28 de jun de 2016

“A Poesia é a Voz da Minha Alma”

Já passou um mês sobre esta data.
Todavia, porque foi um dia memorável, não quero deixar de o assinalar aqui nesta espaço de partilha mas onde não chega o mediatismo e uma certa exacerbada exposição que o face possibilita. Deixamos aqui um texto que corresponde, no essencial, ao publicado na recente edição de Junho do Jornal Folha de Montemor.



A Poesia é a Voz da Minha Alma
de
José Carrilho Raposo

Um Poeta repentista na diáspora

O poeta popular repentista José Carrilho Raposo acaba de lançar o seu primeiro livro de poesia,A Poesia é a Voz da Minha Alma”, uma edição de autor que teve o apoio da Câmara Municipal de Palmela, do Centro de Estudos Documentais do Alentejo-Memória Colectiva e Cidadania (CEDA) e da Junta de Freguesia de Pinhal Novo. A sessão de lançamento teve lugar dia 26 de Maio, no Auditório da Biblioteca Municipal de Pinhal Novo, onde usaram da palavra o Presidente da Câmara Municipal, Álvaro Amaro, o Presidente da Junta de Freguesia de Pinhal Novo, Manuel Lagarto, o coordenador da edição, Presidente do CEDA e filho do autor, Eduardo M. Raposo, a Bibliotecária, Isolina Jarro - que apresentou e moderou a sessão – e ainda a poetisa Maria Vitória Afonso.
O coordenador do projecto fez o historial do projecto, as dificuldades superadas, agradecendo os apoios, nomeadamente aos irmãos Carlos e Ricardo – este ocupou-se da logística gastronómica - e o Amigo João Santos que paginou o livro, revelando-se um apoio decisivo para a edição nestes timings, bem como outras presenças e frisando, tal como o Presidente Álvaro Amaro, a importância de se ter reavido este feriado (do Corpo de Deus) roubado pelo anterior governo.













Seguiram-se os Jograis do Alentejo – Ana Neto, EMR, José Carita e Luisa Gonçalves que apresentaram pequeno excerto do espectáculo “Jograis do Alentejo cantam o Amor e o Vinho na nossa Poesia Lírica – séculos XI / XXI. Com interpretação cantada de “Senhora partem tão tristes” (João Roiz de Castelo Branco) e dita de “Credo” (Natália Correia) e “Conversão do primeiro canto d’Os Lusíadas (…) Vestidos do humano em o de-vinho por uns caprichosos actores” – Manuel do Vale, Bartolomeu Varela, Luís Mendes de Vasconcelos e Manuel Luís (séc. XVI), tendo iniciado com um poema do livro, uma bonita elegia aos animais “Tenho uma cadela preta e um gato branco” por Ana Neto.









 
Álvaro Amaro fez uma excelente apresentação, falou do autor que conhece desde sempre e de muitos momentos em que estiveram ambos no mesmo lado da barricada,  destacando o itinerário de uma vida que o livro patenteia, onde o Amor é uma marca que permanece: “O Amor à vida, à mulher, à família, à comunidade, às pessoas, aos idosos” e da postura disponível para participar no associativismo, nas lutas sociais, inclusive nas edições e tertúlias de poesia iniciadas no Pinhal Novo quando ele, Álvaro, era o Presidente da Junta, sublinhando que fizesse frio ou chovesse, quando outros com mais mobilidade ficavam em casa o José Raposo estava presente.
José Carrilho Raposo – que participou na tertúlia de poesia popular nas III Jornadas Literárias - emocionado disse umas breves palavras de agradecimento.
Francisco Naia cantou de improviso poemas do livro lançado e temas ligados aos caminhos-de-ferro, como um tema que não cantava há mais de 10 anos, desde que o cantou ao seu pai poucos dias antes deste falecer, que emocionou a assistência.
 Manuel Lagarto falou com emoção da importância da poesia na vida das pessoas e da sua relação com o autor, seu antigo colega de profissão, desde os tempos do namoro com a sua mulher. 
 
Mª Vitória Afonso elucidou a assistência da definição da poesia popular conforme Fernando Pessoa, intervenção que complementou muito bem as restantes.
 
Vítor Paulo maravilhou com a sua bela voz e a sua exemplar postura de músico profissional, interpretando temas do Zeca Afonso, do Cancioneiro Alentejano e terminou com um bonito tema que musicou de uma autora contemporânea, Alda Couto, “Desarrumaram-me a casa”.


