do Alentejo. Do Alentejo profundo. Do Alentejo rural. (...) estas são reportagens históricas, umas vezes mais lúdicas, outras mais etnográficas, outras mais documentais. São artigos que, no seu todo, consubstanciam uma grande reportagem sobre uma certa «História do Alentejo rural», ou como também se pode ler na contracapa: "Nas páginas deste livro o leitor descobrirá a história insubmissa e por vezes sangrenta do Alentejo e das suas gentes no século XX português. Pela boca dos protagonistas, testemunhas vivas por via da oralidade, por via da propagação da memória colectiva, chega-nos o uso que estas pessoas dão e querem dar à História. À sua História.»



Com chancela da Editora Guerra e Paz e prefácio de Francisco Camacho, trata-se de um conjunto de 10 reportagens, embora algumas com títulos diferentes, foram publicadas entre Novembro de 1999 e Janeiro de e 2005 na Visão e em O Independente. Na segunda parte nos fala de crença, desde o «triângulo vermelho» , cujos vértices são Pias, Vale de Vargo e Baleizão" , a "Sociedade de Caixões de Corvos", a dois passos de Mértola, os ovnis de Santana de Cambas, "o milagre da motorizada" da Nossa Senhora das Choças, ali para os lados de Amareleja, até à «Atlântida é aqui mesmo», no sudoeste peninsular, onde terá existido, há mais de 2 mil anos a misteriosa civilização dos Tartessos, como refere o mais prestigiado arqueólogo português da actualidade, que apresentou o livro numa sessão recentemente realizada na FNAC em Almada.



Mas na parte inicial passa em revista momentos marcantes do Alentejo, trágicos, épicos e de grande emoção. Como foi desmatelada a primeira comuna existente em Portugal, mas propriamente no Alentejo, em Vale de Santiago, criada em 1917 por um grupo de sapateiros libertários tolstianos "com os bizarros objectivos de banir a propriedade individual e de praticar o vegetarianismo" tendo como finalidade atingir um patamar de «crudivirismo» e implantar o nudismo na vida comunal, onde pontificava Antóni0 Gonçalves Correia - que tivemos o prazer de debater e "homenagear" na sua aldeia natal e em Castro Verde em 2002 - . Acontece que apenas durou um ano e meio, pois foi arrasada no rescaldo da Greve Geral contra a carestia de vida em 1918, que nesta zona tomou carácter de revolta com um conjunto 60 populares armados de espingardas e entricheirados no Cerro Alto, que só se renderam, vários dias depois de sitiados pela tropa, após um acordo conseguido por José Júlio da Costa, conhecido lavrador da vizinha vila de Garvão - freguesia de onde sou natural. Mas as autoridades não cumprem a sua palavra e espancam, prendem e deportam para Luanda os revoltosos desarmados que não conseguem fugir. José Júlio da Costa «uma passoa conhecida pelo seu temparamente arrebatado , nunca conseguiu viver com a sombra da traição a pairar sobre si»e, menos de um mês depois, a 14 de Dezembro, mata o Chefe de Estado, Sidónio Pais, na Estação do Rossio. Estava lavada a a Honra deste meu patricio.



Mas Gonçalves Correia tinha uma outra filosófia de Vida. O ideólogo da primeira comuna portuguesa, onde viveram 10 homens, 5 mulheres e algumas crianças, era, segundo Raul Brandão que o entrevistou, escreve em Os Operários que « o senhor Gonçalves Correia, caixeiro-viajante, vegetariano, tolstoiano, cheio de ideias generosas, é um revolucionário que quer levar a humanidade a uma vida mais perfeita e mais bela pela bondade». Ideiais, postura que merecem a minha mais activa e empenhada simpatia.

De outros momentos épicos de Alentejo no Século XX nos fala Paulo Barriga, até ao início da Reforma Agrária, em Dezembro de 1974. Mas termino com uma referência à reportagem sobre a " a história de amor entre um homem e uma rapariga que foi mulher antes de ser estátua" . Refiro-me a Maria Catarina Eufémia Baleizão, a jovem camponesa assassinada por um tenente da GNR em 1954, ceifeira que mais tarde se transformou numa verdadeira lenda das lutas rurais no Sul de Portugal. Aqui faço um parentesis, eu que sou um sonhador, como diz uma amiga minha, romântico qb, não posso deixar de me impressionar, de me emocionar por esta história de Amor intitulada "0 marido da mulher de bronze". . . "antes de se transformar no mito de Maio, quase mariano, catarina foi filha, esposa e mãe. Foi de carne e osso. E amou. Que o diga António Joaquim do Carmo que ainda hoje" - recentemente desaparecido, pois a crónica reporta-se a 2004 - "debaixo da sua boina preta, espreita pela fricha da janela da casa o busto de bronze da sua mulher como se a estátua fosse viva. E ali estivesse para ele, eternamente jovem, como jovem era no tempo em que escreveu as cartas que ficam.