Nesta animada sessão onde marcaram presença muitos familiares – filhos, noras, netos e bisneto - muitos amigos, nomeadamente dirigentes do CEDA – de que o autor é associado e foi grande activista – ou o Presidente Alma Alentejana, José Moutela que presenteou o autor com uma lembrança comemorativa dos 20 anos desta associação
Finalizou com todos os intervenientes em palco a cantar a “Grândola” e depois da habitual sessão de autógrafos seguiu-se um convívio enogastronómico com o autor, familiares e alguns dos intervenientes e amigos. 

                                          Fotos de João Santos
Também outros amigos, que pelas mais diversas razões não lhe foi possível estarem presentes, não quiserem mesmo assim deixar de enviar mensagens como foi o caso do académico e antigo DR do Ensino no Alentejo - e companheiro vice-presidente da MAG do CEDA - Bravo Nico, ausente em São Tomé e Principe, do Constantino Cortes - também dos Órgãos Sociais do CEDA - de Portalegre, do Ferraz da Conceição - secretário da MAG do CEDA - tal como José Francisco Colaço - ambos do Castro Verde e este também associado do CEDA tal como José Ventura Cruz Pereira, antigo Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Odemira, em Milfontes, também antigo DR do Ensino no Alentejo e no Sul, ou do Augusto Lança, de Sines, da edil de Montemor-o-Novo, Hortênsia Menino, do Armando Correia ou da Ana Massas, de Almada ou do grande Amigo de infância, Mário João Ferreira, no Porto,

O autor e o livro

Como refere na contracapa, o autor nascido em 1936 em Foros de Vale Lobos, Alvaladade-Sado - no extremo dos Concelhos de Santiago do Cacém, Aljustrel e Ourique - filho e neto de trabalhadores rurais iniciou a labuta nos campos a part-time aos nove anos, enquanto tirava a 4ª classe e foi sucessivamente guardador de gado, trabalhador rural e servente de pedreiro a partir dos 12 anos.
Idas prolongadas a Sines, na infância, onde o tio era limpador de máquinas da ferrovia, levou-o a sonhar ser maquinista.
Ingressou nos Caminhos-de-ferro - CP aos 20 anos, depois fez estágio para factor, na Funcheira, então uma Estação modelo, onde conheceu a Esmeralda, o grande amor da sua vida e onde nasceu o filho Eduardo. Com a promoção a 2ª classe rumou à diáspora, estabelecendo-se no Pinhal Novo e posteriormente na Venda do Alcaide, onde nasceram os filhos mais novos, Carlos e Ricardo. Trabalhou nas estações de Setúbal, Pinhal Novo e Palmela. Perto dos 50 anos fez um novo estágio para Regulador e terminou a carreira a chefiar o Posto de Regulação do Barreiro, das linhas Sul-Sueste.
Foi activista e dirigente associativo – Comissão de Moradores da Venda do Alcaide, director da Associação de Reformados do Pinhal Novo, representante do MURPI na ARS de Setúbal, secretário da MAG do CEDA - militante do PCP desde 1974, o seu partido de sempre. Ao longo da vida conjugou uma postura ética e poéticas ímpares com uma inteligência superior desaproveitada, nomeadamente na matemática, fruto do atraso proporcionado pelo ultramontano consulado salazarista.
Desde cedo teve o gosto pela escrita. Este livro reúne uma parte das muitas centenas de quadras, sonetos, quintetos, estilhas que, enquanto poeta popular repentista escreveu ao longo da vida – em papéis soltos, guardanapos, grande parte deles irremediavelmente perdidos - sobretudo a partir de 1992, quando se aposentou.
Aqui encontramos ecos de uma tradição milenar mediterrânica de fazer da palavra falada arte do improviso, onde o amor, o sonho, as questões sociais e políticas, o trabalho e a natureza, mas também elegias ao 25 de Abril, aos Encontros do CEDA, às conquistas académicas do filho Eduardo e a muitos passeios, convívios de grupos de reformados e idosos - que sempre animava com a sua poesia.

O autor participou na colectânea Os dias do Amor, Um poema por cada dia do ano, dirigida Inês Ramos, que reúne 365 poetas de todas as épocas e latitudes que escreveram sobre o Amor (2009) bem como nas 12 edições da Colectânea Encontros de Poetas Populares editadas pela Junta de Freguesia de Pinhal Novo e viu ainda diversas poesias suas publicadas na Revista Memória Alentejana, entre 2001 e 2015.


Em breve queremos deixar aqui a partilha do último aniversário do Roque, a 21 de Junho, do espectacular fim de semana passado no Porto, 10 dias antes, nós e a Anita com os Amigos Mário João e Fátima e ainda, breves pinceladas de duas viagens, ainda em Maio, uma delas no início do mês, nós - com o Roque a Almourol, Constância e Rio de Moinhos e outra, mesmo no fim do mês, só com a Anita ao mar de papoilas que então cobriam o chão dos  castelos de Juromenha, Terena e as flores de esteva na Serra d' Ossa.


21 de mai de 2016

Partilha de emoções e gerações - momentos de excelência na Oficina de Cultura

Mais uma vez, hoje, sexta-feira, dia 20 de Maio, a Oficina de Cultura protagonizou partilha de emoções e gerações - momentos de excelência - entre antigos alunos e professores, ou melhor, professores-alunos e alunos-professores.
Tal como aconteceu na quarta-feira, dia 18, o melhor que Almada tem, os seus melhores criadores - então da geração dos 20 anos, hoje da geração dos trinta deixaram o seu testemunho em momentos inolvidáveis, conforme programa anexo.
Com uma excelente moderação, este vasto programa com direcção e coordenação do docente  e Amigo António Sales - que está de parabéns e a quem envio um abraço fraterno - o Agrupamento de Escolas Emídio Navarro mostrou mais uma vez o seu potencial com esta "4ª Mostra de Vídeo em Meio Educativo. 60 Anos a Educar Almada", nesta ano que assinala 60 anos, em que os alunos que têm participado activamente são os grandes destinatários.
referência ainda à presença, na inauguração, dia 13 dos Amigos António Neves,  - Director do Agrupamento e que também esteve na exposição anterior - e Rui Baltazar - Presidente do Conselho Geral.
É caso para dizer, o melhor da grande Comunidade Educativa de Almada desta cidade Educadora apresentou na Oficina de Cultura a excelência dos(as) criadores(as) deste concelho Até domingo, dia 22, entre as 14h  as 19h e as 20h e as 22h.



Mais um momento alto da vasta programação que o Equipamento Municipal com maior centralidade em Almada como a aconteceu com anterior "Todos Têm... A Constituição da Liberdade", a já habitual Exposição Comemorativa do 25 de Abril de 1974 que se realizou na Oficina de Cultura entre 23 de Abril e 9 de Maio, onde mais uma vez. Entre os 21 projectos dos 11 agrupamento e duas Escolas Secundárias não agrupadas, se destacaram os Agrupamentos Emídio Navarro - António Sales - Anselmo de Andrade - Rui Silvares - Francisco Simões , onde há ainda a destacar as Secundárias Cacilhas-Tejo - António Moreira - e Fernão Mendes Pinto - Francisco Henriques e equipa.
Para que conste!

 Aqui, no encerramento com Paula Sousa (DEJ CMA) a usar da palavra, António Sales (AE Emídio Navarro), Américo Jones (AE Francisco Simões) e António (Sec. Cacilhas-Tejo)

3 de mai de 2016

Quando a mãe nos dá um beijo

Quanto é Doce
Quanto é doce quanto é bom
No mundo encontrar alguém
Que nos junte contra o peito
E a quem nós chamemos mãe
Vai-se a tristeza o desgosto
Põe-se a um ponto na tormenta
Quando a mãe nos dá um beijo
Quando a mãe nos acalenta
E embora seja ladrão
Aquele que tenha mãe
Lá tem no meio da luta
Ternos afagos de alguém

                                                                 José Afonso


 Meados dos anos 60, na casa onde nasci, na Funcheira. Sou o menino da direita. Estou frente à minha mãe, Esmeralda. Estou com o meu Amigo - há mais de 50 anos - Mário João e a sua mãe, D. Mariazinha. Ambas já partiram. Certamente onde estiverem olharão com ternura - como sempre o fizeram - para os seus meninos , ambos filhos primogénitos, hoje Homens fraternos e íntegros. Aqui fica a memória de um tempo sereno e eterno... e a Saudade, sempre.

27 de abr de 2016

Rainha de Copas pelo ALPHA Teatro com Sofia Raposo



Com a devida vénia publicamos, ainda que com quatro dias de atraso, citando as palavras breves mas sábias e certeiras do Amigo António Sales - com que assistimos juntos ao espectáculo - docente responsável, entre outros pelos Cursos Vocacionais de Educação Artística no Agrupamento de Escolas Emídio Navarro, um dos agentes culturais mais activos e decisivos de que Almada se pode orgulhar, enquanto Cidade Educadora que é:


O Reino do Teatro é em Almada, levado a cena pela companhia ALPHA-Teatro. Sofia Raposo dá corpo e vida à Rainha de Copas numa interpretação magistral encenada por Luis Menezes num misto de Teatro Físico com musica ao vivo com o duo MaiZé, e ainda com a participação de João Lisboa e Ruben Fernandes na manipulação da Marioneta"2"... estagiários do Curso Profissional de Teatro da Anselmo de Andrade


Parabéns ALPHA pela educação e exemplo artístico, Parabéns Almada pela política Cultural e Educativa.