Estou a escrever-te da Ilha da Madeira. (...) Não esmoreças, o tempo passa e não pára. E há-de chegar a hora de unirmos os nossos dois corações. Nuca duvides de mim que eu amo-te com toda a força da minha alma. Nunca poria outra no teu lugar. Estás fechada no meu peito e ninguém mo pode abrir, só tu e mais ninguém. (...) Um beijo. (...)




Querida Catarina, cheguei ao destino para te dar as minhas notícias. Eu encontro-me bem, na companhia de todos os os camaradas soldados como eu. (...) Não há que esmorecer. Se não houver nada em contra chegará a hora de nos encontrarmos como dantes e trocarmos as nossas impressões. De nos acariciarmos um ao outro. És sempre minha como eu sou teu. Eu penso desta forma e certamente será também esse o teu pensamento. Um beijo.(...)



O amor uma planta que
Nasce dentro do peito. Tem vezes
Que se não dobra, nem a
Farsa nem por guito.






António Joaquim do Carmo

que nos diz, que «Certa noite de saudade, saltei o muro do cemitério, cheguei ao pé da sepultura da minha Catarina que adorei em vida e idolatro em morta. Disse-lhe algumas palavras que se ela as pudesse ouvir ficaria certamente comovida.», que segundo uma amiga de infância, Antónia Leandro «Catarina era a moça mais bonita da sua geração e cantava que nem um rouxinol»









Despeço-me... sem palavras... apenas acrescentando que no dia 1º de Maio percorri num ápice este Alentejo, Terra Vermelha, depois de participar num debate ao fim da manhã, em directo aos microfones da Rádio Azul, sobre o PIDE e a censura no Estado Novo, indo de imediato para a Abelha onde decorria inauguração do Museu do Trabalho Rural, um excelente exemplo da valorização da Memória e da Identidade - que tem um grande destaque na revista Pública de hoje - deste nosso Alentejo que chega a todo o lado mas... aqui respira-se pleno, total. Este projecto museológico é coordenado pelo nosso Amigo José Matias, também molinologista para quem já tivemos o prazer de escrever o prefácio de um seu livro. Um abraço. Na Abela, e depois na Ovibeja - que guarda a magia secreta da cidade da planície que a alberga - revimos velhos amigos, como os artarcas de Santiago, Abela, o antigo autarca de Alvito, os jornalistas e escritores Carlos Júlio - recordam-se do Imenso Sul - e José Luís Jones ou a família Capela. Não obstante a saúde frágil , foi um dia pleno, passado na plenitude da Terra Vermelha.

21 de abr. de 2008

Saudades de Mértola





um naco de pão, um pouco de água fresca,


a sombra de uma árvore e os teus olhos.


Nenhum sultão me excede em alegria,
nenhum mendigo é mais triste.



Omar Khayyam



Nesta viagem, sempre mais para o Sul convido-vos a seguir a estrada entre Évora e Beja, depois de um dia na universidade na subtil cidade manuelina-mudejar a falar sobre a poesia luso-árabe e a percorrer a excelente e única biblioteca do Centro de Estudos Árabes, dirigida pelo Prof. Abel Sidarus, na companhia do prof. Fernando Branco, colega no painel da manhã e com quem haviamos estado há sete anos a apresentar, em Mértola, o número zero, experimental, ainda em fotocópia, da revista Memória Alentejana... e estamos de novo na estrada, o Sol, iniciou o seu deitar, a estrada é secretamente percorrida com serenidade, não em desvario como aquela personagem dum conto do Prémio Literário Pedro Ferro em fiz parte do júri. Sereno, sem pressa, aprecio a suave beleza do horizonte, o Sol que continua a esconder-se. Há um programa na rádio, antena 3, sobre viagens. Falam de como é Alentejo é particular e único. Se estivessem onde eu estou...o Sol mesmo quase a pôr-se inevitavelmente...




É noite quando chego a Mértola. Para além de um bar em plena cidadela onde adolescentes bebem cerveja não se vê vivalma. Percorro as ruelas empedradas, as pedras segredam-me as histórias de Vidas e Amores, traições e lutas, de preserverança no caminho a seguir... volto na noite seguinte depois de um longo percurso a pé em redor da barragem em S. Domingos e de uma ida a saboerar o silêncio de um fim de dia no Pomarão, volto nessa noite e vou ao castelo, à mesquita, encontro-me com o Ibn Qasî, o mestre sufi, o guerreiro, o asceta, o diplomata... as pedras contam-me histórias, ali naquela encosta de ruelas estreitas onde o souk se instala quando acontece o Festival Islâmico...