Imperdível... Hoje, último espectáculo às 21.30h no Teatro Estúdio António Assunçã
o
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CD "Cante na Diáspora" disponível

Depois de na semana anterior ter sido objecto de divulgação no "Diário do Alentejo", acaba de sair na "Folha de Montemor", na rubrica "À soleira da porta" a crónica que temos o prazer de partilhar:



CD lançado recentemente

Cante na Diáspora

A edição deste disco surgiu há cerca de um mês, em complemento à publicação da Revista Memória Alentejana, número duplo 35/36, saído a 28 de Novembro, no âmbito das comemorações do 1º aniversário do reconhecimento pela UNESCO do Cante como Património Cultural e Imaterial da Humanidade – conforme referido na crónica de Dezembro. Em Almada, onde teve lugar o lançamento da Revista, realizou-se um conjunto de eventos com a denominação de “Almada Homenageia o Cante Alentejano” organizados pelo Grupo de Trabalho de Cante do Concelho de Almada – GTCCA - como sejam um colóquio – que coordenamos - movimentando mais de 200 pessoas e um espectáculo por onde passaram mil pessoas.



Revista O Cante na Diáspora

Esta edição da Revista, denominada “O Cante na Diáspora”, apresenta o levantamento dos 29 grupos corais alentejanos activos existentes no Diáspora, num espaço tão vasto que abrange toda área Metropolitana de Lisboa - Norte e Margem Sul, Península de Setúbal, onde existem a esmagadora maioria dos grupos, mas também Cartaxo, Porto, Tunes, Albufeira ou Toronto, no Canadá.

Julgamos que é a primeira vez que se faz um levantamento como este, pelo menos nestes moldes, de todos os grupos corais alentejanos existentes na Diáspora. Nesse sentido, tem um significado que não se pode olvidar enquanto factor de valorização da nossa cultura, por outro lado, é também revelador da vitalidade que caracteriza o cante existente na Diáspora.

O grupo coral alentejano mais antigo em actividade na Diáspora é o Grupo Coral Alentejano da Amadora, fundado em 1972. Todavia, anteriormente surgiram grupos na Diáspora que cessaram a actividade como o Grupo Coral da Casa do Alentejo de Luanda, que terá existido entre 1965 e 1971, ou os grupos corais que terão existido  na Casa do Alentejo, em Lisboa, respectivamente o Grupo Coral Engenheiro Martins Galvão, entre 1955 e 1968, ou mais recentemente, o Grupo Coral da Casa do Alentejo, activo entre 1968 e 1974. Também na emigração, em Paris, terá existido um grupo que terá cessado recentemente, mas não dispomos dados fidedignos. Por outro lado, se recuarmos aos anos 20, encontramos referência a um denominado Grupo Coral da Casa do Alentejo, ainda nas anteriores instalações desta associação regionalista, na Rua da Atalaia, que se reporta a 1926/27 e que teria sido um dos mais antigos grupos corais existentes não só na diáspora mas também no Alentejo, pioneiro na forma organizada de interpretar o cante.

Por outro lado, a existência destes grupos de que fizemos o levantamento, tem uma grande importância para a preservação e divulgação do cante, decisiva mesmo, pois a sua existência significa que o cante geograficamente não está apenas restringido ao Alentejo – Baixo, Litoral e parte do Central – mas antes estende-se a quase todo o país – desde o Porto até Albufeira – bem como a outros continentes – caso de Toronto, Canadá. Aqui reside também a universalidade do cante. 



Cante na Diáspora em CD

Exemplificativa da pujança do Cante e da Cultura Alentejana na Diáspora é a edição deste CD e a forma entusiástica como os dez grupos presentes se disponibilizaram de imediato a integrar o projecto. Devido à resolução de aspectos autorais e outros – que requereu uma negociação morosa com a SPA – o CD, que apresenta 20 temas de dez grupos - de Almada, Palmela e do Seixal, saiu posteriormente à edição da Revista.

Estão presentes nesta colectânea os grupos corais alentejanos existentes nos concelhos de Almada: Grupo Coral e Etnográfico Amigos do Alentejo do Feijó, Grupo Coral Alentejano Recordar a Mocidade do CIRL e Cantadeiras de Essência Alentejana

de Palmela: Grupo Coral Ausentes do Alentejo, Grupo de Cantares Modalentejo e Grupo Coral 1º de Maio do Bairro Alentejano

e do Seixal: Grupo Coral Feminino As Papoilas da ARPI do Fogueteiro; Grupo Coral  Alentejano Lírio Roxo; Grupo Coral Operário Alentejano do CCD Paivas e Grupo Coral Alentejano da ASSTA do Seixal. Quatro são femininos – dois de Almada, um de Palmela e um do Seixal – e seis são masculinos.