Há tanto tempo que esperava por aquele silêncio, de me sentar na soleira da porta, fumando, esperando... tinha saudades, saudades dos campos pintados por mão divina, percorridos no dia seguinte a caminho da Aldeia de Sete, onde o jovem Mestre de apenas 24 anos, o Pedro Mestre, no silêncio da tarde me mostrou no seu atelier uma voila campaniça, por ele reconstruída e dedilhou aqueles sonoridades únicas destas paragens ao Sul, bem ao Sul do Alentejo...



tinha saudades de ficar só com este silêncio...

tinha ...

saudades de Mértola




10 de abr. de 2008

Al Mouhatamid ou o Amor ... e o Mar

Em breve vai ser dia. Entretanto a tempestade há muito anunciada chegou.
Estou exausto.
Recordo a estada breve no Moinho das Mestras, no Rio Degebe, com o amigo Ludgero Salvador, o Ganhão-mor da Confraria da Moenga, o Augusto, os outros amigos. Gostava de ser confrade. e os outros amigos, do Grupo Coral "Os Almocreves", o presidente da Associação "Slow food", que têm como símbolo um caracol, o autarca José Ernesto, ou o Mestre Salgueiro, que no regresso deixei em casa.

Recordo a Serra da Arrábida no dia seguinte, o Convento dos Capuchos propriedade da Fundação Oriente e aquela capela, semelhante a um antigo morábito?, azul magrebino, sobre o mar do Portinho onde fiquei e ver o findar do dia encontrando as palavras certas, que depois surgiram em catadupa, mais de 15 áginas, em poucas noites quase em claro.


A tempestade continua escondendo o Mar da Palha.
O dia vai nascer em breve.
Estou exausto. Mas contente. Revigorado. Renovado. Encontrei caminhos belos e novos na História e na Poesia do "Século de al Mouhatamid"...


... dentro de poucas horas parto para Évora - e depois, quem sabe, bem mais para Sul..., -onde vou participar no Congresso da APEC- Associação portuguesa dec Estudos Clássicos, com uma comunicação que começa assim - apectece-me partilha-la agora, que exausto, a terminei:


O Amor, O vinho, a Natureza e a Saudade na Poesia Luso–Árabe

«Admiro este Mouro que não defende a liberdade porque no deserto se é sempre livre, que não defende tesouros visíveis porque o deserto é nu, mas que defende um reino secreto»



Saint-Exupéry citado por Adalberto Alves em O meu Coração é Árabe


Quero falar-vos de um reino secreto. De Poesia vos quero falar. De um reino secreto que existiu e atingiu a sua plenitude no coração de homens e mulheres que viveram no “século de Al Mouhatamid”.


e.. termina...
Em Al Mouhatamid (e nos poetas exemplificados) na sua lírica radica vão beber D. Dinis, Camões, chegando até aos nossos dias, com Sophia, Alegre e todos os poetas e escritores de canções que cantam o Amor, a sensualidade, a Paixão, a Natureza, a Saudade do ser português, como pretendemos mostrar com um trabalho em curso.

Al Mouhatamid, que personificando tudo isso, essa nossa génese poética, mas também o estadista visionário, que teve continuidade em D. João II, mas ele," Poeta do Destino" encontrou o desterro e a morte em terras magrebinas como D.Sebastião, ele que foi, sobretudo, o Príncipe do Renascimento, Amante e Rei, no dizer de Adalberto Alves, que citamos: (de novo)

“A nossa poesia trovadoresca, quer as cantigas de amigo quer as de amor, quer as de escárnio e mal-dizer, são filhas directas das muwashshaha, e do zajal árabes. E a saudade, palavra indizível, a não ser em português e árabe, é cantada já no «nasib» da velha ode «qasida» ante-islâmica. Essa saudade é a mesma que os habitantes de Testou (Tunísia), Tlemcen (Argélia) ou Tetuão (Marrocos) sentem da terra do verde e da água, o Ândalus, de onde injustamente foram expulsos há quatro séculos. Talvez por isso, ainda hoje usem os seus apelidos portugueses e espanhóis, e têm penduradas, nas paredes dos lugares que habitam, velhas chaves ferrujentas das casas que aqui foram forçados a abandonar”



Deste arabista e poeta vos deixou, do seu muito recente último livro - No Vértice da Noite- que muito me agradou.. .e ainda estou saboreando,




Tu e o Mar


em ti arfa um mar

que afaga a praia sob a bruma.




há sopro e expansão

e voo de asas só de espuma.




primeiro, ondulação serena

e logo vagas, vertigem de maré.


todo o teu rosto esplende

és sibila que não sei quem é.


depois murmúrio de palavras roucas

num mistério que nos morde as bocas.