O mais antigo é o Grupo Coral Operário Alentejano das Paivas, (masculino), surgido em 1975 - Seixal - e o mais recente é o Grupo de Cantares Modalentejo, (feminino), Quinta da Marquesa II, Palmela, fundado em 2011.
 

Neste CD encontramos uma diversidade de temas onde a saudade e a vontade de regresso à Terra amada, a importância da natureza, o trabalho, o amor e a religiosidade estão presentes, as modas, exclusivamente corais, são provenientes do Cancioneiro Popular. Houve, por outro lado, na preparação do CD, a partir do repertório de cada grupo em presença, o cuidado de apresentar essa pluralidade temática, que afinal no seu todo simboliza a alma do Alentejo e dos(as) alentejanos(as).

Está em curso a sua distribuição não apenas pelos grupos que surgem no CD como os que são apresentados na Revista, bem como a entidade que patrocinou a edição do CD, a Junta de Freguesia de Laranjeiro e Feijó, mas também pelas entidades apoiantes da edição da Revista – Municípios de Almada e Palmela ou Entidade Reguladora de  Turismo – ERT - do Alentejo e Ribatejo. Também a AMBAAL/CIMBAL, a CIMAC, que apoiam na distribuição aos 33 municípios associados – para as respectivas bibliotecas e associações culturais desses concelhos – como ainda a alguns municípios do Norte Alentejano, à DRCA, à Biblioteca Pública de Évora, grupos de Trabalhos do Cante, como o de Castro Verde, MODA – Associação do Cante Alentejano, Casa do Cante de Serpa, entre outros.

Este disco foi editado pelo CEDA – Centro de Estudos Documentais do Alentejo-Memória Colectiva e Cidadania – e a sua Revista Memória Alentejana, tem o patrocinada da Junta de Freguesia de Laranjeiro e Feijó e o disco virá a ter distribuição em livrarias de referência e quiosques em Lisboa, Margem Sul e nalgumas cidades Alentejanas, mas poderá ser solicitado para: cedalentejo@gmail.com, sendo que o preço de capa da Revista com o CD é de 5,00 €.

A edição deste CD pode ter um papel importante para a autoestima dos Alentejanos, nomeadamente os cerca de 500 mil existentes na Diáspora, pois o Cante representa a marca identitária mais poderosa do nosso património imaterial. Há outros aspectos muitos importantes como a gastronomia, o território - o montado – mas o Cante é o que  certamente revela maior sentido de pertença. Claro que pode não ter a mesma importância para todos os alentejanos, quer os da Diáspora quer os que vivem no Alentejo, mas para muitos, assistir, viver uma actuação de Cante – seja em palco, seja à roda de um tinto e um petisco como acontece na Venda do Engrola, em Serpa, e noutras locais, seja no Alentejo, seja na Diáspora, é como assistir a um ato litúrgico da terra transtagana, daí que para muitos, nomeadamente para os cantadores, seja como o ar que se respira.

Após a apresentação pública deste disco prevista para breve – que poderá vir a ter uma reedição visto a grande aceitação que está a ter -  poderá seguir-se um espectáculo ao vivo reunindo todos os grupos que nele participaram.
Eduardo M. Raposo
eduardoepablo@gmail.com

26 de mar de 2016

Pois é, cá estamos de novo na Páscoa. Só que desta feita sem papoilas e com noites muito frias... muito provavelmente estão relacionadas. Neste curto período - que pena ser tão curto - abrandamento de trabalho aqui ficam algumas imagens de eventos  em que participamos/assistimos nas últimas duas semanas:

O II Fórum Ibérico do Tejo, em Vila Franca de Xira, 19 e 20 de Março, com cerca de 20 oradores, metade deles castelhanos e andaluzes. Muito interessante, onde se realça a excelente intervenção de Carlos Teigas, investigador da U Porto e empresário - que não se limita a pôr questão mas arregaça as mangas e vai para o terreno apresentando resultados palpáveis, objectivos  e muito, muito positivos (este é cá dos meus não se limita a reflectir, age!). Só foi pena que nas conclusões  os aspectos patrimoniais identitários das populações ribeirinhas  ficassem relegados para segundíssimo plano, como se as mais valias se medissem apenas em termos turístico-economicistas.
Na imagem com os Profs Carlos Lopes Bento e (o Amigo) Vermelho do Corral

Mas na semana anterior já tínhamos estado no Feijó, no Clube Recreativo, onde os nossos "Amigos do Alentejo", organizaram , no dia 12 o "5º encontro de coros feminino alentejanos" com a participação de: "Grupo Coral Etnográfico As Ceifeiras de Entradas";As Papoilas" de A-do-Corvo, também do concelho de Castro Verde; "Grupo Coral Feminino Vozes de Barrancos"; "Grupo Coral Feminino de Viana do Alentejo"; "Grupo Coral Feminino Recordar a Mocidade, do CIRL", Laranjeiro e o grupo organizador.



































No dia 19 foi o grande dia.
O "Grupo Coral Etnográfico Amigos do Alentejo do Feijó", assinalou, com grande grande festa o seu 30º Aniversário, momento de grande emoção a que tivemos o grato prazer de nos associar, oferecendo, em nome do CEDA e da Revista Memória Alentejana a última edição da Revista justamente "O Cante na Diáspora" e o CD "Cante na Diáspora" - patrocinado solidariamente pela Junta de Freguesia de Laranjeiro e Feijó, que ainda aguarda data de lançamento, mas que está a ser muito solicitado nesta fase inicial de distribuição aos grupos participantes, municípios alentejanos através das respectivas Comunidades Intermunicipais  e entidades apoiantes.

Foi uma festa bonita e fraterno de Cante e música popular que acabou com o tradicional jantar de grão, onde os valores da cultura alentejana marcaram orgulhosamente presença!


17 de mar de 2016

Em defesa do ensino responsável


 


Hoje no canal público, RTP1, o Ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, deu uma lição de bom senso e respeito pela democracia e autonomia das escolas ao explicar que no cumprimento do Programa do governo acabara com os exames intercalares e implementara provas de aferição nos 2º, 5º e 8 º anos, salvo erro. E perante a insistência irritante do entrevistador Paulo Dentinho - que parecia não perceber as respostas e fez várias vezes as mesmas questões - lá foi calma e pacientemente explicando que depois de ouvir 700 directores escolares, resolvera deixar ao livre arbítrio das escolas e dos respectivos conselhos pedagógicos a decisão de realizarem ou não, em cada escola, as ditas provas de aferição: que afinal são isso mesmo; destinam-se a aferir o estado de aprendizagem dos alunos. Ao contrário dos exames que, enquanto avaliação externa levam a uma preparação dos alunos em função dessa avaliação externa. Opostamente, esta avaliação no ambiente onde os alunos mais saudavelmente poderão apreender e progredir - no meu tempo do "Ensino Unificado" designava-se por avaliação contínua - deixando que cada escola e os seus representantes no conselho pedagógico decidam o que e como fazer  é uma exercício de maturidade democrática e de responsabilidade. Em defesa do ensino responsável, em defesa o que é melhor para os alunos, afinal em prol de quem se devem direccionar todos os esforços por um ensino melhor!
 


16 de mar de 2016

Nico e o Alentejo

Nicolau Breyner, Alentejano de Serpa, cidadão do mundo, Actor do universo, partiu. Como dizia o mestre Almada Negreiros, "O importante é o espectáculo!" Nico deu-se todo, deu toda a sua alegria esfuziante, a sua vontade imensa de viver, de todas as formas possíveis e imaginárias, para a a arte de representar!

Nicolau Breyner partiu.
Viva Nicolau Breyner!

Nicolau Breyner amava o Alentejo!
Tal como eu e como muitos e muitas Alentejanos(as)

A seguir publico um artigo que foi a crónica da última edição da Folha de Montemor, a propósito de um livrito muito badalado, quando a mim demasiado. Pôr os pontos nos iis sobre os valores do Alentejo é também a minha forma singela mas sentida de homenagear Nicolau Breyner, ele que foi um Homem do tamanho do Mundo, ao contrário deste rapaz  - Henrique Raposo, felizmente não me é nada - um rapazito que manda umas  "bocas", meras opiniões, mas convencido que têm alguma importância e tenta elevá-las a verdades científicas... lamentáveis equívocos...




intitulei: A liberdade de expressão e o direito à indignação

A propósito de um livro polémico, Alentejo prometido, de Henrique Raposo – editado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos na colecção Retratos da Fundação - que escamoteia a realidade da ruralidade e alguns factos históricos no século XX português, iniciamos nesta edição de Março um conjunto de crónicas sobre os Alentejanos na Diáspora.
O autor situa as suas origens familiares no Litoral Alentejano, algures entre Alvalade-Sado e São Domingos – freguesias de Santiago do Cacém - em povoações nas imediações da Ribeira de Campilhas, afluente do Rio Sado, e da Barragem de Fonte de Serne; referimo-nos a Foros da Pouca Sorte – aldeia dos seus avós - vizinha do Foros da Casa Nova, onde, pela mão do meu pai, visitei diversas vezes os meus avós paternos, uns bons dez anos antes de o autor nascer. Todavia o mesmo apelido parece ser pura coincidência e para além do prazer da escrita, será porventura o único aspecto que temos em comum.
Parece-nos um absurdo o alarido provocado à volta da edição de um livro que tem previsto o seu lançamento para o final do dia de fecho desta edição sob inéditas medidas de segurança. Afinal trata-se apenas de um road movie, como o próprio autor se lhe refere. Toda a mediatização que lhe está a ser dada não faz qualquer sentido, pois concorde-se ou discorde-se, afinal a democracia é isso mesmo; é aceitar a opinião dos outros mesmo que diversa.
Curiosamente concordo com Rui Cardoso Martins, ex-jornalista do Público e escritor premiado - esteve em Montemor nas II Jornadas Literárias em 2012 – que declarou no passado dia 5 ao DN “Acho triste e estúpido que alguém queira proibir ou queimar um livro”, como já aconteceu com este livro. Diria mais; acho uma atitude quase inquisitorial, um perfeito disparate. Mas se Henrique Raposo tem o direito a expressar o seu ponto de vista, também acho que quem não concorda tem o seu direito a indignar-se; todavia, deverá fazê-lo usando os mesmos meios. Poderão contrapor-me dizendo que nem todos têm acesso aos que o autor tem… bem, também posso dizer que o livro último que lancei, há um ano em Montemor – Urbano, o Eterno Sedutor - e umas semanas depois foi apresentando na Casa do Alentejo por um dos escritores e intelectuais contemporâneos mais brilhantes como é o caso do Miguel Real – aliás o (editor) Fernando Mão de Ferro considera-o não apenas um dos mas o melhor, o mais brilhante – livro este que certamente não será um contributo menor, ainda que diferente, para conhecer o Alentejo e a sua cultura e identidade mas, por outro lado, não teve nem de perto nem de longe a visibilidade e a mediatização deste e é muito provável que toda esta polémica, este frenesim o transforme num best-seller.
É evidente que o autor denota frontalidade, irreverência e até uma certa coragem ao assumir que não se revê, não se sente alentejano nem pertença de um Alentejo que julgava prometido, ainda que mantenha memórias do cheiro do café quente e das fatias de ovos – as citadinas “douradas” – o cheiro dos candeeiros a petróleo, as corridas de bicicleta com o irmão em liberdade total, a alegria de apanhar tomate na horta – eu ainda me recordo de visitar as primas que iam trabalhar para a fábrica do tomate, em Alvalade, a viverem temporariamente naquelas casas de telha vã, ou de me deliciar na horta que o meu pai, ferroviário, tinha junto à estação da CP da Funcheira. Todos esses aspectos não me são indiferentes, de maneira nenhuma, pois estão presentes, fazem parte das minhas memórias da infância, do meu imaginário, facto que acaba por criar uma certa empatia com esta escrita. Mas isso não apaga, não atenua um conjunto de meias verdades a partir de uma leitura grosseira de factos históricos, apenas de pressupostos, ilações e meras suposições ao generalizar o que é a sua percepção pessoal, mas que o autor tem a ambição de elevar a verdades sociológicas devidamente comprovadas, o que acaba por redundar em verdadeiros disparates.
Afinal o autor desconhece o mundo rural, todo o mundo rural de Norte a Sul, que certamente teria – ou terá muitas semelhanças àquelas que aponta ao Alentejo, a saber: a discriminação das mulheres que só o 25 de Abril alterou por força da lei e dos costumes nas décadas seguintes e que até então estava generalizada especialmente a todo o mundo rural e que mesmo nas grandes cidades só encontramos alterações significativas em classes sociais elevadas a partir de sessenta. É evidente que as gerações mais jovens, com outros horizontes, encontram nas cidades uma certa libertação - “ só tive sexo em Lisboa… “(p. 31)  à claustrofobia das terras do interior, mas certamente de todo o interior, desde o Minho ao Algarve. Admira-se o autor, por outro lado, como os habitués dum café em Alvalade-Sado, em 2010, que estavam embasbacados com a tatuagem que a empregada tinha “…entre o rabo e as costas”(mesma p.). Não fazendo juízos de valor sobre o propósito eventualmente sedutor da tatuagem, que a proprietária desta tinha o direito de ter, as “bocas” e a desatenção ao futebol que provocava, situações dessas são similares em todo o lado – dou num ápice meia dúzia de exemplos na “libertadora” cintura industrial para onde os alentejanos migraram às centenas de milhar. Até nos bairros populares de Lisboa, Porto. Excepções serão os locais frequentados pelas elites de Lisboa e Porto… e pouco mais
Como não percebo por que razão seria quase revolucionário a aproximação à religião católica – convívio e amizade próxima dos seus primos de Santiago para com o pároco local – e tenho que voltar a concordar com o Rui C. Martins, quando refere que a pouca religiosidade dos alentejanos – para ele e para mim - é um motivo de elogio, ao contrário do autor que a apelida de amoral… não sei se é desconhecimento mas o autor devia ter presente que o Alentejo tem na sua génese cultural um território marcado pelo encontro de todas as culturas urbanas - e  religiões - que, nos últimos cinco mil anos alicerçaram o espaço indo-europeu – não foi só a romanização, nem só o Garbe al-Andalus e o seu apogeu civilizacional, ou  a 1ª dinastia e sobretudo a segunda que estabeleceu a corte itinerante quase sempre em cidades e vilas alentejanas: D. João II ou D. Manuel que casou em primeiras e segundas núpcias em Alcácer do Sal… a guerra civil no século XIX os resquícios nas décadas seguintes trouxeram muita violência a todo o país, nomeadamente ao mundo rural e não só ao Alentejo… mas nada que obstaculiza-se a que D. Carlos que tanto gostava de estar em Vila Viçosa não tivesse ido beber ao montado alentejano a inspiração para as grandes obras que pintou e que fez dele um dos grandes pintores portugueses da época… afinal, ainda hoje a grande religiosidade do alentejano baseia-se na sua relação ancestral com a terra!...
No que concerne à questão da violência versus honra, aconselhava o autor a documentar-se melhor sobre a Comuna da Luz, o pensamento tolstoisiano de António Gonçalves Correia – que protegia formigas do afogamento eminente e libertava pássaros no Jardim público de Beja, dando vivas à Liberdade. A importância da palavra – que marca o nosso mundo mediterrânico – e do seu valor como factor de exteriorização da Honra e talvez perceba a razão porque José Júlio da Costa – natural de Garvão, como eu - matou Sidónio Pais, facto que terá que merecer a respectiva contextualização histórica tanto quanto a morte dos cunhados – que conjuravam para o matar – às mãos do Príncipe Perfeito… e recordar-lhe que até pelo menos meados do século XX os contratos era selados com um aperto de mãos…
O Alentejo foi a região mais politizada do país fora dos grandes centros urbanos – Brito Camacho, foi o 1º deputado republicano eleito antes de 1910, pelo círculo de Beja -  daí que enfrentar a PIDE durante o Estado Novo, como o autor refere, não é uma questão propriamente de “masoquismo” mas sim de consciencialização política.
Quanto à questão dos filhos ilegítimos, que tanto incomoda o autor, gostaria de lhe recordar que a segunda dinastia foi fundada na bastardia – o Mestre de Avis era filho da criada de Inês de Castro e foi um seu filho bastardo, ao se unir à filha do Condestável, que deu originem à poderosa Casa de Bragança que ainda hoje perdura…
Quanto à acusação dos Alentejanos serem individualistas, serem hostis ou terem orgulho de analfabetismo ou querer que Santiago seja representativo do universo Alentejo… meu caro leitor, estamos apenas perante um road movie. Termino desejando ao autor tanto êxito quanto as revistas que tem nome de mulher!






A terminar cito um excerto com que me identifico, com a devida vénia, do blogue

A Gata Christie ,

"Como disse, são opiniões. Ele tem as dele, eu tenho as minhas. E, acima de tudo, há algo que me separa de Henrique Raposo: é que eu gosto muito do Alentejo, amo-o profundamente com todos os seus defeitos (e nisso não serei muito diferente das outras pessoas amam as suas terras, imagino). O meu olhar sobre o Alentejo é toldado por esta paixão, o olhar de Henrique Raposo é toldado pelo ressentimento por todo o sofrimento que os seus antepassados viveram e até, parece-me, por um certo desprezo por tudo aquilo. O percurso do autor tem sido, até aqui, de afastamento consciente de todos os sinais de alentejanismo que ainda pudessem restar nos seus poros, algo que o próprio assume neste livro.
Dito isto, o livro Alentejo Prometido pode até, de uma certa forma, ser interessante como exemplo da opinião de um forasteiro - o que será que eles pensam de nós? - e o livro está bem escrito, há que dizê-lo. Mas aquele não é o meu Alentejo. E, embora não me ofenda (pelo amor de deus, é só um livrinho de 107 páginas de um rapaz que gosta de dizer coisas), entristece-me. Eu, como boa alentejana que sou, gostava que toda a gente gostasse da minha terra e sentisse a alegria que eu sinto quando vou no meu carro e vejo a planície a aproximar-se, aquela imensidão, aquele cheiro, aquele desolamento, aquela sensação única de estar em casa."




Eduardo M. Raposo
eduardoepablo@gmail.com